23.10.07

depois


quando o furacão não derruba a casa

porque o que não mata engorda

sendo que podia ser o fim


o que era difícil vira adubo pra nascer a força

jardim suspenso de gozos insuspeitos

e a felicidade, plena, brota no ar

16.10.07

defícil

pode ser feio
pode ser lindo
pode doer, arranhar, tirar sangue
pode ser silêncio
pode ser ruído
noite quieta ou multidão
medo da luz
picada de bicho
canto de unha no duro dos dentes
pode ser música na tarde
sala vazia
pode ser manhã de sol

a vida tem partes
às vezes tanta coisa
quase sempre, difícil
e ainda assim, bonito

10.10.07

Inoportuna



Quien no lo sepa ya
lo aprenderá de prisa:
la vida no para,
no espera,
no avisa.
Tantos planes,
tantos planes
vueltos espuma
tu, por ejemplo,
tan a tiempo
y tan
inoportuna
Eran más bien los días
de arriar las velas.
Toda señal a mi alrededor
decía: cautela.
Cuánta estrategia incumplida
aquella noche sin luna
tu, por ejemplo,
tan bienvenida
y tan
inoportuna
¿Quien sabe cuándo,
cuándo es el momento de decir: ahora?
Si todo alrededor te está gritando:
¡Sin demora, sin demora!

3.10.07

estréia

(Camila Medina, a produtora + Elke, a personagem + Julia Rezende, a diretora)


Então ontem foi a estréia do Elke nas telonas! E foi em grande estilo, no Festival do Rio, que além de ser o maior da América Latina, é o do coração de nós cariocas! A tarde foi incrível, Julia e Camila nervosíssimas, Elke super emocionada, muitos amigos na platéia, e foi um tal de perna tremendo, voz falhando, discurso ensaiado ficando pra trás, e quando o filme finalmente encheu a tela do Odeon foi muita felicidade e alívio: ufa, deu tudo certo mesmo!


Pra mim, que montei o filme e passei tardes e tardes ouvindo os depoimentos, pensando se essa frase ficava ou saía, se aquela imagem durava meio segundo a mais ou a menos, foi muito bacana ver o filme pronto, depois de algum tempo sem mexer nele. Tudo que já era banal de tanta repetição aqui na ilha de montagem ganhou força e impacto no cinema lotado. O que era engraçado teve a confirmação das risadas, o que era sério mereceu silêncios, e o desejo da Julia de fazer um filme pra revelar a mulher por trás do estereótipo provou ser boa e relevante ali, naquela hora, ainda mais do que em todo o processo.


Agora o filme tá na rua, e tem muita estrada pela frente: já foi aceito na Mostra São Paulo de Cinema, no Festival Mix Brasil, e no Festival Internacional de Curtas do Rio. Em outubro tem projeção em Sampa, e até o fim da semana o filme está disponível no site Porta Curtas. Aproveitem!

27.9.07

trapézio

Tudo tá sempre na corda bamba.

A vida é por princípio um fino fio, e a gente tenta se equilibrar.

Tem quem meça cada passo
Tem quem corra pra enganar o medo
Eu faço do fio estrada asfaltada
e ando com calma e sem pressa
apreciando a vista
assobiando baixinho.

Eu finjo que a vida é uma estrada e esqueço do fino fio
daí o susto da iminência da queda:
cair como de tanta solidez?

Me assusto, estremeço
o chão foge dos pés
e a distância se abre imensa nos olhos:
um monte de nada até lá embaixo
o fino fio balançando bem de leve...

É um desespero sem morte
a vertigem mais profunda.

A vida cobrando a conta da calma, da vista, dos assobios
e eu, desabituada, evito olhar pra baixo
pra não virar ovo estrelado no chão da realidade.

24.9.07

America Latina II


Inventar de ir a Buenos Aires foi coisa minha, e portanto nem posso reclamar da confusão em que me meti... Pesquisando sobre Montevideo descobri que 3h de barco nos levariam lá, e aí começou a fissura: TEMOS que ir a Buenos Aires pelo menos um pouquinho!


Descobri nesse processo que viagem sem planejamento anterior cobra um preço alto de stress em lan houses e telefonemas de orelhões com cartões pré-pagos nem sempre compreensíveis. Passei quase metade do tempo planejando o que viria no dia seguinte, ligando e mandando email pra albergues, hoteis, locadoras de carro, companhias aéreas e de transporte fluvial, arrancando os cabelos, enfim. O resultado foi diversão acompanhada de muito cansaço, e chegando no Rio foram precisos uns 3 dias pra eu conseguir começar a trabalhar...


Mas fora tudo isso foi uma delícia. Buenos Aires é definitivamente uma cidade adorável, daquelas que se eu fosse rica e pudesse iria passar um fim-de-semana, jantar em dois ou três lugares deliciosos, fazer umas comprinhas, tudo pela metade do preço que se pagaria em São Paulo, por exemplo, e pode incluir a passagem nessa conta. Infelizmente esse (ainda) não é o caso, então tratamos de aproveitar bem porque acho que agora vamos demorar a voltar lá.


A gente ficou hospedado num albergue incrível, descoberto numa das sessões internáuticas em Montevideo. Chama Borges Design, e o nome juntou duas informações interessantes: literatura e design num só pacote, a preço de albergue? Parecia bom demais, e era mesmo. O lugar é uma graça, super arrumadinho e de bom gosto, nosso quarto era enorme, com um banheiro ótimo, edredon cheiroso na cama, e ainda por cima fica num ponto ótimo, no coração de Palermo Soho. Palermo, aliás, é um capítulo à parte: é o bairro mais charmoso, cult, cheio de lojas bacanérrimas e bares e cafés e restaurantes deliciosos. O bairro costumava ser dividido em duas partes: Palermo e Palermo Viejo. Agora a coisa se sofisticou, e Palermo Viejo se dividiu em Palermo Hollywood e Palermo Soho, onde a gente estava, pertinho da famosa Praça Serrano, onde aos domingos rola uma feirinha de design incrível.


Ficamos lá até quarta, quando partimos cedinho de barco de volta pra Montevideo, pra almoçar e pegar o avião de volta pro Rio. Foi pouco tempo, mas deu pra aproveitar, então aí vão as dicas:


- Passear na Praza Serrano e nos seus arredores. O programa é bom qualquer dia da semana, e domingo tem a feira pros animados, porque a cada vez que eu vou lá tem mais lojas e mais gente comprando, e dessa vez mesmo eu, uma compradora animada, não tive ânimo de enfrentar a multidão.


- Sair pra beber e comer besteiras no Acabar, um bar incrível, com uma decoração louca e que tem milhares de jogos pros clientes escolherem. É genial ir com muitos amigos, mas mesmo um casal consegue se divertir e passar uma noite inusitada. Pra gente, que estava há cinco dias só conversando um com o outro, foi ótimo passar a noite rindo sem falar nada!


- Passear no Parque Tres de Frebrero, um parque lindo pra caminhar e comer um "pancho", que é como eles chamam cachorro-quente. De lá se vai a pé por um caminho cheio de jardins e praças até o Jardim Japonês, que é lindo, e de lá é um pulo pro MALBA, o museu de arte moderna de lá que é um escândalo! A arquitetura é linda e sempre tem exposições e programações culturais super bacanas. Pra quem é de andar, de lá dá pra seguir a pé pro Museu Nacional de Belas Artes, que tem Miró, Goya, Rodin, Manet, Monet, uma super coleção permanente.


- A principal rua de comércio é a Avenida Santa Fé, cheia de lojas de sapato lindas onde eu não posso comprar porque meu pezinho 39-40 não entra nos modelitos de lá... É que os números lá são 1 a mais do que os nossos, então lá eu calço 40-41, e já viu que não existe 41, né? Uma tortura pruma sapatomaníaca como eu... Na Santa Fé fica também a livraria mais linda que eu conheço, chamada El Ateneo. É um antigo teatro, tipo o nosso Municipal, transformado em livraria mas mantendo o clima do teatro, com estantes de livros espalhadas pelos camarotes e um café chiquérrimo e bem carinho no palco. Mas tomar um café folheando um livro recém comprado olhando praquele cenário emoldurado por cortinas de veludo vermelho vale o preço!


- O centro da cidade é outro passeio genial. Lá fica a Casa Rosada, numa praça enorme e linda que é onde acontece toda a vida política da cidade, e os argentinos são super políticos, então a praça transborda de História. De lá se anda pro Café Tortoni, o mais antigo da cidade, charmosérrimo e também carinho, mas o clima compensa o lanche caro. Lá eu vi um show de tango super bacana, numa salinha mínima e sem aquela onda super turística, recomendo.


- Dar uma volta no Puerto Madero, que é onde a foto aí de cima foi tirada, na nossa chegada na cidade puxando mala pela rua loucos em busca de um caixa automático pra sacar pesos argentinos e poder pegar um taxi pro albergue! O porto foi revitalizado, é lindo, um passeio super agradável, tem restaurantes e cafés.


- Andar em San Telmo, que é onde tem a feira de antiguidades aos domingos. Eu confesso que não curti muito a feira, e gostei bem mais de andar por lá durante a semana, é uma parte bem antiga da cidade, super gostoso.


- Restaurantes incríveis: Te mataré Ramirez é um restaurante de comida afrodisíaca genial, super bem humorado e com ótima comida e boa música. Bar Uriarte é um lugar que eu adoro, boa comida, ambiente super clean mas aconchegante.


E aqui acaba o super-guia-maria-de-buenos-aires. Eu tenho uma inclinação louca pra guia turística, é uma loucura...

14.9.07

América Latina I




A semana passada foi de férias imprevistas pro casal. Foi nossa segunda viagem pela América do Sul, e nossa estréia no Uruguai, em Montevideo, cidade linda a que a gente nunca tinha ido. A maioria das pessoas com quem conversei na semana que separou a decisão de ir pra lá pra ida propriamente dita nos perguntou: mas por que Montevideo? O tom variava da curiosidade genuína a um espanto que teria desanimado alguns. Mas não eu, leitora apaixonada do uruguaio Eduardo Galeano e seduzida pelo seu olhar amoroso pra sua cidade. E respondia assim mesmo: porque eu adoro Galeano, porque aprendi com ele que nós brasileiros somos também latinoamericanos, e nada mais lógico do que conhecer os países vizinhos, ainda mais quando a Europa anda tão cara e os Estados Unidos nos barram na porta. E além disso de lá vem o Jorge Drexler, melhor descoberta musical dos últimos anos, cujo disco "Eco" não sai da vitrola aqui de casa desde que compramos.



Montevideo é linda, uma cidade com orla de rio e tempo de antigamente, cheia de praças bonitas, bares e restaurantes bacanas, e muita gente simpática pra todo lado. Tudo lá estava incrivelmente barato pra gente, e aproveitamos pra comer bem e passear muito. A dica pra quem for é ficar no Centro, onde era nosso albergue Che Lagarto, escolhido exatamente por isso. Só que chegando lá detestamos nosso quarto, que não tinha mesa-cadeira-cabide-armário, nada além da cama e olhe lá. Daí fomos parar num hotel Ibis, padrão-americano de qualidade, que realmente nos deu tudo o que a gente precisava por uns poucos dólares a mais que o albergue, e que apesar de estar fora do Centro era de frente pra Rambla, o que compensava a perda.



Andamos feito loucos, comemos a qualquer hora, fizemos tudo que deu na telha, arrastamos malas pela rua, dirigimos sem saber o caminho, compramos sapatos iguais, e eu comprei, já sabendo que nem ia tocar nele lá, o último livro do Galeano que me falta ler, "Venas abiertas de la America Latina", assim mesmo, em espanhol, porque o medinho que eu tinha de ler esse livro se foi quando dei de cara com o Uruguai e percebi o quão perto ele está de tudo, o quão perto a gente está de lá e de tudo mais, e agora, já no Rio, aproveito o prazer de ler esse cara que eu adoro na sua língua, e de conhecer o que ele teve a dizer sobre tudo isso ainda nos anos 60, e que é cada vez mais relevante nos anos 2mil.



Dicas pra quem for:



- andar pela Rambla, que é a orla de lá e corta a cidade de uma ponta a outra, ou seja, de Carrasco (bairro antigo e cheio de casas deslumbrantes e sem muros ou grades, pra nosso espanto carioca) até o Mercado del Puerto, antigo mercado transformado em centro gastronômico que reúne restaurantes de 'parrilla' (churrasco deles) e bares bons pra beber medio-a-medio, mistura de vinhos brancos e espumante típica de lá.



- se admirar com a beleza da Plaza Independencia, passar pela Puerta de la Ciudadela e andar pela Ciudad Vieja, sentar nas praças e se sentir seguro em qualquer ruazinha deserta



- jantar no Bar Tabaré, um bar-restaurante super tradicional e ainda assim moderninho, ótima comida e clima



- ouvir boa música e beber 'uvita' (outra mistura de vinhos deliciosa, que só esse bar tem) no Baar Fun Fun, perto da Plaza Independencia



- passar uma noite pulando de bar em bar na Calle Bartolomeu Mitre, na entrada da Ciudad Vieja: são vários, cada um num estilo, quase todos com música ao vivo, e como os preços são ótimos dá pra beber e comer um pouquinho em cada um



- sentar pra tomar alguma coisa no Café Brasileiro, lugar preferido do Galeano (se é que alguém além de mim se interessa por essa informação). Independente da literatura, é um dos cafés mais antigos da cidade, e apesar da gente não ter gostado de nenhum café (a bebida, não o lugar) em Montevideo, vale uma visita



- pegar um barco pra ir a Buenos Aires, que pode ser direto de Montevideo (3h de viagem) ou passar por Colônia, cidade que todo mundo diz que é linda mas que a gente acabou não conhecendo, por confusões de viagem e uma certa ansiedade de chegar em Buenos Aires, que a gente ama.



Notícias de lá no próximo post...


5.9.07

será mesmo?


Sempre fui péssima em geografia. Durante a escola era só estudar na véspera das provas, mas agora, na vida real, é que a coisa pega mesmo. O Brasil até que eu entendo bem, graças à sorte de ter viajado bastante pelo país, o que me faz saber onde ficam os estados. Parece básico, mas é me deixa feliz!

Seguindo pra América do Sul ainda me entendo, a America do Norte faz o favor de ter poucos países, e aí quando vem a Europa me perco toda. Ok, a Itália é uma bota e a Inglaterra é uma ilha, mas são tantos países, meu deus! Não adianta, não sei mesmo onde eles estão... África, Ásia, Oriente Médio, aí é como se fosse Marte, Vênus, Urano: nenhuma remota noção.

Digo isso tudo porque instalei aqui no blog um mapa que assinala onde estão os meus leitores, e cada vez desacredito mais dos resultados. No início comemorava: olha, estão me lendo numas ilhas no meio do mar!

Pelo mapa mundi que eu acabo de consultar e comparar com o meu Cluster Maps, tenho leitores nos Açores, nas Ilhas Canárias e em Cabo Verde. Também me lêem em três diferentes parte do Japão, em Macau, Angola, na Venezuela, na Guiana, na fronteira do Uruguay com a Argentina, em várias partes dos Estados Unidos, na Itália, Turquia, Noruega, Dinamarca, e em outros países da Europa que eu não consigo reconhecer no mapa-mundi porque os pontinhos vermelhos do Cluster Maps encobrem as fronteiras. E tem mais! Tenho leitores em Iceland! Sou lida na Terra do Gelo, ilha que eu nem sabia que existia, ó ignorância geográfica!

Enfim, fico feliz, lisonjeada, orgulhosíssima, mas diante da improbabilidade desse fato deixo o apelo: se alguém aqui souber como funciona esse Cluster Maps, me dê notícias. E se alguém aí estiver me lendo de lugares incríveis como esses, ah, deixa um recadinho, vai...

31.8.07

Elke


O cinema sempre perpassou a minha vida, desde pequeninha. Com um pai diretor e uma mãe produtora, passei anos me perguntando se queria fazer cinema e fingia que não pra fugir da obviedade, ou se não queria fazer cinema e achava que sim pela sedução intrínseca desse universo. Ao longo dos anos fui experimentando: fui estagiária, assistente de direção, dirigi um curta, alguns making ofs e até comecei a co-dirigir um longa documental, que continua em fase de elaboração.
Quando comecei a trabalhar com montagem tudo se encaixou. Levou um tempo até eu perceber que, mais do que um trabalho provisório pra ganhar dinheiro, esse era o trabalho que eu queria pra minha vida, junto e ao lado de ser poeta - que é paixão e sina, não profissão. Desde então coloco "montadora" em formulários e proclamo por aí a minha vontade de viver fazendo isso.
Por isso é uma alegria imensa ter um filme montado por mim escolhido pro Festival do Rio desse ano. 2007 foi o ano curtas na minha vida. Até agora foram 3: "Procurando Jorge Mautner", do Rodrigo Bittencourt; "Minha rainha", da Cecília Amado; e o "Elke" aí de cima, da Julia Rezende.
Como o sobrenome já denuncia, a Julia é minha irmã, o que só aumenta a alegria. Esse é o primeiro curta dela, produzido pela Camila Medina, minha irmã-escolhida, e tome alegria! O filme está uma delícia, um retrato amoroso dessa mulher além de todos os estereótipos, com um enfoque cuidadoso e delicado da Julia.
Pra mim, que já estive no Festival como diretora junto com o Rodrigo com o nosso "Por acaso Gullar", é um luxo voltar ao Festival agora como montadora. E que venham mais filmes e festivais por aí!

3.8.07

ainda a morte, agora em verso

Arroz de carreteiro numa casa masculina
O jeito doce
Broncas entre risos num elevador
da cidade de São Paulo

Claras em neve no banquinho da cozinha
Novela das oito no ar-condicionado
Caxambu e a fonte da beleza
Ser “princeza” com “z” na sua letra rebuscada

Me achar a sobrinha preferida
Gargalhadas com Chico Anísio
Cócegas até doer
Brigas no vôlei e os olhos de piscina

Camisetas velhas e tênis cinza anos 80
O preconceito e a descoberta
Pão de queijo ruim e belas conversas
Admiração e sonhos na minha geração

Ser chamada de Aretuza ao passar na porta
Contar os passos entre nossas casas
Velhas marchinhas de carnaval:
“Ó mulher vampira!
Ó mulher fatal!
Por causa de você levei um tiro!
Passei um mês e meio no hospital!
Ai, ai, ai...”

Meus mortos e suas memórias
Rasgos de dor na minha históriaPorradas doces com as quais caminho.

29.7.07

confesso e indico

Não devia dizer isso, mas não sou leitora muito assídua de blogs. Na verdade fuço pouco por aí, e acabo lendo sempre os mesmos poucos, de gente de quem eu gosto e cuja escrita me anima, como é o caso dessa listinha aí na esquerda. Mas o blog por onde eu mais passo não está aí, na lista. Não está por pudorzinho e orgulho besta, por uma sensação de que ela já não precisa de indicações, e não vou ser mais eu a encher a bola da moça.

Mas hoje entrei no blog da Clarah e não deu pra continuar disfarçando. Porque a carta aberta dela sobre o seu porteiro (O Zelador - partes 1 e 2) que está lá descreve exatamente o que eu vivo aqui! E como ela já fez isso brilhantemente, com toda a sua ironia e potência, encaminho pra lá quem vem aqui me ler, porque os detalhes são diferentes, mas a sensação é a mesma.

E pronto, eu indico: Clarah Averbuck. adioslounge. Boa leitura na sua telinha.

23.7.07

incompreensões 2

Foto no Globo Online: uma menina no ombro do pai, de vestido branco, cabelinho arrumado e soprando uma língua de sogra, daquelas de festa infantil de antigamente, observa o local do acidente da TAM em São Paulo.

E isso agora é programa de domingo pra criança, gente?!

21.7.07

incompreensões

Ainda não entendo a morte como ela realmente é. Ou entendo, mas não concordo muito. Tá, a pessoa morre, aí a gente chora, se despede, ela some do mundo que se pode ver, mas precisava ser por tanto tempo, assim, pra sempre?

Não tive que lidar com muitas dessas dores ainda, e agradeço o privilégio. Já fui a muitos enterros e chorei e consolei e fui consolada, mas morte daquelas de doer por muito tempo e assombrar muito tempo depois por enquanto só foram três ou quatro. E quando a saudade dessa gente bate com força viro criança com uma lógica sem nenhuma conexão com a realidade e penso, poxa, a vovó já foi há tanto tempo, já estava na hora dela voltar um pouquinho!

Me parece um egoísmo, sabe, que agora ela só possa existir na minha lembrança e na de quem ama ela. Eu posso lembrar dos dias com ela e andar pela casa dela que nem existe mais vendo cada móvel, cada objeto, sentindo o cheiro dos cômodos, subir no banquinho da cozinha pra bater clara em neve e sentir a textura do carpete marrom escuro da sala no pé descalço. Tudo isso eu posso, e aproveito.

Mas ela não pode vir conhecer a minha casa, uma casa tão cheia de influências dela apesar da imensa diferença das nossas vidas, eu dividindo o teto com um homem amado sem padre nem papel, coisa inconcebível pras netas dos outros mas eu era a sua "princeza" e o amor quebra as barreiras das idéias pré-concebidas. Eu olho pra minha cozinha com seus mil potinhos separando os ingredientes e sei que esse amor pela organização que pra mim quase que só existe nessa parte da casa nasceu lá, na cozinha dela.

E sigo não entendendo, ou não concordando, com isso que se chama morte e que não tem a menor generosidade com quem fica...

11.7.07

quarta-feira sem cinzas


Era hoje. Antes era no começo de junho. Depois no fim. Aí passou pra hoje. Quer dizer, nessa época hoje não era assim, hoje, era "dia 11 de julho". Faltava um bom tempo pra esse dia, mas eu fui adiando a ansiedade.

Até que chegou ontem, o dia 10. Aí a ansiedade cansou de ficar quieta e começou a falar no meu ouvido. Falou tanto que quando deu meia-noite, bem no primeiro minuto do dia 11 lá fui eu pro site da Petrobras ver o resultado. Mas ainda não. Era dia 11 às 11h da manhã. Faltavam 11 horas.

Eu espero. Tudo bem.

Acordei às 9h e dei uma incerta por lá. Quem sabe eles não se adiantaram? Mas eles não se adiantaram. Inventei coisas pra calar a voz da ansiedade, e por fim resolvi sair de casa pra ir trabalhar. Adivinha a que horas?

10h54. Boa idéia, Maria. Genial.

Corri feito louca pra chegar o mais rápido possível a um computador. Desliguei o celular pra não receber a notícia - boa ou ruim - de mais ninguém. Queria ver eu mesma a notícia na tela. E vi.

Eu não fui selecionada. O Bendita Palavra, meu livro novo, não foi um dos escolhidos no edital de produção e difusão de literatura da Petrobras. Foi chato. A grana e a infra deles iam encurtar um caminho compridíssimo, mas eu não dependo disso pra transformar o que escrevo em uma pilha de papéis encadernados que cabe certinha na mão de quem lê.

Isso é aqui comigo. E a festa continua.

27.6.07

poema dos 28, já na metade deles

O amor enche as mãos de tarefas e os olhos de lágrimas.
Depois é voz doce curando a dor de cabeça,
Telefonema bendito no meio da madrugada.

O amor quando insiste deixa a gente encharcada,
Molha por fora e por dentro,
Inunda, interrompe a estrada
Pra depois seguir melhor.

Fiz 28 anos e tenho chorado muito, antes e depois.
A idade me acolhe, não me assusta:
Sou eu quem escolhe o que fazer do dias,
E a marca que quero que eles deixem no meu rosto.

Quem acorda comigo sabe:
Durmo sorrindo até de manhã
E adoro a luz amarela que não entra pela janela
(mas tenta)
quando o sol está lá fora.

O amor anda em mim sob a pele
Feito bicho geográfico,
Hora no sexo
Hora no pé
E meu corpo é todo um mapa dos caminhos que ele faz
E eu nunca
Nunca reclamo.

26.6.07

quase cinco anos disso

Eu alta no salto você me alcança
A cama pequena você se encaixa
No frio de fora você me agasalha
E no calor dos corpos você se incandesce.
Duro no pau
Doce no olhar
Puro nos sonhos e calculista nos planos
Menino no meu abraço
Homem imenso no toca-fitas do carro
Vagabundo pela cidade
E na intimidade meu amor
E na intimidade meu
E na intimidade, eu.

17.6.07

comichão

(foto de Wilian Cézar Aguiar)

Ando sentindo saudades dos tempos em que essa imagem era corriqueira: a cada mês novas fotos da Maria dizendo seus poemas, mudando só a roupa e o clima, com o fundo preto do palco da Laura Alvim.

Já tem dois anos que a gente parou de produzir o Te vejo na Laura, e foi um tempo bom de construir mil outras coisas e consolidar outras, mas confesso que hoje sinto falta dessa emoção boa de me expor com uma luz na cara e um microfone na mão, de sentir a reação das pessoas à minha poesia, dessas coisas de palco.

Se a vida for como eu gosto que seja, isso pode ser o começo de uma mudança, e essa saudade pode virar atitude. Tomara!

27.5.07

poemas, poemas e mais poemas

A vida de cinema anda me consumindo. E eu nem reclamo, porque descobrir que o ganha-pão é também um grande prazer tira qualquer traço de chatice dessa fase da vida. Mas a poesia anda devagar, e as postagens aqui no blog mais ainda.

Então pra me redimir, lancei mão de um truque: tive a pachorra de rever todos os posts desses três anos de mariadapoesia, um por um, e separei todos os que têm poemas dentro. E olha, são muitos! Oba!

Aqui vai então, pra quem sente falta da minha produção poética, o mapa da mina dessa poeta sumida, meu "best of digital"...

- uma mulher

- criança de rua

- uma grande mulher

- pro inferno

- morrer

- poema infantil

- pau mole

- temor

- harmonia

- soft dick (pau mole em inglês!)

- filho

- medo

- escrevo

- uma mulher: traduções

- risco

- tatuagem

- dentro de mim

- casamento

- defeito

28.4.07

sonho nublado


Não me entendam mal, isso não é de modo algum uma reclamação. Pela primeira vez na minha vida profissional, tenho quatro trabalhos de montagem ao mesmo tempo. Nunca tive quatro trabalhos juntos. Acho que em 2006 inteiro eu tive quatro trabalhos. Talvez cinco. Subitamente, em março/abril/maio de 2007, quatro trabalhos.

Não, eles não vieram assim, todos de uma vez. Primeiro apareceu um, que era pra ser curtinho mas ficou longo, e eu fiquei feliz: experiência e dinheiro, oba! De repente, outro convite, esse vindo de uma amiga e com o desafio de aprender novas tecnologias. Maravilha: mais experiência, mais dinheiro, e muito prazer no percurso! Perfeito! Subitamente um atrasadinho furou a fila: era pra já estar pronto há tempos, mas chegou bem nessa hora. Ok, matei no peito e bola pra frente. Aí veio o quarto, esse querido, inegável, inadiável... Caí dentro!

E eu que temi pela incerteza de trabalho em 2007 agora estou assim, feliz e louca, sonhando acordada com dias nublados como esses aí de cima, em que nem o prazer oprime...

14.4.07

10.000

Em tempos de contagem obcessiva na cidade (do gol 1.000 do Romário às 1.000 pessoas deitadas no calçadão de Copacabana representando os mortos de 2007), não podia deixar de registrar que o mariadapoesia atingiu a marca memorável de 10.000 (dez mil!) visitantes nesse mês de abril.

São quase 3 anos (estreei o blog em maio de 2004), e cada vez gosto mais de ter esse espaço pra deixar minhas impressões sobre o que vejo e vivo e encontrar virtualmente gente que a correria da vida às vezes não deixa encontrar ao vivo.

Que bom que vocês também gostam de passar por aqui, e pra comemorar essa marca histórica deixo um pedido: quem ler esse post pode deixar um recadinho? É que o números de visitantes é sempre muito maior do que o número de comentários, e eu morro de curiosidade de saber quem são os anônimos que me lêem... E aproveito pra dizer que quando eu não respondo aos comentários não é por falta de vontade não: esse meu provedor de comentários pede pra vocês deixarem o email mas não me mostra, então fico sem ter como entrar em contato. Então fica a dica: deixem o email no corpo da mensagem, que eu juro que respondo!

Topam?

Aí embaixo o documento oficial que comprova os 10.000!

maria da poesia
(s20exibida)
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3.4.07

na TV

Passei na tv ontem e nem sabia! Acabei de receber um email do Cesar Miranda, que eu não conhecia mas que me conheceu ontem no Canal Futura. O programa é o Ao Ponto, comandado pelo Jairo Bauer, voltado pro público jovem, com alguns convidados e uma platéia que participa ao vivo. O tema era bissexualidade, ou como diz o nome da edição, Total Flex. Como muita gente me considera uma poeta erótica - apesar de eu não entender exatamente o porquê - me convidaram, achei ótimo e fui!

Foi no fim do ano passado, eu estava cheia de trabalho e quase tive que desmarcar, mas quando cheguei lá percebi que a correria tinha compensado: os convidados éramos eu, a compositora Lucina e o Caetano Veloso. Eu tinha ido no show dele um pouco antes, estava mais admiradora do que nunca, e confesso que achei muito chique ser convidada da mesma edição que ele.
Falei o poema "uma mulher é uma mulher", participei de um debate surpreendentemente bom, e descobri um pouco mais porque o Caetano é o cara: ele topa fazer o programa, chega mais cedo que eu pra gravar as músicas, bate papo com os meninos com um interesse enorme e genuíno, fala pouco e ouve muito, e ainda por cima tem a delicadeza de se lembrar de mim quando acabo o poema, e elogiar as minhas reticências.

(foto de Laura Caldas)

Bom, como eu só soube com atraso e perdemos a estréia do programa, aí vão os horários de reprise essa semana. O Futura é o canal 32 da Net.

4a feira, 04/04, 23h30

sábado, 07/07, 20h30

domingo, 08/04, 17h30

26.3.07

minha vez

casamento

Poema feito pra Carol e pro Bruno, depois de muita polêmica familiar sobre o que é afinal um "casamento".

Pode ser uma prisão ou uma fonte.
Pode ser um deserto ou uma ponte.
Um mundo novo ou um ponto final.

Pode ter loucura, pode ter dureza
pode ser difícil e uma delícia
pode ter tristeza, tédio, encantamento
tudo o que há de bom e um pouco do ruim.

Pode ser esperteza ou sonho
pode ser insistência ou sorte
pode ter festa animada ou só um olhar sincero
porque casar não começa quando se casa.

Casamento é quando a parceria é tão boa
que não precisa bolo, não precisa roupa
pode ser no padre, no juiz ou só no banco
porque o sim mora dentro da felicidade dos dias.

Casar é ser feliz sozinho, mas preferir junto.
Por isso a festa.

21.3.07

poema pós-bbb

Ando cansada de tantos consertos.

Tudo na casa dá defeito, inclusive a dona.

Carrego tristezas como os franceses carregam baguetes,
sem proteção contra a poeira da rua e o suor das axilas.

Tenho medo do que desconheço
e me estranho no que me é difícil.
"Tentativas e erros" é a expressão correta:
os acertos ficaram pra próxima vida.

Vivo num corpo que não me escuta
e a eterna luta é fazer da voz carne
e da dor insistência e êxito.

Me alimentar do que me frustra,
digerir cacos de vidro pra parir,
em meio a espasmos,
alguém em quem eu me divirta,
uma mulher que exista,
e diga a que veio.

16.3.07

04:00

É isso que me diz o relógio do computador, pra minha surpresa e desespero. Há tempos não vejo essa hora em relógio nenhum, e queria ver era nos relógios da rua em noites animadas, não nessa tela azul e fria que eu não consigo largar no dia de hoje.

Não reclamo: trabalho é ótimo, e eu nunca sei quando o próximo vai chegar, então aproveito. Esses tempos, no entanto, chegaram vários juntos me atropelando, daí a madrugada insone labutando...

Os projetos vão de espetáculo de poesia pra inscrever em concurso público à edição de um promo de um longa sobre Capitães de Areia, passando pela assistência de montagem prum show do Waldick Soriano. Manhã, tarde, noite.

Não reclamo. Venham, trabalhos, venham todos, eu espero acordada...

10.3.07

Bruna Beber


No último post falei sobre o Ramon Mello e o blog dele, Click (IN)VERSOS, e hoje venho falar de uma das entrevistadas mais bacanas de lá, a Bruna Beber. Conheci a poesia dela por dica do meu pai, que leu a matéria do Prosa e Verso quando A fila sem fim dos demônios descontentes foi lançado pela 7Letras. Gostei de cara do clima rock n´roll sem exageros, uma voz autêntica e que não quer só chocar, uma menina de 23 anos poeta das boas mesmo.

Quando li a entrevista dela pro Ramon fiquei com vontade de aproveitar a ponte e conhecer ela, e acabou que depois de emails de todo os lados ontem à noite fomos todos pro Diagonal bater papo e apresentar os rostos uns pros outros.

Foi uma noite gostosa de novidade, e é tão raro realmente ficar amigo de quem a gente lê e admira de longe que fiquei muito feliz com o encontro. E pra vocês entenderem o porque da admiração, um dos poemas do livro dela que eu acho incrível:

você quer um dia
ser estudado
numa sala de aula qualquer
por uma turma de pirralhos
que vão zoar suas roupas hoje modernas
falar que o que você escreveu é chato pra caralho
fazer chifrinho na sua foto
interrogação.

queira morrer antes
comendo caramelos
a estranha paixão de Hitler
caramelos.

6.3.07

Click (IN)VERSOS

tempos atrás falei aqui da entrevista que dei pro Ramon Mello, publicada no site Click 21. O Ramon é escritor também e fez a mais longa entrevista da minha breve vida pública, o que me fez muito feliz...

Mas o caminho pro site era difícil, e muita gente reclamou que não conseguiu ir lá. Pois agora a coluna dele, Click (IN)VERSOS, virou
blog, e lá estão a minha entrevista e a de um monte de gente bacana. Eu recomendo!

4.3.07

que vexame, meu deus!

Eis que decido escrever sobre os romances enormes e deliciosos que li nos últimos tempos. Eis que cito quem me deu o primeiro deles de presente, pra agradecer publicamente à amiga. Eis que, vexame, erro de amiga...

Venho então me desculpar, corrigir o erro e explicar: quem me deu Um defeito de cor não foi a Regina Zappa, foi a
Olga de Mello, também jornalista e amiga querida. A confusão se deu porque passamos um fim de tarde aqui em casa, nós três e o Eduardo Graça, amigo querido que mora em Nova Iorque e junta todo mundo quando está por aqui. Esse ano dei a sorte de ser a anfitriã do moço, e como era aniversário dele Olga e Regina vieram lanchar. E eu, que não era aniversariante nem nada, terminei a noite com dois presentes: o romanção dado pela Olga e as obras completas do João Gilberto Noll, dadas pela Regina - diga-se de passagem, outro catatau.

Resumo: me dei completamente bem, ganhando dois livros numa noite, por excesso de presente acabei cometendo essa indelicadeza com a Olga, que eu reparo indicando a todos o
Arenas Cariocas, onde ela mostra o seu talento aqui na rede.

28.2.07

grandes livros grandes

Fevereiro foi o mês das sagas femininas na mansão Caravelas.

Tudo começou quando eu ganhei da Regina Zappa, sem ser aniversário nem nada, o catatau Um defeito de cor. Apesar de ser leitora voraz desde pequenininha, nunca gostei muito de livrão, até porque gosto de ler deitada e livro grande é complicado de segurar na cama, cansa os braços rápido, me dá preguiça. Pra piorar, confundi o livro com "Não somos racistas", do Ali Kamel, um livro jornalístico que dizem ser muito interessante, mas fora poesia meu negócio mesmo é romance. O livro ficou esquecido na mesa da sala até que eu olhei pra ele um dia e li embaixo do título: " um romance". Romance. Eu gosto muito. Vou ver qual é a desse calhamaço.

Pronto, fui definitivamente fisgada. A autora, Ana Maria Gonçalves, escreve um prólogo irresistível contando como foi levada a escrever o livro, e não sei se é tudo verdade nem quis saber: parti pro capítulo 1. A narradora, Kehinde, é uma africana que é trazida pro Brasil como escrava no começo do século 19, e conta a sua vida da forma mais saborosa que eu me lembro de ter lido nos últimos muitos anos. Fiquei obcecada pelo livro. Lia em qualquer brechinha do dia, e até o olho doer antes de dormir. Falava dos personagens com os amigos, sonhava com eles. A saga de uma mulher e sua família na África selvagem e no Brasil escravagista, um super romance pra ninguém botar defeito. Nesse nível: a tv da casa quebrou, e pensei: melhor, mais tempo pra ler. Sentiram a obcessão?

Quando o livro acabou fiquei orfã. Um vazio imenso na casa sem televisão. Foram 950 páginas de intimidade. Aquela gente, já tão íntima, guardada dentro da capa dourada. Que diabo de livro vai substituir esse, meu deus? Tinha 10 dias de carnaval numa praia distante pela frente, impossível encarar sem um romance. Procurei nas prateleiras, pedi dicas pros amigos, mas foi só na livraria do aeroporto que achei: Cisnes Selvagens, da Jung Cheng. A saga de três mulheres na China, do começo do século 20 até os anos 80. Outra família, outros tempos, mas uma saga familiar de peso: 650 páginas, e isso em edição de bolso! Era tudo que eu precisava!

O livro é incrível. Incrível no sentido de sensacional e também no de inacreditável, ainda mais pra quem, como eu, não sabia nada sobre a história da China nessa época. Os costumes tradicionais, a ocupação pelos japoneses, a Revolução Comunista e seus primeiros dias de glória, a loucura de Mao e a crueldade do Partido contra seus próprios membros, a destruição de tudo que pode ser chamado de cultura pela Revolução Cultura, e o apagamento de tudo que fazia da China a China: proibidos os jardins, as flores, as casas de chá, as roupas coloridas, os longos cabelos, a música e a dança, a beleza dos templos, o respeito aos mais velhos. Em alta a violência, a destruição, os tribunais de acusação em que todos apontavam os dedos para todos, e a dita igualdade socialista terminando em uma divisão da população em 23 categorias, com rígidas determinações do que era permitido a cada uma. No meio disso, a autora, cujo pai era alto dirigente do partido, passa pelos dias de tranqülidade e pelo horror que toma o país, e conta tudo deliciosamente.

Lá se foi a minha implicância com livros grandes. Agora tô viciadinha: menos de 300 páginas nem me apresente que eu não dou bola...

10.2.07

bendita palavra malvada

Pois dentro de mim não é o melhor lugar pra se viver.
Não é nem um bom lugar.

Dentro de mim moram feras mortais agonizando do próprio veneno.

Dentro de mim um gigante agüenta o mundo nos ombros e uma puta procura o espartilho.

Tem uma velha senhora louca pra chupar buceta e um mágico ilusionista que tira sorrisos da cartola.

Teve um tempo em esse dentro parecia com o fora, e era um ótimo lugar pra uma moça como eu era.

O depois é uma armadilha:
Ele dura tantos tempos
Passeia tão sorrateiro
Que só num hoje distante a gente consegue enxergar.

Dentro de mim não é mais um bom lugar pra se viver.
Ainda vai ser?

3.2.07

livro novo

A idéia de capa aí embaixo é pro bendita palavra, meu livro novo que ainda não tá pronto mas que espero que saia esse ano. Tô feliz com ele porque tenho escrito poemas mais "malvados", uma mistura que eu gosto de doçura e dureza, como esse aqui:

As coisas boas são prisões sem grades
Pessoas boas são carcereiros sem chaves
O conforto é uma corrente que ata aos pés bolas imensas
Felicidade é parede encobrindo o outro lado

Bons poemas são veneno: afastam palavras novas
Caminhos cheios de setas não dão em praias desertas
O acerto de anteontem mata o risco dessa tarde
O sucesso é um uniforme que te obrigam a vestir

E o que é bom vira uma sina
Mantém o mundo de cabeça pra cima
E você preso nesse lugar.

22.1.07

Humaitá pra Peixe



Taí uma foto do anunciado show do Rodrigo Bittencourt no Humaitá pra Peixe, no Sergio Porto, nessa sexta-feira passada. Uma banda de primeira, um show com alma e corpo, enfim, uma bela estréia pro Coleção de Amores! Quem não foi perdeu, e espere que eu aviso das próximas!

5.1.07

em 2007

Feliz ano novo pros meus leitores virtuais! Começo o ano apostando todas as fichas no edital da Petrobras que pela primeira vez abriu pra literatura, e vou inscrever meu bendita palavra e ficar torcendo...

Já Rodrigo tem coisas mais concretas pra comemorar, e eu anuncio! A primeira é a estréia do show do disco novo dele, Coleção de Amores, dia 19 de janeiro no Humaitá pra Peixe, no Sergio Porto. O festival é super bacana e tem a cara do verão carioca, mostrar lá as músicas novas vai ser genial! A banda é uma atração à parte: Nilo Romero no baixo (que é também o produtor do disco), Sacha Amback no teclado, Billy Brandão na guitarra, Damien Seth na programação, Shilon no violão e Vidalt na bateria.

Logo depois, dias 2 e 3 de fevereiro, eles abrem pro Nando Reis no Circo Voador!

Ou seja: 2007 começa animado aqui pra nós. Espero que pra todo mundo também!



25.12.06

Meu Natal 2006

(vovó e o Papai Noel, em foto inédita e fundamental)





São 3h da madrugada, cheguei da festa de Natal descrita extensiva e emocionadamente no texto aí embaixo, e o sono ainda não me pegou de jeito, então vim parar aqui. Engraçado: esse post "Natal com sentido" começou como um desejo de reclamar do Natal e acabou virando quase uma ode a ele, reavivando minhas lembranças mais antigas e gostosas. Por conta dele recebi mil comentários emocionados da família, tanto que acabei lendo ele hoje à noite durante a festa, antes do jogral de todos os anos, e foi muito bom compartilhar com as pessoas que viveram e vivem essa história, e a gente estar ali de novo, anjos na parede, cartões na porta, pinheiro cheiroso piscando, e a vovó lindona no comando.

Depois de escrever o texto mergulhei ainda mais na minha insatisfação com o consumismo natalino, e resolvi fazer presentes, ao invés de comprar. Comprei blocos e caderninhos, paetês, fitas de cetim, linha de crochê, agulhas e cola pra tecido, tirei do armário os panos que eu compro pra usar num dia que nunca chegava, e mãos à obra! Foram três dias de loucura bordando paetês e colando chitas e fitas, mas confesso que estou orgulhosíssima da obra, que exibo aí embaixo junto com algumas fotos geniais do Natal desse ano.
(meus blocos, presentes e obra)
Outro acontecimento especial desse ano foi a estréia do Luiz no Natal da Barão (nome oficial da casa da vovó). Todo ano ele vai com a mãe pra Minas, visitar a família deles, e a cada ano que passa o menino cresce e se urbaniza e gosta menos de ir pra roça, viver por um mês a vida simples do campo. Mas pra nós o que sempre deu mais pena era ele perder a chance de viver esse Natal, de conhecer o Papai Noel e ter uma noite daquelas de cinema. Pois esse ano a chance veio, por vias tortíssimas, mas diz meu amigo Pedro Cezar, "há malas que vão pra Belém" (ou "há males que vêm para o bem" mesmo).
A Graça, mãe do Luiz, teve um problema grave de varizes anteontem, véspera da viagem pra fazenda, e o médico recomendou repouso e pernas pro alto, coisas impossíveis de cumprir dentro de um ônibus sem ar durante 8 horas. Mãe e filho ficaram, pois, no Rio, e embora ela tenha se recusado a ir pra festa, ele, Luiz, vibrou com a oportunidade. Aí em cima, registro do momento em que o Papai Noel adentrou a sala, ele com esse olhar de maravilha. Aqui embaixo, o abraço inédito e a felicidade.

17.12.06

Natal com sentido


A cada ano tenho menos apreço pelo Natal.

Não me entendam mal: meu Natal é incrível. Tenho uma família enorme e unida, comandada lindamente pela vovó, uma matriarca daquelas de livro de antigamente, e o Natal é a coroação das celebrações que ela promove, amorosa e dedicadamente, o ano todo. Nossa festa é cheia de tradições deliciosas de manter, que na minha infância começavam muito antes da noite do dia 24.

Quando crianças, a casa da vovó era o quartel general das férias de todos, alguns hospedados lá porque moravam fora do Rio, outros indo pra casa só pra dormir e voltando cedinho no dia seguinte pra não perder nada. No meio de dezembro começavam os preparativos: um pinheiro de verdade, cheiroso e enorme, chegava e era levado pra sala de jantar, onde era enfeitado com bolas e luzinhas. Na parede da sala eram pendurados anjinhos de pano, com roupas coloridas, cada um representando um neto, e a cada ano aumentavam os anjinhos na parede. Dindinha Zélia, prima da vovó que morava com ela e era madrinha amorosa de todos nós, arrumava o presépio: papel imitando pedra cobrindo a mesa, palha no bercinho do menino jesus, e as figuras de barro representando todo mundo que tinha que estar lá. O dia mais esperado era quando vovó juntava os cartões de Natal que recebia e a gente fazia rolinhos de durex pra colar todos na porta da sala, subindo num banquinho pra alcançar as partes mais altas que hoje eu toco sem nem precisar ficar na ponta dos pés.

Na noite de Natal cada neto ganhava uma figura do presépio e decorava seu "texto". Mariana, a mais velha, era a narradora, posição sempre disputada mas nunca conquistada por ninguém por anos a fio. Os menores eram os bichinhos, e só tinham que fazer "múuu" ou "béeee". Os maiorzinhos eram os pastores, diziam "viemos trazer incenso pra perfumar o menino" e outras frases assim. Depois tinha amigo oculto entre as crianças, depois entre os adultos, daí a leitura de um jogral sobre a árvore de Natal, com os convidados recebendo na hora seus números pra ler, e sempre tinha um que esquecia e deixava aquele buraco, preenchido por uma tia atenta. Nosso sonho, quando crianças, era poder ler o jogral, prova inequívoca de maturidade.

O ponto alto da festa era a chegada do Papai Noel. A porta da sala era fechada e a gente ficava lá dentro cantando "deixei meu sapatinho na janela do quintal, Papai Noel deixou meu presente de Natal, como pode Papai Noel, não se esquece de ninguém, seja rico ou seja pobre o velhinho sempre vem". Depois de minutos intermináveis de suspense ele chegava vestido a caráter, e os corações paravam de susto e maravilha. De dentro de sacos vermelhos de veludo saiam embrulhos, e cada um era chamado pelo nome pra receber o seu presente, momento de tirar a famosa foto com o bom velhinho, pra prazer de uns e terror de outros. A felicidade maior era quando ao invés de um embrulho vinha um cartãozinho dizendo "seu presente está no salão", o que queria dizer que o presente era tão grande que não cabia no saco do Papai Noel, o que já excitava todo mundo: será uma bicicleta? Um velocípede?

Depois de toda a emoção Papai Noel ia embora, visitar outras famílias, e a gente ficava ali entre papéis rasgados e fitas, comemorando a alegria de ser crianças boas e merecer aquela visita. Era a hora do jantar, uma ceia de delícias inenarráveis, seguida pela entrega de presentes da vovó, sempre incluindo alguma coisa personalizada pros netos: toalhas bordadas com o nome e o jeito de cada um (meu irmão uma vez ganhou uma do Vasco, pode?), pijamas com estampas escolhidas a dedo, malas de viagem com o nome do dono. E a noite terminava com a gente chegando em casa, exausto de tanta felicidade, e colocando um pé de sapato na janela do quarto pro Papai Noel deixar o "sapatinho", presentinho simbólico diante dos grandes da festa mas sempre aguardado com ansiedade até o dia seguinte.

Hoje não temos mais crianças suficientes pra encenar o presépio. Mariana, a narradora oficial, fez 30 anos em junho, e todos os netos já estão aptos a ler o jogral. Mas as tradições continuam firmes, árvore, cartões na porta, amigos ocultos, jogral, jantar, presentes da vovó e, fundamental, Papai Noel a caráter. O fato de que apenas dois dos vinte netos têm menos de 10 anos não muda nada: Papai Noel é esperado com cantoria, chega com seus sacos e chama cada neto pelo nome, mesmo os que já teria idade pra dar bisnetos pra vovó.


A família é unida e as tradições são mantidas, e a gente gosta. Meu problema com o Natal não tem a ver com essa festa, mas com o conceito da coisa. Vamos lá: Jesus nasceu e eu, que não participei em nada do fato, tenho que dar presentes pra todo mundo que eu conheço?! Ah, não concordo! A beleza do Natal da minha família pra mim está na união improvável de tanta gente tão diferente, mas que mantém um amor cultivado em noites e tardes como essa, e o Natal é então uma festa da nossa amizade, do nosso carinho. Quando criança queria saber era dos presentes, sem me dar conta de que o se cultivava ali era um laço muito raro e do qual eu me orgulho muito hoje. Meu Natal ideal, em 2006, teria leitura de jogral, jantar de delícias, papos com primos e tias e comandando a festa a vovó toda bonita nos seus quase 88 anos, além do vovô em uma das suas noites de bom humor garantido.

Os presentes, ah, os presentes a gente distribuiria ao longo do ano, quando passasse numa vitrine e pensasse "nossa, isso é a cara da minha madrinha!", ou 'ih, a mamãe está precisando disso, vou dar pra ela". Os presentes tem que ser a expressão do nosso amor particular por alguém, e esse amor não acontece de uma vez todo dezembro em meio a lojas cheias e preços salgados: esse amor é de todo dia, de cada dia, e eu acredito em cultivá-lo e expressá-lo assim, um pouquinho e sempre, com presentes e carinhos, o ano todo.

Pra quem gosta muito de presentar, recomendo um projeto lindo que eu descobri esse ano: o Papai Noel dos Correios. Todo ano eles recebem milhares de cartas de crianças pedindo presentes, e qualquer um pode ir a uma agência e adotar uma carta: comprar um presente pra uma dessas crianças e deixar numa agência, e os Correios mandam um carteiro vestido de Papai Noel fazer as entregas. Taí um presente de Natal que faz sentido.

15.12.06

Entrevista

Sempre adorei ler entrevistas, principalmente aquelas que são papos descontraídos, em que a gente fica sabendo coisas não tão óbvias sobre o entrevistado. Não estou acostumada a estar do lado de lá das entrevistas, falando ao invés de lendo, e é uma delícia!

Semana passada dei uma entrevista ótima pro Ramon Mello, que é ator, contista e jornalista, tem uma coluna de livros na revista Suíte Rio e outra de entrevistas com novos escritores no site Click 21. Ele já tinha resenhado o substantivo feminino pra Suíte Rio, e agora me convidou pra ser a segunda entrevistada da coluna Clik (In) Versos.

A entrevista ficou super bacana e ilustrando ela está a foto que será a capa do meu livro novo, tirada pelo Pedro Molinos, fotógrafo super legal com quem eu estou trabalhando e que generosamente me fotografou num intervalo da labuta.

Tem que entrar no site Click 21, daí clicar em COLUNAS do lado esquerdo, e logo no alto está a chamada pra mim!

Leiam! Leiam! Leiam e me contem!

9.12.06

A poesia voa


As duas últimas semanas foram um pulo de volta no mundo da poesia, escrita e falada. Tô finalmente correndo atrás da publicação do meu livro, espalhando ele por aí e buscando formas de chegar nas editoras. Os resultados começam a aparecer, as pessoas gostando e se oferecendo pra me dar uma força nessa batalha, então vamos que vamos!

Também voltei a falar meus poemas, coisa que não fazia há tempos! Primeiro a convite do Donatinho, cuja banda ia se apresentar no Vivo Rio num evento da MPB FM, que tinha também Lenine e Afroreagge. Ele me chamou pra dar uma canja e foi uma delícia, aquela casa enorme lotada, e todo mundo ficando quieto pra me ouvir falar. O palco é uma delícia, quase uma droga de tão viciante, e foi bom ter essa recaída! No domingo eu e Rodrigo fomos nos apresentar no Aterro do Flamengo num evento super popular, junto com a Mari Dias e o Claudio Lyra (a Cia Dias de Lyrios) e o Jean Kuperman, e foi ótimo também!

Agora amanhã tem palco de novo, e um especial que eu adoro: o do
Circo Voador! De domingo a terça-feira vai rolar a segunda edição do Poesia Voa, evento organizado pelo Tavinho Paes, o Bruno Cattoni e a Maria Juçá lá no Circo, o primeiro grandeenorme evento só de poesia na cidade, muito chiquérrimo em seu ano 2! Rodrigo vai tocar e eu vou dizer uns poemas amanhã, 2a feira dia 10, de noite, lá prumas 20h ou 21h, eu acho. Independente da gente, recomendo uma passada no Circo em algum momento desses 3 dias, a programação dura o dia todo e tá cheia de coisas bacanas, então apareçam!