"Carne do umbigo", "Bendita palavra" e "Substantivo feminino" são a versao impressa e bem acabada do que rola aqui. Quer me ter na sua mão em forma de livro e disco? Me escreve aqui!
26.7.10
Dia da Pessoa
Fui fuçar e descobri que foi feito pelo pessoal da Lápis Raro, uma agência de publicidade da qual eu nunca tinha ouvido falar, mas que eu super contrataria se tivesse alguma coisa pra anunciar e morasse em Belo Horizonte.
19.7.10
De onde nasceu o poema ali embaixo
Ausência
(Carlos Drummond de Andrade)
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
14.7.10
esta noite escrevo
1.7.10
Enquanto não escrevo, leio
30.6.10
Puizia
Penso em vão...
Quantas doses de transgressão
podem salvar uma instituição?
Daí me lembrei disso aqui:
Dias de afã e frenesi
fudendo homens magros e a cabeça pelas noites
O amor apareceu e foi quase banal
foi como se fosse normal aquele olhar entre os passantes
como se houvesse ainda cavalo e, portanto, rédeas
quando na verdade era tudo já galope, disparada
Pode conter mais tremor o caseiro que o mundano?
pode o veneno habitar o lar?
cabem certezas na inquietude?
O amor é jangada de pedra,
ilha desconhecida
barco sempre à deriva
Se pode gritar "terra à vista!"
mas não pisar lá - terra firme
o amor é navegar
(poema nascido na última hora antes de publicar o Bendita Palavra, que entrou lá no finalzinho do livro)
20.6.10
Inicio e queixo
18.6.10
Perdi
2.6.10
SMS
Vou dormir e só me lembro de novo da mensagem agora de tarde, e aí reparo que além do celular tem um DDD, 87. Isso é Pernambuco, mas não é Recife, é interior. Me espanta e me alegra que em algum desses lugares, tão longe de onde eu vivo e das livrarias que vendem meus livros, alguém me descubra, me leia, se encante, e queira me dizer isso.
Confesso que esperaria receber esse recado por email, ou mensagem aqui no blog. Que alguém em algum desses lugares, tão longe de onde eu vivo e das livrarias que vendem meus livros, tenha meu número de telefone me assusta um pouco. São tempos estranhos, em que uma rede invísivel nos espalha democraticamente ao mesmo tempo em que nos tira um tanto de privacidade, e é esquisito quando acontece com a gente. Na tentativa de ser pública e discreta, acho que ando conseguindo um bom equilíbrio, mas às vezes a corda balança e a gente não sabe bem de onde veio o sopro. Que seja um sopro doce, então.
25.5.10
Honre o dom
Meu pai diz que é um absurdo que as pessoas queiram pagar pelo esterco quando você produz orquídeas, querendo dizer que eu devia ganhar dinheiro mesmo era com a poesia, que é o meu melhor. Essas orquídeas são difíceis de vender, e no meu caso o esterco é bem limpinho e gostoso de produzir: eu adoro montar, é um trabalho criativo e autoral, então estou mais do que no lucro, vivendo do que eu gosto e fazendo o que eu amo por aí.
E é sempre bom ler um texto relembrando a importância disso em que eu acredito tanto: ser feliz no cotidiano, e não uma vez por ano.
14.5.10
vai e vem
depois chega a caçula e começa o afã de ver, fazer, ir, estar, lá, cá, lá de novo, vamos, vamos, e cruzamos o mapa de cima a baixo vendo quadros e ruas, fazendo compras e amizades, ouvindo músicas e vozes e ruídos urbanos.
comidas incríveis, reencontros, jazz, feira de antiguidades, calorão, metrô, musical, novidades, desejos de consumo, acrobacias, friaca, compras, saudades, risos.
e numa outra terça-feira outro avião e então o rio, os bairros, o conhecido, a cidade, os ruídos, a língua, a ladeira, os tijolos vermelhos, a campainha, e abraço e beijos e o corpo desejado desejando o corpo que chega, e a mulher que habita nele.
que bom chegar.
30.4.10
chegar
transito que quase me faz perder o aviao
voo lotado, sento do lado de um homem enorme, cujas pernas nao cabem no minimo espaco a sua frente, e a direita sobra pro lado da minha esquerda, ele de short, eu de vestido, so o cobertor pra me salvar do contato horrivel. na hora do jantar ele compra duas garrafinhas de vinho e uma coca light, mistura tudo e bebe por interminaveis minutos
do lado direito, um casal com um menino de um ano que gritava, hiperbolico, feliz, e chorava quando tentavam conte-lo, e vomitou quando a mae deu remedio
miami as 4 da matina, imigracao tranquila, cha no starbucks, sanduiche frio "can you heat it up, please" "no mam we don't" "ok thanks"
voo parte dois, feliz com um velhinho chines do meu lado, pequeno e silencioso. menos feliz quando ele tira da bolsa um vidro de azeitonas com cha e bebe direto do vidro
ny 11h, mala demora, transitinho, brooklyn, North 5th street, fe na janela, loura como so em ny se pode ser, abracos na rua, parece que foi ontem, parece que tem anos, mala escada acima, mala escada acima, casinha linda, papo, conversa
que bom chegar
16.4.10
dez
e também tem a coisa de voltar a uma cidade depois de treze anos. treze. é muito. quase a primeira vez de novo. e tem a coisa do templo de consumo absoluto. e eu sou vulnerável nesse quesito. e a lista só cresce.
e aí tem a coisa de ficar sem meu amor esse tempo. duas semanas. duas semanas e dois dias. o tempo passa lento sem ele, como eu já disse em poema do primeiro livro que fecha esse post misterioso:
Na praia escura soam os relógios
Badalam as horas derretidas pelo sol do Ceará
Os ponteiros girando, moles
Aumentam o tamanho dos dias
O tempo muda enquanto passa
E não é o mesmo dentro e fora desse amor
Tem o tempo do trabalho
- dias que voam
E o tempo da saudade
- horas arrastadas
Tem o tempo daqui e o tempo daí
Dalí sabia, por isso espremeu os relógios
O que pinga deles é o sumo das horas
Segundos gotejantes me escorrendo pelos dedos
No tempo que é sem você
13.4.10
atualizando o corpitcho
30.3.10
junta
Tenho só 31 anos, na flor da idade, animada, feliz, cheia de trabalho, amando e sendo amada, comendo bem e (tentando) fazer exercício, mas aí surge um joelho que dói, uma escápula que dói, duas escápulas que doem, uma lombar, e o pulso que acorda duro feito pedra e ai como dói.
Já tentei cuidar de tudo, já fui no ortopedista, no acupunturista, na osteopata. O primeiro me mandou fazer musculação, eu fui, adorei, mas malhar como com dor? O segundo me espetou toda, me encheu de esparadrapos feito um vudu esquisito, e não melhorei nadinha. A terceira será em breve a próxima, volto lá semana que vem depois de dois anos porque ela sim me olhou com cuidado e entendeu que o o joelho doeu porque o quadril pendeu pra esquerda porque eu torci o tornozelo direito há uns seis anos atrás.
Sim, seis anos. Era casamento de uma amiga, rolou aquela ciranda judaica sensacional, o salto do sapato virou e pronto, tornozelo torcido. Gelo, antiinflamatório, e ele ficou bom. Médio. Bom nunca mais ficou. Pega esse tornozelo, bota seis anos e o resultado sou eu agora, 31 anos, já na fase do "junta tudo e joga fora". Mas a osteopata não era o máximo? Era, mas era uma grana, e depois do primeiro mês eu paniquei e nunca mais voltei.
Agora resolvi voltar. E a grana? Tô pensando assim: não comprei tv pra minha ilha de edição, sofá, tecido pra estofar, não vou comprar um computador novo porque o meu tá velho? Então vou comprar um tornozelo novo, um joelho, duas escápulas, um quadril e uma lombar. Não são novos, mas remanufaturados, sabe, que nem tinta de impressora? Tô achando um bom negócio...
22.3.10
10.3.10
do Guimarães
"o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. afinam ou desafinam."
"moço: toda saudade é uma espécie de velhice."
"um está sempre no escuro, só no último derradeiro é que clareiam a sala. digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe pra gente é no meio da travessia."
"ah, porém, estaquei na ponta dum pensamento, e agudo temi, temi. cada hora, de cada dia, a gente aprende uma qualidade nova de medo!"
"o que até hoje, minha vida, avistei, de maior, foi aquele rio. aquele, daquele dia."
"essas são as horas da gente. as outras, de todo tempo, são as horas de todos."
"sempre que se começa a ter amor por alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando; mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. amor desse, cresce primeiro, brota é depois."
"e ele, o reinaldo, era tão galhardo garboso, tão governador assim no sistema pelintra, que preenchia em mim uma vaidade, de ter me escolhido para ser seu amigo todo leal. talvez também seja. anta entra n´água, se rupêia. mas, não. era não. era, era que eu gostava dele. gostava dele quando eu fechava os olhos. um bem querer que vinha do ar do meu nariz e do sonho de minhas noites."
"toda alegria, no mesmo do momento, abre saudade. até aquela - alegria sem licença, nascida esbarrada. passarinho cai de voar, mas bate suas asinhas no chão."
"ser ruim sempre, às vezes é custoso, carece de perversos exercícios de juízo."
"assim uma coisa eu estava escondendo, mesmo de diadorim: que eu já parava fundo no falso, dormia com a traição. um nublo. tinha perdido meu bom conselho. e entrei em máquinas de tristeza."
"o que eu vi, sempre, é que toda ação principia mesmo é por uma palavra pensada. palavra purgante, dada ou guardada, que vai rompendo rumo."
"mau eu não sou. cobra? - ele disse. nem cobra serepente malina não é. nasci devagar. sou é muito cauteloso."
"digo ao senhor: nem em diadorim mesmo eu não firmava o pensar. naqueles dias, então, eu não gostava dele? em pardo. gostava e não gostava. sei, sei que, no meu, eu gostava, permanecente. mas a natureza da gente é muito segundas-e-sábados. tem dia e tem noite, versáteis, em amizade de amor."
"meu corpo gostava do corpo dele, na sala do teatro. maiormente. as tristezas ao redor de nós, como querendo carrega para toda chuva."
"de mim toda mentira aceito. o senhor não pe igual? nós todos. mas eu fui sempre um fugidor. ao que fugi até da precisão da fuga."
"acho que eu não tinha conciso medo dos perigos: o que eu descosturava era medo de errar - de ir cair na boca dos perigos por minha culpa. hoje, sei: medo meditado, foi isto. medo de errar. sempre tive. medo de errar é que é a minha paciência."
"ele gostava, destinado, de mim. e eu - como é que posso explicar ao senhor o poder de amor que eu criei? minha vida o diga. se amor? era aquele latifúndio. eu ia com ele até o rio jordão. diadorim tomou conta de mim."
"cansaço faz tristeza, em quem dela carece."
"acho que o sentir da gente se voltei, mas em certos modos, rodando em si mas por regras. o prazer muito vira medo, o medo vai vira ódio, o ódio vira esses desesperos? - desespero é bom que vira a maior tristeza, constante então para o um amor - quanta saudade... - aí, outra esperança já vem... mas, a brasinha de tudo, é só o mesmo carvão só."
"a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesmo nunca se deve tolerar de ter. porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a idéia e o sentir da gente; o que isso era falta de soberania, e farta bobice, e de fato é."
"se não o senhor me diga: preto é preto? branco é branco? ou: quando é que a velhice começa, surgindo de dentro da mocidade."
"o nome de diadorim, que eu tinha falado, permaneceu em mim. me abracei com ele. mel se sente é todo lambente."
(acabo de notar que estou na terceira fase da escrita: ele escreveu, eu copiei no caderninho, e agora digito. e adoro. adoro. e vou me entendendo de jeitos líricos sabe? "medo de errar é que era a minha paciência?". ah, faça-me o favor, né? eu podia descobrir isso sobre mim com alguma palavra melhor? bom, depois continuo que ainda tem muito mais.)
9.3.10
Ler-escrever
Sempre tive essa mania, apesar de ultimamente andar mais preguiçosa. Anotei um pouco lendo Nas tuas mãos, da Inês Pedrosa, presente importado de Lisboa pelo meu amigo André Pellenz que disse que era um primor, e tinha razão. Esses livros em que a linguagem é quase mais deliciante que a narrativa, ou no mínimo tanto quanto, são os que mais me falam à alma. Os portugueses e angolanos são craques na coisa. A gente lê a prosa como se lesse poesia, uma delícia.
Pensei em tudo isso porque li um roteiro de um curta de uma amiga em que a personagem discorda de mim totalmente, acha que ao invés de gastar tempo re-escrevendo o que já foi escrito melhor é escrever as suas próprias palavras. Faz sentido, mas de algum jeito doido escrever no meu caderno e com a minha letra azul aquelas palavras alimenta a minha escrita, sabe? São duas delícias diferentes que eu espero praticar sempre.
3.3.10
as vidas
(Ando doida pra ela começar.)
20.2.10
Espera
espera e age
espera como se não esperasse
anda ruas, compra frutas
queima a pele, emerge do mergulho
dentro de tudo, espera
disfarça, se distrai, mas espera
conta os dias em voz baixa
evita discos, lugares
e planeja o reencontro:
truques de beleza, prendas do lar
putarias
viaja o homem
espera a mulher, grávida de ausência
vai nascer desejo, brilho no olho, gemido
vai nascer de novo o amor
o mesmo amor, melhor amor
das cinzas da saudade
16.2.10
retrato de carnaval
comunistas e católicos mineiros
distância e aconchego
o que é novidade e o que é secular
ter avó é um luxo
ter 31 anos, sonhar com um filho e ainda ser neta
dormir nessa cama onde meu coração já saiu pela boca
nessa casa onde meu corpo recebeu outro pela primeira vez
casa construída com pedras sobre as quais eu brinquei na foto da infância
cabelos cacheados e franja
galochas vermelhas, moletom cinza
uma pose e a felicidade
o céu sobre nós é o mesmo
em cuba, no rio, em itaipava ou no passado
o céu é sempre o mesmo
e o amor não deixa o longe tomar conta
no fundo da carne e no arrepio da pele
dormem seu nome e seu toque
seu rosto bonito que os anos ajudam a desenhar
seus pés brancos
a curva dos ombros
é carnaval e eu não visto a fantasia
eu vivo a fantasia
eu sou a fantasia
seu corpo de homem tatuado inteiro sobre o meu