"Carne do umbigo", "Bendita palavra" e "Substantivo feminino" são a versao impressa e bem acabada do que rola aqui. Quer me ter na sua mão em forma de livro e disco? Me escreve aqui!
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19.9.13
Estreia em Portugal
Depois de dizer poemas em Recife, Belém, São Paulo, Porto Alegre, chegou a minha estreia em Portugal.
Estarei no Festival Raias Poéticas, em Vila Nova de Famalicão, nos dias 20 e 21 de setembro, ao lado de poetas de Portugal, Brasil, Espanha, Cabo Verde, Angola e Moçambique.
Aproveitando a viagem, faço três apresentações em Lisboa: no Mini Teatro Da Calçada (dia 23, às 20:30), na Casa Brasil de Lisboa (dia 24, às 21:30) e na Fábrica Braço de Prata (dia 25, às 22:00).
Nas mesmas noites haverá a apresentação de Luana Carvalho, cantora, compositora e escritora brasileira que está lançando a revista literária virtual C A I S com leitura de textos, projeção de vídeos de Clara Cavour e canções incidentais.
Serviço:
20 e 21.set - Festival Raias Poéticas - Vila Nova de Famalicão
23.set, 20:30 - Mini Teatro - Calçada do Combro 147 - Lisboa
24.set, 21:30 - Casa Brasil de Lisboa - Rua Luz Soriano 42 - Lisboa
25.set, 22:00 - Fábrica Braço de Prata - Rua da Fábrica do Material de Guerra 1 - Lisboa
22.8.13
No Globo de hoje!
Matéria bacana da Mariana Müller na capa do Zona Sul, do Globo, hoje, sobre a poesia falada no Rio. Tem eu, Mônica Montone, Mano Melo, Claufe Rodrigues, Chacal, Línox e mais um bando de gente bacana.
Aqui ó.
16.8.13
Poesia em Portugal!
Agora é oficial. Portugal, aí vai essa poeta brazuca. A convite do Festival Raias Poéticas do super Luís Serguilha, com recitais no Mini Teatro da querida Susana Palmerston e em mais cantos que ela tá me ajudando a marcar. Em setembro, que é depois de amanhã na ansiedade e excitação com a ideia de dizer meus poemas na minha língua em outro continente e ser entendida. Você que sabe de um lugar perfeito pra um recital meu por lá, você que tem amigos que vão adorar me ver falar, você que tem dicas lisboetas: tô aceitando tudo. Vai ser intenso.
11.8.13
Amor de pai & filha
Maria
O futuro chegou contigo
Numa manhã de novembro
Mas não se revelou logo naquele dia;
Foi se instalando em mim aos poucos
Por vezes calmo, às vezes violento,
Me atirando contra as paredes da vida
E batendo com minha cabeça
Em forças que desconheço.
Maria, o teu presente é o meu presente,
Como teu presente é o meu futuro
E teu futuro será meu passado,
Um dia.
Me vem ansiedade, Maria,
Por te conhecer antes que me reconheças
E ao tempo
Que me fará um dia teu pai
Diferente do pai que te sou hoje:
Cabelos brancos, corpo marcado
E você, Maria, uma mulher pronta
No aeroporto, a decolar.
Sergio - 25.1.1979
#
Achei essa carta do meu pai pra mim há alguns anos. Chorei as lágrimas boas do amor infinito que nos une. Foi muito intenso ler esse amor escrito nos meus dois meses de vida, e agradeci ao meu pai mais esse carinho: ele escreveu, guardou, e eu já adulta recebi esse presente.
Há um mês atrás, me preparando pra ir passar um mês em NY, abri um móvel que vive trancado a chave, dentro do qual tem uma caixinha onde achei que pudesse ter uns dólares guardados. Encontrei o dinheiro e essa preciosidade. Reler essa carta no dia mesmo em que ia pegar um avião pruma viagem especial, uma viagem de encontros profundos com amigos que eu amo, uma viagem de estar comigo e me reconhecer depois de tantas mudanças, foi emoção pura. Porque o tempo cumpriu sua tarefa. Chegou aquele dia. Meus próprios cabelos já começam a ficar brancos. E o amor da gente muda, mas não gasta nem um bocadinho.
É tudo tão íntimo que eu hesito mas a beleza mora mesmo na intimidade, e tem amor que dá vontade de gritar pro mundo. Esse é um deles.
1.7.13
O valor da vida não pode ter CEP
A Eliane Brum é a voz que mais me representa na imprensa. Uma mulher lúcida e sensível, atenta a questões que me mobilizam, com um olhar que me emociona. Por isso mais do que postar o link do texto dela no site da Época essa semana, eu copio ele inteiro aqui. Pra quem ninguém deixe de ler pela inércia de não clicar aqui no link. Leiam. Eu assino embaixo de cada letra.
Também somos o chumbo das balas
O Brasil não mudará em profundidade enquanto a classe média sentir mais os feridos da Paulista do que os mortos da Maré
Você está na sala assistindo à TV. Ou está no restaurante, com seus amigos. Ou está voltando para casa depois de um dia de trabalho. Você ouve tiros, você ouve bombas, você ouve gritos. Você olha e vê a polícia militar ocupando o seu bairro, a sua rua. É difícil enxergar, por causa das bombas de gás lacrimogêneo, o que aumenta o seu medo. Logo, você está sem luz, porque a polícia atirou nos transformadores. O garçom que o atendia cai morto com uma bala na cabeça. O adolescente que você conhece desde pequeno cai morto. Um motorista está dirigindo a sua van e cai ferido por um tiro. Agora você está aterrorizado. Os gritos soam cada vez mais perto e você ouve a porta da casa do seu vizinho ser arrombada por policiais, que quebram tudo, gritam com ele e com sua família. Em seguida você vê os policiais saírem arrastando um saco preto. E sabe que é o seu vizinho dentro dele. Por quê? Você não pergunta o porquê, do contrário será o próximo a ser esculachado, a ter todos os seus bens, duramente conquistados com trabalho, destruídos. Se você está em casa, não pode sair. Se você está na rua, não pode entrar.
O que você faz?
O que você faz?
Nada.
Você não faz nada porque não aconteceu com você. Você não faz nada especialmente porque se sente a salvo, porque sabe que não apenas não aconteceu, como não acontecerá com você. Não aconteceu e não acontecerá no seu bairro. Isso só acontece na favela, com os outros, aqueles que trabalham para você em serviços mal remunerados.
Aconteceu na Nova Holanda, no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, na segunda-feira passada (24/6). Com a justificativa de que pessoas se aproveitavam da manifestação que ocorria na Avenida Brasil – o nome sempre tão simbólico – para fazer arrastão, policiais ocuparam a favela. Um sargento do BOPE morreu e a vingança da polícia começou, atravessou a madrugada e boa parte da terça-feira. Saldo final: 10 mortos, entre eles “três moradores inocentes”.
Aconteceu na Nova Holanda, no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, na segunda-feira passada (24/6). Com a justificativa de que pessoas se aproveitavam da manifestação que ocorria na Avenida Brasil – o nome sempre tão simbólico – para fazer arrastão, policiais ocuparam a favela. Um sargento do BOPE morreu e a vingança da polícia começou, atravessou a madrugada e boa parte da terça-feira. Saldo final: 10 mortos, entre eles “três moradores inocentes”.
Os brasileiros foram às ruas, algo de profundo mudou nas últimas semanas, tão profundo que levaremos muito tempo para compreender. Mas algo de ainda mais profundo não mudou. E, se esse algo ainda mais profundo não mudar, nenhuma outra mudança terá o peso de uma transformação, porque nenhuma terá sido capaz de superar o fosso de uma sociedade desigual. A desigualdade que se perpetua no concreto da vida cotidiana começa e persiste na cabeça de cada um.
Quando a polícia paulista reprimiu com violência os manifestantes de 13 de junho, provocando uma ampliação dos movimentos de protesto não só em São Paulo, mas em todo o Brasil, houve um choque da classe média porque, dessa vez, muitos daqueles que foram atingidos por balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo eram seus filhos, irmãos e amigos. Como era possível que isso acontecesse?
Era possível porque a polícia militar – e não só a de São Paulo, como se sabe e tem se provado a cada manifestação, nas diversas cidades – agiu no centro com quase a mesma truculência com que cotidianamente age nas favelas e nas periferias. Quase com a mesma truculência, porque algumas vozes se levantaram para lembrar que nas margens as balas são de chumbo. Balas de borracha, como foi dito em tom irônico, seria um “upgrade”. A polícia fez, portanto, o que está acostumada a fazer no dia a dia das periferias e favelas, o que é ensinada e autorizada a fazer. E muitos policiais devem ter se surpreendido com a reação da opinião pública, já que agem dessa maneira há tanto tempo e as reclamações em geral ficavam, até então, limitadas às mesmas organizações de direitos humanos de sempre.
E então veio a Maré. E, em vez de balas de borracha, as balas eram de chumbo. Em vez de feridos, houve mortos. E, ainda que o massacre tenha tido repercussão, especialmente no Rio de Janeiro, ela foi muito menor e menos abrangente do que quando a violência foi usada no centro de qualquer cidade. Por quê? Seriam os brasileiros da Maré ou de outras favelas menos brasileiros do que os outros? Seriam os humanos da Maré ou de outras periferias menos humanos do que os outros? Sangrariam e doeriam os moradores da Maré menos do que os outros?
É preciso que a classe média se olhe no espelho, se existe mesmo o desejo real de mudança. É preciso que se olhe no espelho para encarar sua alma deformada. E perceber que essa polícia reflete pelo menos uma de suas faces. Parece óbvio, do contrário essa polícia não seguiria existindo e agindo impunemente, mas às vezes o óbvio é esquecido em nome da conveniência.
É fácil renegar a polícia militar como algo que não nos diz respeito, como sempre fazemos com as monstruosidades que nos envergonham. Sem precisar assumir que essa polícia existe como resultado de uma forma de ver a sociedade e se posicionar nela – uma forma que perpetua a desigualdade, dividindo o país entre aqueles que são cidadãos e têm direitos e aqueles que não têm nenhum direito porque, mesmo que trabalhem dura e honestamente, são criminalizados por serem pobres.
No momento em que os mortos da Maré incomodam menos que os feridos da Paulista ou de outros lugares do Brasil, se justifica e legitima a violência da polícia. Se justifica e legitima de várias maneiras – e também por aqueles que sentem menos a violência da Maré do que a da Paulista, apesar de ela ser numa proporção muito maior, a começar pela diferença das balas. Se justifica e se legitima e se perpetua porque, ainda que não confessado, mas claramente expressado, vive-se como se os mais pobres, os que moram em favelas e periferias, pudessem ter suas casas invadidas, seus bens destruídos e suas vidas extintas.
Se fosse você ou eu na Maré, reconheceríamos os rostos dos que tombam e estaríamos lá, aterrorizados com a possibilidade de sermos os próximos a virar estatística. O garçom que caiu morto com um tiro na cabeça é Eraldo Santos da Silva, 35 anos. Quem estava no restaurante contou que os policiais do BOPE atiraram no transformador para o local ficar às escuras e então mudar a cena do crime, retirando as cápsulas do chão. O garoto de 16 anos que foi assassinado se chama Jonatha Farias da Silva. A polícia disse que ele estava com uma arma na mão, mas várias pessoas que o conhecem desde criança afirmam ser impossível. Jonatha é descrito como um menino tímido e muito sozinho que perdeu a mãe de tuberculose aos 11 anos e vivia com um irmão mais velho num quarto de quatro metros quadrados. Engraxava sapatos e vendia biscoitos nos congestionamentos da Linha Vermelha para sobreviver, enquanto sonhava com ser mecânico. O motorista ferido quando dirigia a van alvejada por tiros é Cláudio Duarte Rodrigues, de 41 anos. Foi levado ao hospital por moradores, mas despachado para casa com a bala ainda alojada no glúteo. Só depois uma ONG obteve a promessa de uma ambulância para buscá-lo. Você ainda poderia ser a empregada doméstica que ouviu os policiais arrombarem a porta da casa do seu vizinho, ouviu seus gritos – “Me larga! Socorro!” – e o viu ser retirado de lá, dentro de um saco preto.
Mas isso não acontece com você, nem com seus filhos. Nem comigo. Mas, ainda que não aconteça, como é possível sentirmos menos? Ou mesmo não sentir? Ou ainda viver como se isso fosse normal? Ou olhar distraidamente para a notícia no jornal e pensar: “mais uma chacina na favela”?
Em que nos transformamos ao sentir menos a morte de uns do que a de outros, a dor de uns do que a de outros, mesmo quando olhamos para uns e outros apenas pela TV?
O que torna isso possível?
É preciso parar e pensar. Porque esses, que assim morrem, só morrem porque parte da sociedade brasileira sente menos a sua morte. É cúmplice não apenas por omissão, mas por esse não sentir que se repete distraído no cotidiano. Por esse não sentir que não surpreende ninguém ao redor, às vezes nem vira conversa. Essa polícia que mata nos reflete, por mais que recusemos essa imagem no espelho.
São vários os discursos que se imiscuem na vida cotidiana e penetram em nossos corações e mentes, justificando, legitimando e perpetuando a ideia de que a vida de uns vale menos do que a de outros, de que a vida dos mesmos de sempre vale menos do que a dos mesmos de sempre. Um desses discursos é a afirmação, que nesse caso foi assumida e amplificada por parte da imprensa, de que a polícia teria admitido que “três moradores mortos eram inocentes”. A frase tem tom de denúncia, ao afirmar que a polícia reconheceu a morte de “inocentes” na Maré. A declaração expressa, de fato, a ideia de que ao menos esses três não deveriam ter sido assassinados. Por oposição, cabe a pergunta: e os outros deveriam?
Essa frase diz ainda mais: se “três são inocentes”, aceita-se automaticamente e sem maior investigação que os demais seriam suspeitos de tráfico e outros crimes – e destes, quase nada ou nada é contado. É nesse ponto que se oculta algo ainda pior contido nesse discurso, que é a aceitação da pena de morte de suspeitos. Ou seja, os supostamente “não inocentes”, os supostamente “bandidos”, “traficantes”, “vândalos” poderiam, então, ser mortos? É isso o que se diz nas entrelinhas. Mas não seriam todos “inocentes”, até julgamento em contrário, dentro do ritual jurídico previsto pelo Estado de direito? Sem contar que a lei brasileira não prevê a pena de morte de julgados e condenados por crimes, nem sequer os hediondos. Mas o Estado, com o aval de uma parte significativa da sociedade, executa suspeitos.
A aceitação dessa quebra cotidiana da lei pelo Estado está presente na narrativa dos acontecimentos – e a imprensa tem um papel importante na reprodução desse discurso: “três deles eram inocentes”, “morreram em confronto”, “morreu ao resistir à prisão”, “troca de tiros” são algumas das expressões entranhadas nos nossos dias como se tudo explicassem. Como se isso fosse corriqueiro – e não monstruoso. Mesmo para a morte de “inocentes”, fora as mesmas vozes dissonantes de sempre, se atribui expressões como “efeito colateral”. E parece ter sido fácil para a classe média aceitar que o “efeito colateral” é a morte dos filhos, dos irmãos, dos pais e das mães dos pobres.
Em um artigo no site do Observatório de Favelas, que vale a pena ser lido (aqui), Eliana Sousa Silva, diretora da Redes da Maré e da Divisão de Integração Universidade Comunidade PR-5/UFRJ, faz uma análise da frase dita na TV pelo consultor de segurança pública Rodrigo Pimentel: “Fuzil deve ser utilizado em guerra, em operações policiais em comunidades e favelas. Não é uma arma para se utilizar em área urbana”. Ele criticava, em 18/6, a imagem de um policial militar atirando para o alto com uma metralhadora, perto de manifestantes que praticavam ações violentas em frente à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Como afirma Eliana, parece um comentário “natural, racional e equilibrado”, mas, de fato, o que ele está dizendo? Que na favela pode. E, fora uma ou outra voz, como a dela, não causa nenhuma surpresa. Nem mesmo se estranha que na favela pode, nos protestos do centro não.
Em um artigo no site do Observatório de Favelas, que vale a pena ser lido (aqui), Eliana Sousa Silva, diretora da Redes da Maré e da Divisão de Integração Universidade Comunidade PR-5/UFRJ, faz uma análise da frase dita na TV pelo consultor de segurança pública Rodrigo Pimentel: “Fuzil deve ser utilizado em guerra, em operações policiais em comunidades e favelas. Não é uma arma para se utilizar em área urbana”. Ele criticava, em 18/6, a imagem de um policial militar atirando para o alto com uma metralhadora, perto de manifestantes que praticavam ações violentas em frente à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Como afirma Eliana, parece um comentário “natural, racional e equilibrado”, mas, de fato, o que ele está dizendo? Que na favela pode. E, fora uma ou outra voz, como a dela, não causa nenhuma surpresa. Nem mesmo se estranha que na favela pode, nos protestos do centro não.
A palavra “confronto” encobre forças desiguais – e o que tem sido chamado de “confronto” seguidamente não é o que diz ser. Mesmo em confrontos de fato trata-se o que é desigual como se fosse igual, também simbolicamente. Como se uma das forças em confronto não encarnasse o Estado e tivesse, portanto, de respeitar a lei e seguir parâmetros rígidos de conduta – e não igualar-se a quem supostamente está no outro lado. Como se a polícia, como aconteceu na Maré, tivesse autorização para se vingar pela morte – lamentável – do sargento do BOPE, entrando na favela e arrebentando. E o sargento do BOPE Ednelson Jerônimo dos Santos Silva, 42 anos, é também uma vítima desse sistema avalizado por uma parte significativa da sociedade dita “de bem”.
A questão é que, se a polícia não tem autorização de direito, tem de fato. E tem porque a classe média sente menos a dor dos pobres. Tem autorização porque uma parcela da sociedade primeiro criminaliza os pobres – e, depois, naturaliza a sua morte. É por isso que a polícia faz o que faz – porque pode. E pode porque permitimos. A autorização não é dos suspeitos de sempre, apenas, mas de parte considerável dessa mesma classe média que vai às ruas gritar pelo fim da corrupção. Mas haverá corrupção maior, esta de alma, do que sofrer menos pelos mortos da Maré do que pelos feridos da Paulista?
A questão é que, se a polícia não tem autorização de direito, tem de fato. E tem porque a classe média sente menos a dor dos pobres. Tem autorização porque uma parcela da sociedade primeiro criminaliza os pobres – e, depois, naturaliza a sua morte. É por isso que a polícia faz o que faz – porque pode. E pode porque permitimos. A autorização não é dos suspeitos de sempre, apenas, mas de parte considerável dessa mesma classe média que vai às ruas gritar pelo fim da corrupção. Mas haverá corrupção maior, esta de alma, do que sofrer menos pelos mortos da Maré do que pelos feridos da Paulista?
A autorização para a morte dos pobres é de cada um que sente mais as balas de borracha da Paulista do que as balas de chumbo da Maré. Sentir, o verbo que precede a ação – ou a anula.
“Estado que mata, nunca mais!” é o chamado de um ato ecumênico marcado para as 15h desta terça-feira (2/7), com concentração na passarela 9 da Avenida Brasil, pelos moradores da Maré. A manifestação, anunciada como “sem violência e pacífica”, pretende lembrar os 10 mortos de 24 e 25 de junho, inclusive o sargento do BOPE. “Não é mais aceitável a política militarizada da operação do estado nos territórios populares, como se esses locais fossem moradas de pessoas sem direitos. Responsabilizamos o governador do Estado e o secretário de Segurança Pública pelas ações policiais nas favelas. Exigimos um pedido de desculpas pelo massacre e o compromisso com o fim das incursões policiais nas favelas cariocas, sustentadas no uso do Caveirão e de armas de guerra”, diz a chamada na internet.
Este ato poderá se tornar um momento de inflexão nos protestos que atravessam o país. Saberemos então se os cidadãos das favelas estarão sozinhos, como sempre, ou acompanhados pelas mesmas organizações de direitos humanos de sempre – ou se o Brasil está, de fato, disposto a começar acurar sua abissal e histórica cisão.
(Eliane Brum escreve às segundas-feiras)
28.6.13
Um medo
Porque mesmo uma moça agarrada na saia da alegria tem suas tristezas, e é preciso vivê-las pra que elas passem, e eu escolho, quando é possível, fazer isso com poesia.
18.6.13
Meu coração no Ornitorrinco
Essa noite eu dormi na casa dos meus pais. Isso só acontece em raros casos de festa muito boa. Ou de morte.
Eu ontem fui pras ruas com milhares de brasileiros. Cem mil. Me entendam, eu não sou uma pessoa politizada, e me envergonho um pouco disso. Só me esforço pra acompanhar as notícias mais de perto em época de eleição, porque entendo o poder que o meu voto tem. Eu não estava na primeira manifestação contra o aumento das passagens. Nem na segunda. Mas acompanhei de longe e meu coração foi se inflamando com o que eu via até ser impossível não participar. Eu fui com medo, com vinagre na mochila e roupa sintética pra amenizar os efeitos do gás lacrimogênio, eu fui com medo e pensei que se eu, apolítica, medrosa, estava ali, muita gente também tinha tomado coragem e saído de casa, e era gente demais pra polícia atacar diante do olhar atento do mundo.
Tomamos as ruas da minha cidade com flores, música, gritos e cartazes. Foi assim pelo Brasil inteiro, pelo mundo afora, uma mobilização coletiva como eu nunca tinha visto acontecer. Cada um levando a sua cidadania e o seu desejo de mudança, de um país melhor, com transporte público de qualidade, com a saúde e a educação tendo mais importância do que a copa, com os brasileiros sendo mais importante do que a fifa, com menos corrupção, com uma polícia que atenda ao povo e não seja inimiga dele, um país em que o direito de protestar continue sendo um direito garantido por lei, e no qual jornalistas possam exercer seu trabalho sem ser alvo de violência. Essa, mais do que todas, era a minha bandeira, repetida em coro por centenas de milhares em todo o país: sem violência.
Voltei pra casa com o coração leve. Orgulhosa do que fomos capazes de erguer ali. Horas depois voltei ao centro da cidade com os olhos inchados e o coração em frangalhos. Depois de quatro horas de protesto pacífico, baderneiros fizeram da violência a notícia. Invadiram e incendiaram o prédio da Alerj, atacaram policiais, quebraram bancos e lojas. Uma delas era a do meu irmão, uma franquia das Havaianas na Rua São José, quase em frente à Alerj, no olho do furacão.
Quando começaram as notícias sobre o tumulto ele acompanhou de casa, pela tv, já temeroso de que a confusão pudesse chegar até lá. Das 19h às 22h viveu e reviveu o medo de perder seu negócio construído com muita dedicação e trabalho árduo e entusiasmado. Às 22h seu medo virou fato. Às 23:30 virou imagem: uma família caminha pelas ruas de uma cidade no pós guerra, focos de incêndio, cheiro de fumaça, caminhões dos bombeiros parados perto da loja, não, em frente à loja, quebrando a parede de uma loja, não: quebrando a parede da sua loja. ´É uma visão dantesca. O sonho é posto à prova, o coração pensa que não vai aguentar, as pernas não sabem falar essa língua, você de repente é aquele homem no Jornal Nacional que chora diante do seu patrimônio perdido, você é abraçado, pessoas gravam com celular, você recusa entrevista para o repórter do Pânico, você devia estar em pânico mas subitamente é tomado por uma espécie doida de calma. Durante horas ficamos ali, respirando fumaça, as bolsas cheias de sacos de lixo que serviriam pra tentar recuperar parte do estoque que também foi incendiado. Comemora-se cada pequena vitória. Os móveis das paredes não foram, como os outros, arrancados pra virar fogueira na rua. Nenhum funcionário foi ferido. Estamos vivos. Vamos nos reerguer.
Parados ali na rua mil perguntas povoavam as cabeças e as bocas. Como podem bandidos com desejo de destruição macular um movimento pacífico e belo? Por que destruir um prédio histórico? Por que destruir lojas particulares? Ao invadir e saquear, por que colocar fogo no final? E onde estava a polícia que na véspera atirava bombas de gás lacrimogênio sobre famílias e manifestantes pacíficos no entorno do Maracanã? É criminoso atacar a população indefesa e que não representa nenhuma ameaça. É igualmente criminoso deixar bandidos agirem livremente causando pânico e destruição.
Em meio à dor profunda do meu irmão, cada um de nós carregava seus sentimentos. O meu incluía uma tristeza imensa, muita indignação e uma parcela de culpa por ter participado de um movimento que acabou gerando aquela destruição. Fiquei pensando que se não fosse a loja do meu irmão, se eu não estivesse ali naquela calçada, provavelmente pensaria vendo o noticiário que aquela pequena destruição era horrível mas ínfima comparada à força construtora da passeata da qual eu acabava de participar. Só que de repente não era. E eu fui obrigada a entender de dentro que os números não dizem tudo. Cem mil pessoas. Vinte lojas destruídas. Vinte vidas. Vinte famílias. Vinte caras que pegaram empréstimo no banco, planejaram cada passo, escolheram um ponto, fizeram reforma, contrataram funcionários, pagaram altos impostos, arriscaram, sonharam, suaram, comemoraram cada vitória. As havaianas são uma empresa enorme, uma marca brasileira que virou símbolo da leveza carioca e anda democraticamente nos pés de ricos e pobres, de famosos e anônimos, em vitrines internacionais, bancas de jornal e supermercados. Aquela loja era do Tiago, brasileiro, 32 anos, filho do Sergio e da Mariza, irmão da Maria e da Julia, noivo da Clara.
É uma espécie de morte. Nós ali juntos velando aquele sonho, pensando em como seguir a vida depois da perda. De manhã, passado o choque, uma súbita certeza: o horror que vivemos não pode macular a beleza e a potência do que aconteceu ontem no Brasil. E embora eu tenha medo do que possa acontecer na próxima manifestação, medo de pensar em outros homens vendo destruídos seus negócios, seus sonhos, penso que é em nome deles que esse movimento não pode morrer na praia. Pra que a nossa dor de ontem não tenha sido em vão, pra que a violência não vença, pra que tenhamos algum dia paz e voz, vamos pras ruas com as nossas flores e o peito aberto. É terça-feira no rio, faz sol, a vida segue. Tem gente que tem ódio no peito e espalha o horror. Nós temos amor.
http://www.ornitorrinco.net.br/2013/06/o-rio-em-chamas.html
Eu ontem fui pras ruas com milhares de brasileiros. Cem mil. Me entendam, eu não sou uma pessoa politizada, e me envergonho um pouco disso. Só me esforço pra acompanhar as notícias mais de perto em época de eleição, porque entendo o poder que o meu voto tem. Eu não estava na primeira manifestação contra o aumento das passagens. Nem na segunda. Mas acompanhei de longe e meu coração foi se inflamando com o que eu via até ser impossível não participar. Eu fui com medo, com vinagre na mochila e roupa sintética pra amenizar os efeitos do gás lacrimogênio, eu fui com medo e pensei que se eu, apolítica, medrosa, estava ali, muita gente também tinha tomado coragem e saído de casa, e era gente demais pra polícia atacar diante do olhar atento do mundo.
Tomamos as ruas da minha cidade com flores, música, gritos e cartazes. Foi assim pelo Brasil inteiro, pelo mundo afora, uma mobilização coletiva como eu nunca tinha visto acontecer. Cada um levando a sua cidadania e o seu desejo de mudança, de um país melhor, com transporte público de qualidade, com a saúde e a educação tendo mais importância do que a copa, com os brasileiros sendo mais importante do que a fifa, com menos corrupção, com uma polícia que atenda ao povo e não seja inimiga dele, um país em que o direito de protestar continue sendo um direito garantido por lei, e no qual jornalistas possam exercer seu trabalho sem ser alvo de violência. Essa, mais do que todas, era a minha bandeira, repetida em coro por centenas de milhares em todo o país: sem violência.
Voltei pra casa com o coração leve. Orgulhosa do que fomos capazes de erguer ali. Horas depois voltei ao centro da cidade com os olhos inchados e o coração em frangalhos. Depois de quatro horas de protesto pacífico, baderneiros fizeram da violência a notícia. Invadiram e incendiaram o prédio da Alerj, atacaram policiais, quebraram bancos e lojas. Uma delas era a do meu irmão, uma franquia das Havaianas na Rua São José, quase em frente à Alerj, no olho do furacão.
Quando começaram as notícias sobre o tumulto ele acompanhou de casa, pela tv, já temeroso de que a confusão pudesse chegar até lá. Das 19h às 22h viveu e reviveu o medo de perder seu negócio construído com muita dedicação e trabalho árduo e entusiasmado. Às 22h seu medo virou fato. Às 23:30 virou imagem: uma família caminha pelas ruas de uma cidade no pós guerra, focos de incêndio, cheiro de fumaça, caminhões dos bombeiros parados perto da loja, não, em frente à loja, quebrando a parede de uma loja, não: quebrando a parede da sua loja. ´É uma visão dantesca. O sonho é posto à prova, o coração pensa que não vai aguentar, as pernas não sabem falar essa língua, você de repente é aquele homem no Jornal Nacional que chora diante do seu patrimônio perdido, você é abraçado, pessoas gravam com celular, você recusa entrevista para o repórter do Pânico, você devia estar em pânico mas subitamente é tomado por uma espécie doida de calma. Durante horas ficamos ali, respirando fumaça, as bolsas cheias de sacos de lixo que serviriam pra tentar recuperar parte do estoque que também foi incendiado. Comemora-se cada pequena vitória. Os móveis das paredes não foram, como os outros, arrancados pra virar fogueira na rua. Nenhum funcionário foi ferido. Estamos vivos. Vamos nos reerguer.
Parados ali na rua mil perguntas povoavam as cabeças e as bocas. Como podem bandidos com desejo de destruição macular um movimento pacífico e belo? Por que destruir um prédio histórico? Por que destruir lojas particulares? Ao invadir e saquear, por que colocar fogo no final? E onde estava a polícia que na véspera atirava bombas de gás lacrimogênio sobre famílias e manifestantes pacíficos no entorno do Maracanã? É criminoso atacar a população indefesa e que não representa nenhuma ameaça. É igualmente criminoso deixar bandidos agirem livremente causando pânico e destruição.
Em meio à dor profunda do meu irmão, cada um de nós carregava seus sentimentos. O meu incluía uma tristeza imensa, muita indignação e uma parcela de culpa por ter participado de um movimento que acabou gerando aquela destruição. Fiquei pensando que se não fosse a loja do meu irmão, se eu não estivesse ali naquela calçada, provavelmente pensaria vendo o noticiário que aquela pequena destruição era horrível mas ínfima comparada à força construtora da passeata da qual eu acabava de participar. Só que de repente não era. E eu fui obrigada a entender de dentro que os números não dizem tudo. Cem mil pessoas. Vinte lojas destruídas. Vinte vidas. Vinte famílias. Vinte caras que pegaram empréstimo no banco, planejaram cada passo, escolheram um ponto, fizeram reforma, contrataram funcionários, pagaram altos impostos, arriscaram, sonharam, suaram, comemoraram cada vitória. As havaianas são uma empresa enorme, uma marca brasileira que virou símbolo da leveza carioca e anda democraticamente nos pés de ricos e pobres, de famosos e anônimos, em vitrines internacionais, bancas de jornal e supermercados. Aquela loja era do Tiago, brasileiro, 32 anos, filho do Sergio e da Mariza, irmão da Maria e da Julia, noivo da Clara.
É uma espécie de morte. Nós ali juntos velando aquele sonho, pensando em como seguir a vida depois da perda. De manhã, passado o choque, uma súbita certeza: o horror que vivemos não pode macular a beleza e a potência do que aconteceu ontem no Brasil. E embora eu tenha medo do que possa acontecer na próxima manifestação, medo de pensar em outros homens vendo destruídos seus negócios, seus sonhos, penso que é em nome deles que esse movimento não pode morrer na praia. Pra que a nossa dor de ontem não tenha sido em vão, pra que a violência não vença, pra que tenhamos algum dia paz e voz, vamos pras ruas com as nossas flores e o peito aberto. É terça-feira no rio, faz sol, a vida segue. Tem gente que tem ódio no peito e espalha o horror. Nós temos amor.
http://www.ornitorrinco.net.br/2013/06/o-rio-em-chamas.html
26.5.13
Festipoa em imagens
24.5.13
Sabedoria
Afe. Que mundinho de merda aponta tantos dedos burros. Que mundo sensacional tem um garoto como esse.
10.5.13
6.3.13
Indo
Do Gabriel Pardal, esse menino maravilha que escreve e agita e edita e nos sacode e agora pinta e borda também.
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