"Carne do umbigo", "Bendita palavra" e "Substantivo feminino" são a versao impressa e bem acabada do que rola aqui. Quer me ter na sua mão em forma de livro e disco? Me escreve aqui!
5.12.07
identificação
Fernando Maatz é um puta escritor, diz o que quer do melhor jeito, sem fazer tipinho, e ainda falou de sonhos que são os meus sonhos que são os sonhos de todo mundo ou quase mas falou do jeito dele.
Ainda não clicou? Clica! Vai lá logo! Tchau.
4.12.07
livro novo - aperitivo
Pessoas boas são carcereiros sem chaves
O conforto é uma corrente que ata aos pés bolas imensas
Felicidade é parede encobrindo o outro lado
Bons poemas são veneno: afastam palavras novas
Caminhos cheios de setas não dão em praias desertas
O acerto de anteontem mata o risco dessa tarde
O sucesso é um uniforme que te obrigam a vestir
E o que é bom vira uma sina
Mantém o mundo de cabeça pra cima
E você preso nesse lugar.
1.12.07
hoje e todo dia

29.11.07
7 coisas estranhas
A parte da qual eu gostei foi a proposta de fazer uma lista de 7 coisas estranhas sobre mim, então aí vai:
1. eu odeio usar sutiã, e apesar disso tenho uma coleção de uns 20
2. eu amo supermercado, do Pão de Açúcar chique ao Mundial da Lapa
3. eu só fiz a sobrancelha pela primeira vez depois que a minha avó materna morreu - ela amava minha sobrancelha grossérrima
4. eu calço 39/40 e passei uns dois anos usando só tênis bamba, sapatilha chinesa e chinelo, até as fábricas de calçado entenderem que mulher de pé grande também é gente
5. eu guardo um vestido pra usar quando estiver grávida desde os 15 anos. sim, ainda cabe.
6. eu mesma inventei meu único apelido: esse mariadapoesia que está quase roubando meu nome
7. eu sou feliz. nem sempre estou, mas sou. sim, pra alguns isso é estranho. eu adoro essa estranheza
eram só 7, né? então tenho dito.
21.11.07
14.11.07
desejo necessidade vontade
re-pintura do apê
1 editora pro Bendita Palavra
1 ou 2 ou 3 ou 1000 desumidificadores pra tudo que há na casa parar de mofar
1 escutador de mp3 de qualquer marca pequenino e bonitinho1 pacote de chá verde bom, com folhinhas enrugadas que se abrem na água quente, que nem o que veio de Chinatown e diferente dos três que eu já tentei por aqui
1 brinco prateado, fosco e básico e chique, que nem o que eu tive por anos e de cujo par pra minha tristeza só restou um
quadrinhos pequenininhos pra minha parede de quadrinhos pequenininhos
1 gravador de dvd externo que não dê erro a cada dois usos
1 parafuso que caiu do meu lado da cama, devidamente preso no lugar
e ainda...
10.11.07
7.11.07
6.11.07
noturno
cava
um poço de petróleo
em meu estômago.
Viscoso e negro brota,
entre outras flores,
o medo.
3.11.07
é isso
Como gostei do blog dela fui fuçar o início de tudo, os primeiros posts, e me deparei com essa carta inacreditavelmente deliciosa, que ao descrever desse jeito amoroso a vida deles dois fala tudo que eu sinto e quero viver na minha vida aqui, tão longe e tão perto.
E como admiração é das drogas que eu mais gosto, taí pra todo mundo que passa aqui o texto da Fernanda, porque os fatos são outros mas o sentimento é o mesmo.
"Querido Mário,
Como fiz durante anos te escrevi uma carta e demorei tanto para postar que ela ficou velha. Então resolvi começar de novo. Era mais fácil escrever para você quando você morava longe e não sabia o que acontecia comigo e eu contava que estava doente, que não podia mais beber e você me respondia dizendo que andava viciado em Jack Daniel´s, mas que não tinha dinheiro e então tomava um conhaque vagabundo mesmo. Tive muita saudade de você, porque ficamos muitos anos separados. Você teve outras namoradas e eu tive outros namorados que me perguntavam de quem eram aquelas cartas. Eram todas do meu futuro marido, mas eu ainda não sabia disso.
Eu coloquei muitas cartas numa caixa de correio que tinha ali perto da FAAP porque eu fazia uma peça lá. Aquela caixa de correio era a coisa mais legal que tinha ali porque eu sabia que uns dois dias depois você receberia minha carta e eu poderia inventar qualquer coisa e, porque a gente não se via, aquilo seria verdade. Eu morava num prédio que não tinha elevador e uma vez caí feio na escada porque subi correndo para ler uma carta sua que tinha chegado. Fiquei com um roxo na perna e me lembrava de você: “foi o Mário”. Não tinha sido, mas eu queria que tivesse. E então um dia a gente se casou. E aquele moleque que eu achei lindo e para quem eu sorri descaradamente, que ficou conversando e bebeu comigo e tinha uma voz muito grossa que eu gostava de ouvir, o cara que tocava blues e escrevia peças e entrava em cena de um jeito que eu nunca tinha visto, meu Deus, esse cara agora era meu marido. E então eu teria que ser bacana mesmo, porque eu não podia mais escrever para você. Não podia mais me inventar para você. E eu beberia, dormiria e tomaria coca-cola na padaria com você. Apresentaria a você meu lado B e provocaria uma coleção de brigas cheia de figurinhas repetidas. Mas a gente tinha um colchão. E uma TV velha. E finalmente tínhamos um ao outro. E você era tudo o que eu queria. E todos os dias seriam plenos de amor e ódio. Ódio de ser contrariada, de ser abandonada em minha imaginação fértil e má. E você não sairia de dentro de mim nunca mais. Muitas vezes. E hoje quando você está na rua e liga para casa marcando de se encontrar comigo no cinema ou em qualquer outro lugar eu fico ansiosa e tenho taquicardia quando olho de longe e te vejo me esperando. E então eu sinto sua mão na minha cintura e sei que você é o mesmo cara que me escrevia e recebia meus postais vagabundos. E percebo que nunca, nunca mesmo, vou me acostumar com você. Você bem sabe do que tenho medo: de que você morra antes de mim e eu fique aqui com essas cartas e essas fotos. Eu que nunca me acostumei com você terei que me acostumar a viver sem você e então sentirei sua falta para sempre. E essa sim será uma grande sacanagem. Não faça isso com aquela garota que sorriu para você, roubou seu chopp e sentou no seu colo. Porque ela é sua agora. Um beijo enorme. Com amor, Fernanda."
28.10.07
orgulho
Expandindo os limites do trabalho como montadora, esse ano estreei com o Rodrigo no mercado de trailer pra cinema. Todo filme tem que ter trailer, e tem pouquíssima gente no Brasil fazendo isso. É um trabalho exaustivo porque fundamental na carreira do filme, sendo que tem muito mais filme do que sala de cinema e se o público não lotar na primeira semana o filme corre o risco de não ficar muito tempo em cartaz.
Além disso, o trailer é uma peça de venda feita pra ser assistida justamente pelo público alvo, que é quem já está no cinema, ou seja, ele TEM que entusiasmar quem vê. Por tudo isso foram muitas horas de trabalho, muitas reuniões, muitas idas e vindas e opiniões, tudo pra chegar a um resultado à altura do filme.
Como se já não fosse pressão suficiente, ainda estreamos com "Meu nome não é Johnny" , um filme que está cercado de expectativas, e portanto a responsabilidade era ainda maior! Fizemos o trabalho no risco, e agora, com o trailer pronto, a gente tem muitas razões de orgulho: todo mundo está adorando!
Por enquanto ele só pode ser visto no Youtube e no site do filme, mas quando o nosso trailer "entrar em cartaz" confesso que irei de bom grado pagar um ingresso só pra ver esses dois minutos e meio de trabalho no telão!
23.10.07
depois
quando o furacão não derruba a casa
porque o que não mata engorda
sendo que podia ser o fim
o que era difícil vira adubo pra nascer a força
jardim suspenso de gozos insuspeitos
e a felicidade, plena, brota no ar
22.10.07
16.10.07
defícil
pode ser lindo
pode doer, arranhar, tirar sangue
pode ser silêncio
pode ser ruído
noite quieta ou multidão
medo da luz
picada de bicho
canto de unha no duro dos dentes
pode ser música na tarde
sala vazia
pode ser manhã de sol
a vida tem partes
às vezes tanta coisa
quase sempre, difícil
e ainda assim, bonito
10.10.07
Inoportuna

3.10.07
estréia
Então ontem foi a estréia do Elke nas telonas! E foi em grande estilo, no Festival do Rio, que além de ser o maior da América Latina, é o do coração de nós cariocas! A tarde foi incrível, Julia e Camila nervosíssimas, Elke super emocionada, muitos amigos na platéia, e foi um tal de perna tremendo, voz falhando, discurso ensaiado ficando pra trás, e quando o filme finalmente encheu a tela do Odeon foi muita felicidade e alívio: ufa, deu tudo certo mesmo!
Pra mim, que montei o filme e passei tardes e tardes ouvindo os depoimentos, pensando se essa frase ficava ou saía, se aquela imagem durava meio segundo a mais ou a menos, foi muito bacana ver o filme pronto, depois de algum tempo sem mexer nele. Tudo que já era banal de tanta repetição aqui na ilha de montagem ganhou força e impacto no cinema lotado. O que era engraçado teve a confirmação das risadas, o que era sério mereceu silêncios, e o desejo da Julia de fazer um filme pra revelar a mulher por trás do estereótipo provou ser boa e relevante ali, naquela hora, ainda mais do que em todo o processo.
Agora o filme tá na rua, e tem muita estrada pela frente: já foi aceito na Mostra São Paulo de Cinema, no Festival Mix Brasil, e no Festival Internacional de Curtas do Rio. Em outubro tem projeção em Sampa, e até o fim da semana o filme está disponível no site Porta Curtas. Aproveitem!
27.9.07
trapézio
A vida é por princípio um fino fio, e a gente tenta se equilibrar.
Tem quem meça cada passo
Tem quem corra pra enganar o medo
Eu faço do fio estrada asfaltada
e ando com calma e sem pressa
apreciando a vista
assobiando baixinho.
Eu finjo que a vida é uma estrada e esqueço do fino fio
daí o susto da iminência da queda:
cair como de tanta solidez?
Me assusto, estremeço
o chão foge dos pés
e a distância se abre imensa nos olhos:
um monte de nada até lá embaixo
o fino fio balançando bem de leve...
É um desespero sem morte
a vertigem mais profunda.
A vida cobrando a conta da calma, da vista, dos assobios
e eu, desabituada, evito olhar pra baixo
pra não virar ovo estrelado no chão da realidade.
24.9.07
America Latina II

14.9.07
América Latina I

A semana passada foi de férias imprevistas pro casal. Foi nossa segunda viagem pela América do Sul, e nossa estréia no Uruguai, em Montevideo, cidade linda a que a gente nunca tinha ido. A maioria das pessoas com quem conversei na semana que separou a decisão de ir pra lá pra ida propriamente dita nos perguntou: mas por que Montevideo? O tom variava da curiosidade genuína a um espanto que teria desanimado alguns. Mas não eu, leitora apaixonada do uruguaio Eduardo Galeano e seduzida pelo seu olhar amoroso pra sua cidade. E respondia assim mesmo: porque eu adoro Galeano, porque aprendi com ele que nós brasileiros somos também latinoamericanos, e nada mais lógico do que conhecer os países vizinhos, ainda mais quando a Europa anda tão cara e os Estados Unidos nos barram na porta. E além disso de lá vem o Jorge Drexler, melhor descoberta musical dos últimos anos, cujo disco "Eco" não sai da vitrola aqui de casa desde que compramos.
Montevideo é linda, uma cidade com orla de rio e tempo de antigamente, cheia de praças bonitas, bares e restaurantes bacanas, e muita gente simpática pra todo lado. Tudo lá estava incrivelmente barato pra gente, e aproveitamos pra comer bem e passear muito. A dica pra quem for é ficar no Centro, onde era nosso albergue Che Lagarto, escolhido exatamente por isso. Só que chegando lá detestamos nosso quarto, que não tinha mesa-cadeira-cabide-armário, nada além da cama e olhe lá. Daí fomos parar num hotel Ibis, padrão-americano de qualidade, que realmente nos deu tudo o que a gente precisava por uns poucos dólares a mais que o albergue, e que apesar de estar fora do Centro era de frente pra Rambla, o que compensava a perda.
Andamos feito loucos, comemos a qualquer hora, fizemos tudo que deu na telha, arrastamos malas pela rua, dirigimos sem saber o caminho, compramos sapatos iguais, e eu comprei, já sabendo que nem ia tocar nele lá, o último livro do Galeano que me falta ler, "Venas abiertas de la America Latina", assim mesmo, em espanhol, porque o medinho que eu tinha de ler esse livro se foi quando dei de cara com o Uruguai e percebi o quão perto ele está de tudo, o quão perto a gente está de lá e de tudo mais, e agora, já no Rio, aproveito o prazer de ler esse cara que eu adoro na sua língua, e de conhecer o que ele teve a dizer sobre tudo isso ainda nos anos 60, e que é cada vez mais relevante nos anos 2mil.
Dicas pra quem for:
- andar pela Rambla, que é a orla de lá e corta a cidade de uma ponta a outra, ou seja, de Carrasco (bairro antigo e cheio de casas deslumbrantes e sem muros ou grades, pra nosso espanto carioca) até o Mercado del Puerto, antigo mercado transformado em centro gastronômico que reúne restaurantes de 'parrilla' (churrasco deles) e bares bons pra beber medio-a-medio, mistura de vinhos brancos e espumante típica de lá.
- se admirar com a beleza da Plaza Independencia, passar pela Puerta de la Ciudadela e andar pela Ciudad Vieja, sentar nas praças e se sentir seguro em qualquer ruazinha deserta
- jantar no Bar Tabaré, um bar-restaurante super tradicional e ainda assim moderninho, ótima comida e clima
- ouvir boa música e beber 'uvita' (outra mistura de vinhos deliciosa, que só esse bar tem) no Baar Fun Fun, perto da Plaza Independencia
- passar uma noite pulando de bar em bar na Calle Bartolomeu Mitre, na entrada da Ciudad Vieja: são vários, cada um num estilo, quase todos com música ao vivo, e como os preços são ótimos dá pra beber e comer um pouquinho em cada um
- sentar pra tomar alguma coisa no Café Brasileiro, lugar preferido do Galeano (se é que alguém além de mim se interessa por essa informação). Independente da literatura, é um dos cafés mais antigos da cidade, e apesar da gente não ter gostado de nenhum café (a bebida, não o lugar) em Montevideo, vale uma visita
- pegar um barco pra ir a Buenos Aires, que pode ser direto de Montevideo (3h de viagem) ou passar por Colônia, cidade que todo mundo diz que é linda mas que a gente acabou não conhecendo, por confusões de viagem e uma certa ansiedade de chegar em Buenos Aires, que a gente ama.
Notícias de lá no próximo post...
5.9.07
será mesmo?
Sempre fui péssima em geografia. Durante a escola era só estudar na véspera das provas, mas agora, na vida real, é que a coisa pega mesmo. O Brasil até que eu entendo bem, graças à sorte de ter viajado bastante pelo país, o que me faz saber onde ficam os estados. Parece básico, mas é me deixa feliz!
Seguindo pra América do Sul ainda me entendo, a America do Norte faz o favor de ter poucos países, e aí quando vem a Europa me perco toda. Ok, a Itália é uma bota e a Inglaterra é uma ilha, mas são tantos países, meu deus! Não adianta, não sei mesmo onde eles estão... África, Ásia, Oriente Médio, aí é como se fosse Marte, Vênus, Urano: nenhuma remota noção.
Digo isso tudo porque instalei aqui no blog um mapa que assinala onde estão os meus leitores, e cada vez desacredito mais dos resultados. No início comemorava: olha, estão me lendo numas ilhas no meio do mar!
Pelo mapa mundi que eu acabo de consultar e comparar com o meu Cluster Maps, tenho leitores nos Açores, nas Ilhas Canárias e em Cabo Verde. Também me lêem em três diferentes parte do Japão, em Macau, Angola, na Venezuela, na Guiana, na fronteira do Uruguay com a Argentina, em várias partes dos Estados Unidos, na Itália, Turquia, Noruega, Dinamarca, e em outros países da Europa que eu não consigo reconhecer no mapa-mundi porque os pontinhos vermelhos do Cluster Maps encobrem as fronteiras. E tem mais! Tenho leitores em Iceland! Sou lida na Terra do Gelo, ilha que eu nem sabia que existia, ó ignorância geográfica!
Enfim, fico feliz, lisonjeada, orgulhosíssima, mas diante da improbabilidade desse fato deixo o apelo: se alguém aqui souber como funciona esse Cluster Maps, me dê notícias. E se alguém aí estiver me lendo de lugares incríveis como esses, ah, deixa um recadinho, vai...
31.8.07
Elke

23.8.07
3.8.07
ainda a morte, agora em verso
O jeito doce
Broncas entre risos num elevador
da cidade de São Paulo
Claras em neve no banquinho da cozinha
Novela das oito no ar-condicionado
Caxambu e a fonte da beleza
Ser “princeza” com “z” na sua letra rebuscada
Me achar a sobrinha preferida
Gargalhadas com Chico Anísio
Cócegas até doer
Brigas no vôlei e os olhos de piscina
Camisetas velhas e tênis cinza anos 80
O preconceito e a descoberta
Pão de queijo ruim e belas conversas
Admiração e sonhos na minha geração
Ser chamada de Aretuza ao passar na porta
Contar os passos entre nossas casas
Velhas marchinhas de carnaval:
“Ó mulher vampira!
Ó mulher fatal!
Por causa de você levei um tiro!
Passei um mês e meio no hospital!
Ai, ai, ai...”
Meus mortos e suas memórias
Rasgos de dor na minha históriaPorradas doces com as quais caminho.
29.7.07
confesso e indico
Mas hoje entrei no blog da Clarah e não deu pra continuar disfarçando. Porque a carta aberta dela sobre o seu porteiro (O Zelador - partes 1 e 2) que está lá descreve exatamente o que eu vivo aqui! E como ela já fez isso brilhantemente, com toda a sua ironia e potência, encaminho pra lá quem vem aqui me ler, porque os detalhes são diferentes, mas a sensação é a mesma.
E pronto, eu indico: Clarah Averbuck. adioslounge. Boa leitura na sua telinha.
23.7.07
incompreensões 2
E isso agora é programa de domingo pra criança, gente?!
21.7.07
incompreensões
Não tive que lidar com muitas dessas dores ainda, e agradeço o privilégio. Já fui a muitos enterros e chorei e consolei e fui consolada, mas morte daquelas de doer por muito tempo e assombrar muito tempo depois por enquanto só foram três ou quatro. E quando a saudade dessa gente bate com força viro criança com uma lógica sem nenhuma conexão com a realidade e penso, poxa, a vovó já foi há tanto tempo, já estava na hora dela voltar um pouquinho!
Me parece um egoísmo, sabe, que agora ela só possa existir na minha lembrança e na de quem ama ela. Eu posso lembrar dos dias com ela e andar pela casa dela que nem existe mais vendo cada móvel, cada objeto, sentindo o cheiro dos cômodos, subir no banquinho da cozinha pra bater clara em neve e sentir a textura do carpete marrom escuro da sala no pé descalço. Tudo isso eu posso, e aproveito.
Mas ela não pode vir conhecer a minha casa, uma casa tão cheia de influências dela apesar da imensa diferença das nossas vidas, eu dividindo o teto com um homem amado sem padre nem papel, coisa inconcebível pras netas dos outros mas eu era a sua "princeza" e o amor quebra as barreiras das idéias pré-concebidas. Eu olho pra minha cozinha com seus mil potinhos separando os ingredientes e sei que esse amor pela organização que pra mim quase que só existe nessa parte da casa nasceu lá, na cozinha dela.
E sigo não entendendo, ou não concordando, com isso que se chama morte e que não tem a menor generosidade com quem fica...
12.7.07
11.7.07
quarta-feira sem cinzas
Era hoje. Antes era no começo de junho. Depois no fim. Aí passou pra hoje. Quer dizer, nessa época hoje não era assim, hoje, era "dia 11 de julho". Faltava um bom tempo pra esse dia, mas eu fui adiando a ansiedade.
Até que chegou ontem, o dia 10. Aí a ansiedade cansou de ficar quieta e começou a falar no meu ouvido. Falou tanto que quando deu meia-noite, bem no primeiro minuto do dia 11 lá fui eu pro site da Petrobras ver o resultado. Mas ainda não. Era dia 11 às 11h da manhã. Faltavam 11 horas.
Eu espero. Tudo bem.
Acordei às 9h e dei uma incerta por lá. Quem sabe eles não se adiantaram? Mas eles não se adiantaram. Inventei coisas pra calar a voz da ansiedade, e por fim resolvi sair de casa pra ir trabalhar. Adivinha a que horas?
10h54. Boa idéia, Maria. Genial.
Corri feito louca pra chegar o mais rápido possível a um computador. Desliguei o celular pra não receber a notícia - boa ou ruim - de mais ninguém. Queria ver eu mesma a notícia na tela. E vi.
Eu não fui selecionada. O Bendita Palavra, meu livro novo, não foi um dos escolhidos no edital de produção e difusão de literatura da Petrobras. Foi chato. A grana e a infra deles iam encurtar um caminho compridíssimo, mas eu não dependo disso pra transformar o que escrevo em uma pilha de papéis encadernados que cabe certinha na mão de quem lê.
Isso é aqui comigo. E a festa continua.
27.6.07
poema dos 28, já na metade deles
Depois é voz doce curando a dor de cabeça,
Telefonema bendito no meio da madrugada.
O amor quando insiste deixa a gente encharcada,
Molha por fora e por dentro,
Inunda, interrompe a estrada
Pra depois seguir melhor.
Fiz 28 anos e tenho chorado muito, antes e depois.
A idade me acolhe, não me assusta:
Sou eu quem escolhe o que fazer do dias,
E a marca que quero que eles deixem no meu rosto.
Quem acorda comigo sabe:
Durmo sorrindo até de manhã
E adoro a luz amarela que não entra pela janela
(mas tenta)
quando o sol está lá fora.
O amor anda em mim sob a pele
Feito bicho geográfico,
Hora no sexo
Hora no pé
E meu corpo é todo um mapa dos caminhos que ele faz
E eu nunca
Nunca reclamo.
26.6.07
quase cinco anos disso
A cama pequena você se encaixa
No frio de fora você me agasalha
E no calor dos corpos você se incandesce.
Duro no pau
Doce no olhar
Puro nos sonhos e calculista nos planos
Menino no meu abraço
Homem imenso no toca-fitas do carro
Vagabundo pela cidade
E na intimidade meu amor
E na intimidade meu
E na intimidade, eu.
17.6.07
comichão
Já tem dois anos que a gente parou de produzir o Te vejo na Laura, e foi um tempo bom de construir mil outras coisas e consolidar outras, mas confesso que hoje sinto falta dessa emoção boa de me expor com uma luz na cara e um microfone na mão, de sentir a reação das pessoas à minha poesia, dessas coisas de palco.
Se a vida for como eu gosto que seja, isso pode ser o começo de uma mudança, e essa saudade pode virar atitude. Tomara!
27.5.07
poemas, poemas e mais poemas
Então pra me redimir, lancei mão de um truque: tive a pachorra de rever todos os posts desses três anos de mariadapoesia, um por um, e separei todos os que têm poemas dentro. E olha, são muitos! Oba!
Aqui vai então, pra quem sente falta da minha produção poética, o mapa da mina dessa poeta sumida, meu "best of digital"...
- uma mulher
- criança de rua
- uma grande mulher
- pro inferno
- morrer
- poema infantil
- pau mole
- temor
- harmonia
- soft dick (pau mole em inglês!)
- filho
- medo
- escrevo
- uma mulher: traduções
- risco
- tatuagem
- dentro de mim
- casamento
- defeito
28.4.07
sonho nublado

Não me entendam mal, isso não é de modo algum uma reclamação. Pela primeira vez na minha vida profissional, tenho quatro trabalhos de montagem ao mesmo tempo. Nunca tive quatro trabalhos juntos. Acho que em 2006 inteiro eu tive quatro trabalhos. Talvez cinco. Subitamente, em março/abril/maio de 2007, quatro trabalhos.
Não, eles não vieram assim, todos de uma vez. Primeiro apareceu um, que era pra ser curtinho mas ficou longo, e eu fiquei feliz: experiência e dinheiro, oba! De repente, outro convite, esse vindo de uma amiga e com o desafio de aprender novas tecnologias. Maravilha: mais experiência, mais dinheiro, e muito prazer no percurso! Perfeito! Subitamente um atrasadinho furou a fila: era pra já estar pronto há tempos, mas chegou bem nessa hora. Ok, matei no peito e bola pra frente. Aí veio o quarto, esse querido, inegável, inadiável... Caí dentro!
E eu que temi pela incerteza de trabalho em 2007 agora estou assim, feliz e louca, sonhando acordada com dias nublados como esses aí de cima, em que nem o prazer oprime...
14.4.07
10.000
São quase 3 anos (estreei o blog em maio de 2004), e cada vez gosto mais de ter esse espaço pra deixar minhas impressões sobre o que vejo e vivo e encontrar virtualmente gente que a correria da vida às vezes não deixa encontrar ao vivo.
Que bom que vocês também gostam de passar por aqui, e pra comemorar essa marca histórica deixo um pedido: quem ler esse post pode deixar um recadinho? É que o números de visitantes é sempre muito maior do que o número de comentários, e eu morro de curiosidade de saber quem são os anônimos que me lêem... E aproveito pra dizer que quando eu não respondo aos comentários não é por falta de vontade não: esse meu provedor de comentários pede pra vocês deixarem o email mas não me mostra, então fico sem ter como entrar em contato. Então fica a dica: deixem o email no corpo da mensagem, que eu juro que respondo!
Topam?
Aí embaixo o documento oficial que comprova os 10.000!
3.4.07
na TV
Passei na tv ontem e nem sabia! Acabei de receber um email do Cesar Miranda, que eu não conhecia mas que me conheceu ontem no Canal Futura. O programa é o Ao Ponto, comandado pelo Jairo Bauer, voltado pro público jovem, com alguns convidados e uma platéia que participa ao vivo. O tema era bissexualidade, ou como diz o nome da edição, Total Flex. Como muita gente me considera uma poeta erótica - apesar de eu não entender exatamente o porquê - me convidaram, achei ótimo e fui!Foi no fim do ano passado, eu estava cheia de trabalho e quase tive que desmarcar, mas quando cheguei lá percebi que a correria tinha compensado: os convidados éramos eu, a compositora Lucina e o Caetano Veloso. Eu tinha ido no show dele um pouco antes, estava mais admiradora do que nunca, e confesso que achei muito chique ser convidada da mesma edição que ele.
(foto de Laura Caldas)Bom, como eu só soube com atraso e perdemos a estréia do programa, aí vão os horários de reprise essa semana. O Futura é o canal 32 da Net.
4a feira, 04/04, 23h30
sábado, 07/07, 20h30
domingo, 08/04, 17h30
26.3.07
casamento
Pode ser uma prisão ou uma fonte.
Pode ser um deserto ou uma ponte.
Um mundo novo ou um ponto final.
Pode ter loucura, pode ter dureza
pode ser difícil e uma delícia
pode ter tristeza, tédio, encantamento
tudo o que há de bom e um pouco do ruim.
Pode ser esperteza ou sonho
pode ser insistência ou sorte
pode ter festa animada ou só um olhar sincero
porque casar não começa quando se casa.
Casamento é quando a parceria é tão boa
que não precisa bolo, não precisa roupa
pode ser no padre, no juiz ou só no banco
porque o sim mora dentro da felicidade dos dias.
Casar é ser feliz sozinho, mas preferir junto.
Por isso a festa.
21.3.07
poema pós-bbb
Tudo na casa dá defeito, inclusive a dona.
Carrego tristezas como os franceses carregam baguetes,
sem proteção contra a poeira da rua e o suor das axilas.
Tenho medo do que desconheço
e me estranho no que me é difícil.
"Tentativas e erros" é a expressão correta:
os acertos ficaram pra próxima vida.
Vivo num corpo que não me escuta
e a eterna luta é fazer da voz carne
e da dor insistência e êxito.
Me alimentar do que me frustra,
digerir cacos de vidro pra parir,
em meio a espasmos,
alguém em quem eu me divirta,
uma mulher que exista,
e diga a que veio.
16.3.07
04:00
Não reclamo: trabalho é ótimo, e eu nunca sei quando o próximo vai chegar, então aproveito. Esses tempos, no entanto, chegaram vários juntos me atropelando, daí a madrugada insone labutando...
Os projetos vão de espetáculo de poesia pra inscrever em concurso público à edição de um promo de um longa sobre Capitães de Areia, passando pela assistência de montagem prum show do Waldick Soriano. Manhã, tarde, noite.
Não reclamo. Venham, trabalhos, venham todos, eu espero acordada...
10.3.07
Bruna Beber

No último post falei sobre o Ramon Mello e o blog dele, Click (IN)VERSOS, e hoje venho falar de uma das entrevistadas mais bacanas de lá, a Bruna Beber. Conheci a poesia dela por dica do meu pai, que leu a matéria do Prosa e Verso quando A fila sem fim dos demônios descontentes foi lançado pela 7Letras. Gostei de cara do clima rock n´roll sem exageros, uma voz autêntica e que não quer só chocar, uma menina de 23 anos poeta das boas mesmo.
Quando li a entrevista dela pro Ramon fiquei com vontade de aproveitar a ponte e conhecer ela, e acabou que depois de emails de todo os lados ontem à noite fomos todos pro Diagonal bater papo e apresentar os rostos uns pros outros.
Foi uma noite gostosa de novidade, e é tão raro realmente ficar amigo de quem a gente lê e admira de longe que fiquei muito feliz com o encontro. E pra vocês entenderem o porque da admiração, um dos poemas do livro dela que eu acho incrível:
você quer um dia
ser estudado
numa sala de aula qualquer
por uma turma de pirralhos
que vão zoar suas roupas hoje modernas
falar que o que você escreveu é chato pra caralho
fazer chifrinho na sua foto
interrogação.
queira morrer antes
comendo caramelos
a estranha paixão de Hitler
caramelos.
6.3.07
Click (IN)VERSOS
Mas o caminho pro site era difícil, e muita gente reclamou que não conseguiu ir lá. Pois agora a coluna dele, Click (IN)VERSOS, virou blog, e lá estão a minha entrevista e a de um monte de gente bacana. Eu recomendo!
4.3.07
que vexame, meu deus!
Venho então me desculpar, corrigir o erro e explicar: quem me deu Um defeito de cor não foi a Regina Zappa, foi a Olga de Mello, também jornalista e amiga querida. A confusão se deu porque passamos um fim de tarde aqui em casa, nós três e o Eduardo Graça, amigo querido que mora em Nova Iorque e junta todo mundo quando está por aqui. Esse ano dei a sorte de ser a anfitriã do moço, e como era aniversário dele Olga e Regina vieram lanchar. E eu, que não era aniversariante nem nada, terminei a noite com dois presentes: o romanção dado pela Olga e as obras completas do João Gilberto Noll, dadas pela Regina - diga-se de passagem, outro catatau.
Resumo: me dei completamente bem, ganhando dois livros numa noite, por excesso de presente acabei cometendo essa indelicadeza com a Olga, que eu reparo indicando a todos o Arenas Cariocas, onde ela mostra o seu talento aqui na rede.
28.2.07
grandes livros grandes
Tudo começou quando eu ganhei da Regina Zappa, sem ser aniversário nem nada, o catatau Um defeito de cor. Apesar de ser leitora voraz desde pequenininha, nunca gostei muito de livrão, até porque gosto de ler deitada e livro grande é complicado de segurar na cama, cansa os braços rápido, me dá preguiça. Pra piorar, confundi o livro com "Não somos racistas", do Ali Kamel, um livro jornalístico que dizem ser muito interessante, mas fora poesia meu negócio mesmo é romance. O livro ficou esquecido na mesa da sala até que eu olhei pra ele um dia e li embaixo do título: " um romance". Romance. Eu gosto muito. Vou ver qual é a desse calhamaço.
Pronto, fui definitivamente fisgada. A autora, Ana Maria Gonçalves, escreve um prólogo irresistível contando como foi levada a escrever o livro, e não sei se é tudo verdade nem quis saber: parti pro capítulo 1. A narradora, Kehinde, é uma africana que é trazida pro Brasil como escrava no começo do século 19, e conta a sua vida da forma mais saborosa que eu me lembro de ter lido nos últimos muitos anos. Fiquei obcecada pelo livro. Lia em qualquer brechinha do dia, e até o olho doer antes de dormir. Falava dos personagens com os amigos, sonhava com eles. A saga de uma mulher e sua família na África selvagem e no Brasil escravagista, um super romance pra ninguém botar defeito. Nesse nível: a tv da casa quebrou, e pensei: melhor, mais tempo pra ler. Sentiram a obcessão?
Quando o livro acabou fiquei orfã. Um vazio imenso na casa sem televisão. Foram 950 páginas de intimidade. Aquela gente, já tão íntima, guardada dentro da capa dourada. Que diabo de livro vai substituir esse, meu deus? Tinha 10 dias de carnaval numa praia distante pela frente, impossível encarar sem um romance. Procurei nas prateleiras, pedi dicas pros amigos, mas foi só na livraria do aeroporto que achei: Cisnes Selvagens, da Jung Cheng. A saga de três mulheres na China, do começo do século 20 até os anos 80. Outra família, outros tempos, mas uma saga familiar de peso: 650 páginas, e isso em edição de bolso! Era tudo que eu precisava!
O livro é incrível. Incrível no sentido de sensacional e também no de inacreditável, ainda mais pra quem, como eu, não sabia nada sobre a história da China nessa época. Os costumes tradicionais, a ocupação pelos japoneses, a Revolução Comunista e seus primeiros dias de glória, a loucura de Mao e a crueldade do Partido contra seus próprios membros, a destruição de tudo que pode ser chamado de cultura pela Revolução Cultura, e o apagamento de tudo que fazia da China a China: proibidos os jardins, as flores, as casas de chá, as roupas coloridas, os longos cabelos, a música e a dança, a beleza dos templos, o respeito aos mais velhos. Em alta a violência, a destruição, os tribunais de acusação em que todos apontavam os dedos para todos, e a dita igualdade socialista terminando em uma divisão da população em 23 categorias, com rígidas determinações do que era permitido a cada uma. No meio disso, a autora, cujo pai era alto dirigente do partido, passa pelos dias de tranqülidade e pelo horror que toma o país, e conta tudo deliciosamente.
Lá se foi a minha implicância com livros grandes. Agora tô viciadinha: menos de 300 páginas nem me apresente que eu não dou bola...
10.2.07
bendita palavra malvada
Não é nem um bom lugar.
Dentro de mim moram feras mortais agonizando do próprio veneno.
Dentro de mim um gigante agüenta o mundo nos ombros e uma puta procura o espartilho.
Tem uma velha senhora louca pra chupar buceta e um mágico ilusionista que tira sorrisos da cartola.
Teve um tempo em esse dentro parecia com o fora, e era um ótimo lugar pra uma moça como eu era.
O depois é uma armadilha:
Ele dura tantos tempos
Passeia tão sorrateiro
Que só num hoje distante a gente consegue enxergar.
Dentro de mim não é mais um bom lugar pra se viver.
Ainda vai ser?








