Eu tinha que sentar pra escrever. O mote do editor dessa vez era: "Vale a pena ter um filho e apostar no progresso da sabedoria se perpetuando na história? Ou é melhor tirar a roupa e cair no carnaval sem hora, nem dia, nem corpo pra voltar pra casa? O mundo tá dividido entre os que estão acreditando no fim do mundo e os que estão acreditando que o mundo vai melhorar. Como é que é?". Eu ainda não tive um filho, e minha contribuição pra sabedoria se perpetuando na história até o presente momento se dá escrevendo. E vivendo a minha própria vida, claro. Em compensação, como anunciado no Ornitorrinco #23 - Carná, esse ano teve carnaval. Com hora e dia e corpo pra voltar pra casa - 5a feira de cinzas, aqui estou. Mas cabeça pra escrever, aí já é outro papo.
Então eu sentei na tv com um potinho de quinoa com legumes e uma limonada sem açúcar e zapeei até chegar em: "A história do mundo em duas horas". Taí, eu pensei, vamos ver como essa coisa de fim do mundo versus melhorar vem rolando nos últimos 14 bilhões de anos. Já tinha passado meia hora das duas então eu perdi o Big Bang, as moléculas se unindo, os seres aquáticos, cheguei já na hora em que os anfíbios desenvolveram os ovos com casca e assim conseguiram levar o mar junto com eles pra onde fossem, e puderam conquistar a terra. Em mais uns vinte minutos já tinha rolado uma extinção em massa que gerou o surgimento dos dinossauros, e eu descobri que durante 160 milhões de anos foram eles os responsáveis por evitar que nós, os mamíferos, ganhássemos espaço. Bicho que mamava naquele tempo era só bicho pequeno, e foi por isso que quando um asteróide gigante bateu na Terra nós - eles - sobreviveram: quem era grandão morreu, bye bye Tiranossaurus Rex, hello primatas. Em uma hora de filme os macacos já tinham virado homens, já faziam ferramentas rústicas, desenvolviam a fala e as pinturas nas paredes das cavernas.
Daí veio uma parte que eu nunca tinha entendido sobre a era do gelo e a povoação do planeta. Os continentes já tinham se dividido em dois, com o oceano no meio, e como é que neguinho, que habitava só a África, passou pro lado de lá/cá? Pois foi que a Era do Gelo trouxe frio mas ao congelar um tanto da água da Terra baixou os mares e fez surgir uma ponte de terra firme, e foi por ali que o pessoal se espalhou pra todo lado. Quando o gelo derreteu pimba, cada um no seu quadrado, se virando com o que tivesse à mão. A galera da África se deu bem porque lá tinha um clima legal pra plantar e animais que topavam ser domesticados, e aí adivinha? Surgiu a agricultura! E como os alimentos que eles plantavam tinham safras só uma vez por ano e ao mesmo tempo, neguinho teve que inventar um sistema de armazenamento, de contagem, uma organização pra não faltar comida e de quebra um exército pra defender o estoque. E aí pimba: vieram as cidades, de quebra as pirâmides e outras belezas. Em outros cantos com menos sorte a solução era seguir como antes mesmo: caça, pesca, cabaninhas.
Fiquei sabendo de um monte de coisa. Pense nos cavalos, que viviam nas Américas mas por alguma razão que não se explica foram totalmente extintos e só sobreviveram no mundo porque alguns deles tinha usado aquela mesma ponte e ido pros lados de lá, e só voltaram a pisar aqui quando Colombo chegou? E o açúcar? Que só existia na Ásia e foi parar na Europa com os cruzados mas não pegava nos campos de lá, e foi a principal razão pro tráfico escravo, pra servir de mão de obra nas plantações de cana por aqui? E o fato de que o cara que descobriu a pólvora estava tentando fazer um elixir da vida eterna e acabou fazendo o da vida mais curta? Mais ou menos tudo isso. Por aí. Alguma coisa assim. Foi muita informação, saber o mundo tão rápido deixa a gente meio tonta, e caramba, eu ainda tive que dar umas fugidas pra pegar sorvete e cozinhar uma salsicha que o cérebro gastou a quinoa prestando muita atenção nos primeiros quarenta minutos.
Aí no final das duas horas era o mundo de hoje, século 21, modernidades, Iphones, internet, papapá. 14 bilhões de anos. É tipo infinito, né? É tipo tentar medir o amor. Ou explicar ele. O mundo vai acabar? Vai melhorar? Ele já acabou e já melhorou tantas vezes. 14 bilhões de vezes. Ontem mesmo. Hoje. Agora. Quando uma menina que eu amo segura meu dedo indicador pra equilibrar seus passos ele melhora. Quando uma menina que alguém ama é violentada num ônibus em movimento ele acaba. No dia em que minha tia perdeu seu grande amor sem saber que levava na barriga um filho dele o mundo acabou. Quando essa menina nasceu ele melhorou. Quando alguém se apaixona, ele melhora. Quando alguém é humilhado, acaba. Quando eu desisto, ele acaba. Quando eu insisto, melhora.
Eu insisto.
#
Palavrinha do editor:
Ô, participe das nossas discussões e exposições de notícias relacionadas com o universo do ORNITORRINCO e o tema da semana. Basta acessar o nosso fórum no facebook: http://www.facebook.com/ornitorrincozine. Seus comentários serão muito bem lidos. Mais fácil que isso só cantar Ivete com a boca cheia de camarão.
#
"Carne do umbigo", "Bendita palavra" e "Substantivo feminino" são a versao impressa e bem acabada do que rola aqui. Quer me ter na sua mão em forma de livro e disco? Me escreve aqui!
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27.2.12
16.2.12
Ornitorrinco #23 - Carná
- OLHA-LÁ -
Tem a ver com música e com dança e fantasia, coisas que muito me aprazem. Tem a ver com alegria, e com liberdade e euforia, que também estão na lista do que agrada por aqui. E ainda assim carnaval não é pra mim. Nunca fui ao Nordeste nessa época, poucas vezes desfilei e o carnaval de rua do Rio me viu pouco e há muitos anos.
O 'não' tem a ver com sol na cuca, multidão e bebedeira, itens aparentemente imprescindíveis na folia carioca atual. Muita gente reunida sob os efeitos estimulantes do álcool embaixo de um sol de rachar pra mim não combina. Mesmo que a música seja boa, os figurinos divertidos, que seja possível dançar.
Eu gostava mesmo era dos carnavais de Andrelândia da adolescência. Lá na pontinha de Minas, uma cidade daquelas com rua que sobe, rua que desce, praça da igreja no meio, e bem em frente a casa da minha bisavó. Férias, feriado, fim de semana caprichado e lá ia eu brincar de ser mineira, mergulhar na cachoeira, passar frio na madrugada, cantar no meio da rua, deitar no banco da praça. Todo mundo bebia muita pinga com refri, grandes amores duravam uma temporada, eu bebia guaraná e comia ki-bamba, um chocolate pequeno recheado de marshmelow que só achava lá. E quando era carnaval, bailes no Clube Campestre.
A orquestra tocava a noite toda, marchinhas antigas e sambas atuais. Os cantores de terno, as crooners de vestido dourado fazendo passinhos pros lados e mexendo as mãos em sintonia. Era ridículo, era brega, era doce, era genial. A gente girava pelo salão, de roupa civil: jeans, casaco, tênis. Cheirava-se loló, enchia-se a cara, famílias dançavam na pista, beijava-se na quadra lá fora. Não tinha baiana nem bateria, não tinha fantasia, mas alegria sobrava. Tinha sotaque mineiro, o sol nascendo pela rua deserta enquanto a gente voltava a pé pra casa.
De dia tinha música na praça, e numa tarde, sábado ou domingo, o Bloco das Piranhas. Começava com todo mundo reunido numa casa e as meninas arrumando os meninos, gargalhadas e farra entre batons vermelhos e meias arrastão. Muitas pingas depois lá iam eles fazendo seus trejeitos rua acima. Confete, serpentina.
Isso já tem muitos anos. Andrelândia continua lá. Eu aqui. Todo ano tem carnaval, dizem. Tô pensando em tentar de novo. Ainda não tenho fantasia. Acho que vou de solteira.
_Maria Rezende
(então agora eu já tenho fantasia. peruca de cachos afro. máscara de penas. sombra laranja e roxa. rímel azul. batom laranja. aplique de cabeça rendado. saia rodada. é oficial. esse ano vai ter carnaval.)
29.1.12
Ornitorrinco #22 - Tempo livre, tem sim senhor
- OLHA-LÁ –
A gente precisa conversar sobre o tempo. O livre. Tem mesmo? Ou tem, mas acabou?
Alguns são claros. Olhar pro teto do quarto deitada na cama. Cozinhar sem pressa, só prazer, ouvindo a música que vem da sala. Conversar potoca com quem se ama e dar danoninho na boca de uma filha que não é sua. Mas a maioria me confunde. Ver a vida dos outros na tela do computador é? Ler revista de fofocas esperando a tinta agir nos cabelos, é? E escrever sobre o tema proposto pelo editor? Ou isso é tempo preso? E se é, quem foi que prendeu, pra gente pagar a fiança e poder soltar? Ah foi a gente mesmo, foi? Ah tá…
A
gente diz que ter ele é o que mais quer, mas eu não sei não. Porque
parece que assim que ele aparece a gente inventa ocupação. Tirar o
esmalte. Ligar pra amiga. Procurar online o adesivo pra porta do carro
que chegou da oficina desamassado mas sem decalque. Ir ao mercado.
Escrever sobre o tema proposto pelo editor.
Tempo
livre. Que tem, tem. Escrever sem tema. Olhar as unhas dos pés
coloridas dentro da banheira ao som de Leonard Cohen. Ler o jornal de
anteontem vendo o dia entardecer pela janela. Enfiar linha na agulha e
dar pequenos pontos em algum tecido reinventando tardes macias com
cheiro de casa de avó. Pintar os olhos sem festa à vista pra piscar
bonito na câmera do laptop. Juntar um poema com uma música com umas
imagens em movimento e inventar o novo.
Às
vezes é de manhã, roubando deliciosamente do dia útil lá de fora. Em
geral é de noite, roubando - com olheiras - da cama que chama ali
dentro. Eu gosto mesmo é quando é de tarde, e o céu azula daquele meu
jeito preferido enquanto eu não aproveito pra nada, e nem em olhar o céu
azulando eu penso. Só fico existindo, entre cheiros quentes, agulhas de
buracos finos, telas e páginas. Ou só o teto do quarto, macio,
derretendo, enquanto os olhos vão fechando no melhor dos sonos. Se as
algemas são minhas eu tenho a chave, se fui eu que prendi então eu
solto, que tudo que existe, existe melhor livre, e o tempo não havia de
ser exceção.
_Maria Rezende
(Texto do Ornitorrinco de hoje. Edição #22. Tema: tempo livre. Alegria especial pela estréia da querida Keli Freitas, atriz e escritora, mais uma a provar que fazer uma coisa só da vida está cada vez mais demodée entre as minhas pessoas. Só li o bicho agora porque passei a tarde numa pesquisa seríissima sobre o assunto, deitada num banco de cimento na praia do Leblon ouvindo o disco do Marcelo Janeci inteirinho, deixando o olho fechar sempre que ele queria e nos intervalos vendo passarem gaivotas em balés deliciosos ou em vôos solo cheios de atitude - quem são essas gaivotas que não querem o bando e seguem solitárias? e quem ensina as outras a dançarem tão bonito? -, crianças de casacos coloridos, casais de mãos dadas e algumas senhorinhas de cadeira de roda. Todo mundo exercitando a coisa e eu mais que todos, nem me mexia, só sendo ali no meio da rua, tinha tempo que eu não brincava de tempo livre desse jeito. Foi bem bom. Recomendo.)
21.1.12
A gente precisa virar caleidoscópio
A gente precisa conversar sobre o tempo.
Eu precisava dormir mas não rolou, esse vídeo na cabeça desde cedo querendo virar virtualidade compartilhável: o poema escrito pro Ornitorrinco, o chão girando em cores.
Virou.
Hoje sim #4.
Posso dormir agora?
Agradecida.
(foi outro dia, mas gostei do textinho então finge que)
15.1.12
Ornitorrinco #21 - A gente precisa conversar sobre
- OLHA-LÁ -
A gente precisa conversar sobre o tempo.
De como ele muda com o ângulo, com a luz.
Como tem jeitos, é manhoso, e nunca para,
a não ser pra entediar o sujeito.
Tem exatos trinta dias que:
.uma das minhas pessoas preferidas saiu de um avião prum velório
.eu me perdi num bairro novo
.vinho demais reinaugurou a receita
Parece que faz anos. Ou que foi ontem.
Setecentas e trinta horas ou um doze avos do ano
ou novecentas checadas de email ou dois torpedos
ou vinte e cinco minutos de mão dada numa igreja lotada.
Quem comanda a ampulheta?
E se eu soprar de leve o aviãozinho de papel pra passar logo?
E se eu agarrar com os dez dedos a lembrança de cada frase
pra durar um pouco mais?
A gente precisa conversar sobre o tempo.
Quantas luas dura o encanto no silêncio?
A dor da perda é conta-gotas ou catavento?
Ainda se chama espera quando se está em movimento?
_Maria Rezende
***
Esse é meu texto do primeiro Ornitorrinco de 2012. É a segunda vez que publico poesia, mas a primeira em que sai um poema novo, inédito, fresquinho, especialmente pro zine. Estamos na edição #21 e eu tô na parada desde a #10 como colunista, além de ter escrito como colaboradora na #03 um dos textos em prosa de que eu mais gosto, esse aqui ó.
Das grandes alegrias do ano passado foi ter entrado pra esse time, convidada pelo editor Gabriel Pardal, o maluco que arruma tempo pra nos instigar a escrever, organiza o zine todinho e ainda publica e divulga. Esse menino baiano eu conheci por blog e myspace e depois ao vivo em Sampa quando estive lá na Balada Literária. Criamos um laço delicioso, meio ímpar, que tem admiração no recheio e não tem cotidiano nas bordas - me dar conta de que não tenho o telefone dele, nem celular nem nenhum, me espantou e me fez sorrir esses dias. Sei que ele tem amor pela Clara e pelo Vicente, sei que ele escreveu o bacanudo Carnavália, vi ele bonito no palco do "Todos os cachorros são azuis", e trocamos emails e textos. Que bela amizade essa. A cada edição agradeço a ele o entuasiasmo e a parceria, e dessa vez publicamente, aqui no meu jornal privée de notícias amorosas.
E aí tem o luxo-só de ser parceira de tanta gente legal. Letícia Novaes, cantoracompositoraatrizmusa da banda Letuce, de quem eu sou tão fã e cada vez mais amiga, alegria que não desbota. Ramon Mello, que foi na minha primeira casa me entrevistar pro seu incrível blog Clik(IN) Versos, ele que é poetajornalistaatorautorcurador, no que foi o começo de uma amizade deliciosa e imperdível. E a Bruna Beber, poetíssima que eu admirei primeiro em livro e depois conheci em mesa de bar e que em 2011 virou amiga de vida real e me botou pra dançar com o seu irresistível "Fasceiro&Facinante" que eu não me canso de exaltar. E ainda tem o Domingos, o Emanuel, o Franco, o Julio. É muita coisa boa prum bicho só.
E pra quem ainda não sabe, a coisa funciona assim: você vai lá no site do bicho e assina, aí passa a receber na sua caixa postal, sem esforço nenhum, domingo sim domingo não. As edições são temáticas e é uma delícia ver o que sai da cachola de cada um de nós, um tema e tantas possibilidades. Num domingo de chuva, como hoje, nada melhor do que deitar na cama com o laptop no colo e ler o bicho todo de enfiada, me surpreendendo com os textos deles e com o meu, escrito sempre no último segundo e só lido quando chega a edição oficial. Pra quem quiser conhecer antes de assinar, lá no site tem as 20 primeiras edições, é só escolher um número e descobrir o que virá.
19.12.11
Ornitorrinco #20 - tiau 2011
OLHA LÁ
oito fragmentos, duas citações, algumas dicas & um poema
1. eu sou aquela que tem calma
gasto a pele do canto das unhas mais do que doses de uísque
2. O "pelo menos" é embaixo, o "ainda por cima" é mais.
O "pelo menos" é só consolo.
O "ainda por cima" é o sim ao quadrado, é alegria sobre alegria,
é o bom que não cabe num só fato.
O "pelo menos" é cesta básica.
O "ainda por cima" é camembert, e eu mereço esse luxo.
3. é aceitar o risco pra voar mais alto
é andar sobre brasas pra não pisar em ovos
é o inimaginável pra chegar no tão sonhado
4. a casa da saudade é a pessoa
5. porque não é justo que eu só reaja
(não comigo, ser de testa e tetas)
(não contigo, ombro macio, garras)
porque é assim devo domar meu medo
anti-domar-me
devo ser selvagem
6. eu não fujo mais de nada
mas não mergulho na piscina de desespero
eu sento na beirada e espero a dor chegar
7. estar sozinha é lindo e calmo
e talvez seja a coisa mais distante do mundo da solidão
essa formiga que pica o peito e joga a gente pra ser triste na rua
8. todo o tempo do mundo em que se amou alguém vai doer um dia
cada palavra, cada segundo
eu prefiro essa dor - longe, longe, muito longe
eu quero essa dor do amor demais
eu quero a inevitável dor do fim - mais, muito mais
que a infinita dor do não
&
1) "É tão humano transformar uma liberdade em dor
e é tão doce quando a vida vem te ensinar sofrimento te dando uma escolha,
e você roda e gira nas pequenas chamas da possibilidade.
- Mas é assim que você constrói seu castelo." (Tony Hoagland)
2) "Eu tenho tido a alegria como dom e em cada canto vejo um lado bom" (Mallu Magalhães)
&
*** 2011 ficou bem melhor com Everton Behenck, Letuce, Adrienne Myrtes, "Pitanga" da Mallu, Fernando Maatz, Elizabeth Gilbert, "Grande sertão: veredas", Drummond, Tony Hoagland, o "Faceiro&Fascinante" da Bruna Beber, Gabriel Pardal e esse Ornitorrinco.
&
"Se a vida te der um presente, aproveita"
Ela tem me dado vários, entre porradas e passos de dança
Eu mastigo tudo em movimentos concêntricos
Depois bebo chá quente pra digerir
É manhã de quinta-feira e chuvisca no bairro da Gávea
No Japão a radiação chega a Tokio e mergulha a cidade no medo
No meu coração a esperança sacode fitas coloridas
Meu coração é olimpíadas e meninas de malha justa em saltos perigosos e belos
A vida é cheia de sortes e de "como é que isso foi acontecer meu deus"
Tem até breves e adeuses
Tardes de sustos e noites iluminadas
Ela é boa pra mim e eu gosto dela
É pra ela que eu rezo toda noite
Pra ela eu peço e agradeço
Porque eu tô viva, porque eu sinto
E se às vezes é dor outras é esperança
Esse bombom alado cheio de sonhos no recheio
Pássaro transparente com a minha alma no bico
Esperança, esperança, eu te quero, eu te recebo, vem
Recadinho do editor:
O ano está acabando, estamos preparando a última edição do ORNITORRINCO de 2011 [#020], e pra você que perdeu algum número, colocamos todas as edições publicadas no nosso site. Pra quem já leu, vale a pena ler de novo.
Quem é de facebook e fica afim de participar do nosso grupo de discussão e novidades aleatórias, é só curtir a página do ORNITORRINCO
No próximo domingo [ou seja, no que passou] estaremos enviando a última edição do zine deste ano VINTEONZE. Agradecemos à todos os 200 assinantes pela leitura, participação, colaboração, divulgação, compartilhamento e outros amendoins. ORNITORRINCOé um zine de texto, tocado pra frente de forma independente pelo grupo NOMEDACOUSA. Os colunistas merecem entrada franca em todos os churrascos. O editor merece ticket pro Paraíso, mais acompanhante de sua escolha.
Para 2012 estamos preparando algumas surpresas para os assinantes. Especialmente para o aniversário de 1 ano do nosso bicho. Aguarde que vai ser um carnaval.
VAMOQUEVAMO
Todos os objetivos são loucos.
-
Gabriel Pardal
Editor
--
NOMEDACOUSA - brinquedos&bombas
http://www.NOMEDACOUSA.com
28.11.11
Ornitorrinco #18
Eu, Maria, em 15 de novembro de 2011, às 23:12, estou em casa - Gávea, Rio de Janeiro, Brasil - escrevendo. Isso agora. Às 23:11 eu lia emails. Às 23:08 eu via tv. Às 22h36 eu servia sorvete de café crocante num potinho pequeno de cerâmica azul que foi presente de uma das minhas pessoas preferidas no mundo, e às 22h38 eu comia o sorvete com uma colher de chá economizando os crocantes. É noite de um dia cinza e choveu com vento forte mas parou logo. Ontem fez calor e à noite eu chorei com gritos e soluços como nem lembro mais quando. Ontem teve Tylenol, Kleenex e Sorine, telefonema internacional, telefonema logo ali de Ipanema e palavras de conforto em mensagens digitais. Escrevo no quarto de hóspedes, que já foi escritório de outra pessoa preferida e seria (será?) quarto de bebê, na mesa e na cadeira onde outro corpo sentou tantas e tantas noites, mas não no mesmo teclado. Me impressiona a capacidade de reinventar a vida. Me impressiona a minha. Me espanta e me agrada o meu compromisso com a alegria, o meu desejo do bom. Secar lágrimas e dançar na cozinha. Tem ansiedade, tem dor, tem incompreensão, a vida. Mas tem muito mais mão dada, música, sorriso, cobertor. Outro dia uma das minhas pessoas preferidas dizia com olhos brilhando que eu era a melhor coloridora de figuras em preto e branco com pilot em álbuns de capa mole e páginas de papel grosso. Esses dias eu falei entre lágrimas de emoção e alegria no casamento dela. No dia em que alguém ler isso eu terei 33 anos pela primeira vez. Às 23:24 de 15 de novembro de 2011, em casa, na Gávea, Rio, Brasil, eu, Maria, escrevo e sinto. Eu, Maria, não me canso nunca de sentir.
(A edição #18 saiu domingo passado, mas ai, era meu aniversário e eu fiquei de cama e aí vim pra Recife e passei batida por esse texto que eu tanto gostei de escrever. O tema/título era "Você está aqui agora" e ficou demais a revista toda começando por "Eu, ..., em ..., às ..., estou em ... fazendo ...". Muito doido ver a ordem em que cada um escreveu e que idéias loucas passaram pelas cabeças com esse mote tão livre. Ficou massa. (sim, agora tô pernambucana, visse?).
(A edição #18 saiu domingo passado, mas ai, era meu aniversário e eu fiquei de cama e aí vim pra Recife e passei batida por esse texto que eu tanto gostei de escrever. O tema/título era "Você está aqui agora" e ficou demais a revista toda começando por "Eu, ..., em ..., às ..., estou em ... fazendo ...". Muito doido ver a ordem em que cada um escreveu e que idéias loucas passaram pelas cabeças com esse mote tão livre. Ficou massa. (sim, agora tô pernambucana, visse?).
ORNITORRINCO é uma publicação independente realizada pela fábrica criativa NOMEDACOUSA_BRINQUEDOS&BOMBAS ®.
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11.11.11
Ornitorrinco #17 - Bufunfa
OLHA-LÁ
Tem muita coisa que eu não entendo sobre dinheiro, a saber:
I. Como ele pode ser tão relativo (cruzeiro, cruzado, real) e absoluto (ovo, cama, água, sabão).
II. Como pequenas despesas variadas podem somar R$2.549 na conta do cartão.
III. Como tanta gente vive com tão pouco - haja imaginação!
IV. Como tanta gente vive com tanto - haja imaginação.
Mas o que mais me intriga é:
Por que cargas d'água é feio falar sobre dinheiro?
Razões históricas à parte, não consigo entender que num mundo que gira tanto em torno dele, um mundo no qual por mais que se questione o valor excessivo dado a ele é impossível questionar sua importância na vida cotidiana, por que é que nesse mundo segue sendo feio falar de dinheiro?
Por que o constrangimento em negociar salários?
Por que a vergonha em assumir quando se está realmente duro?
E por que não dizer quando se está ganhando bem?
É feio falar sobre dinheiro, e a gente entuba as dificuldades e as alegrias que ele traz, e se ferra ganhando menos do que merece porque é feio falar sobre dinheiro.
Porque é feio falar sobre dinheiro a gente diz "tudo bem" quando avisam que a grana daquele trabalho vai atrasar, e não diz "Querida, é que meu condomínio vence amanhã, e as contas de luz e gás, e a minha conta tá zerada, e eu dependo dessa grana pra me manter esse mês, então não, não tá tudo bem", porque ora bolas, quem é que precisa de dinheiro?
Quem é artista então sofre mais - pressupõe-se que se o seu trabalho é criativo e você ama o que faz não é preciso receber.
Então o técnico de som é pago, o iluminador, o caixa do bar, o garçom... Mas e o cantor? O ator, o poeta, o DJ? Olha como ele tá se divertindo!
Às vezes parece que a gente trabalha só porque gosta e o dinheiro é bônus track.
Não, não é.
Trabalho é trabalho, talento é talento. Amor pelo que se faz é sorte.
E o dinheiro é a cenoura estendida na frente do nariz tantas e tantas vezes, porque no pote de ouro no fim do arco-íris moram a viagem sonhada, a parcela do apê, o vestido novo ou o jantar naquele restaurante.
Pra além de "Como o Rio anda caro!" e de "Nossa, como eu tô dura" - frases cotidianas da minha geração - o dinheiro devia ser assunto: Como você ganha? Como você gasta? Como você guarda?
Quero trocar dicas de investimentos como trocamos de bares ou de artistas novos pra conhecer. Conversar sobre grana com meus filhos e pensar juntos em como usá-la.
Falar sobre dinheiro, como o que ele é, um pedaço importante da vida, não a sua razão, não uma bobagem, não a engrenagem mas a gasolina, não o desenho mas o compasso, não o poema nem as palavras – papel e caneta, página em branco pra gente escrever.
|Maria Rezende
(tá, eu sei, ando abduzida pelo mundo animal e nada de poemas nem notícias nem nada que não sejam os textos do zine. mas ai, tem sido tão bom escrever assim, com data e tema e esse povo bacana junto que mesmo sem ganhar um tostão a gente escreve e fica feliz. assinem lá que é de graça.)
29.10.11
Ornitorrinco #16
OLHA-LÁ
Que alegria é a melhor herança que deixarei pros meus filhos.
Que terei filhos.
Que picar legumes em pedaços bem pequenos ouvindo música equivale a meio lexotan.
Que banho de banheira não é luxo, é saúde.
Que meu desejo é meu e eu posso escolher (e frequentemente escolho) devotá-lo a uma só pessoa, mas não o darei de presente com laço de fita.
Que eu não quero também receber o desejo de ninguém em embrulho prateado ou caixa enfeitada.
Que sendo assim não há "traição" se um dia, por acaso, alguém jogar o desejo em outro alguém que não aquele, o preferido, o escolhido.
Que é absolutamente libertador que seja assim.
Que biscoito de polvilho com doce de leite é uma combinação dos deuses.
Que a melhor utilidade da secretária eletrônica, em tempos de celular e e-mail, é guardar eternamente a voz das gentes queridas pra gente ouvir quando dá saudade.
Que o amor da minha família, paimãeirmãosavós, é uma rede de proteção com superpoderes.
Que mesmo assim às vezes tem sofrimento - a vida tem partes.
Que talco antes de dormir é o primeiro passo pra uma noite suave.
Que comida antes de dormir é a senha pros piores pesadelos.
Que a verdade do que se sente é fugidia e pode levar um mês pedindo todo dia pra gente conseguir força pra enxergar.
Que tudo que é demais pesa, até o amor, e que dói descobrir isso.
Que o amor é bom até quando pesa, e que alivia descobrir isso.
Que nada, nem dor nem alívio nem medo nem nenhuma parte, me desanimam dele - o amor.
Que eu adoro ser quem sou, e agradeço à vida todo dia por esse presente.
|Maria Rezende
***leia tudinho aqui ó
9.10.11
Ornitorrinco #15
OLHA-LÁ
MUZGA
Em casa quase nunca. Quando, quase sempre cd, as caixinhas de plástico com os dentes do miolo já um pouco quebrados, o círculo reluzente impresso em cores e o som ex-moderno comprado pelo pai no freeshop cujo controle remoto minúsculo e lindo nunca funcionou. Às vezes laptop: músicas desconhecidas saídas do HD externo recheado pelo amigo querido que ouve de tudo, a rádio online que toca a música do seu estado de espírito, o som dos amigos no myspace.
No carro sempre. Rádio. Com jabá ou sem jabá, o espaço pro acaso. Músicas antigas que lembram épocas, vozes novas, aquela pra cantar junto, aquela pra chorar no trânsito, aquela péssima que faz trocar correndo de estação.
Nem sempre o que impulsiona o dedo no dial é isso, claro. Às vezes, quase sempre, muito, rola o proibidão, aquelas que dizem o que a gente não pode ouvir naquela hora, que jogam o pensamento prum lugar onde não se pode ir ali, assim, no susto, e a fuga estratégica pro mais longe possível daquele som é necessária e honrosa. De vez em quando o sentimento é pego pelo pé e quando se vê as lágrimas já estão na pose, prontas pro mergulho de cabeça, mãos esticadas na frente do rosto na beirinha da piscina dos olhos e aí é se entregar. Chorar no carro é bom, sabe? A individualidade máxima, você e sua máquina de ferro, entre gentes em máquinas de ferro, sua emoção preservada sem o silêncio da casa vazia.
Mas música é mais alegria, e ultimamente ela tem nome: Faceiro&Fascinante - coletâneas de axé-maravilha organizadas pela poeta parceira de zine. E tome dançar "Afreketê" na sala ensolarada de manhã antes do trabalho, e tome rebolar com Chico César "Quando saio na rua com meu filá escuto logo: Jimmy Cliff", segurar os quadris ao som do fone de ouvido que diz "prefiro uma cerveja a ti" e um sotaque pernambucano que fala "Betinha" com aquele T que é pura delícia.
Muzga suave, pra doer joelho ou cotovelo, pra ficar rouca, pra perder a linha, entorpecente, emocionante, vibrante, pra dar vexame na rua, pra andar, pra dormir, pra acordar, pra fazer sexo, pra fazer sucesso, pra ninar.
|Maria Rezende
(o tema era música - precisa dizer?
pra ler os coleguinhas
e seus textos deliciosos:
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