19.2.11

17.2.11

Bóia


Acorda, Maria
(Carlos Drummond de Andrade)

Acorda, Maria, é dia
de festival.
Violas já vem dançando
no doce do canavial.
Acorda, Maria, é dia
de prazer municipal.
A bebida está pedindo
pra ser bebida
a comida reclamando
pra ser depressa engolida
a risada quer ser rida
o namoro namorado
o peixe quer ser pescado
o sonhado ser vivido.

Maria, acorda que é dia de acontecer
de casar e de ter filhos
e cada filho crescer
e tomar seu rumo
e tomar seu rumo
e alguém na varanda
soletrar o espaço.

Acorda, Maria, é dia
de matar formiga
de matar cascavel
de matar tempo
de matar estrangeiro
de matar irmão
de matar impulso
de se matar.

Acorda, Maria,
todos já de pé
muitos já correndo
a gritar por ti.
Quem dorme no bairro, quem?
Não há paina de dormir
quando se espera o sinal
dentro do sinal fechado
e milhões de sinais
escondem o sinal.
O sinal afinal
é sim ou al?
E se ele apaga
antes de acender?
se ele acende
e ninguém entende?
Maria, acorda, é dia
de esperar a vida inteira
pelo sinal.

Acorda, Maria: é dia
de dizer que é dia
de fingir que é dia
de preparar o dia
de ir na folia
esquecer que não é mais
ou ainda não é dia.

Acorda que o telefone
está chamando, Maria.
O navio está apitando
e vai soando a sineta
do presídio.
Esvoaça
a papeleta do fiscal.
A mãozinha da garota
bate no portal.
Acorda, Maria, é samba
sem carnaval.

É dia
de tirar a roupa da alma
no sofá
de pesquisar o verme
em cada maçã
de inventar o verme
a cada manhã
de saborear o verme
que nem hortelã.

É dia, atenção, de sexo
há milênios recalcado.

A vara e a concha unidos
no abraço fotografado
e tudo em verde fichado
pra ser bem computado.
Quem tem amores, desame-os
quem tem baú, que o destampe
quem não tem nada, que tenha
o que que ter pra contar.

Depressa, Maria, a praça
é uma orelha gigante
que não escuta e que passa.
Mas acorda por favor
ou por violência. É dia
de prestar contas, é dia.
Foi antecipado
o Juízo Final.
Em cada quarteirão
o oficial de justica
divina
faz a citação
sem abrir a boca
e os nomes se imprimem
na retina
as sentenças se gravam
na pele.
Acorda, Maria, assiste
a teu julgamento em código.

Principalmente, Maria,
é dia
dia constante e durante
acima dos cem mil dias
dia so, dia sem dia
sem outro dia que diga
tudo que cabe num dia.
E um dia sem folhinha
sem gala de alvorecer
sem vontade de fluir
sem jeito de findar.

O que lhe falta em clareza
e sobra em altura
e resta em desejo
ninguém decifra.
É dia, Maria, dorme
até que passe este dia!

...

(não vou dormir nem morta. não perco um minuto desse dia.)
("o que lhe falta em clareza e sobra em altura e resta em desejo ninguém decifra".)
(é um privilégio ter esse nome.)

15.2.11

Guimarães em falso verso

"Aqui digo: que se teme por amor,
mas que, por amor também,
é que a coragem se faz."

(Guimarães Rosa em "Grande Sertão: Veredas")

13.2.11

#11

Itaipava
um cacho de bananas rosas
meu poema mais famoso
música peruana
boa companhia
=
uma noite de gargalhadas
+
"Um por dia enquanto for legal" #11


12.2.11

Quem disse que ia ser fácil?


é tomar cápsulas de falta pra ficar mais forte
é como o último xixi antes de pegar a estrada
é uma medida provisória que apavora o país

são as razões rindo da minha cara
é como um absurdo, um porre permanente
é testar limite, é o certo por curvas muito doidas

é ainda outra espécie de velhice
é tentar encher de areia o buraco da explosão
são os 26 medos fundidos em um

é um vale-ingresso prum parque em obras
é como um aborto, uma violência
é arrancar o peito antes do câncer

(quem disse que ia ser fácil?)
(ninguém disse)

10.2.11

De alma nua na boca do Riobaldo

"Acho que eu não tinha conciso medo dos perigos: o que eu descosturava era medo de errar - de ir parar na boca dos perigos por minha culpa. Hoje, sei: medo meditado, foi isto. Medo de errar. Sempre tive. Medo de errar é que é a minha paciência."

(Guimarães Rosa em "Grande Sertão: Veredas")

TUDO É TAO CLANDESTINO, TANTA COISA É POSSIVEL,
QUE A VIDA É O NÃO-RESUMO DE UM MILAGRE.
(Guimarães Rosa em "Ave Palavra")

7.2.11

No susto

Tem coisas que se a gente planejar demais nao faz.
Se deixar o medo do que pode acontecer dominar, desiste.
Ou adia demais.
E parece que quando a gente destampa a valvula da coragem as mudancas vem em cascata, num esquema meio arrancar o dente de uma vez, puxar o bandaid sem hesitar, no susto.
E foi assim que no domingo de manha eu nem pensei em nada e mudei a cara do blog, e adorei a mudanca!
E foi assim que hoje eu percebi que perdi todos os comentarios ja feitos aqui desde 2004.
Todos.
Assim, no susto.
Eu ja tinha falado disso aqui, do meu medo disso acontecer.
Mas sabe do que mais?
Nem doeu tanto assim.
Eu ja li e reli cada coisa bonita e bacana que me disseram, cada eco do que eu escrevo, e ta tudo guardadinho aqui comigo, nao num html qualquer, mas no fundo do peito.
E mais: tanto do carinho espalhado aqui foi fundamental pra eu seguir, pro segundo livro sair, que nao fazia mesmo sentido ficar presa justo no que foi asa pra eu voar mais alto.
Entao comeca agora uma outra era, e eu vou ficar felizinha a espera dos novos ecos das minhas palavras e imagens por aqui!

#10

A Nina provocou

A Céu foi na veia

A Maria escreveu, leu, se exibiu

Um por dia enquanto tralálá!



6.2.11

O que é e o que não é

é gincana, é?

é prender o fôlego embaixo d'água?

é segurar o halter lá no alto aquele segundo a mais?


não é


é decisão carinhosa, é convicção, é movimento

é corrida de longa distância, é prova de fogo, é maratona,

nada de pressa: é constância


é aceitar o risco pra voar mais alto

é andar sobre brasa pra não pisar em ovos

é o inimaginável pra chegar no tão sonhado


é amor, é cuidado, é uma espécie de fé

é coragem espremida até o caroço

é crença profunda, sumo de desejos


é uma entrega

é a anti-preguiça, é porque é enorme

é um sim muito intimo


é um sim

4.2.11

#9

A musa do século 21 = Mulher Maravilha?

Quando ele diz que gosta é de mulher, mulher de qualquer jeito, pode ser do nosso?

27.1.11

#7




Letuce canta "Cataploft" na arena do Sesc nA Palavra Toda - jan.2011
Maria canta "Cataploft" e fala um poema sobre pés&música
.:.identificação&encontro&"vocêtirouaspa­lavrasdaminhaboca"&beleza&absurdos&corag­em&crença.:.

23.1.11

#6


O girassol era pros pais da menina de mar no nome e ondas nos cabelos, mas eu também não mereço alegria em forma de flor?
Aí o Otto encheu as caixas de som, e achei meu poema mais esquisito.
Um por dia enquanto for legal.
Tá sendo.

21.1.11

#4

A PALAVRA TODA

Vai ser 2a & 3a no Sesc Copacabana, e eu so posso dizer que fico muito feliz que esse evento exista e muito honrada em participar. O resto o Chacal conta no texto ali embaixo, e a programacao fala por si!




A PALAVRA TODA PARA O RIO

...

O Rio estava com saudade dele mesmo. Aquilo que as circunstâncias separaram, volta organicamente a se juntar. A cultura carioca não pode viver sem ser completa. Fica faltando. O Rio sempre foi uma cidade inclusiva, sede da corte imperial, capital da república até a invenção de Brasília. Uma cidade acima de tudo cosmopolita.


O Rio sempre foi bom alquimista. Do samba-jazz da bossa nova ao samba-rock de Jorge Benjor, ao beat-modernista da poesia marginal, às reuniões de Villa-Lobos, Bandeira, Pixinguinha, Almirante na casa de Tia Ciata. Do rap samba funk de Fernanda Abreu, Fausto Fawcett e Marcelo D2 à incorporação da cultura hip-hop pelos nossos mestres Heloisa Buarque e Hermano Vianna. O Rio não precisou de nenhum manifesto modernista. Já tínhamos Noel Rosa.


Uma cidade que sempre esteve próxima à palavra viva com suas rodas de samba, seu partido alto, à grandeza de Vinícius falando seus poemas na noite de Copacabana, à fala em delírio dos poetas marginais dos anos 70 ao rap de D2, BNegão e Black Alien das Batalhas do Real e do Zoeira Hip-Hop na Lapa dos anos 90. Uma cidade assim pede um festival à altura. A PALAVRA TODA vem suprir esta demanda.


A palavra em seus muitos suportes, em seu mais diverso repertório. Espanando o bolor dos puristas, incorporando outras linguagens com a música, o teatro, o mundo digital, A PALAVRA TODA mistura. Mistura a academia com a rua, as mais diversas gerações, mistura a “alta” e a “baixa” cultura, apresenta as diferenças para que nesse atrito, nessa troca, a cultura da cidade volte a fluir.


A palavra poética se tornou muito estigmatizada nesse tempo audiovisual e assim como a cidade de tempos atrás, se bifurcou entre guetos distintos e coisa de especialistas. Mas inspirado nos novos rumos do Rio, juntamos todas as pontas, convocamos suportes que sempre tiveram forte relação com a palavra como a canção e o teatro e invadimos o Espaço Sesc, em Copacabana. Nos dias 24 e 25 um sem-número de poetas de todas as tribos, dos 70, 90 e 00, do rap ao repente, do hip-hop à academia, enfim um batalhão de gente do verbo, da cena e do ritmo para dar força a um unificado e pacificado Rio de Janeiro, dar sentido a esse verão. Ou não.


O Rio tem uma riquíssima tradição no uso da palavra. Seja ela cantada, entoada, falada ou escrita. Aqui nasceram e viveram nossos grandes poetas, músicos e compositores. Do samba à bossa nova, do modernismo à poesia marginal, do neoconcretismo ao tropicalismo, de Nelson Rodrigues ao Asdrúbal Trouxe o Trombone, todos se inspiraram nessa topologia única de montanhas que deságuam no mar.


O Rio sempre foi uma cidade festiva e festeira, de muitos e brilhantes festivais. Durante o verão então, entre turistas de todo lugar, a cidade regurgita sua cultura e natureza nas praias, nas noitadas da Lapa e ensaios das escolas de samba. Rio 40º. Se o Rio comemora a possibilidade de vir a ser uma cidade una, com o direito de ir e vir e de circular por sua imensa geografia cultural, a palavra não pode ficar de fora. Agora que a cidade segue em nova direção, a palavra, padroeira do sentido, instrumento maior de expressão e comunicação, quer estar junto. Agora o Espaço Sesc abre sua gloriosa arena e foyer para um esperado festival de poesia.


A PALAVRA TODA é o festival de poesia que faltava para a cidade. O Rio é poesia, o Rio é A PALAVRA TODA.


Chacal


PROGRAMAÇÃO


DATAS E HORÁRIOS


Espaço Sesc


Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana


De 18 às 22 hs.


Entrada franca.


Tel.: (21) 2547-0156



Dia 24 de janeiro – Espaço Sesc, Copacabana


18h30 – ‘A palavra em cena’ – Paulo José e Ana Kutner

19h – ‘O rapto da palavra’ – MC Nike e Re.Fem

19h30 – ‘Agora é hora’ – Alice Sant´Anna, Augusto Guimaraens Cavalcanti, Pedro

Rocha, Mariano Marovatto, Ismar Tirelli Neto e Gregório Duvivier

20h10 – ‘A palavra contada’ – Numa Ciro e Marcus Vinícius Faustini

20h30 – ‘Noves fora tudo’ – Viviane Mosé, Carlito Azevedo, Felipe Nepomuceno, Valeska de Aguirre e Heitor Ferraz

21h – ‘Coletivos’ – Cachalote (Gabriela Marcondes, Elisa Pessoa, Ana Costa e Andrea Capella)

21h30 – ‘Às margens plácidas’ – Chico Alvim, Charles Peixoto, Ronaldo

Santos, Antonio Cicero e momento K7 com Zuca Sardana

22h – ‘A palavra cantada’ – Letuce (Letícia Novaes e Lucas Vasconcellos)


Dia 25 de janeiro – Espaço Sesc, Copacabana


8h30 – ‘A palavra em cena’ – Carla Tausz

19h – ‘O rapto da palavra’ – REP (Ritmo e Poesia): Nissin Instantâneo, Ricardinho, Babu, Bidi Dubois e Durango Kid

19h30 – ‘Agora é hora’ – Ramon Mello, Maria Rezende, Marília Garcia, Omar Salomão, Vitor Paiva e Ericson Pires

20h10 – ‘A palavra contada’ – Aderaldo Luciano

20h30 – ‘Noves fora tudo’ – Paulo Henriques Britto, Alberto Pucheu, Carmen Molinari e Masé Lemos

21h – ‘Coletivos’ – Madame Kaos (Beatriz Provasi, Marcela Gianninni, Juliana Hollanda e Arnaldo Brandão)

21h30 – ‘Às margens plácidas’ – Geraldinho Carneiro, Chacal, Pedro Lage, Salgado Maranhão e momento cassete com Armando Freitas Filho

22h – ‘A palavra cantada’ – Fausto Fawcett



Mostra paralela - A poesia toda

Fotos, vídeos e outros objetos poéticos


Alberto Saraiva // Arnaldo Antunes // Alex Hamburguer // André Vallias

Chacal // Christian Caselli // Gabriela Marcondes // GrupoUM

Gustavo Peres // João Bandeira // Lenora de Barros // Márcio-André

Marcelo Sahea // Paulo de Toledo // Renato Rezende // Zuca Sardana



FICHA TÉCNICA


Curadoria

Chacal e Heloisa Buarque de Hollanda


Organização

Ramon Mello


Coordenação Geral

Elisa Ventura


Produção

Camilla Savoia

Luiz Cesar Pintoni

Nanda Miranda


Direção de Arte

Retina 78


Realização

Sesc Rio


Idealização e produção

Aeroplano Editora


Apoio

Blooks Livraria

Retina 78

19.1.11

#3

A Kenia bordou com amor um paninho rendado
A Maria escreveu um poema pra justificar o nome do seu primeiro livro
O Leonard cantou que quando você menor espera o amor te chama pelo seu nome