Porque hoje é sexta-feira e eu acordo cedo pra ir à terapia e às 9h da manhã passo pela Princesa Isabel, em Copacabana, e no sinal tem um trio de meninos que fazem balabarismo com bolas amarelas, um em cima do outro, uma pirâmide sorridente e descalça, e todo o bem da terapia quase vai por água abaixo dentro do meu carro condicionado e subitamente ostentador.
"Criança de rua sem circo na praça quinze.
Criança malabarista de sinal,
de bola de tênis voando baixo,
rolando longe no asfalto molhado,
na poça vermelha do sinal fechado.
Criança dessa tem o circo é dentro dela:
é trapezista saltando no ar sem rede de proteção;
é palhaço de si, rindo do que não há,
fingindo ser ensaiada a puxada de cadeira que a derruba,
a tinta na cara feito máscara que a torne personagem
e só assim capaz de suportar esse número.
Criança dessa é bailarina sem roupa nem sombrinha
se equilibrando descalça na linha fina demais da vida,
o leão solto da jaula pronto pra dar o bote
e ela mágico sem cartola de onde tirar o truque derradeiro que a salve.
Pula o leão, vai-se a criança engolida numa só bocada.
De pé, o respeitável público aplaude e come amendoim."
"Carne do umbigo", "Bendita palavra" e "Substantivo feminino" são a versao impressa e bem acabada do que rola aqui. Quer me ter na sua mão em forma de livro e disco? Me escreve aqui!
25.6.04
21.6.04
Reconhecimento & glamour

Muito trabalho, muito desgaste, muito suor e algumas brigas depois, o casal tem sua recompensa: essa é uma foto de making of da nossa sessão de fotos pra Revista Trip, que está fazendo um editorial de moda pra edição de julho cujo tema é novos talentos cariocas e chamou a gente pra fotografar. Finalmente um pouco de glamour na vida! Bom, fora a coluna que quase quebrou pra ficar nas poses incríveis que o fotógrafo pediu, foi um luxo absoluto. Um monte de gente bacana e um reconhecimento que a gente busca há um tempo, e que agora começa a vir. Tenho certeza de que as fotos que o Murilo, fotógrafo, tirou vão sair lindas, mas essa do Leo da moda eu achei genial, que eu adoro esses desfocados do movimento. Bom, pra quem quiser conferir, nas bancas dia 5 de julho!
14.6.04
amazônia
Faz dias que não venho aqui, nem escrever nem ler nem fazer nada. Estou em Manaus, vindo de Belém, trabalhando muito e usando pouco o computador, uma mudança boa na verdade...
Não escrevi poemas, não li poesia, apesar dos planos iniciais. Engraçado como a produção não tem mesmo nenhuma lógica: parece que viajando novas idéias vão vir, sensações novas, e elas vêm, e muito, mas não em verso até agora. E então, penso, pra que escrever aqui? Não era só pra versos? Sei lá! O espaço é meu, né? E parecia um desperdício estar na Amazônia e não contar pra ninguém...
Não escrevi poemas, não li poesia, apesar dos planos iniciais. Engraçado como a produção não tem mesmo nenhuma lógica: parece que viajando novas idéias vão vir, sensações novas, e elas vêm, e muito, mas não em verso até agora. E então, penso, pra que escrever aqui? Não era só pra versos? Sei lá! O espaço é meu, né? E parecia um desperdício estar na Amazônia e não contar pra ninguém...
1.6.04
Te vejo na Laura ontem à noite

Ontem à noite foi a segunda edição do Te vejo na Laura, evento multimídia que eu e Rodrigo fazemos na Laura Alvim. Essa foto é do Pedro Secchin, nosso fotógrafo oficial, e eu aproveitei que a noite era em homenagem às mulheres pra dizer um poema meu antigo que eu adoro. Pra quem perdeu ontem ao vivo, agora vai ele por escrito:
Uma grande mulher, ele me diz.
Ele me olha com olhos de ver
e lê em mim o que de tão lá dentro
acaba sempre ficando de fora,
entrelinha sutil demais
pra percepção apressada que o mundo tem de mim.
Ele me lê e me sente, me capta e me cria também:
me abre em versos
me soa em rimas
me dá palavras novas
me toca como música em meus ouvidos.
Com seus olhos e boca me deu lugar no mundo dos sentidos com que sempre sonhei.
Com suas palavras me fez poeta,
presente melhor que já ganhei,
presente que recebo e repasso a cada dia
desse ofício de escrever a vida em versos
e dar-lhes voz, palavra dita.
É ele quem me alarga e me expande,
quem me vê grande
e gosta
e pede mais.
Eu sou uma mulher do tamanho que ele me faz.
20.5.04
primeiro poema
Escrevi esse título aí em cima e depois pensei: que coisa mais forte, primeiro poema... Eu ia só colocar um poema aqui hoje, e como ia ser o primeiro do blog escrevi isso, mas daí achei tão sério que pensei em colocar o meu primeiro poema - ou o primeiro que me fez pensar "nossa, será que eu posso ser poeta?" e desencadeou todo o resto. Mas confesso que não saberia precisar exatamente qual foi...
Isso me fez pensar numa conversa que tive ontem com a Elisa Lucinda, minha amiga e mestra, sobre títulos e como eles podem ampliar brutalmente o entendimento de um poema. Eu não sei brincar de título, e no meu livro os poemas vêm a seco mesmo, por falta de opção. Até o título do livro foi uma novela, e eu estava decidida por busca, s.f., sendo s.f. substantivo feminino, naqueles moldes de dicionário, sabe? Minha mãe achava que parecia futebol clube, e a Elisa achou que parecia Cristiane F, drogada e prostituída, e acabou que foi ela que me deu a chave: pra quê o busca? substantivo feminino era o suficiente, e não naquelas ridículas abreviações, mas de forma clara e direta. Assim ficou e eu sou eternamente grata às críticas, porque a-d-o-r-o o nome do livro, que eu acho que combina com ele e comigo.
Voltando ao título do post, vou colocar aqui então o primeiro poema do substantivo feminino , que aliás é o meu único poema feito sob encomenda. Eu estava em Fortaleza trabalhando e recebi um telefonema da Thiaré, amiga do meu namorado, me pedindo um poema sobre mulher pra abrir uma noite que ela estava organizando no Cep 20.000. Eu já estava com umas idéias e escrevi esse poema que acabou abrindo não só a noite do Cep mas também o meu primeiro livro, sendo portanto um poema com vocação pra aberturas...
Uma mulher é uma mulher ainda que.
Palavras e formas não comportam o conteúdo.
Uma mulher pode ser um jeito
Uma costela ou um defeito.
Uma mulher transborda pelos cantos
Enche as medidas
Contorna o desafino
Toca punheta e toca sino.
Uma mulher pode ser um grito
Uma barriga
Um precipício.
Uma mulher pode ser um abismo ou um porto
E pode ser os dois
E é.
Isso me fez pensar numa conversa que tive ontem com a Elisa Lucinda, minha amiga e mestra, sobre títulos e como eles podem ampliar brutalmente o entendimento de um poema. Eu não sei brincar de título, e no meu livro os poemas vêm a seco mesmo, por falta de opção. Até o título do livro foi uma novela, e eu estava decidida por busca, s.f., sendo s.f. substantivo feminino, naqueles moldes de dicionário, sabe? Minha mãe achava que parecia futebol clube, e a Elisa achou que parecia Cristiane F, drogada e prostituída, e acabou que foi ela que me deu a chave: pra quê o busca? substantivo feminino era o suficiente, e não naquelas ridículas abreviações, mas de forma clara e direta. Assim ficou e eu sou eternamente grata às críticas, porque a-d-o-r-o o nome do livro, que eu acho que combina com ele e comigo.
Voltando ao título do post, vou colocar aqui então o primeiro poema do substantivo feminino , que aliás é o meu único poema feito sob encomenda. Eu estava em Fortaleza trabalhando e recebi um telefonema da Thiaré, amiga do meu namorado, me pedindo um poema sobre mulher pra abrir uma noite que ela estava organizando no Cep 20.000. Eu já estava com umas idéias e escrevi esse poema que acabou abrindo não só a noite do Cep mas também o meu primeiro livro, sendo portanto um poema com vocação pra aberturas...
Uma mulher é uma mulher ainda que.
Palavras e formas não comportam o conteúdo.
Uma mulher pode ser um jeito
Uma costela ou um defeito.
Uma mulher transborda pelos cantos
Enche as medidas
Contorna o desafino
Toca punheta e toca sino.
Uma mulher pode ser um grito
Uma barriga
Um precipício.
Uma mulher pode ser um abismo ou um porto
E pode ser os dois
E é.
18.5.04
começando
Esse é o ano das inovações tecnológicas: câmera digital, um blog pro te vejo na laura - evento cultural que eu faço na laura alvim com o rodrigo bittencourt, meu namorado e músico (músico público, não só meu). Agora um blog só pra mim, projeto que eu já ensaiei e nunca me animei a insistir. Subitamente fica fácil e excitante, e agora as noites têm menos horas de sono e a tela do computador virou morada (mirada) constante.
Sempre tive um pouco de pudor de publicar meus poemas num blog. Sou romântica com poesia, e embora possa escrever de forma bastante despudorada gosto de poema em roupa de papel, gosto de livro, de ter na mão, da relação sensual com aquele objeto. Agora me despudoro e decido ficar mais "virtual". Poemas na tela. Ao toque não da página, mas dos botões do teclado. Talvez seja bom. Quem passar por aqui e se animar a voltar vai comigo na viagem...
Sempre tive um pouco de pudor de publicar meus poemas num blog. Sou romântica com poesia, e embora possa escrever de forma bastante despudorada gosto de poema em roupa de papel, gosto de livro, de ter na mão, da relação sensual com aquele objeto. Agora me despudoro e decido ficar mais "virtual". Poemas na tela. Ao toque não da página, mas dos botões do teclado. Talvez seja bom. Quem passar por aqui e se animar a voltar vai comigo na viagem...
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