27.5.07

poemas, poemas e mais poemas

A vida de cinema anda me consumindo. E eu nem reclamo, porque descobrir que o ganha-pão é também um grande prazer tira qualquer traço de chatice dessa fase da vida. Mas a poesia anda devagar, e as postagens aqui no blog mais ainda.

Então pra me redimir, lancei mão de um truque: tive a pachorra de rever todos os posts desses três anos de mariadapoesia, um por um, e separei todos os que têm poemas dentro. E olha, são muitos! Oba!

Aqui vai então, pra quem sente falta da minha produção poética, o mapa da mina dessa poeta sumida, meu "best of digital"...

- uma mulher

- criança de rua

- uma grande mulher

- pro inferno

- morrer

- poema infantil

- pau mole

- temor

- harmonia

- soft dick (pau mole em inglês!)

- filho

- medo

- escrevo

- uma mulher: traduções

- risco

- tatuagem

- dentro de mim

- casamento

- defeito

28.4.07

sonho nublado


Não me entendam mal, isso não é de modo algum uma reclamação. Pela primeira vez na minha vida profissional, tenho quatro trabalhos de montagem ao mesmo tempo. Nunca tive quatro trabalhos juntos. Acho que em 2006 inteiro eu tive quatro trabalhos. Talvez cinco. Subitamente, em março/abril/maio de 2007, quatro trabalhos.

Não, eles não vieram assim, todos de uma vez. Primeiro apareceu um, que era pra ser curtinho mas ficou longo, e eu fiquei feliz: experiência e dinheiro, oba! De repente, outro convite, esse vindo de uma amiga e com o desafio de aprender novas tecnologias. Maravilha: mais experiência, mais dinheiro, e muito prazer no percurso! Perfeito! Subitamente um atrasadinho furou a fila: era pra já estar pronto há tempos, mas chegou bem nessa hora. Ok, matei no peito e bola pra frente. Aí veio o quarto, esse querido, inegável, inadiável... Caí dentro!

E eu que temi pela incerteza de trabalho em 2007 agora estou assim, feliz e louca, sonhando acordada com dias nublados como esses aí de cima, em que nem o prazer oprime...

14.4.07

10.000

Em tempos de contagem obcessiva na cidade (do gol 1.000 do Romário às 1.000 pessoas deitadas no calçadão de Copacabana representando os mortos de 2007), não podia deixar de registrar que o mariadapoesia atingiu a marca memorável de 10.000 (dez mil!) visitantes nesse mês de abril.

São quase 3 anos (estreei o blog em maio de 2004), e cada vez gosto mais de ter esse espaço pra deixar minhas impressões sobre o que vejo e vivo e encontrar virtualmente gente que a correria da vida às vezes não deixa encontrar ao vivo.

Que bom que vocês também gostam de passar por aqui, e pra comemorar essa marca histórica deixo um pedido: quem ler esse post pode deixar um recadinho? É que o números de visitantes é sempre muito maior do que o número de comentários, e eu morro de curiosidade de saber quem são os anônimos que me lêem... E aproveito pra dizer que quando eu não respondo aos comentários não é por falta de vontade não: esse meu provedor de comentários pede pra vocês deixarem o email mas não me mostra, então fico sem ter como entrar em contato. Então fica a dica: deixem o email no corpo da mensagem, que eu juro que respondo!

Topam?

Aí embaixo o documento oficial que comprova os 10.000!

maria da poesia
(s20exibida)
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This Week ...................... 213

3.4.07

na TV

Passei na tv ontem e nem sabia! Acabei de receber um email do Cesar Miranda, que eu não conhecia mas que me conheceu ontem no Canal Futura. O programa é o Ao Ponto, comandado pelo Jairo Bauer, voltado pro público jovem, com alguns convidados e uma platéia que participa ao vivo. O tema era bissexualidade, ou como diz o nome da edição, Total Flex. Como muita gente me considera uma poeta erótica - apesar de eu não entender exatamente o porquê - me convidaram, achei ótimo e fui!

Foi no fim do ano passado, eu estava cheia de trabalho e quase tive que desmarcar, mas quando cheguei lá percebi que a correria tinha compensado: os convidados éramos eu, a compositora Lucina e o Caetano Veloso. Eu tinha ido no show dele um pouco antes, estava mais admiradora do que nunca, e confesso que achei muito chique ser convidada da mesma edição que ele.
Falei o poema "uma mulher é uma mulher", participei de um debate surpreendentemente bom, e descobri um pouco mais porque o Caetano é o cara: ele topa fazer o programa, chega mais cedo que eu pra gravar as músicas, bate papo com os meninos com um interesse enorme e genuíno, fala pouco e ouve muito, e ainda por cima tem a delicadeza de se lembrar de mim quando acabo o poema, e elogiar as minhas reticências.

(foto de Laura Caldas)

Bom, como eu só soube com atraso e perdemos a estréia do programa, aí vão os horários de reprise essa semana. O Futura é o canal 32 da Net.

4a feira, 04/04, 23h30

sábado, 07/07, 20h30

domingo, 08/04, 17h30

26.3.07

minha vez

casamento

Poema feito pra Carol e pro Bruno, depois de muita polêmica familiar sobre o que é afinal um "casamento".

Pode ser uma prisão ou uma fonte.
Pode ser um deserto ou uma ponte.
Um mundo novo ou um ponto final.

Pode ter loucura, pode ter dureza
pode ser difícil e uma delícia
pode ter tristeza, tédio, encantamento
tudo o que há de bom e um pouco do ruim.

Pode ser esperteza ou sonho
pode ser insistência ou sorte
pode ter festa animada ou só um olhar sincero
porque casar não começa quando se casa.

Casamento é quando a parceria é tão boa
que não precisa bolo, não precisa roupa
pode ser no padre, no juiz ou só no banco
porque o sim mora dentro da felicidade dos dias.

Casar é ser feliz sozinho, mas preferir junto.
Por isso a festa.

21.3.07

poema pós-bbb

Ando cansada de tantos consertos.

Tudo na casa dá defeito, inclusive a dona.

Carrego tristezas como os franceses carregam baguetes,
sem proteção contra a poeira da rua e o suor das axilas.

Tenho medo do que desconheço
e me estranho no que me é difícil.
"Tentativas e erros" é a expressão correta:
os acertos ficaram pra próxima vida.

Vivo num corpo que não me escuta
e a eterna luta é fazer da voz carne
e da dor insistência e êxito.

Me alimentar do que me frustra,
digerir cacos de vidro pra parir,
em meio a espasmos,
alguém em quem eu me divirta,
uma mulher que exista,
e diga a que veio.

16.3.07

04:00

É isso que me diz o relógio do computador, pra minha surpresa e desespero. Há tempos não vejo essa hora em relógio nenhum, e queria ver era nos relógios da rua em noites animadas, não nessa tela azul e fria que eu não consigo largar no dia de hoje.

Não reclamo: trabalho é ótimo, e eu nunca sei quando o próximo vai chegar, então aproveito. Esses tempos, no entanto, chegaram vários juntos me atropelando, daí a madrugada insone labutando...

Os projetos vão de espetáculo de poesia pra inscrever em concurso público à edição de um promo de um longa sobre Capitães de Areia, passando pela assistência de montagem prum show do Waldick Soriano. Manhã, tarde, noite.

Não reclamo. Venham, trabalhos, venham todos, eu espero acordada...

10.3.07

Bruna Beber


No último post falei sobre o Ramon Mello e o blog dele, Click (IN)VERSOS, e hoje venho falar de uma das entrevistadas mais bacanas de lá, a Bruna Beber. Conheci a poesia dela por dica do meu pai, que leu a matéria do Prosa e Verso quando A fila sem fim dos demônios descontentes foi lançado pela 7Letras. Gostei de cara do clima rock n´roll sem exageros, uma voz autêntica e que não quer só chocar, uma menina de 23 anos poeta das boas mesmo.

Quando li a entrevista dela pro Ramon fiquei com vontade de aproveitar a ponte e conhecer ela, e acabou que depois de emails de todo os lados ontem à noite fomos todos pro Diagonal bater papo e apresentar os rostos uns pros outros.

Foi uma noite gostosa de novidade, e é tão raro realmente ficar amigo de quem a gente lê e admira de longe que fiquei muito feliz com o encontro. E pra vocês entenderem o porque da admiração, um dos poemas do livro dela que eu acho incrível:

você quer um dia
ser estudado
numa sala de aula qualquer
por uma turma de pirralhos
que vão zoar suas roupas hoje modernas
falar que o que você escreveu é chato pra caralho
fazer chifrinho na sua foto
interrogação.

queira morrer antes
comendo caramelos
a estranha paixão de Hitler
caramelos.

6.3.07

Click (IN)VERSOS

tempos atrás falei aqui da entrevista que dei pro Ramon Mello, publicada no site Click 21. O Ramon é escritor também e fez a mais longa entrevista da minha breve vida pública, o que me fez muito feliz...

Mas o caminho pro site era difícil, e muita gente reclamou que não conseguiu ir lá. Pois agora a coluna dele, Click (IN)VERSOS, virou
blog, e lá estão a minha entrevista e a de um monte de gente bacana. Eu recomendo!

4.3.07

que vexame, meu deus!

Eis que decido escrever sobre os romances enormes e deliciosos que li nos últimos tempos. Eis que cito quem me deu o primeiro deles de presente, pra agradecer publicamente à amiga. Eis que, vexame, erro de amiga...

Venho então me desculpar, corrigir o erro e explicar: quem me deu Um defeito de cor não foi a Regina Zappa, foi a
Olga de Mello, também jornalista e amiga querida. A confusão se deu porque passamos um fim de tarde aqui em casa, nós três e o Eduardo Graça, amigo querido que mora em Nova Iorque e junta todo mundo quando está por aqui. Esse ano dei a sorte de ser a anfitriã do moço, e como era aniversário dele Olga e Regina vieram lanchar. E eu, que não era aniversariante nem nada, terminei a noite com dois presentes: o romanção dado pela Olga e as obras completas do João Gilberto Noll, dadas pela Regina - diga-se de passagem, outro catatau.

Resumo: me dei completamente bem, ganhando dois livros numa noite, por excesso de presente acabei cometendo essa indelicadeza com a Olga, que eu reparo indicando a todos o
Arenas Cariocas, onde ela mostra o seu talento aqui na rede.

28.2.07

grandes livros grandes

Fevereiro foi o mês das sagas femininas na mansão Caravelas.

Tudo começou quando eu ganhei da Regina Zappa, sem ser aniversário nem nada, o catatau Um defeito de cor. Apesar de ser leitora voraz desde pequenininha, nunca gostei muito de livrão, até porque gosto de ler deitada e livro grande é complicado de segurar na cama, cansa os braços rápido, me dá preguiça. Pra piorar, confundi o livro com "Não somos racistas", do Ali Kamel, um livro jornalístico que dizem ser muito interessante, mas fora poesia meu negócio mesmo é romance. O livro ficou esquecido na mesa da sala até que eu olhei pra ele um dia e li embaixo do título: " um romance". Romance. Eu gosto muito. Vou ver qual é a desse calhamaço.

Pronto, fui definitivamente fisgada. A autora, Ana Maria Gonçalves, escreve um prólogo irresistível contando como foi levada a escrever o livro, e não sei se é tudo verdade nem quis saber: parti pro capítulo 1. A narradora, Kehinde, é uma africana que é trazida pro Brasil como escrava no começo do século 19, e conta a sua vida da forma mais saborosa que eu me lembro de ter lido nos últimos muitos anos. Fiquei obcecada pelo livro. Lia em qualquer brechinha do dia, e até o olho doer antes de dormir. Falava dos personagens com os amigos, sonhava com eles. A saga de uma mulher e sua família na África selvagem e no Brasil escravagista, um super romance pra ninguém botar defeito. Nesse nível: a tv da casa quebrou, e pensei: melhor, mais tempo pra ler. Sentiram a obcessão?

Quando o livro acabou fiquei orfã. Um vazio imenso na casa sem televisão. Foram 950 páginas de intimidade. Aquela gente, já tão íntima, guardada dentro da capa dourada. Que diabo de livro vai substituir esse, meu deus? Tinha 10 dias de carnaval numa praia distante pela frente, impossível encarar sem um romance. Procurei nas prateleiras, pedi dicas pros amigos, mas foi só na livraria do aeroporto que achei: Cisnes Selvagens, da Jung Cheng. A saga de três mulheres na China, do começo do século 20 até os anos 80. Outra família, outros tempos, mas uma saga familiar de peso: 650 páginas, e isso em edição de bolso! Era tudo que eu precisava!

O livro é incrível. Incrível no sentido de sensacional e também no de inacreditável, ainda mais pra quem, como eu, não sabia nada sobre a história da China nessa época. Os costumes tradicionais, a ocupação pelos japoneses, a Revolução Comunista e seus primeiros dias de glória, a loucura de Mao e a crueldade do Partido contra seus próprios membros, a destruição de tudo que pode ser chamado de cultura pela Revolução Cultura, e o apagamento de tudo que fazia da China a China: proibidos os jardins, as flores, as casas de chá, as roupas coloridas, os longos cabelos, a música e a dança, a beleza dos templos, o respeito aos mais velhos. Em alta a violência, a destruição, os tribunais de acusação em que todos apontavam os dedos para todos, e a dita igualdade socialista terminando em uma divisão da população em 23 categorias, com rígidas determinações do que era permitido a cada uma. No meio disso, a autora, cujo pai era alto dirigente do partido, passa pelos dias de tranqülidade e pelo horror que toma o país, e conta tudo deliciosamente.

Lá se foi a minha implicância com livros grandes. Agora tô viciadinha: menos de 300 páginas nem me apresente que eu não dou bola...

10.2.07

bendita palavra malvada

Pois dentro de mim não é o melhor lugar pra se viver.
Não é nem um bom lugar.

Dentro de mim moram feras mortais agonizando do próprio veneno.

Dentro de mim um gigante agüenta o mundo nos ombros e uma puta procura o espartilho.

Tem uma velha senhora louca pra chupar buceta e um mágico ilusionista que tira sorrisos da cartola.

Teve um tempo em esse dentro parecia com o fora, e era um ótimo lugar pra uma moça como eu era.

O depois é uma armadilha:
Ele dura tantos tempos
Passeia tão sorrateiro
Que só num hoje distante a gente consegue enxergar.

Dentro de mim não é mais um bom lugar pra se viver.
Ainda vai ser?

3.2.07

livro novo

A idéia de capa aí embaixo é pro bendita palavra, meu livro novo que ainda não tá pronto mas que espero que saia esse ano. Tô feliz com ele porque tenho escrito poemas mais "malvados", uma mistura que eu gosto de doçura e dureza, como esse aqui:

As coisas boas são prisões sem grades
Pessoas boas são carcereiros sem chaves
O conforto é uma corrente que ata aos pés bolas imensas
Felicidade é parede encobrindo o outro lado

Bons poemas são veneno: afastam palavras novas
Caminhos cheios de setas não dão em praias desertas
O acerto de anteontem mata o risco dessa tarde
O sucesso é um uniforme que te obrigam a vestir

E o que é bom vira uma sina
Mantém o mundo de cabeça pra cima
E você preso nesse lugar.

22.1.07

Humaitá pra Peixe



Taí uma foto do anunciado show do Rodrigo Bittencourt no Humaitá pra Peixe, no Sergio Porto, nessa sexta-feira passada. Uma banda de primeira, um show com alma e corpo, enfim, uma bela estréia pro Coleção de Amores! Quem não foi perdeu, e espere que eu aviso das próximas!

5.1.07

em 2007

Feliz ano novo pros meus leitores virtuais! Começo o ano apostando todas as fichas no edital da Petrobras que pela primeira vez abriu pra literatura, e vou inscrever meu bendita palavra e ficar torcendo...

Já Rodrigo tem coisas mais concretas pra comemorar, e eu anuncio! A primeira é a estréia do show do disco novo dele, Coleção de Amores, dia 19 de janeiro no Humaitá pra Peixe, no Sergio Porto. O festival é super bacana e tem a cara do verão carioca, mostrar lá as músicas novas vai ser genial! A banda é uma atração à parte: Nilo Romero no baixo (que é também o produtor do disco), Sacha Amback no teclado, Billy Brandão na guitarra, Damien Seth na programação, Shilon no violão e Vidalt na bateria.

Logo depois, dias 2 e 3 de fevereiro, eles abrem pro Nando Reis no Circo Voador!

Ou seja: 2007 começa animado aqui pra nós. Espero que pra todo mundo também!



25.12.06

Meu Natal 2006

(vovó e o Papai Noel, em foto inédita e fundamental)





São 3h da madrugada, cheguei da festa de Natal descrita extensiva e emocionadamente no texto aí embaixo, e o sono ainda não me pegou de jeito, então vim parar aqui. Engraçado: esse post "Natal com sentido" começou como um desejo de reclamar do Natal e acabou virando quase uma ode a ele, reavivando minhas lembranças mais antigas e gostosas. Por conta dele recebi mil comentários emocionados da família, tanto que acabei lendo ele hoje à noite durante a festa, antes do jogral de todos os anos, e foi muito bom compartilhar com as pessoas que viveram e vivem essa história, e a gente estar ali de novo, anjos na parede, cartões na porta, pinheiro cheiroso piscando, e a vovó lindona no comando.

Depois de escrever o texto mergulhei ainda mais na minha insatisfação com o consumismo natalino, e resolvi fazer presentes, ao invés de comprar. Comprei blocos e caderninhos, paetês, fitas de cetim, linha de crochê, agulhas e cola pra tecido, tirei do armário os panos que eu compro pra usar num dia que nunca chegava, e mãos à obra! Foram três dias de loucura bordando paetês e colando chitas e fitas, mas confesso que estou orgulhosíssima da obra, que exibo aí embaixo junto com algumas fotos geniais do Natal desse ano.
(meus blocos, presentes e obra)
Outro acontecimento especial desse ano foi a estréia do Luiz no Natal da Barão (nome oficial da casa da vovó). Todo ano ele vai com a mãe pra Minas, visitar a família deles, e a cada ano que passa o menino cresce e se urbaniza e gosta menos de ir pra roça, viver por um mês a vida simples do campo. Mas pra nós o que sempre deu mais pena era ele perder a chance de viver esse Natal, de conhecer o Papai Noel e ter uma noite daquelas de cinema. Pois esse ano a chance veio, por vias tortíssimas, mas diz meu amigo Pedro Cezar, "há malas que vão pra Belém" (ou "há males que vêm para o bem" mesmo).
A Graça, mãe do Luiz, teve um problema grave de varizes anteontem, véspera da viagem pra fazenda, e o médico recomendou repouso e pernas pro alto, coisas impossíveis de cumprir dentro de um ônibus sem ar durante 8 horas. Mãe e filho ficaram, pois, no Rio, e embora ela tenha se recusado a ir pra festa, ele, Luiz, vibrou com a oportunidade. Aí em cima, registro do momento em que o Papai Noel adentrou a sala, ele com esse olhar de maravilha. Aqui embaixo, o abraço inédito e a felicidade.

17.12.06

Natal com sentido


A cada ano tenho menos apreço pelo Natal.

Não me entendam mal: meu Natal é incrível. Tenho uma família enorme e unida, comandada lindamente pela vovó, uma matriarca daquelas de livro de antigamente, e o Natal é a coroação das celebrações que ela promove, amorosa e dedicadamente, o ano todo. Nossa festa é cheia de tradições deliciosas de manter, que na minha infância começavam muito antes da noite do dia 24.

Quando crianças, a casa da vovó era o quartel general das férias de todos, alguns hospedados lá porque moravam fora do Rio, outros indo pra casa só pra dormir e voltando cedinho no dia seguinte pra não perder nada. No meio de dezembro começavam os preparativos: um pinheiro de verdade, cheiroso e enorme, chegava e era levado pra sala de jantar, onde era enfeitado com bolas e luzinhas. Na parede da sala eram pendurados anjinhos de pano, com roupas coloridas, cada um representando um neto, e a cada ano aumentavam os anjinhos na parede. Dindinha Zélia, prima da vovó que morava com ela e era madrinha amorosa de todos nós, arrumava o presépio: papel imitando pedra cobrindo a mesa, palha no bercinho do menino jesus, e as figuras de barro representando todo mundo que tinha que estar lá. O dia mais esperado era quando vovó juntava os cartões de Natal que recebia e a gente fazia rolinhos de durex pra colar todos na porta da sala, subindo num banquinho pra alcançar as partes mais altas que hoje eu toco sem nem precisar ficar na ponta dos pés.

Na noite de Natal cada neto ganhava uma figura do presépio e decorava seu "texto". Mariana, a mais velha, era a narradora, posição sempre disputada mas nunca conquistada por ninguém por anos a fio. Os menores eram os bichinhos, e só tinham que fazer "múuu" ou "béeee". Os maiorzinhos eram os pastores, diziam "viemos trazer incenso pra perfumar o menino" e outras frases assim. Depois tinha amigo oculto entre as crianças, depois entre os adultos, daí a leitura de um jogral sobre a árvore de Natal, com os convidados recebendo na hora seus números pra ler, e sempre tinha um que esquecia e deixava aquele buraco, preenchido por uma tia atenta. Nosso sonho, quando crianças, era poder ler o jogral, prova inequívoca de maturidade.

O ponto alto da festa era a chegada do Papai Noel. A porta da sala era fechada e a gente ficava lá dentro cantando "deixei meu sapatinho na janela do quintal, Papai Noel deixou meu presente de Natal, como pode Papai Noel, não se esquece de ninguém, seja rico ou seja pobre o velhinho sempre vem". Depois de minutos intermináveis de suspense ele chegava vestido a caráter, e os corações paravam de susto e maravilha. De dentro de sacos vermelhos de veludo saiam embrulhos, e cada um era chamado pelo nome pra receber o seu presente, momento de tirar a famosa foto com o bom velhinho, pra prazer de uns e terror de outros. A felicidade maior era quando ao invés de um embrulho vinha um cartãozinho dizendo "seu presente está no salão", o que queria dizer que o presente era tão grande que não cabia no saco do Papai Noel, o que já excitava todo mundo: será uma bicicleta? Um velocípede?

Depois de toda a emoção Papai Noel ia embora, visitar outras famílias, e a gente ficava ali entre papéis rasgados e fitas, comemorando a alegria de ser crianças boas e merecer aquela visita. Era a hora do jantar, uma ceia de delícias inenarráveis, seguida pela entrega de presentes da vovó, sempre incluindo alguma coisa personalizada pros netos: toalhas bordadas com o nome e o jeito de cada um (meu irmão uma vez ganhou uma do Vasco, pode?), pijamas com estampas escolhidas a dedo, malas de viagem com o nome do dono. E a noite terminava com a gente chegando em casa, exausto de tanta felicidade, e colocando um pé de sapato na janela do quarto pro Papai Noel deixar o "sapatinho", presentinho simbólico diante dos grandes da festa mas sempre aguardado com ansiedade até o dia seguinte.

Hoje não temos mais crianças suficientes pra encenar o presépio. Mariana, a narradora oficial, fez 30 anos em junho, e todos os netos já estão aptos a ler o jogral. Mas as tradições continuam firmes, árvore, cartões na porta, amigos ocultos, jogral, jantar, presentes da vovó e, fundamental, Papai Noel a caráter. O fato de que apenas dois dos vinte netos têm menos de 10 anos não muda nada: Papai Noel é esperado com cantoria, chega com seus sacos e chama cada neto pelo nome, mesmo os que já teria idade pra dar bisnetos pra vovó.


A família é unida e as tradições são mantidas, e a gente gosta. Meu problema com o Natal não tem a ver com essa festa, mas com o conceito da coisa. Vamos lá: Jesus nasceu e eu, que não participei em nada do fato, tenho que dar presentes pra todo mundo que eu conheço?! Ah, não concordo! A beleza do Natal da minha família pra mim está na união improvável de tanta gente tão diferente, mas que mantém um amor cultivado em noites e tardes como essa, e o Natal é então uma festa da nossa amizade, do nosso carinho. Quando criança queria saber era dos presentes, sem me dar conta de que o se cultivava ali era um laço muito raro e do qual eu me orgulho muito hoje. Meu Natal ideal, em 2006, teria leitura de jogral, jantar de delícias, papos com primos e tias e comandando a festa a vovó toda bonita nos seus quase 88 anos, além do vovô em uma das suas noites de bom humor garantido.

Os presentes, ah, os presentes a gente distribuiria ao longo do ano, quando passasse numa vitrine e pensasse "nossa, isso é a cara da minha madrinha!", ou 'ih, a mamãe está precisando disso, vou dar pra ela". Os presentes tem que ser a expressão do nosso amor particular por alguém, e esse amor não acontece de uma vez todo dezembro em meio a lojas cheias e preços salgados: esse amor é de todo dia, de cada dia, e eu acredito em cultivá-lo e expressá-lo assim, um pouquinho e sempre, com presentes e carinhos, o ano todo.

Pra quem gosta muito de presentar, recomendo um projeto lindo que eu descobri esse ano: o Papai Noel dos Correios. Todo ano eles recebem milhares de cartas de crianças pedindo presentes, e qualquer um pode ir a uma agência e adotar uma carta: comprar um presente pra uma dessas crianças e deixar numa agência, e os Correios mandam um carteiro vestido de Papai Noel fazer as entregas. Taí um presente de Natal que faz sentido.

15.12.06

Entrevista

Sempre adorei ler entrevistas, principalmente aquelas que são papos descontraídos, em que a gente fica sabendo coisas não tão óbvias sobre o entrevistado. Não estou acostumada a estar do lado de lá das entrevistas, falando ao invés de lendo, e é uma delícia!

Semana passada dei uma entrevista ótima pro Ramon Mello, que é ator, contista e jornalista, tem uma coluna de livros na revista Suíte Rio e outra de entrevistas com novos escritores no site Click 21. Ele já tinha resenhado o substantivo feminino pra Suíte Rio, e agora me convidou pra ser a segunda entrevistada da coluna Clik (In) Versos.

A entrevista ficou super bacana e ilustrando ela está a foto que será a capa do meu livro novo, tirada pelo Pedro Molinos, fotógrafo super legal com quem eu estou trabalhando e que generosamente me fotografou num intervalo da labuta.

Tem que entrar no site Click 21, daí clicar em COLUNAS do lado esquerdo, e logo no alto está a chamada pra mim!

Leiam! Leiam! Leiam e me contem!

9.12.06

A poesia voa


As duas últimas semanas foram um pulo de volta no mundo da poesia, escrita e falada. Tô finalmente correndo atrás da publicação do meu livro, espalhando ele por aí e buscando formas de chegar nas editoras. Os resultados começam a aparecer, as pessoas gostando e se oferecendo pra me dar uma força nessa batalha, então vamos que vamos!

Também voltei a falar meus poemas, coisa que não fazia há tempos! Primeiro a convite do Donatinho, cuja banda ia se apresentar no Vivo Rio num evento da MPB FM, que tinha também Lenine e Afroreagge. Ele me chamou pra dar uma canja e foi uma delícia, aquela casa enorme lotada, e todo mundo ficando quieto pra me ouvir falar. O palco é uma delícia, quase uma droga de tão viciante, e foi bom ter essa recaída! No domingo eu e Rodrigo fomos nos apresentar no Aterro do Flamengo num evento super popular, junto com a Mari Dias e o Claudio Lyra (a Cia Dias de Lyrios) e o Jean Kuperman, e foi ótimo também!

Agora amanhã tem palco de novo, e um especial que eu adoro: o do
Circo Voador! De domingo a terça-feira vai rolar a segunda edição do Poesia Voa, evento organizado pelo Tavinho Paes, o Bruno Cattoni e a Maria Juçá lá no Circo, o primeiro grandeenorme evento só de poesia na cidade, muito chiquérrimo em seu ano 2! Rodrigo vai tocar e eu vou dizer uns poemas amanhã, 2a feira dia 10, de noite, lá prumas 20h ou 21h, eu acho. Independente da gente, recomendo uma passada no Circo em algum momento desses 3 dias, a programação dura o dia todo e tá cheia de coisas bacanas, então apareçam!

26.11.06

28

O número aí em cima seria só um número, como já foi e voltará a ser um dia, quando deixar de ser a minha idade. Fazer aniversário sempre é bom pra mim, gosto de sentir o passar do tempo na minha vida cheia de conquistas, coisas boas, coisas chatas, prazeres e ainda tanto por alcançar mas muitas conquistas, sem dúvida.

Esse ano o aniversário foi festivo, e me animei a tomar finalmente uma profusão de providências pra comemorar com tudo em cima. Foi um tal de arrumar a casa, consertar janelas quebradas, uma privada que não funcionava, luz que não acendia nem apagava, trocar o estofado do sofá da tv, refazer as almofadas, comprar armários que faltavam há anos... A casa ficou um brinco, e eu feliz e orgulhosa. Adoro ser dona-de-casa sendo também trabalhadeira!

Mas a maior mudança dos 28 - e planejada pra ser feita antes dos 28 chegarem, pros 28 começarem já com ela existindo - foi a tatuagem da palavra. Passei um ano desejando ela, planejando ela, me acostumando com a idéia dela e muitas vezes sentindo falta dela! Por isso foi absolutamente inesperada a sensação de soco no estômago que me veio no dia seguinte, uma dúvida fortíssima, um medo de estar lidando com a eternidade, de estar brincando com um corpo que é meu desde sempre e do qual eu aprendi a gostar tanto, e de repente um carimbo no meio das costas em nome de quê, meu deus?!

Me senti voluntária de um campo de concentração, pedindo pra ser marcada, uma vaca com voz pra escolher o nome do dono, a palavra ardendo nas minhas costas feito queimadura por uns dias. Parecia casamento com padre e aliança, da categoria das coisas que podem ter volta mas que são feitas pensando no pra sempre. Chorei, chorei, chorei, escondida pra não parecer louca, pra não dar chance de ninguém dizer "quem mandou, coisa boba fazer tatuagem!".

Aí escrevi o poema que está aí embaixo e fui me curando do susto de brincar de deus. No dia de comemorar os 28 já estava curada e pronta pra exibir a bichinha, meu brinquedo novo que não vai gastar, eu gostando mais e mais dela, minha palavra que andará comigo pelas idades afora a partir de agora!


15.11.06

lidando com a eternidade

Conceitos, palavras.
Que tem a pele com isso?
Certezas podem ser carne sem ser tinta.
Podiam.

Carrego a palavra nas costas
além de no fundo do peito e na ponta da língua.
Base das minhas asas invisíveis,
soco na boca do estômago,
filho de 7 letras de 20 minutos de gestação.

Um dia crianças vão deitar sobre o meu corpo pra aprender a soletrar.
Talvez quando essa perenidade me tomar por inteiro
passe essa surpresa, esse medo,
talvez o que hoje é susto vire orgulho do percurso,
e a palavra, embora brasa, cesse de queimar.

27.10.06

o risco, meu deus!

Acabo de reler todo o meu blog, mês a mês, pacientemente, em busca de um poema que não estava aqui. Como não estava?! Não consigo crer que escrevo no mariadapoesia há três anos e não coloquei aqui o poema que abre meu livro novo, o poema que me dá forças pra seguir nos caminhos que parecem difíceis, o poema que me inspira e me surpreende sempre.

Então percebo que Mariana tem razão: tem faltado poesia no mariadapoesia. Rodrigo tem razão: ando muito vida real e pouco poeta. E apesar de incomodar faz um bem danado perceber isso porque agora então vou mudar, olha que ótimo!

Abrindo a mudança, o poema:

O risco não é só um traço
É a distância entre um prédio e outro
A diferença entre o pulo e o salto

O risco é riqueza e asfalto a percorrer
Pode ser a pé
Pode ser voar
O risco é o bambo da corda solta no ar

Dentro dele cabe cálculo
Cabe medo e incerteza
Cabe impulso instinto plano

O risco é a pergunta te atacando ao meio-dia
É o preço do sonho pra virar realidade
É a voz das outras gentes testando a tua vontade

Aceitá-lo é saber que não existe
Estrada certa
Linha reta
Vida fácil pela frente

Mas que asa
Asa
Asa
Só ganha quem planta no escuro do braço
Essa semente de poder voar

22.10.06

Corpo

"O corpo existe e pode ser pego
É suficientemente opaco para que se possa vê-lo
O corpo existe porque foi feito
Por isso tem um buraco no meio
O corpo se cortado espirra um líquido vermelho
O corpo tem alguém como recheio"

Esse é um pedaço de um poema do Arnaldo Antunes, o pedaço que a minha cabeça lembra num fim de domingo de corpo exausto de tanta descoberta, depois de um fim-de-semana intenso de workshop de performance e de teatro físico com a Patrícia Carvalho-Oliveira. Foram dois dias de exercícios e práticas novas pra mim, que vão me ajudar a colocar corpo na minha palavra, a dar corpo pra palavra, além de dar voz. Tô cansada mas feliz, conheci gente bacana e variada, e passei dois dias quase inteiros prestando atenção em mim, cuidando de mim, mexendo comigo.

Isso fecha com chave de ouro uma semana em que eu finalmente voltei a ser a mariadapoesia: revisei e imprimi meu livro novo, o bendita palavra, arrumei e imprimi um "dossiê" sobre mim, e agora vou mandar isso pras editoras, em busca de uma que me queira e me receba, pra ano que vem eu voltar a publicar. Já tô com comichão de tanta vontade!! Me aguardem!

19.10.06

Arte e moda

Eu não costumo divulgar muitos eventos em que não esteja pessoalmente envolvida, porque nunca se sabe se vai ser legal mesmo, e não quero dar furo com quem me lê... Mas nesse caso tô panfletando abertamente porque, mais do que meus amigos, trata-se de gente talentosíssima, que me inspira e estimula.

A Soul Seventy, da Amanda Mujica e do Antônio Bokel, é uma marca de roupas com conceito e personalidade, além de lindas de morrer.





O Ateliê Coletivo é um projeto do mesmo Antônio Bokel com o Smael e o Paulo Gouvêa, três artistas contemporâneos e absolutamente inovadores nas suas pinturas, cada um com a sua cara e o seu caminho, mas juntos na busca por espaço no mundo das artes plásticas.


Pois 5a e 6a, dias 19 e 20, a Soul Seventy vai lançar sua nova coleção no Ateliê Coletivo, uma ocasião imperdível de conhecer o trabalho de quatro criadores que eu tenho certeza de que vão movimentar muito o Rio nos próximos anos.

Eu vou na 6a feira, e vou adorar se vocês quiserem me acompanhar. Nos dois dias começa às 18h e vai até meia-noite, e o Ateliê Coletivo fica na Rua Alexandre Stockler n.18, na Gávea (depois do posto de gasolina, lá em cima).


Eu não perderia esse programa por nada!

16.10.06

competição saudável

Apesar de ter um blog, nunca fui bisbilhoteira da internet pra achar blogs legais. Sou leitora fiel de alguns, escritos por gente amiga que me faz rir e me emociona, e que indico nos links aí à esquerda.

Semana passada ganhei um concorrente de peso, e fico feliz com essa competiçãozinha que está surgindo e que me faz querer escrever sempre, pra não perder meus leitores pra ela. A Mariana é minha prima, advogada e leitora voraz desde a infância. Já naquela época a gente competia pelos livros lidos, e trocava dicas de autores novos legais, e se emprestava coleções e volumes. Passar da leitura pra escrita foi um pulo, eu na poesia, ela na crônica. Claro que eu fui muito mais exibida e arrumei logo um livro publicado e palcos pra me espalhar por aí, e a Mariana sempre discreta, advogada e escritora só nas goras vagas, mandando seus textos por email pros amigos. Finalmente a convenci de que ela precisava de um blog, e surgiu o Croniquetas.

Agora tô eu aqui, escrevendo no blog ao meio-dia de uma segunda-feira, pra manter o interesse de quem me lê e não acabar perdendo todos os meus leitores pra ela! Mas, sobrando um tempinho, passem lá que eu recomendo! =)

13.10.06

Buchecha e Banco Imobiliário

Ontem foi dia das crianças. No momento, enquanto espero paciente o dia em que a barriga vai crescer e uma criancinha vai sair de dentro dela, só tenho uma criança que dependa de mim pra ser feliz nesse dia: Luiz Phillipe.


Ele é filho da Graça, que foi trabalhar lá em casa 6 dias depois que eu nasci, quando a minha mãe percebeu que o projeto hippie de não ter babá não ia dar nada certo. Dois anos depois o Tiago nasceu, e a Graça além de babá virou madrinha dele, prova de que o lado hippie da mamãe não queria morrer de jeito nenhum. Eu já tinha sete anos, praticamente uma mocinha, quando a Julia nasceu, e renovaram-se as razões pra Graça continuar lá em casa.

Hoje eu moro sozinha em outra casa, a Julia já fez 20 anos e a Graça continua lá, firme e forte. No caso dela aquela metáfora "ela já é da família" é totalmente verdadeira: ela é madrinha do Tiago, que por sua vez é padrinho do Luiz Phillipe. Assim como a Conceição, a outra fiel escudeira da nossa família, mora com os meus pais há 28 anos, e o Luiz virou logo o mascote da casa.

Quando a Graça ficou grávida foi aquele choque. Ela era a pessoa menos engravidável que a gente conhecia: tímida até a raiz dos cabelos, nunca tinha tido um namorado (que a gente soubesse). Era tão impensável o fato que ninguém tinha reparado na barriga que crescia até ela contar pra minha mãe, já com quase 5 meses de gestação.

O Luiz Phillipe nasceu e ganhou todo mundo de cara. Hoje ele tem 12 anos, é um menino esperto e divertidíssimo. Pois ontem era dia das crianças e o Luiz estava lá, vendo tv, como todo dia. E o jornal dizia das várias programações infantis do dia, todas dependendo da animação de um adulto pra levar. Ontem o adulto fui eu, e o programa foi o show gratuito do Buchecha e do Latino na Quinta da Boa Vista. Ele ficou animadíssimo, era a primeira vez que ia ver um show de alguém famoso, me disse, só tinha ido nos do Rodrigo.

Quatro da tarde, saltamos eu e Luiz de um taxi nos arredores da Quinta da Boa Vista, e nos misturamos ao mar de gente que andava entre camelôs com brinquedinhos que piscam e vendedores de churrasquinho, pipoca, hot dog e milho verde. Adentramos a Quinta e era criança feliz pra todo lado, criança chorando arrastada pela mãe aqui e ali, e uma chorando sem a mãe, que apareceu um minuto depois e as lágrimas voltaram pra dentro automaticamente, que nem cachoeira invertida.

Andamos, andamos, andamos, até achar o palco onde Buchecha já cantava. O mar de gente de antes virou nada diante da multidão que se apinhava ali, pacificamente, alegremente, pra ouvir o cara cantar. O Luiz estava fascinado e meio que paralisado: era muita gente, e mal dava pra ver o palco, que dirá o Buchecha. Show de gente famosa é assim, expliquei, fica lotado e a gente fica longe mesmo... Um binóculo foi a solução, e aí ele adorou. Eu era o peixe mais fora d'água do mundo, com a minha cara de garota de Ipanema no coração de São Cristóvão, mas nem liguei e desencavei do fundo da memória meu repertório de funk melody e dancei animadíssima.

Teve
"nossa história vai virar cinema, e a gente vai passar em Hollywood", teve "quero te encontrar, quero te amar, você pra mim é tudo, minha terra meu céu meu ar", teve "eu não existo longe de você, e a solidão é o meu pior castigo, eu conto as horas pra poder te ver, mas o relógio tá de mal comigo", teve um monte de outras que eu não me lembro mas que são ótimas, e o pessoal cantava tudo e dançava amarradão, e eu fiquei feliz de participar da felicidade popular e estar ali, eu e Luiz, tendo um dia das crianças diferente e animado.

Quando o Buchecha acabou e começaram a arrumar o palco pro Latino, Luiz quis ir embora, e apesar da minha curiosidade pra ouvir “hoje é festa lá no meu apê” ao vivo, concordei e adorei, que as pernas já estavam reclamando. Pegamos outro táxi pro Humaitá, nos enchemos de milkshake, cheeseburguer e batatas fritas, e depois que eu recuperei um pouco as forças fui levar ele em casa.

Chegando lá mais felicidade: a Julia comprou de presente pra ele um Banco Imobiliário, jogo da nossa infância que virou luxo hoje em dia: custa R$65,00, pode? Em tempos de crianças cada vez mais solitárias, não é de se espantar que elas queiram cada vez mais videogames, e que os pais apóiem: é mais barato, e eles brincam sozinhos, sem encher o saco de ninguém...

Mas ontem foi diferente! Abrimos o Banco Imobiliário e os olhos de todo mundo brilharam. Eu, Tiago e Julia de novo crianças, doidos pra jogar! Mas somos todos adultos agora, e Julia ia pra casa do namorado, Tiago ia sair com os amigos, e eu, exausta, propus pro Luiz uma partidinha rápida, só pra ele começar a aprender...

Em cinco minutos estávamos todos reunidos em volta da mesa, Tiago de consultor imobiliário do Luiz, Julia de banco, todos gritando pra comemorar compras de terrenos valiosos ou pra protestar contra dados generosos demais com o outro, rindo juntos como há tempos não acontecia, uma noite fenomenal em família.

Vim pra casa dormir alegre e plena, feliz da decisão de fazer um dia das crianças bacana pra esse menino que eu adoro, e de ter tido eu um dia especial assim.

1.10.06

uma tragédia e um nome

Cresci vendo minha mãe lutar pra superar um medo de avião que nasceu junto comigo, sua primeira filha. Muita gente passa por isso: começa a ter medo de morrer quando tem filhos.

Talvez por ainda não ser mãe, nunca tive medo de voar, apesar do momento da decolagem ser uma das raras ocasiões em que eu tiro da gaveta as rezas que aprendi quando criança. Mas lembro sempre do meu tio Chedid querido, piloto de avião durante anos e que morreu numa estrada a caminho de Minas, comprovando a tese de que é muito mais provável morrer num acidente de carro do que num acidente aéreo. Tanto, que costumo considerar essa possibilidade como nula, e tenho a mais absoluta certeza de que isso nunca, nunca vai acontecer, nem comigo nem com ninguém.

Uma tragédia como essa de ontem com o avião da Gol destrói essa certeza fantasiosa e confortável. Assim como acontece com os carros, os aviões também têm problemas técnicos, e seus "motoristas" podem tomar decisões equivocadas. Hoje essa tragédia dominou as conversas, e minha mãe me disse chocada durante o almoço que minha irmã entrou na lista dos passageiros e levou um susto ao ver meu nome lá: Rezende, Maria.

Não resisti e entrei agora no Globo.com e lá está ele, o nome que é meu, mas felizmente não é o MEU nome, mas o nome de outra Maria Rezende que provavelmente não resistiu à queda. E é tão chocante, tão surreal ler um nome que é o seu numa lista de mortos numa queda de avião, tão insano o avião cair, tão inacreditável tanta gente morrer assim, sem nem saber, e alguém como meu nome estava lá.

Gente de quem eu mal me lembro sabe o meu nome, e me apresenta aos amigos: "essa é a Maria Rezende, aquela poeta que eu te falei". Meu nome está na capa do meu livro, no contrato de aluguel do meu apartamento, nas contas que chegam aqui em casa, no cartaz do curta que fiz com o Rodrigo e nas dezenas de filipetas que a Marianna Cersósimo criou pro Te vejo na Laura. Está como remetente de todas as minhas mensagens de e-mail, gravado no celular de um monte de gente pelo Rio de Janeiro afora, e nos créditos finais de todos os vídeos e filmes que eu já editei.

E o Google já tinha me dito que esse nome não é só meu, há muitas e muitas Marias Rezendes pelo Brasil afora, mas só uma delas entrou ontem num avião em Manaus (onde eu, essa Maria Rezende daqui, peguei um vôo da mesma Gol com escala em Brasília e cheguei em casa - hoje casa dos meus pais - e encontrei minha família e meu namorado amado, cheia de presentinhos indígenas e um tênis bacana pra compensar o dia dos namorados passado separado porque eu estava lá, trabalhando, em Manaus, e dormimos juntos, abraçados na cama de solteiro apertada, e eu fui feliz mas não tinha idéia de quanto) e só uma das muitas Marias Rezendes brasileiras ontem não chegou em casa.

Ler meu nome ali é um alívio e é cruel, me joga de pára-quedas na dor de gente que eu não conheço, e ao mesmo tempo me finca os pés aqui, no meu universo, onde Maria Rezende sou eu, essa, poeta, montadora, namorada do Rodrigo, filha da Mariza e do Sergio, irmã da Julia e do Tiago, neta da Nilza, da Elza, do Lauro e do Valério, bisneta da vó Nair, amiga de infância da Camila, da Fê, tia emprestada da filha da Sol que vai nascer, futura mãe da Luzia e de um menino ainda sem nome, que o pai vai escolher. É bom demais ser eu aqui.

29.9.06

Votem na gente!

As eleições são domingo e não vou falar nisso aqui: é tanta, mas tanta confusão, que nem me meto a atacar ou recomendar ninguém...

Mas venho pedir votos pra um candidato pelo qual eu ponho a mão no fogo sem medo: o nosso curta Por Acaso Gullar, que está competindo com todos os curtas do Festival do Rio no Porta Curtas!

O Porta Curtas é um site bacanérrimo que exibe e divulga curtas brasileiros, que podem ser vistos por qualquer um pela internet mesmo. Durante o festival eles organizaram uma mostra com os curtas que estão participando, e rola uma votação até o fim do festival, 5a feira, dia 5 de outubro.

Então eu venho exercer a cara-depau e pedir a todo mundo que passe por e vote na gente!!!

Além disso, reitero que hoje e amanhã são as últimas chances de ver o filme no cinema, na Caixa Cultural 2:

hoje, sexta, dia 29, às 17h
amanhã, sábado, dia 30, às 14h30 e 19h30

27.9.06

Nossa estréia no Festival do Rio

Então na sexta-feira foi a nossa estréia oficial como diretores, com direito a subir no palco do Odeon com a nossa pequena e fundamental equipe, apresentar o filme, e depois assistir na sala lotada os 11 minutos da nossa primeira "obra".

Foi especial, emocionante, muitos amigos lá celebrando com a gente, o coração batendo forte e as pernas bambas, e o Nilo - que de produtor do Rodrigo passou a amigo querido - gravou na câmera de foto mesmo, pra gente ter pra sempre as imagens dessa hora.

Não é excitante como trepada na praia, mas tá lá no Youtube!

21.9.06

Por Acaso Gullar - mudança de horários!

Acabo de entrar no site do Festival do Rio, que aliás está bacanérrimo, e descobri que os horários de algumas sessões do nosso filme mudaram! A boa notícia é que ganhamos mais uma sessão no sábado, dia 30, então anotem como ficou:

Sexta - 22/09/2006 - 13h
Odeon BR

Sexta - 29/09/2006 - 17h
Centro Cultural da Caixa Econômica 2

Sábado - 30/09/2006 - 14h30
Centro Cultural da Caixa Econômica 2

Sábado - 30/09/2006 - 19:30
Centro Cultural da Caixa Econômica 2

Além disso, na página do filme no site do festival eles incluem a sessão de sexta, dia 22, às 18h30 no Odeon, como se ela fosse uma sessão aberta ao público. Entrei no Ingresso.com e realmente dá pra comprar por lá! Ou seja, estamos aqui ralando pra tentar fazer caber todo mundo querido na nossa cota pequenina de convites à tôa!...

Enfim, segue a programação original: estaremos lá às 13h, e de novo às 18h30, quem quiser e se animar apareça!

18.9.06

Felicidade



Então na 5a feira é a abertura oficial do festival, e estar dentro dele muda totalmente a perspectiva! Recebemos em casa o convite pra festa de abertura, motivo de eternas disputas todos os anos, quando nós filhos torcíamos pros meus pais não irem pra gente pegar carona no convite deles.

E na sexta-feira tudo vai ficar ainda mais concreto e excitante: vamos estar no Odeon, numa sessão de gala do filme só pra convidados, junto com Gullar, Bethânia e a equipe do filme, e esse vai ser um daqueles momentos que com certeza entram pro filminho dos últimos segundos da vida da gente...

A única coisa chata da sessão de gala é que temos uma cota pequeníssima de convites, menos da metade da lista de amigos que a gente queria convidar... Felizmente o filme tem sessões abertas ao público, e deixo aqui o convite:

Sexta-feira, dia 22, às 13h, no mesmo Odeon, é a verdadeira estréia do filme, numa sessão popular com ingressos baratinhos! Eu e Rodrigo estaremos lá, gastando a ansiedade pra de noite, e vai ser um prazer receber todo mundo lá!

Além disso na semana seguinte teremos duas sessões no Caixa Cultural, que fica na Almirante Barroso 25:
sexta, dia 29, às 19h
sábado, dia 30, às 14h30

Vai ser um prazer, e mais do que isso, um luxo, ter tantos pares de olhos vendo o nosso filme. Tomara que você, que lê agora, também se anime e apareça por lá!

8.9.06

Por Acaso Gullar

De volta ao Rio, à correria, ao trabalho, e apesar disso posso arrumar um tempinho pra passar aqui e dar notícias, porque viajando, de férias, apesar de sobrar a última coisa que quero ver é um computador na minha frente!

Inventamos férias no meio de um dos momentos mais agitados da vida nos últimos tempos, e como a lei de Murphy está aí pra ser comprovada a cada dia, foi só comprar as passagens numa dessas promoções loucas da Gol - volta a 1 real -, que chegou a notícia inesperada e deliciosa:

NOSSO CURTA POR ACASO GULLAR FOI SELECIONADO PRO FESTIVAL DO RIO!!!




Esse curta é o resultado de uma gravação que eu e Rodrigo fizemos na casa do Gullar quando preparamos uma homenagem a ele no Te vejo na Laura. A gente foi lá pedir pra ele mostrar os desenhos e colagens que faz, e acabamos batendo um papo incrível de mais de uma hora.

A tarde foi registrada pelo Pedro Cezar, nosso amigo, cineasta talentosíssimo do "Fábio Fabuloso", e fotógrafo super improvisado: não levamos luz, não fizemos nenhum cenário, mas a força do Gullar e do que ele tem a dizer, além da revelação de um humor delicioso e uma disponibilidade absoluta pra estar ali com a gente, tudo isso faz do Por Acaso Gullar um registro importantíssimo do maior poeta brasileiro vivo.

Na noite da homenagem, na Laura Alvim, fomos surpreendidos pela Claudia, mulher do Gullar, que nos disse que aquele era um dos documentos mais reveladores do Gullar que ela já tinha visto, e isso nos deu o desejo de transformar aquele registro num filme.

Anos depois, a partir desse material bruto, nasceu o Por Acaso Gullar . Montado com o conceito de acaso em mente, o filme acabou ganhando a participação especialíssima da Maria Bethânia, que lê dois poemas do Gullar.


Mais novidades em breve!!!

1.9.06

férias

Recife - Itamaracá - Forte Orange
Notícias com mais fotos semana que vem, quando eu voltar.
Por enquanto tô indo, indo...

17.8.06

petite poupée 7




Na terça-feira participei com meus poemas de um evento novo chamado Feridas Expostas, no Espírito das Artes, na Cobal do Humaitá. Organizado pela Miila Derzett, com apoio da Cavídeo, o evento reuniu alguns artistas muito legais, cada um de uma área, numa noite surpreendente e deliciosa. Teve meus poemas, teve "Rindo à toa", uma esquete super bacana escrita e dirigida pela Miila e encenada pela Taciana Barros, teve Fernanda Rowlands e Donatinho no Projeto Sala, teve um curta da Rosane Svartman, e teve a arte visual de Petite Poupée 7, a Dani.

Eu adorei a noite toda, tão raro um evento multimídia em que tudo é bacana! Mas confesso que foram os quadros da Dani que me fizeram, já pronta pra dormir, de luz apagada e tudo, ter sido acordada por esse texto aí embaixo, minhas impressões poéticas sobre o trabalho poético dela. Ela pinta em telas e pinta na rua, e vai do grande ao pequeno com a mesma desenvoltura. Recomendo vivamente: taí uma artista plástica que vale a pena conhecer.


Pequenas bonecas cheias de atitude são as mulheres de Petite Poupée 7. Aos berros de cor nos muros ou sussurrando seus segredos em pequeníssimas telas, elas carregam a fartura do feminino, suas angústias, seu ridículo, sua beleza. Belas como porradas. E doces. Sutis no exagero de suas formas, são violões à última potência.

Tem cor, tem som, tem cheiro e gosto as bonecas de Dani. Exalam seus nomes no anonimato das paredes, e existem por si sós. São muitas e uma, as petites poupées de Petite Poupée 7.

9.8.06

heranças

Então de repente eu me dou conta de que sou meio libanesa, mais exatamente 1/8 libanesa: meu bisavô veio de Karneil, no interior do Líbano, aos 19 anos, fazer dinheiro no Brasil. Chegou sem falar português, com três libras no bolso, e foi parar numa pensão de um conterrâneo. Virou mascate, mudou seu nome de Kessim Al Auar para Felipe José de Salles, e numa das suas andanças conheceu minha avó, índia e já com dois filhos, e prometeu: "na próxima lua eu venho te buscar". Foi. Casaram-se, tiveram mais seis filhos, ele enriqueceu, virou o Coronel Felipinho, poderoso e respeitado em Carangola, interior de Minas. Perdeu tudo, viveu a falência absoluta e morreu rico de novo aos 65 anos.

Dele herdei sobrancelhas grossas, a pele amarelada e algumas poucas histórias, vindas quase todas de uma prima-tia querida, Laia, portadora dos casos da família. Não conheço o árabe, nunca vi o Líbano nem em fotos, e o mais perto que já cheguei dessa parte do mundo foi visitando o sul da Espanha, onde os árabes ficaram por séculos e deixaram sua marca forte.

De repente essa guerra, que começou como notícia de página interna do caderno internacional do jornal e agora é capa, é jornal nacional, ny times e toma as redações do mundo. E eu aos poucos percebo que estão destruindo de novo o lugar de onde 1/8 de mim vem, e que subitamente minhas chances de conhecer esse lugar ficam nulas, e assim percebo que essa herança libanesa vive, ainda que lá no fundo de mim.

Daí agora ler com mais atenção os artigos de gente relevante falando sobre a questão. Eu sou distraída demais em assuntos políticos pra me atrever agora a falar sobre esse, mas qualquer coisa que leve a assinatura do Eduardo Galeano é pra mim positivamente relevante, então recomendo a leitura de uma carta assinada por intelectuais de várias partes do mundo, inclusive esse uruguaio que eu adoro e respeito.

No blog do meu jornalista preferido,
Eduardo Graça, diretamente do Brooklyn, NY.

8.8.06

traduções

Parecia que já tinha passado todo e qualquer assunto relacionado ao Imagining Ourselves, quando subitamente recebo um email deles avisando que esse mês está rolando o "best of" da exposição virtual, e lá descubro meu poema traduzido em quatro línguas, uma das quais eu confesso que nem sei qual é! Será árabe?

Sempre detestei ler poesia traduzida, razão pela qual quase que só leio os poetas brasileiros e portugueses, mas achei uma delícia ver meus versos dançando outros ritmos, e tendo a chance de ser lidos por gente de tão longe.

Meu poema e suas traduções está aqui, mas passem pra conhecer muitas mulheres interessantes do mundo todo.


الكلمات والأشكال لا تشكل المحتوى.
يمكن أن تكون المرأة مهارة
أو ضلعاً أو خللاً المرأة تفيض عن الحواف
تقيس الأمور تخفف التنافر
تلعب الأورغن وتقرع الجرس
يمكن أن تكون
المرأة صرخة
رحماً جرفاً يمكن أن تكون المرأة
هاوية وملاذاً ويمكن أن تكون كليهما
وهي كذلك.

ou

Une femme est une femme bien que
Les mots et les formes ne compromettent pas le contenu
Une femme peut être une compétence
Une côte ou une défectuosité
Une femme déborde des bords
Evalue
Measures up
Atténue la dissonance
Elle joue avec l’organe et sonne la cloche.
Une femme peut être un cri
Un ventre
Un précipice.
Une femme peut être un abysse ou un port.
Et elle peut être les deux
Et elle est

ou

Una mujer es una mujer aunque.
Las palabras y las formas no constituyen el contenido.
Una mujer puede ser una habilidad
Una costilla o un defecto.
Una mujer desborda los límites
Está a la altura
Mitiga la disonancia
Toca el órgano y suena la campana
Una mujer puede ser un grito
Una panza
Un precipicio.
Una mujer puede ser un abismo o un refugio.
Y puede ser ambos.
Y ella es.

ou

A woman is a woman although.
Words and shapes do not comprise the content.
A woman can be a skill
A rib or a defect.
A woman overflows the edges
Measures up
Eases the dissonance
She plays with the organ and rings the bell.
A woman can be a scream
A belly
A precipice.
A woman can be an abyss or a haven.
And she can be both
And she is.

ou

Uma mulher é uma mulher ainda que.
Palavras e formas não comportam o conteúdo.
Uma mulher pode ser um jeito
Uma costela, um defeito.
Uma mulher transborda pelos cantos
Enche as medidas
Contorna o desafino
Toca punheta e toca sino.
Uma mulher pode ser um grito
Uma barriga
Um precipício.
Uma mulher pode ser um abismo ou um porto
E pode ser os dois
E é.

3.8.06

tudo que eu queria

Passei assim o último fim-de-semana: encasacada, deitada, relaxada, e feliz. Imagina se fosse sempre... Imagina se pudesse ser agora...

Notícias só no próximo post, e quem ainda insiste sabe que eu ando demoraaaaada... Vou tentar melhorar, prometo, e agradeço a paciência.

16.7.06

dona de casa

Eu dei certo com essa coisa de ter a minha casa, diz o Rodrigo. Não falo nada mas fico feliz. Gosto cada vez mais de casa, e de ter a minha e fazer dela um lugar bacana, bonito, cheiroso e cheio de prazeres variados. Cozinhar é o melhor deles. Confesso que esqueço de molhar as plantas, sou capaz de bagunçar a sala de um modo inexplicável, junto 86 peças de roupa no quarto-depósito esperando a Paulinha chegar na 4a feira pra arrumar tudo, nunca passei pano no chão nem lavei o banheiro, mas na cozinha sou uma dona-de-casa exemplar! Sempre adorei comer e gosto mais e mais de fazer comida.

Uma das minhas prediletas é panqueca: adoro panqueca, e sim, dá bastante trabalho, mas é tão bom que sempre que tenho tempo me aventuro! E não é tão complicado, olha lá:

1 ovo + 1 gema + 1 xícara e 1/4 de leite + 1 xícara e 1/4 de farinha + 1 pitada de sal + 1 colher de chá de azeite - bate tudo no liquidificador, colocando primeiro os molhados. Um pouco de azeite na frigideira, uma concha de massa de cada vez até ficar dourada, e vai colocando as panquecas num prato. Na minha conta dá pra 10 ou 11 panquecas. Até aí mole, certo?

Depois vai ficar a critério do cozinheiro: se for preguiçoso, panqueca de carne moída com berinjela. Coloca duas berinjelas inteiras, sem nadinha, num tabuleiro no forno pra assar enquanto você faz a carne. Pica cebola e alho, refoga em um pouco de óleo ou azeite, daí mistura a carne moída pra cozinhar, temperos a gosto do freguês. Depois dela ficar marrom, coloca um pouco de tomate (tomate de verdade picado, ou tomate de lata sem muito caldo, ou se for muuuito preguiçoso mesmo pomarola, mas eu desrecomendo!). Quando isso estiver pronto a berinjela também deve estar. Tira do forno, vê se está macia, aí abre ela com um garfo e raspa todo o miolo, e joga fora a casca. Mistura isso na carne moída e pronto, é só enrolar e em meia hora você tem panquecas lindas de carne moída!

Se o cozinheiro for animado como eu, panquecas de frango com cenoura e milho. Daí é o mesmo processo da carne moída, mas com o frango (pode ser qualquer parte, peito pra quem é light, coxa pra quem gosta de sabor) em pedaços meio grandes pra poder desfiar depois. Sim, aí vem a ralação: depois de cozido, esperar amornar e desfiar o frango todo... Aí colocar ele de volta na panela, misturar cenoura ralada e milho (tem um de lata, jurema, que é docinho, uma coisa!) e voilá! Panquecas de frango divinas!

Pra ficar perfeito, em qualquer dos casos, colocar as panquecas numa travessa, um bom molho de tomate por cima, queijo ralado na hora, e forno por 15 minutos só pra gratinar. Eu adoro, fazer e comer. E foram elas que me renderam o elogio lá do começo, então seu poder está comprovado...