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7.6.12

Ela aos 33

Eu nunca ouvi falar em Hans Magnun Enzesberger, mas de repente no Facebook uma amiga posta o link de uma tradução dele pelo Ricardo Domeneck e, caramba, o título do poema foi irresistível pruma moça de 33. E adorei: o poema e as duas possibilidades de tradução, uma fiel e outra aproximando o texto do universo brasileiro. Percebi que gosto mais assim, e pensei que seria genial em livros de poesia traduzida ter as duas versões, quando fosse o caso.

Aqui a versão que eu escolhi. Lá no blog do Ricardo Domeneck, as duas e comentários sobre o trabalho.

Ela, aos trinta e três

Ela havia imaginado tudo bem diferente.
Ainda com este Fusca enferrujado.
Uma vez, quase casou-se com um padeiro.
Antes, costumava ler Clarice, depois, Cabral.
Agora ela prefere resolver charadas na cama.
Dos homens, não tolera abusos.
Por anos foi petista, mas à sua maneira.
Nunca recortou cupons de desconto em jornais.
Quando pensa no Afeganistão, passa mal.
Seu último namorado, o intelectual, gostava de apanhar.
Vestidos de batique esverdeados, largos demais para ela.
Pulgões nas folhas da samambaia.
Na verdade, queria pintar, ou emigrar.
Sua tese, Conflitos religiosos no Nordeste, 1889
a 1930, e suas marcas na música popular:
bolsas, começos, e uma gaveta cheia de notas.
De vez em quando, sua vó manda-lhe dinheiro.
Danças acanhadas no banheiro, caretinhas,
horas de hidratante ao espelho.
Ela diz: pelo menos não morrerei de fome.
Quando chora, fica com cara de dezenove.

E olha, num momento em que tanta gente passa a achar o Facebook chato e bobo, eu continuo adorando a possibilidade de compartilhar gostos e descobrir arte da boa por indicação de gente que eu admiro!

13.2.12

Contemporâneo



O Everton Behenck foi uma das boas novidades do ano passado, mais um gaúcho pra confirmar a minha sensação de que Porto Alegre só me traz belas coisas e gentes. A gente se conheceu rapidinho por lá em maio, na FestiPoa do ano passado, e eu passei o ano todo lendo ele lá no Apesar do Céu, tanto poema lindo e triste me vendo por baixo da pele, chorei lágrimas e me senti despida em frente à tela do computador, e me consolei de dores e encarei medos ali. A sensação de identificação que a poesia é capaz de dar nunca cansa de me encantar, e posso dizer sem sombra de dúvida que quando rola isso com o trabalho de um cara vivo, da minha geração, contemporâneo, com quem eu posso trocar idéias e bater papo, a coisa fica ainda mais poderosa.

No áudio ali em cima é de solidão que ele fala, e com sotaque gaúcho ainda por cima.

"Permita que sua solidão lhe conte o que guardava enquanto você escondia-se dela."

Não é pra qualquer um, não. Nem a solidão nem a poesia dura e bela do Everton. Pros corajosos fica de presente um dos meus poemas favoritos dele.


UM POEMA DE ESPERANÇA SECA

Você já sabe
Que irá morrer
Talvez em breve

E que será
Praticamente inevitável
Um tanto de dor
Prática e física

E tubos nas narinas

Você já sabe
Que atrás dos olhos
Está e sempre esteve
Irremediavelmente



Você já sabe
Que o amor nasce
E morre

Pelos mais diversos
Motivos

E que geralmente
As pessoas oferecem
O que não possuem

Enquanto exigem
O que você não tem

E que até perceberem isso
Serão felizes

Você já sabe
Que o amor
É uma intenção

E sabe que isso
É muito bonito

Você sabe que a fé
Foi feita
Para que você não acredite
Cegamente

Nisso tudo que sabe

A natureza criou a fé
Para garantir que você faça
A sua parte
Até que chegue
Cedo ou tarde

Com mais
Ou menos alegria

Aos tubos nas narinas

Você sabe
Que algo te move sempre em frente

E é exatamente o mesmo
Que move um cão
Uma vaca ou uma ave

Mas agradeça
Porque eles não sabem

Já você
Bem

Você sabe

Você sabe que dinheiro
Carros, ternos, móveis
Não são garantias nenhuma
De humanidade

E se você não sabe
Descubra antes que seja tarde

Você já sabe
Que não voltará
Ninguém que lhe salve

O parto é sempre um ato
De abandono implícito

Viemos a esse mundo
Com um propósito bem definido

E nunca voltaremos

Aproveite sua estada
Da melhor forma possível

E não se cobre tanto
Todo mundo sabe o quanto
É difícil

Everton Behenck

1.2.12

Wislawa por Maria


"A alegria da escrita. O poder de permanecer. A vingança da mão mortal." Estás vingada, Wislawa. Inclusive em português, imagine. A alegria da escrita. E da leitura. Sim senhora.



 (Wislawa Szymborska, 1923-2012)

Pra ler mais: aqui, aqui e aqui.

Mais um sobre o fim

Fracassando e voando
(Jack Gilbert)

Todo mundo esquece que Ícaro também voou.
É a mesma coisa quando o amor acaba,
ou o casamento fracassa e as pessoas dizem
que sabiam que era um erro, que todo mundo
dizia que nunca ia dar certo. Que ela tinha idade
suficiente pra ser mais esperta. Mas qualquer coisa
que valha a pena ser feita vale a pena ser mal feita.
Como estar ali perto do oceano no verão
do outro lado da ilha enquanto
o amor estava desbotando dela, as estrelas
queimando tão extravagantemente naquelas noites que
qualquer um diria que elas não durariam nada.
Toda manhã ela estava dormindo na minha cama
como uma aparição, a suavidade nela
como a de um antílope de pé na neblina do amanhecer.
Cada tarde eu a via voltando
pelo caminho de pedras quentes depois de nadar,
a luz do mar atrás dela e o céu gigantesco
do lado de lá. Ouvia ela enquanto
a gente almoçava. Como eles podem dizer
que o casamento fracassou? Como as pessoas que
voltam da Provence (quando havia Provance)
e dizem que era bonito mas a comida era gordurosa.
Eu acredito que Ícaro não estava fracassando quando caiu,
mas só chegando ao fim do seu triunfo.

e no lindo original

Failing and flying
by Jack Gilbert
 
Everyone forgets that Icarus also flew.
It's the same when love comes to an end,
or the marriage fails and people say
they knew it was a mistake, that everybody
said it would never work. That she was 
old enough to know better. But anything
worth doing is worth doing badly.
Like being there by that summer ocean
on the other side of the island while
love was fading out of her, the stars 
burning so extravagantly those nights that
anyone could tell you they would never last.
Every morning she was asleep in my bed
like a visitation, the gentleness in her
like antelope standing in the dawn mist.
Each afternoon I watched her coming back
through the hot stony field after swimming,
the sea light behind her and the huge sky
on the other side of that. Listened to her
while we ate lunch. How can they say 
the marriage failed? Like the people who
came back from Provence (when it was Provence)
and said it was pretty but the food was greasy.
I believe Icarus was not failing as he fell,
but just coming to the end of his triumph.

31.1.12

Depois melhora mas primeiro é assim

SEPARAÇÃO

 (Affonso Romano de Sant'Anna)



Desmontar a casa 
e o amor.
Despregar 
os sentimentos 
das paredes e lençóis.
Recolher as cortinas 
após a tempestade 
das conversas.



O amor não resistiu 
às balas, pragas,
flores, 
e corpos de intermeio. 


Empilhar livros, quadros, 
discos e remorsos. 

Esperar o infernal 
juízo final do desamor.



Vizinhos se assustam de manhã 

ante os destroços junto à porta: 

- pareciam se amar tanto!

Houve um tempo: 

uma casa de campo, 
fotos de Veneza,
um tempo em que sorridente
o amor aglutinava festas e jantares.



Amou-se um certo modo de despir-se, 
de pentear-se. 

Amou-se um sorriso e um certo 
modo de botar a mesa.
Amou-se 
um certo modo de amar.



No entanto, o amor bate em retirada 

com suas roupas amassadas, tropas de insultos, 

malas desesperadas, soluços embargados.



Faltou amor no amor? 

Gastou-se o amor no amor? 

Fartou-se o amor?


No quarto dos filhos 
outra derrota à vista: 

bonecos e brinquedos pendem
numa colagem de afetos natimortos.

O amor ruiu e tem pressa de ir embora 
envergonhado.



Erguerá outra casa, o amor? 

Escolherá objetos, morará na praia? 

Viajará na neve e na neblina?



Tonto, perplexo, sem rumo 

um corpo sai porta afora 

com pedaços de passado na cabeça 

e um impreciso futuro. 

No peito o coração pesa 

mais que uma mala de chumbo.

***

Affonso escreveu sobre o filme iraniano Separação, e na onda postou no Facebook esse poema lindo dele. Sim, Affonso, o poeta incrível, ele mesmo, Affonso Romano de Sant'Anna, tem Facebook. Adoro. E esse poema, eita ferro, dói até quando a gente ainda nunca passou por isso, que dirá quando já. Ainda bem que a vida, essa chacrete sacana, roda roda e avisa que depois melhora. Afe. Ufa.

28.12.11

Isso não é um maldito poema

Splash (Bukowski)

the illusion is that you're simply
reading this poem.
the reality is that this is
more than a
poem.
this is a beggar's knife.
this is a tulip.
this is a soldier marching
through Madrid.
this is you on your
death bed.
this is Li Po laughing
underground.
this is not a god-damned
poem.
this is a horse asleep.
a butterfly in
your brain.
this is the devil's
circus.
you are not reading this
on a page.
the page is reading
you.
feel it?
it's like a cobra.
it's a hungry eagle
circling the room.

this is not a poem.
poems are dull,
they make you
sleep.

these words force you
to a new
madness.

you have been blessed,
you have been pushed
into a blinding area of
light.

the elephant dreams
with you
now.
the curve of space
bends and
laughs.

you can die now.
you can die now as
people were meant to
die:
great,
victorious,
hearing the music,
being the music,
roaring,
roaring,
roaring.


a ilusão é que você tá simplesmente
lendo esse poema.
a realidade é que isso é
mais que um
poema.
isso é uma faca de um pedinte.
isso é uma tulipa.
isso é um soldado marchando
por Madri.
isso é você no seu
leito de morte.
isso é Li Po gargalhando
embaixo da terra.
isso não é um maldito
poema.
isso é um cavalo dormindo.
uma borboleta no
seu cérebro.
isso é o circo
do diabo.
você não tá lendo isso
numa página.
a página tá lendo
você.
tá sentindo?
é como uma serpente.
é uma águia faminta
circundando o quarto.

isso não é um poema.
poemas são chatos,
te fazem dormir.

essas palavras te forçam
a uma nova
loucura.

você foi abençoado,
você foi empurrado
pra uma
área de luz
cegante.

o elefante sonha
com você
agora.
a curva do espaço
entorta e
ri.

você pode morrer agora.
você pode morrer como
as pessoas deviam
morrer:
grandes,
vitoriosas,
ouvindo a música,
sendo a música,
rugindo,
rugindo,
rugindo.

A polonesa #3

A vida na hora (Wislawa Szymborska)

A vida na hora.
Cena sem ensaio.
Corpo sem medida.
Cabeça sem reflexão.

Não sei o papel que desempenho.
Só sei que é meu, impermutável.

De que trata a peça
devo adivinhar já em cena.

Despreparada para a honra de viver,
mal posso manter o ritmo que a peça impõe.
Improviso embora me repugne a improvisação.
Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.
Meu jeito de ser cheira a província.
Meus instintos são amadorismo.
O pavor do palco, me explicando, é tanto mais humilhante.
As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.

Não dá para retirar as palavras e os reflexos,
inacabada a contagem das estrelas,
o caráter como o casaco às pressas abotoado -
eis os efeitos deploráveis desta urgência.

Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira antes
ou ao menos repetir uma quinta feira outra vez!
Mas já se avizinha a sexta com um roteiro que não conheço.

Isso é justo - pergunto
(com a voz rouca
porque nem sequer me foi dado pigarrear nos bastidores).

É ilusório pensar que esta é só uma prova rápida
feita em acomodações provisórias. Não.
De pé em meio à cena vejo como é sólida.
Me impressiona a precisão de cada acessório.
O palco giratório já opera há muito tempo.
Acenderam-se até as mais longínquas nebulosas.
Ah, não tenho dúvida de que é uma estrela.
E o que quer que eu faça,
vai ser transformar para sempre naquilo que fiz.

27.12.11

Ainda ela

Agradecimento (Wislawa Szymborska)

Devo muito
aos que não amo.

O alívio de aceitar
que sejam mais próximos de outrem.

A alegria de não ser eu
o lobo de suas ovelhas.

A paz que tenho com eles
e a liberdade com eles,
isso o amor não pode dar
nem consegue tirar.

Não espero por eles
andando da janela à porta.
Paciente
quase como um relógio de sol,
entendo o que o amor não entende,
perdoo,
o que o amor nunca perdoria.

Do encontro à carta
não se passa uma eternidade,
mas apenas alguns dias ou semanas.

As viagens com eles são sempre um sucesso,
os concertos assistidos,
as catedrais visitadas,
as paisagens claras.

E quando nos separam
sete colinas e rios
são solinas e rios
bem conhecidos dos mapas.

É mérito deles
eu viver em três dimensões,
num espaço sem lírica e sem retórica,
com um horizonte real porque móvel.

Eles próprios não veem
quanto carregam nas mãos vazias.

"Não lhes devo nada" -
diria o amor
sobre essa questão aberta.

26.12.11

A poeta favorita do momento

Entre muitos (Wislawa Szymborska)

Sou quem sou.
Inconcebível acaso
como todos os acasos.

Fossem outros
os meus antepassados
e de outro ninhi
eu voaria
ou de sob outro tronco
coberta de escamas eu rastejaria.

No guarda-roupa da natureza
há trajes de sobra.
O traje da aranha, da gaivota, do rato do campo.
Cada um cai como uma luva
e é usado sem reclamar
até gastar.

Eu também não tive escolha
mas não me queixo.
Poderia ter sido alguém
muito menos individual.
Alguém do formigueiro, do cardume, zunindo no enxame,
uma fatia de paisagem fustigada pelo vento.

Alguém muito menos feliz,
criado para uso da pele,
para a mesa da festa,
algo que nada debaixo da lente.

Uma árvore presa à terra
da qual se aproxima o fogo.

Uma palha esmagada
pela marcha de inconcebíveis eventos.

Um sujeito com uma negra sina
que para os outros se ilumina.

E se eu despertasse nas pessoas o medo,
ou só aversão,
ou só pena?

Se eu não tivesse nascido
na tribo adequada
e diante de mim se fechassem os caminhos?

Poderia não me ser dada
a lembrança dos bons momentos.

Poderia me ser tirada
a propensão para comparações.

Poderia ser eu mesma - mas sem o espanto,
e isso significaria
alguém totalmente diferente.

24.12.11

Manhã



"Toda a manhã que raia, raia sempre no mesmo lugar.
Não há manhãs sobre cidades ou manhãs sobre o campo.
à hora em que o dia raia, em que a luz estremece a erguer-se
Todos os lugares são o mesmo lugar, todas as terras são a mesma,
E é eterna e de todos os lugares a frescura que sobe por tudo.

Uma espiritualidade feita com a nossa própria carne
Um alívio de viver de que o nosso corpo partilha
Um entusiasmo por o dia que vai vir, uma alegria por o que pode acontecer de bom
São os sentimentos que nascem de estar olhando para a madrugada
Seja ela a leve senhora dos cumes dos montes
Seja ela a invasora lenta das ruas da cidade que vão leste-oeste
Seja"
                                                                              ("Acordar", Álvaro de Campos)

7.12.11

Duas Irenes, eu e a literatura

"A primeira vez em que eu me apaixonei eu amei tanto essa paixão que disse não quando o garoto quis me namorar. (...) O que eu sabia era que havia poesia em me manter entrincheirada na janela de minha sala de aula olhando para ele. O resto era prosa. Miolo de pote."
"Eu esperei dela o que eu me daria, mas ela foi mais generosa que eu."
"Odeio gente gentil. Gentileza não é coisa natural, é sem princípios. Gentileza é invenção de vendedor. Valorizo gente verdadeira. E a atenção e o cuidado que se enraízam em sentimentos deixam de ser gentileza. São: atenção e cuidado. Verdade."
"Eu teria dado, de bom grado, dinheiro. Se tivesse trabalho. Eu teria dado a chave do carro. Se tivesse uma porta pra abrir. Eu teria dado uma caixa de bombons. Se tivesse tempo. Eu teria dado amor. Se tivesse."

(Adrienne Myrtes em Eis o mundo de fora)


"Como descrever o amor, o amor que acontece de forma exagerada, amro sem limite, amor sem razão, o amor enlouquecido? Sim, os sentimentos do mundo não cabem em palavras. Tentamos de fato esticá-las, decerto tentamos moldá-las, mas elas, as palavras, teimosamente, elas não nos acompanham - a paixão, dois jovens na estação de metrô, rapidamente nós os vemos, eles se beijam, impossível descrever com palavras aquele instante de paixão, o trem parte, eles ficam na estação, impossível, imagens rápidas, as palavras não dão conta das imagens, as palavras não dão contado abstrato, as palavras, senhores, as palavras não dão conta da vida - descrever o amor, impossível: as palavras não acariciam, não tocam a língua, não se esfregam, não gemem. As palavras não gozam."

(Nilza Rezende em Bocas de mel e fel)


Quatro mulheres. Nilza. Adrienne. Duas Irenes. Não, cinco. Eu, Maria, também. Adrienne e Nilza escreveram. Durante anos, em silêncio, com técnica, com paixão, se derramando, pensando, sentindo, com esforço, com prazer, vencendo dificuldades, libertando segredos, inventando vidas. Eu, Maria, li. Agorinha, esses dias. E me espantei com o que li. Literatura. Histórias e linguagem se enroscando daquele mais delicioso jeito. Prosas diferentes, com gosto próprio, ritmos que te pegam pela mão e te guiam pelas páginas. Cada uma com o seu. 

E de repente o espanto: serão duas Irenes? É possível isso? Era. É. Histórias tão diferentes, uma mulher refém das convenções sociais, dividida entre dois homens, outra mulher rompedora de regras revisitando dores numa visita à família. Duas mulheres que não sabem viver o amor. "O amor e eu não fomos feitos um pro outro", diz a Irene de Adrienne. "O amor não é tudo na vida, respondi como se precisasse sempre sujar a alegria", diz a Irene de Nilza.

Em Bocas de mel e fel quem comanda é ela, Irene. É por ela que sabemos deles, Antônio, Pablo, é ela que nos conduz. Eis o mundo de fora tem duas vozes: Irene e Luis. Ela dura, prática, ele derramado, intenso. Cada um com seu tempo, com suas tramas, seus pontos de vista, e assim vamos navegando entre versões, bocados de história aqui e ali, pela boca de um e de outro.

Dois romances que me tiraram do prumo. Nilza é minha tia, e eu conheço muito e adoro sua literatura vertiginosa e desmedida, desde o incrível "Um deus dentro dele, um diabo dentro de mim", que me tomou de assalto quando foi lançado. Adrienne foi presente pernambucano, companheira de Mostra Sesc de Literatura Contemporânea mês passado, e foi com genuíno espanto que devorei seu livro em tardes e noites de hotel e anotei suas frases - quase versos - no caderno de anotar coisa boa no voo de volta pra casa. 




Nilza. Adrienne. Duas Irenes. Antônio, Pablo, Luis. Misturem-se com essa gente. Bagunça a cabeça e dá um direto de esquerda no peito, às vezes, mas como é bom sentir assim, livro na mão, letras nos olhos, admiração e espanto bom.

3.12.11

Sem Gelo

Fernanda D'Umbra diz coisas. As coisas. De um jeito que. Eu leio e fico ali, lendo. Coisas como: "EU LEVANTEI DA FRENTE DO COMPUTADOR como quem vai embora para sempre > faço isso quando vou voltar: faço uma cara de quem está indo embora para sempre > fiquei parada olhando meu pé e sentindo ciúme da mulher do barzinho > não frequentava mais bares por ordem judicial e andava já cansada de ver como você ia se virar diante de trinta e duas doses de paciência e abandono > parei de olhar meu pé e me pus a olhar a rua > chovia canivetes > peguei três e guardei na bolsa."

21.9.11

Ah, a criatividade & o talento...











Foi assim que eu me apaixonei por ela, depois de anos implicando com o best-seller. Daí li "Comer rezar amar" e adorei. Adorei. Li e reli logo depois de ver o chato filme, pra ter certeza de que eu não era uma louca de ter adorado. Eu não era. O livro é bom - e não sei sobre a tradução, mas no original essa mulher escreve deliciosamente, com humor e inteligência, como nesse papo aí em cima. Volta e meia volto nessa palestra, e sempre saio melhor dessa sala virtual.
(Pra legendas em português: site do TED)

12.7.11

Felicidade: direito ou conquista?

Tenho ecoado mais do que escrito, é fato. E se é pra ecoar que seja o que vai na veia. Como foi o "Curtir é covardia". Como é esse texto aqui, que bateu fundo porque tenho pensado muito, como nunca antes na vida, sobre a relação de pais e filhos, e afeto e proteção e amor e limites - como fiz aqui no blog há tempos atrás. Hoje de novo: eco eco eco.


Meu filho, você não merece nada (Eliane Brum)

Ao conviver com os bem mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão tateando para virar gente grande, percebo que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, da mais despreparada. Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor.


Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade.


Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste.


Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes.


Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um questionamento importante para quem está educando uma criança ou um adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade.


É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades individuais?


Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina. Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no país.


Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.


Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido. Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer.


A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumaça desaparece deixando nenhum chão. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a se explicitar no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem mesmo para falar da tristeza e da confusão.


Me parece que é isso que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado? Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando de seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude.


Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já que ninguém está disposto a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode tocar o cotidiano sem que ninguém precise olhar de verdade para ninguém dentro de casa.


Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.


Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem buscar. E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo funcionando.


O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhecem. E, portanto, estão perdendo uma grande chance. Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.


Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande.


Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito.


Agora, se os pais mentiram que a felicidade é um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar ou emburrar ao descobrir que vai ter de conquistar seu espaço no mundo sem nenhuma garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não deu certo, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desistência.


Crescer é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba.

5.7.11

Refletir na hora do almoço, como é bom!

CURTIR É COVARDIA

Por Jonathan Franzen

tradução de Augusto Calil

Duas semanas atrás, substituí meu BlackBerry Pearl, já com três anos de idade, por um BlackBerry Bold, muito mais poderoso. Nem preciso dizer como fiquei impressionado com o quanto a tecnologia avançou em três anos. Mesmo quando não havia ninguém para telefonar ou mandar e-mail, eu queria continuar mexendo no meu novo Bold e sentir a maravilhosa nitidez de sua tela, a movimentação sedosa do seu trackpad, sua chocante velocidade de resposta, a sedutora elegância de seus gráficos.

Em resumo, fiquei apaixonado por meu novo dispositivo. É claro que o dispositivo anterior também tinha despertado em mim uma paixão semelhante; mas, com o passar dos anos, nosso relacionamento perdeu brilho. Surgiu uma série de problemas na minha relação com o Pearl: problemas de confiança, de responsabilidade, de compatibilidade e até, na porção final de nossa história conjunta, algumas dúvidas em relação à própria sanidade do meu Pearl, até que finalmente vi-me obrigado a reconhecer que eu tinha amadurecido e perdido o interesse naquele relacionamento.

Será que preciso destacar o quanto nosso relacionamento era – na ausência de uma extravagante e antropomorfizante projeção segundo a qual meu antigo BlackBerry teria ficado magoado com o esmaecimento do amor que eu sentia por ele – absolutamente unilateral? Permita-me destacá-lo mesmo assim.

Permita-me destacar ainda a frequência absurda com que a palavra “sexy” é usada para descrever os modelos mais recentes de dispositivos eletrônicos; e o quanto as coisas extremamente bacanas que podemos agora fazer com estes dispositivos – como ativá-los por meio de comandos de voz ou usar os dedos espalhando-os sobre a tela do iPhone para aumentar as imagens – pareceriam ser, para as pessoas de cem anos atrás, verdadeiros encantamentos de mágico, gestos de mago; e o quanto recorremos, na tentativa de descrever um relacionamento erótico que esteja funcionando perfeitamente, à metáfora da magia.

Permita-me propor a ideia de que, conforme nossos mercados descobrem e respondem àquilo que os consumidores mais desejam, nossa tecnologia se torna extremamente hábil na criação de produtos que correspondam ao nosso ideal fantasioso de um relacionamento erótico, no qual o objeto amado se entrega por completo sem exigir nada em troca, instantaneamente, fazendo que nos sintamos todo-poderosos, sem criar cenas constrangedoras quando é substituído por um objeto ainda mais sexy, sendo então relegado a uma gaveta.

Falando numa perspectiva mais geral, o objetivo definitivo da tecnologia, a teleologia da techné, é substituir um mundo natural indiferente a nossos desejos – um mundo de furacões e dificuldades e corações partíveis, um mundo de resistência – por outro mundo que responda tão bem a nossos desejos a ponto de ser, com efeito, uma mera extensão do ser. Permita-me sugerir, finalmente, que o mundo do tecnoconsumismo é, portanto, incomodado pelo amor verdadeiro, restando-lhe como única escolha responder perturbando o amor.

Sua primeira linha de defesa é transformar seu inimigo em commodity.

Todos saberão citar seu favorito dentre os nauseabundos exemplos da mercantilização do amor. Eu mencionaria a indústria do casamento, os comerciais de TV que mostram lindas criancinhas e também a prática de oferecer automóveis como presente de Natal, e a particularmente grotesca equação que compara as joias com diamantes à devoção eterna. A mensagem, em cada um dos casos, é bastante clara: se você ama alguém, compre alguma coisa.

Um fenômeno relacionado a esse é a transformação do verbo “curtir” (“like”, em inglês) que, graças ao Facebook, deixa de ser um estado de espírito e passa a ser um ato que desempenhamos com o mouse – deixa de ser um sentimento para virar uma opção de consumo. E curtir é, no geral, o substituto que a cultura comercial oferece para o ato de amar. A característica mais notável de todos os produtos de consumo – e principalmente dos dispositivos eletrônicos e aplicativos – é o fato de terem sido projetados para serem imensamente curtíveis. Esta é, na verdade, a definição de um produto de consumo, em contraste com o produto que é apenas aquilo que é e cujos fabricantes não estão concentrados na possibilidade de o curtirmos ou não. (Estou pensando nos motores a jato, no equipamento de laboratório, na arte e na literatura em suas manifestações mais sérias.)

Mas, se pensarmos nisso em termos humanos, e imaginarmos uma pessoa definida pela ansiedade desesperada de ser curtida, qual é o quadro que vemos? O de uma pessoa sem integridade, descentrada. Em casos mais patológicos, vemos um narcisista – alguém incapaz de tolerar em sua autoimagem as manchas que seriam representadas pela possibilidade de não ser curtida e que portanto busca uma fuga do contato humano ou se dedica a sacrifícios cada vez mais extremos da própria integridade com o intuito de ser curtida.

Curtível.

Se uma pessoa dedica sua existência a ser curtível, entretanto, e se adota qualquer máscara bacana que se mostre necessária para atingir tal fim, isso sugere alguém que perdeu a esperança de ser curtido por aquilo que realmente é. E, se formos bem sucedidos na tentativa de manipular os outros e fazê-los nos curtir, será difícil não sentir, em algum nível, um verdadeiro desprezo por tais pessoas, pois caíram no nosso embuste. A pessoa pode ficar deprimida, cair no alcoolismo ou, se estivermos falando de Donald Trump, concorrer à presidência (e depois desistir).

Os produtos tecnológicos de consumo nunca fariam algo tão pouco atraente, pois não são pessoas. Eles são, no entanto, grandes aliados e facilitadores do narcisismo. Além da ansiedade de serem curtidos já incorporada a eles, há também uma ansiedade de causarem boa impressão em nós. Nossas vidas parecem muito mais interessantes quando são filtradas pela interface sexy do Facebook. Somos os astros de nossos próprios filmes, fotografamos incessantemente a nós mesmos, clicamos o mouse e uma máquina confirma a sensação de que estamos no comando. E, já que nossa tecnologia não passa de uma extensão de nós mesmos, não precisamos desprezar seus traços manipuladores como faríamos no caso de pessoas reais. Trata-se de um ciclo interminável. Curtimos o espelho e o espelho nos curte. Ser amigo de uma pessoa significa apenas incluí-la na sua lista particular de espelhos elogiosos.

Talvez eu esteja exagerando um pouco neste caso, só um pouco. Muito provavelmente, você já está cansado de ver as mídias sociais sendo desrespeitadas por cinquentões ranzinzas. Meu objetivo aqui é estabelecer um contraste entre as tendências narcisistas da tecnologia e o problema do amor verdadeiro. Minha amiga Alice Sebold gosta de falar em “amar alguém e se lambuzar”. Ela tem em mente a sujeira que o amor inevitavelmente espalha sobre o espelho de nosso respeito próprio.

O simples fato é que a tentativa de ser perfeitamente curtível é incompatível com os relacionamentos amorosos. Mais cedo ou mais tarde, por exemplo, você se verá numa briga horrível, aos berros, e ouvirá saindo de sua boca palavras que você mesmo não curte nem um pouco, coisas que estilhaçam sua autoimagem de pessoa justa, gentil, bacana, atraente, controlada, divertida e curtível. Alguma coisa mais real do que a curtibilidade surgiu de você e de repente você se vê levando uma vida real.

Subitamente existe uma escolha de verdade a ser feita – não uma falsa escolha de consumidor entre BlackBerry e iPhone, e sim uma pergunta: Será que eu amo esta pessoa? E, para o outro, será que esta pessoa me ama?

Não existe a possibilidade de curtir cada partícula da personalidade de uma pessoa real. É por isso que um mundo de curtição acaba se revelando uma mentira. Mas é possível pensar na ideia de amar cada partícula de uma determinada pessoa. E é por isso que o amor representa tamanha ameaça existencial à ordem tecnoconsumista: ele denuncia a mentira.

Isso não equivale a dizer que o amor envolve apenas as brigas. O amor é questão de empatia ilimitada, nascida de uma revelação feita pelo coração mostrando que outra pessoa é tão real quanto você. E é por isso que o amor, ao menos no meu entendimento, é sempre específico. Tentar amar a toda a humanidade pode ser um empreendimento digno, mas, de um jeito engraçado, isso mantém o foco no eu, no bem estar moral ou espiritual do eu. Ao passo que, para amar uma pessoa específica e identificar-se com as lutas dela como se fossem as suas, é preciso abrir mão de parte de si.

Neste caso, o grande risco envolvido é, sem dúvida, a rejeição. Todos nós podemos suportar momentos em que não somos curtidos, pois existe uma gama virtualmente infinita de curtidores em potencial. Mas expor a totalidade do seu eu, e não apenas a superfície curtível, e com isto ser rejeitado, é algo que pode se revelar insuportavelmente doloroso. A perspectiva geral da dor, a dor da perda, da separação, da morte, é o que torna tão tentadora a ideia de evitar o amor e permanecer em segurança no mundo do curtir.

Ainda assim, a dor machuca, mas não mata. Quando levamos em consideração a alternativa – um sonho anestesiado de autossuficiência, incentivado e aprovado pela tecnologia – a dor emerge como produto natural e indicador natural de que estamos vivos num mundo resistente. Levar uma vida indolor equivale a não viver. Até dizer a si mesmo, “Ah, vou deixar para depois esta história de amor e de dor, talvez para depois dos 30 anos” é como resignar-se a passar 10 anos simplesmente ocupando espaço no planeta e consumindo seus recursos. Resignar-se a ser um consumidor (palavra que emprego no seu sentido mais pejorativo).

Pássaros.

Quando estava na faculdade, e por muitos anos depois disto, eu curtia o mundo natural. Eu não o amava, mas sem dúvida o curtia. A natureza pode mesmo ser algo muito belo. E, como eu estava em busca de coisas no mundo que me parecessem erradas, gravitei naturalmente na direção do ambientalismo, pois sem dúvida havia muitas coisas erradas com o meio ambiente. E quanto mais eu olhava para aquilo que estava errado – uma população mundial em explosão, o consumo desenfreado dos recursos naturais, o aumento nas temperaturas globais, a contaminação dos oceanos, o corte das últimas florestas antigas –, mais furioso me tornava.

Finalmente, em meados dos anos 90, tomei conscientemente a decisão de parar de me preocupar com o meio ambiente. Pessoalmente, não havia nada de significativo que eu pudesse fazer para salvar o planeta e, além disso, tinha vontade de seguir na vida me dedicando às coisas que amava. Continuei me esforçando para manter pequena minha “pegada de carbono”, mas esse parecia ser o meu limite antes de recair na raiva e no desespero.

Foi então que me ocorreu algo engraçado. Trata-se de uma história comprida, mas, basicamente, apaixonei-me pelos pássaros. Isto não ocorreu sem uma resistência considerável, pois é muito cafona ser um observador de pássaros, já que qualquer indício que revele uma paixão verdadeira é, por definição, algo cafona. Mas, aos poucos, apesar da relutância, desenvolvi essa paixão e, se metade de uma paixão é a obsessão, a outra metade é o amor.

Bem, devo admitir que mantive uma lista meticulosa das espécies de pássaros que eu já tinha visto e admito também que fiz esforços incomuns em nome da oportunidade de conhecer espécies diferentes. Mas, igualmente importante, sempre que olhava para um pássaro, qualquer pássaro, mesmo uma pomba ou um tordo, eu sentia o coração transbordar de amor. E o amor, como venho tentando expor aqui, é onde começam nossos problemas.

Pois agora, não apenas curtindo a natureza, mas amando uma parte específica e vital dela, eu não tinha escolha a não ser voltar a me preocupar com o meio ambiente. As notícias sobre este assunto não tinham melhorado desde a época em que decidi parar de me importar com elas – eram na verdade consideravelmente piores –, mas agora aquelas florestas e pântanos e oceanos ameaçados não eram mais cenários bonitos dos quais eu poderia desfrutar. Eram o lar de animais que eu amava.

E foi então que um curioso paradoxo emergiu. A raiva e a dor que eu sentia diante da situação do planeta só foram amplificadas por minha preocupação com os pássaros silvestres, mas, conforme eu aprendia sobre a preservação dos pássaros e me envolvia com esse tipo de iniciativa, aprendendo cada vez mais a respeito das ameaças que os pássaros enfrentam, tornou-se mais fácil, e não mais difícil, conviver com a raiva, o desespero e a dor.

Como pode ser uma coisa dessas? Acho que, para começar, meu amor pelos pássaros se tornou um portal para uma parte importante e menos autocentrada de mim, que eu nem mesmo sabia que existia. Em vez de seguir à deriva pela vida de cidadão global, curtindo e descurtindo e guardando meu envolvimento para algum momento posterior, fui obrigado a confrontar uma parte de mim que até então eu tinha de aceitar totalmente ou rejeitar absolutamente.

Exatamente aquilo que o amor faz com uma pessoa. Pois a questão fundamental envolvendo a todos nós é o fato de que vivemos por algum tempo, mas morreremos em breve. Esse fato é a verdadeira causa fundamental de toda a nossa raiva, dor e desespero. E a pessoa pode optar por fugir desse fato ou, por meio do amor, aprender a aceitá-lo. Quando ficamos em nossos quartos e bufamos ou caçoamos ou damos de ombros indiferentemente, como eu fiz durante tantos anos, o mundo e seus problemas parecem impossivelmente desafiadores. Mas, quando saímos e nos colocamos em relacionamentos reais com seres reais, ou mesmo animais reais, há o perigo bastante real de amarmos alguns deles.

E quem pode prever que rumo a vida tomará então?

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(do blog do Pardal, sempre cheio de belas cartas na manga)

28.6.11

Não-pronta

"É absurdo acreditar na idéia de que uma pessoa, quanto mais vive, mais velha fica; para que quanto mais vivesse mais velho ficasse, teria de ter nascido pronto e ir se gastando... Isso não ocorre com gente, e sim com fogão, sapato, geladeira. Gente não nasce pronta e vai se gastando; gente nasce não-pronta, e vai se fazendo. Eu, no ano que estamos, sou a minha mais nova edição (revista e, às vezes, um pouco ampliada); o mais velho de mim (se é o tempo a medida); está no meu passado e não no meu presente." (Mario Sergio Cortella)

(roubado da querida&talentosa Suzanna Schlemm)

9.6.11

Apesar do céu

O Everton Behenck é um poeta e compositor e cantor gaúcho que eu conheci na Festipoa. A banda dele tocou na mesma noite em que eu me apresentei, então eu só curti o som deles na passagem de som porque depois que desci do palco cês sabem, fiquei zureta até 3a feira.

Dias depois, na Palavraria - a minha livraria em Porto Alegre, onde o a Carla, o Paulo e o Carlos são sempre abraços&sorrisos pra mim -, numa mesa com os queridos Botika e Marcelino Freire, conheci a poesia escrita dele, e adorei. Agora viciei no Apesar do céu, onde acho delicadezas como essa:

Saudade é provocar o amor
Até não aguentar mais

Como em uma propaganda antiga
De refrigerantes

Saudade

É cutucar o amor
Com vara nenhuma

É o medo do amor
Não ser o mesmo

Quando a gente acorda

É o medo de ter a mão
Devorada

Por uma fera

Sem que ela saiba
O que significa

O que está engolindo

Saudade
Quando diz de verdade

É um cisco
No pensamento

Que o outro
Ausente

Não sopra

Everton Behenck

6.6.11

Pra ler a Ana

Minha diretora tá estreando no mundo encantado dos blogs, e já tem lá um continho lindo e triste sobre beleza e tristeza.

É ali na matriuschka.

Benvinda, Anuska!

17.5.11

Drummond pra domir bem

ASPECTOS DE UMA CASA
(Carlos Drummond de Andrade)

CRIAÇÃO

A casa de Maria é alta e clara.
Não a projetam arquitetos,
construtores não a fazem.
O traço no papel
o concreto, o aço dos volumes
são circunstâncias alheias
à criação.
Maria cria sua casa
como o pássaro cria seu voo
clarialto.

No vazio das peças
móveis quadros tapetes
são o pensamento de Maria
esboçando linhas cambiantes
até fixar-se na ordem imprescritível.
Objetos deixam-se moldar
com amiga docilidade.
Ajudemos Maria (dizem eles
no dizer sem nome dos objetos)
a compor sua casa como de um baralho de sons
se compõe a estrutura musical.

Sobre a cidade,
sobre a fuligem das horas perdidas
e a angústia dos subterrâneos transpostos,
a casa é o rosto de Maria
à luz reencontrado.


O QUARTO DE MARIA

Toda a casa aqui se resume:
a ideia torna-se perfume.