23.10.08

do arquivo 2

você me deu a palavra tosco
eu te dei a palavra atarantada

você me deu tom zé
eu te dei o galeano

você me trouxe mais loucura
eu te mostrei praticidades

você me faz bater palmas
eu te faço saltitar pela casa

você é letra e música
eu sou só palavra

eu te alimento
você me come

a gente junto inventa o mundo
e se diverte
e anda por aí

a gente junto é melhor que sozinho
ainda é cada um mas cada um ganha mais brilho

adoro esse encontro
adoro a permanência
o desenho dos dias com você

adoro conviver
com você, viver

do arquivo, mas atualíssimo

não é grude nem invasão:
é que tem hora que o corpo pede a outra pele
o nariz fica doido pelo cheiro de um certo lado do pescoço
e a idéia da cama, confesso, fica grande demais prum ser só
(ainda que não solitário)

é demais morrer de saudade?
querer você perto?

se for ando excessiva, pronto, assumo
e assumindo repito e reitero:
te amo de todo jeito, e você nunca sai de dentro
mas nessa noite preferia estar também do lado
sentir seus pés nos meus na madrugada
e te ver respirar de manhã como se fosse pouco
como se fosse normal esse amor todo
como se não fosse pra comemorar

(eu comemoro)

22.10.08

30

Nunca pensei que fosse acontecer comigo.

Já disse em poema que a idade me acolhe, não me assusta, e continua sendo verdade, mas o corpo não sente o mesmo. Subitamente a decadência mostra suas garras - ok, são unhas ainda curtas, mas com potencial de garras afiadas de animal selvagem. E de repente há assuntos de fios e manchas brancas, de veias azuis, olheiras roxas, e há medidas e providências e consolos e conformações.

Queria ser mãe de cabelos pretos e vou ser mãe com fios e manchas brancas, veias azuis e olheiras roxas. E nem é agora ainda.

Os 30 disfarçam dali, mas mostram suas garras. E eu disfarço daqui, mas morro de medo.

17.10.08

o maatz, de novo na veia

Vou ficar em silêncio

porque se fosse simples

eu apenas reclamava.
(É o Maatz, bicho, ele é foda.)

15.10.08

diário de lançamento - parte 1

Agora então o lançamento do livro e do cd tomou minha vida quase por inteiro. Foi tanta demora, tantos meses andando devagar que de repente ou eu corro ou tudo fica, de novo, pro ano que vem - e pra esse eterno ano que vem que se repete já me basta o projeto "filhos".

Agora então eu corro com os detalhes finais do livro, corro com a gravação que falta pro cd, corro com burocracias da prensagem, com marcar lugar e data do lançamento, corrro corro corro. E seria bom ter calma, mas tudo bem, correr pode ser bom também.

No momento estamos assim: livro revisado, diagramado e aprovado, capa na fase de aprovação final, assessora de imprensa contratada, lançamento praticamente marcado, gravação do cd atrasada e enrolada - mas faço ommmm e espero porque as participações especiais merecem a espera, e foi meu atraso que fez tudo ficar tão em cima da hora.

Tá sendo um processo bom, trabalhoso e gostoso e bom, e mal posso esperar pra compartilhar o resultado dele com todo mundo daqui a pouquinho!

8.10.08

não acredito

Tô arrasada. Acabo de ver que o contador exibido do blog marca 11.118 visitas. Olhei aquele monte de palitinhos ali do lado e pensei: porra, eu deixei passar o 11.111! Não acredito. Tô sofrendo um pouco por essa bobagem - mas não é quase sempre por elas que a gente sofre?

Eu juro que vou ficar mais atenta daqui pra frente, e o 111.111 eu não perco de jeito nenhum. Quer dizer, se eu estiver viva e meus olhos ainda funcionarem até lá.

2.10.08

Na real

Tudo custa o dobro do que parece a princípio.

O prato no restaurante custa R$40? A conta vai ser R$80. O vestido custa R$250? Com sapato e bolsa sai por R$500. O taxi é só 20 pratas? Pra ir e voltar, R$40. O aluguel da sala pra trabalhar é R$400? Bota luz, telefone, internet, limpeza, almoço na rua e a verdade aparece: R$800 pra ter seu espaço.

Pois o livro é assim. Custava um tanto, e agora com cd, capa linda e festa bacana de lançamento, já tá quase chegando em dois tantos. Tá quase chegando, mas até lançar ele chega lá, nos dois tantos.

Porque tudo custa o dobro do que parece. Ou quase tudo. Ou quase o dobro.

21.9.08

Espelhos: Galeano inédito

Eu sou viciada em palavra. Mais ainda em palavra escrita, e ainda mais um tanto em livro. Dentro do vício tem espaço pra mais alta literatura e a mais reles bobagem: sendo letra no papel, quase tudo me interessa.

Mas tem aquelas palavras que interessam mais. E tem aquela gente que sabe o que faz com as suas, e me pega pela mão e não larga mais. Eduardo Galeano é desses, e quem costuma andar por aqui já sabe disso. A novidade é que depois de já ter lido virtualmente tudo o que ele escreveu, semana passada ganhei da minha mãe em primeiríssima mão, na versão original em espanhol, o livro novo dele, "Espelhos". Achei que era uma coletânea, tão improvável me pareceu essa alegria: Galeano inédito? Será possível?

Pois era. Está sendo. O fim-de-semana chuvoso foi perfeito pra começar essa leitura, e passei a noite de sábado bebendo da fonte profunda dele, me molhando toda nessa água. Dá vontade de traduzir tudo, de postar tudo, de gritar Galeano aos quatro cantos, mas como a voz não dá pra tanto espalho ele aqui, nesse canto, pra vocês.

Escrever sim

"Ganesha é barrigudo, pelo muito que gosta de caramelos, e tem orelhas e tromba de elefante. Mas escreve com mãos de gente.

É o mestre das iniciações, o que ajuda as pessoas a começarem suas obras. Sem ele, nada na Índia teria começo. Na arte da escrita, e em tudo mais, o começo é o mais importante. Qualquer princípio é um grandioso momento da vida, ensina Ganesha, e as primeiras palavras de uma carta ou um livro são tão fundadoras quanto os primeiros ladrilhos de uma casa ou um templo."

17.9.08

sedução

Era cedo. Muito cedo pro meu horário. E estava frio, e era na Barra, que sempre me parece longe, mesmo que agora que eu moro na Gávea nem seja mais. Era cedo e frio e longe, mas quando eu entre naquele auditório cheio de carinhas tão jovens, nada disso era mais problema. Porque naquela hora o problema passou a ser como seduzir aquela platéia, no meio do seu dia normal de aula, pra ficar a fim de me ouvir e se deixar gostar de poesia.

Rapidinho parou de ter problema e foi ficando só gostoso e bom. Meninos e meninas de 11, 12, 13 anos, me ouvindo falar poemas entre tapinhas nas cabeças dos colegas da fila da frente, olhos atentos entre cochichos, e um rumor semi-silencioso quando sem querer uma palavra "sexo" escorregou, como quem não quer nada, de um poema.

E eles me encheram de perguntas ótimas, e me fizeram pensar como e porque eu escrevo, e me ajudaram a refletir sobre a importância da poesia, o motivo dela, a inspiração e o trabalho. Depois da super apresentação no auditório eu ainda fui a três salas de aula de 8o ano (a antiga 7a série, se é que eu entendi bem), e falei mais uns poemas, e bati mais uns papos. Do meio de uma fila veio a pergunta mais inusitada: se eu faço mais alguma coisa além de ser poeta, e eu falei de como é difícil ganhar dinheiro com poesia, de como a Elisa é a única que eu conheço que domina essa arte, e de como pra mim funciona bem ter outro trabalho que eu também gosto e poder ser poeta sem pressão.

Pois não é que quando eu já tô indo embora vem a menina da pergunta, de papel na mão, e me pára, toda tímida, pra me dizer que quer ser poeta quando crescer, e que quer ler um poema dela pra mim, que não é o melhor, ela disse, mas é o que ela tem lá na escola. Sentamos num banco e Luiza leu seu "Névoa", uma poeta tão jovem mas já uma poeta, atenta às imagens, fazendo meta-poesia, começando ainda e já escrevendo sobre a sua escrita. Seu poema me lembrou um dos meus primeiros, e quando eu disse pra ela que também gosto de escrever sobre a escrita ela me disse "eu gosto mais ainda de escrever sobre PORQUE escrevo!". Quer dizer, a menina sabe tudo, e promete.

Então Luiza, pra você, aqui vai um poema exatamente sobre o PORQUE da minha escrita - ou alguns dos porquês... E me manda um seu pra eu postar aqui também, e a gente dialogar poeticamente!


Escrevo porque tô viva
escrevo preciso
pra acordar, pra estar despida
porque o mundo não é só isso
que acontece aqui em cima

Escrevo porque não vivo
escrevo porque preciso dessa droga
esse colírio
escrevo pra pôr delírio
em tudo que é preto-e-branco

Escrevo pra estar viva
Escrevo porque aqui minto
as belezas que não tenho
e as coragens que persigo
escrevo porque assim finjo

Escrevo contra as burrices
contra os medos que hoje sinto
escrevo a favor do sonho
escrevo pra estar livre

Escrevo quando consigo

16.9.08

Entrando no clima

Entrando no clima pré-lançamento, vou voltar à ativa, entrar no clima, botar a cara na rua e sair de novo por aí dizendo meus poemas onde tiver palco e microfone, ou simplesmente onde tiver alguém a fim de ouvir.

Outro dia foi na casa da Ana Luiza, e depois na casa da Cláudia, que estava na primeira platéia e gostou da idéia. Um outro dia foi no estúdio da TV Brasil, e através de lá pro Brasil todo. Amanhã vai ser no CEI, colégio na Barra onde dá aula a minha amiga Noa, pra um auditório lotado de adolescentes. E partir do fim de outubro uma sexta-feira por mês eu e Fernanda Rowlands estaremos no super novo Espaço Telezoom, no Leblon, dizendo poemas uma, cantando a outra, e juntas recebendo convidados da novíssima safra de artistas cariocas!

Me aguardem!

na pressão

Reunião na 7Letras: pra lançar o livro no final de novembro precisamos mandá-lo pra gráfica até 10 de outubro. Ok. Absorvida a informação, resta correr com a capa, e agitar as coisas do cd pra ficar pronto ao mesmo tempo.

É, tem cd. Eu não tinha falado dessa parte? Pois tem cd sim, claro, que eu não sou nem boba de desperdiçar a palavra falada! Tem cd, e cd tem que gravar, e tem capa e bolacha pra conceber, e tem que prensar, e tal e coisa, e coisa e tal.

E viva a pressão que gera ação!

11.9.08

enfim a data

Ok, ando precisando escrever, e parar de só citar. Mas é que às vezes a tela branca realmente não desperta nada, não é gênero dos cronistas não. E depois de tempos bissextos por aqui ando gostando de estar mais presente, mesmo que pelas vozes de quem eu gosto mais do que pela minha mesma.

É que a vida tem muita conta de gás, muita recisão de contrato, muito marcineiro que marca às 8h (e fura), muito pedreiro todo sábado, muito telefonema pra net, e é preciso que a poesia mostre suas unhas, me rasgue a pele das costas de raiva por ficar tanto tempo de lado, sempre a última da fila, a prima pobre, é preciso que ela monte em mim feito cavalo de macumba, pra que eu enfim emerja do submundo do dia-a-dia pra cuidar dela como ela merece.

Pois ela mostrou, rasgou, montou, e eu tô emergindo, devagar pra não ter susto, mas senti a porrada, acusei o golpe e aviso: tô de volta. O livro sai em novembro. Não queria dizer pra não ter cobrança mas, porra, eu preciso ser cobrada. Novembro. Bendita Palavra. Podem cobrar. Cobrem. Obrigada.

9.9.08

só lendo

"Não pára não", ela repete. "Já ouvi essas palavras em algum lugar." Na verdade, ela ouviu poucas vezes a palavra "pára" sem um "não" na frente. Ditas por um homem. Ou mesmo por ela. "Sempre achei que 'não pára' era uma palavra só", diz ela.
"E é mesmo. Dança mais."

(Phillip Roth, em "A marca humana")

7.9.08

inútil e delicioso

"Ser poeta não é uma profissão: é como ser viúvo. Um poeta é um poeta, assim como um cavalo é um cavalo. Cavalos têm utilidade. Mas eu, Gregório de Matos e Guerra, viúvo, poeta, brasileiro, não tenho uma utilidade."

(Ana Miranda em "Boca do Inferno")

6.9.08

lendo

"Observo-me a escrever como nunca me observei a pintar, e descubro o que há de fascinante neste acto: na pintura, vem sempre um momento em que o quadro não suporta nem mais uma pincelada (mau ou bom, ela irá torná0lo pior), ao passo que estas linhas podem prolongar-se infinitamente, alinhando parcelas de uma soma que nunca será começada mas que é, nesse Éalinhamento, já trabalho perfeito, já obra definitiva porque conhecida. É sobretudo a ideia do prolongamento infinito que me fascina. Poderei escrever sempre, até ao fim da vida, ao passo que os quadros, fechados em si mesmos, repelem, são eles próprios isolados na sua pele, autoritários, e, também eles, insolentes."

(José Saramago em "Manual de Pintura e Caligrafia")

27.8.08

inédito

sabe quando o cansaço é tão grande que ele desaparece? dizem que acontece com a fome também, mas essa eu nunca experimentei. a do cansaço rolou ontem.

foram 5 dias intensos de trabalho sob pressão, todo o stress que alguém possa suportar, domingo saí do escritório 1h da manhã pensando: acabou, maria, agora é relaxar, mas não. não tinha acabado. claro.

ontem foi de 10h às 5h. não às 17h não, 5h mesmo, do dia seguinte, hoje. sou ruim de contas mas o espanto foi tanto que até me esforcei: 19 horas no trabalho. e quando vi que eram 20h e eu ainda estava lá pensei em maldizer o almoço sem pressa que tinha tido, mas quando deu 1h da manhã e eu ainda estava lá abençoeei-o, porque não ia ser aquela uma hora que ia ter me salvado, mas o relax dela estava na categoria dos talismãs pra suportar a madrugada - além dos docinhos sensacionais que eu tinha comprado no café.

a parte mais espantosa foi que não teve cansaço, nenhum cansaço, nada. não teve cansaço nem o desespero que ele traz, não teve "que injusto o mundo" e nem vontade de ir embora, foi um só fluxo de pensamento que me dizia "termina isso, menina, e amanhã vai ser mais legal".

surpreendente também foi que não teve medo. é que eu trabalho numa casa enorme cheia de corredores e escadas, e ficar lá sozinha depois que todo mundo já foi não é exatamente meu programa preferido. muito menos andar o corredor escuro e silencioso que dá na rua, e abrir a porta sem saber o que há lá fora, e entrar no carro bem rápido pra poder respirar aliviada. pois ontem-hoje não teve medo também, só uma calma enorme, quase uma tranqüilidade de aceitar o inexorável e ir com a maré.

atravessei o corredor escuro com o dia quase clareando, a rua já começando seus barulhos de carros e gente, e vim dirigindo bem devagarzinho pra chegar em casa e tomar um banho, e então finalmente relaxar por umas 3 horas até o homem da Sky chegar com a notícia de que não é possível instalar a antena aqui, e mais um dia começar.

o cansaço? tá quase querendo chegar. e eu vou recebê-lo de braços abertos, e dormir como se não houvesse amanhã, até amanhã me acordar. porque não, não tinha acabado. não acaba nunca. claro.

24.8.08

parceria

Acho que é a coisa mais importante de todas as coisas, incluídas aí cama, café-da-manhã, amor, água quente, um trabalho legal, filhos.

É a rede de proteção contra tudo que é ruim. Você tropeça, cai, mas não se espatifa no chão.

É como rezar e ser atendido. É a temperatura certa.

É o que te faz saber que tudo tu-tu-tu, que tudo nhem-nhem-nhem, e que mesmo quando tudo pá-rá-rá-tin-bum você seguirá resistindo aos furacões e às areias movediças, andando sobre as águas sem molhar as pernas, você existe, você é firme, você é.

Eu sou.

21.8.08

duas coisas

Pois eu fui lá no programa, peguei o carro, cheguei em cima da hora, passei um batonzinho no banheiro mesmo e fiquei feliz de ver que também estavam lá a Geovana Pires, parceira querida da Escola Lucinda de Poesia Viva, divulgando a nova Casa Poema, e o Domingos Guimaraens, poeta do coletivo Os 7 novos e companheiro de puc, de cep e de bares por aí.

De repente parecia seriado de tv americano: "1 minuto!" e vem aquela aflição "meu deus será que eu decorei direito o poema" e a apresentadora pergunta pra Geovana como era mesmo aquele poema do Fernando Pessoa do poeta é um fingidor, e aí "30 segundos" "caramba, vou esquecer no ar, tenho certeza", e ela segue decorando o poema na hora, ensaiando pra câmera, e "10 segundos" "gente, como é que essa menina dá conta de fazer isso todo dia" e aí bum!

A menina levanta, começa a falar numa rapider impressionante, mudando de câmera a cada frase e uma tv grande no fundo do estúdio mostrava tudo que gente do Brasil todo estava vendo em casa, naquele exato instante, como é que pode uma coisa tão instantânea assim? Confesso duas coisas: fiquei boba com a agilidade dela, a Liliane, que apresenta o programa ao vivo todo dia; e fiquei brava com a agilidade do programa que não me deu a chance de dizer um poema no ar, e eu que me afligi tanto com medo de esquecer nem essa oportunidade tive.

Gente, como é que eu vou ganhar alguém sem dizer um verso? Ok, teve o figurino descolado "sou jovem", tiveram observações ligeiras sobre assuntos interessantes, mas sem dizer poesia não dá pra vender livro...

Mais ou menos, descobri hoje, porque logo depois do programa muitas pessoas passaram por aqui, algumas rapidinho outras bem demorado, e afinal de contas é pra isso que a gente sai de casa no meio da tarde e corre pro centro da cidade numa quarta-feira de trabalho: pra ganhar leitores e vender livros. Além de encantar a vovó, é claro.

19.8.08

A poesia anda me caçando. Eu sumida, enrolada, cheia de praticidades, e ela me chega em telefonemas e emails. São pedidos de livros, propostas de recitais e organização de eventos, e agora um convite prum programa de tv. Eu agradeço, porque sei que não ando dando a atenção que ela merece, então fico mesmo muito grata que ela insista, que ela não desista dessa poeta bissexta que eu virei...

Sendo assim amanhã, quarta-feira dia 20 de agosto, eu vou estar no Atitude.com, na TV Brasil (nome novo da TVE, com o qual confesso que ainda não me acostumei). O programa é às 18h, ao vivo, então quem tiver a sorte de estar em casa a essa hora de bobeira, ligue lá!

16.7.08

ô abre alas...

O ano era 2003. Eu tinha 24 anos e escrevia poesia há uns dois anos. Numa manhã ensolarada peguei meu corsinha prata, Rodrigo de co-piloto e guarda-costas, meio nervoso com o caminho e meio mau-humorado com o cedo da hora, mas afinal se não fosse por ele não ia ter nada daquilo... Entre animados e impacientes, rumamos pra Madureira, pra uma gráfica que eu já nem lembro como chamava, um disquete na mão.

Lá era grande, tinha máquinas enormes fazendo livros, os mesmos livros que eu li incessantemente desde que aprendi a juntar as letras, e agora aquelas máquinas iam imprimir o meu livro, que depois alguém ia ler na sua casa, na sua cama, antes de dormir ou nas tardes de domingo. E tinha que escolher o papel que combinava mais com os meus poemas, e decidir se a capa tinha ou não cera - eu decidi que sim, ficava mais brilhante, e escolhi o papel "branco neve", que era mais moderno, me disse o cara que nos guiava lá. Meu livro. Que sensação louca!

E era só começo. Um tempo depois o interfone tocou lá em casa - que era ainda a casa dos meus pais - e quando eu desci uma kombi despejava na calçada pacotes e mais pacotes embalados em papel pardo, cheios do meu livro dentro. Eram mil substantivos femininos em plena rua, e o fim de tarde daquele azul que eu mais gosto emoldurava a minha cara de felicidade abrindo um dos pacotes ali mesmo na calçada, e a emoção de ver a capa vermelha encerada, brilhante, o papel branquinho, moderno, e as minhas palavras ali dentro, a dedicatória pra Elisa que me abriu os caminhos da poesia, meus poemas de estréia morando pra sempre naquelas páginas, meu livro, meu primeiro livro, que loucura, meu deus!

De lá pra cá o vermelhinho me rendeu muitas alegrias: foi vendido no Te vejo na Laura pra quem tinha acabado de me ver ao vivo e queria levar pra casa, foi vendido por internet e correio pra gente que eu nunca vi ao vivo, foi dado pros amigos, pras pessoas queridas, foi dado e enviado pra gente que eu admiro e respeito, como o Manoel de Barros, o Gullar, a Viviane Mosé, a Martha Medeiros. O tempo foi passando e o livro foi ficando cotidiano, perdendo a novidade e virando obviedade na minha vida.

Aí começou a tomar forma o projeto do segundo livro, o Bendita Palavra. Mas como livro de poesia é visto pelas editoras como um não-produto, e como eu não queria mais ser independente, o projeto foi virando os anos sem entrar no papel. No substantivo, eu nem procurei editora. Incitada pelo Rodrigo, que na época era meu namorado novinho em folha, cheio de sonhos e projetos e força pra fazer os dois acontecerem, eu tinha decidido publicar e não estava nem um pouco disposta a fazer concessões pra editoras e nada a fim de levar nãos que iam me desanimar na empreitada. Peguei minha poupança e mandei ver! Só que o tempo passou, eu fui morar sozinha, e aí tinha aluguel e contas pra pagar, além de não ter mais um palco fixo pra vender o meu peixe-palavra.

Demorou esse tempo todo, cinco anos, pra eu ser tomada de novo pelo vírus da decisão. Que se dane a incerteza da vida de freela, que se danem as editoras que não bancam as edições, eu pago pelo meu livro, paguei pra gráfica de Madureira e pago agora pra 7Letras, e finalmente em novembro o meu segundo livro vira livro mesmo!

No meio desse processo todo, o substantivo feminino ficou ainda mais esquecido. No fim do ano passado, como se quisesse provar seu potencial, ele me deu uma alegria rara: estive em Montevideo, e mandei um livro pro Eduardo Galeano, que eu leio e releio e morro de prazer com cada palavra. Pois não é que semanas depois chega um pacotinho com uma letra miúda e dentro um exemplar de Mulheres, coletânea de textos dele que tratam da mulher, e lá na folha de rosto uma dedicatória linda, carinhosa, me dizendo coisas inesquecíveis e que vão morar pra sempre no meu coração de poeta...

Acho que foi a despedida dele pra mim. Porque esses dias fui procurar uns livros pra vender numa noite de poesia falada no Jardim Botânico e a surpresa: só sobraram 30 exemplares! Como assim?! Mas se eram mil! Achava que eles eram inesgotáveis, um manancial infinito de substantivos femininos dentro de portas de armário em Ipanema e Botafogo. Pois não eram, e não são. Nessa noite vendi dez livros, e fechei a tampa, pensei. Preciso ter uns guardados, gente! Vai que o Saramago aparece aqui em casa? Hoje recebi um email da Ana Carolina, lá de Natal, querendo comprar um livro. Ia recusar a proposta, mas Natal, Rio Grande do Norte? Não deve ter nenhum substantivo feminino andando por lá! Irrecusável. Topei a venda. Mas juro que foi a última!

E agora que o Bendita Palavra vai mesmo sair, que ele já tem foto da capa e diagramação, parece que o primogênito quis se retirar em grande estilo e abrir alas pra vinda da nova geração. E apesar da tristeza de pensar em não ter mais livrinhos vermelhinhos pelos armários, não posso negar o orgulho besta de dizer por aí: sou uma autora esgotada!