24.3.11

Tem preço sim

"Mastercard: não tem preço!"

"Quer reativar seus pontos para trocar por vantagens?

Pague apenas 6 de 58,90, senhora Maria!"


Não existe almoço grátis

Nem pontos grátis

Nem felicidade grátis


O preço pode ser ótimo

Pode ser um bom negócio

Mas tudo custa nessa vida


Custa notas

Cacos de sonhos

Custa dores no peito, noites de febre


"Mas trocar por quais produtos, senhora?

Como decidir sem ver a lista das vantagens?"

"A senhora irá receber em sua casa o informativo, senhora Maria"


O informativo nunca chega antes da decisão

É preciso escolher no escuro, dizer "sim" e confiar no que virá

Eles pelo menos mandam uma listinha depois...

21.3.11

Você


Achei a foto e a frase no Barbaridisses, blog sempre bom da Barbara Geluda.
Nunca tinha ouvido essa frase mas o conceito caiu como uma luva.

BE YOURSELF.
EVERYONE ELSE IS ALREADY TAKEN.

Oscar Wilde foi na veia.
Agora é com a gente viver isso.
Eu quero e vou.

20.3.11

#16


Pois agora eu escrevo de novo. Poemas. Novos.
E pode? Pode.
Então pintei os olhos pra piscar devagar e ler em voz alta.
Devendra cantou suave e o Bokel emprestou uns olhos pro cenário.
Achei bonito.
Um por dia enquanto for legal #16.

18.3.11

A garotinha deles


Ontem entrei no site da Miranda July, uma artista americana das que eu mais admiro hoje, que faz performances e filmes e exposições, e fiquei super tocada por uma peça dela, que faz parte de um "jardim de esculturas" criado pra Bienal de Veneza que ela chamou de "11 Heavy Things". São peças feitas pro público interagir, e uma delas, que tá nas fotos, me fez pensar muito em como eu me sinto hoje.

Em como é legítimo e delicioso que os pais amem seus filhos e queiram pra eles nada de sofrimento ou dúvidas.
E me intrigou que a exposição se chame "11 coisas pesadas", porque pela primeira vez na vida senti que amor e proteção, que são a base que me sustenta, privilégio que eu tanto celebro e do qual tanto usufruo, podem também ser pesados. e descobri que cabe a mim fazer ser leve, pra não desperdiçar o presente. e tô fazendo. e vou fazer.

Tô subindo virtual no estande-escultura dela pra dizer que:
Eu posso ter alguns problemas que meus pais tiveram.
E posso ter outros.
E meu coração pode se partir.
E posso me sentir humilhada.
E a insegurança pode destruir meus sonhos.


E isso vai ser parte de uma vida muito mais boa e bela. E vai me fazer crescer pra ser a mulher que eu posso e quero ser.

O amor deles é o colchão macio pras minhas quedas.
E que bom, e obrigada, porque com medo de cair nem de bicicleta se anda, e eu quero voar alto nessa vida!



16.3.11

#15



Antídoto.
Cat Power no som, palavras querendo curar e eu deixo.
Um por dia enquanto for legal #15.
Beijobomdiaagoraeuvoudormirdenovo.

14.3.11

#14



O que eu devo fazer com esse tijolo que caiu do seu pescoço?
Devo embrulhar em bandeiras ou jornais e simplesmente devolver?

(Blair & Dale Wilson cantaram ao vivo no Urbana, o slam de poesia do Bowery Poetry Club, lá em NY, em 2003)
(a Maria andou e correu pelo jardim do sítio, e muito depois escreveu e disse um poema triste)

Um por dia enquanto for legal #14.
Demorou mas abalou.

13.3.11

hoje

se o chão não é mais embaixo e o teto não em cima
se o vento arranha e a chuva arde
se o impacto da pancada anestesia ao invés de arroxear
quando as palavras perdem a força
quando o azul vira palidez e a beleza não é mais nada

fazer o quê com o peito que não ouve nem fala?
as mãos agem
as pernas agem
a água do chuveiro cai e age

o sentimento não
o sentimento parou numa tarde cinza
uma cadeira dura
uma notícia dura
e a tristeza nos olhos de quem vê o corte, e não de quem perde o sangue

eu não fujo mais de nada
mas não mergulho na piscina de desespero
eu sento na beirada
eu não morro
eu vivo
eu sento na beirada e espero a dor chegar

Do Maatz

"Ele erra porque vê tudo com bons olhos, em um tirar leite de pedra que apenas revela a cegueira de quem quer - e acha que querer basta - que o mundo tenha sentido. O mundo tem mais o que fazer. Sentido é coisa de gente, não é coisa do mundo."

lá do Maatz.
sempre bom.

12.3.11

Isso é sábado?

Se emocionar com o flash mob da TAP no Galeão
- que não, nunca se chamará Antônio Carlos Jobim -
em dia de alegrias cheias de esperança
em noite de ondas gigantes em japonês
e dos textos da dor de uma mãe
artista
grávida
em tratamento contra um câncer
para reaver a guarda do filho

É mais que beijo de novela:
é gente brasileira dançando no aeroporto
tanto sorriso e meus olhos marejados

Ando tão à flor da pele que.

(isso e isso e isso aqui)

26.2.11

#13



Foi outro dia. Outro sábado? Outro dia.

Um poema que tem o nome do livro onde mora, uma Madalena cantando o vento do verão, e eu escrevendo escrevendo escrevendo.

Um por dia enquanto for legal #13.

24.2.11

#12



O fim de um dia de muito trabalho e muita areia numa praia chamada Sossego

Um dos primeiros poemas que eu escrevi e que estava esquecidinho no "substantivo feminino" desde 2003

Tom Zé estudando o samba e proclamando que a felicidade vai desabar sobre os homens

Tá desabando

Não se proteja

21.2.11

Mais Rosa

"O senhor vê: existe cachoeira; e pois? Mas cachoeira é barranco de chão, e água se caindo por ele, retombando; o senhor consome essa água, ou desfaz o barranco, sobra cachoeira alguma? Viver é negócio muito perigoso..."
(Rosa no Grande Sertão)

19.2.11

17.2.11

Bóia


Acorda, Maria
(Carlos Drummond de Andrade)

Acorda, Maria, é dia
de festival.
Violas já vem dançando
no doce do canavial.
Acorda, Maria, é dia
de prazer municipal.
A bebida está pedindo
pra ser bebida
a comida reclamando
pra ser depressa engolida
a risada quer ser rida
o namoro namorado
o peixe quer ser pescado
o sonhado ser vivido.

Maria, acorda que é dia de acontecer
de casar e de ter filhos
e cada filho crescer
e tomar seu rumo
e tomar seu rumo
e alguém na varanda
soletrar o espaço.

Acorda, Maria, é dia
de matar formiga
de matar cascavel
de matar tempo
de matar estrangeiro
de matar irmão
de matar impulso
de se matar.

Acorda, Maria,
todos já de pé
muitos já correndo
a gritar por ti.
Quem dorme no bairro, quem?
Não há paina de dormir
quando se espera o sinal
dentro do sinal fechado
e milhões de sinais
escondem o sinal.
O sinal afinal
é sim ou al?
E se ele apaga
antes de acender?
se ele acende
e ninguém entende?
Maria, acorda, é dia
de esperar a vida inteira
pelo sinal.

Acorda, Maria: é dia
de dizer que é dia
de fingir que é dia
de preparar o dia
de ir na folia
esquecer que não é mais
ou ainda não é dia.

Acorda que o telefone
está chamando, Maria.
O navio está apitando
e vai soando a sineta
do presídio.
Esvoaça
a papeleta do fiscal.
A mãozinha da garota
bate no portal.
Acorda, Maria, é samba
sem carnaval.

É dia
de tirar a roupa da alma
no sofá
de pesquisar o verme
em cada maçã
de inventar o verme
a cada manhã
de saborear o verme
que nem hortelã.

É dia, atenção, de sexo
há milênios recalcado.

A vara e a concha unidos
no abraço fotografado
e tudo em verde fichado
pra ser bem computado.
Quem tem amores, desame-os
quem tem baú, que o destampe
quem não tem nada, que tenha
o que que ter pra contar.

Depressa, Maria, a praça
é uma orelha gigante
que não escuta e que passa.
Mas acorda por favor
ou por violência. É dia
de prestar contas, é dia.
Foi antecipado
o Juízo Final.
Em cada quarteirão
o oficial de justica
divina
faz a citação
sem abrir a boca
e os nomes se imprimem
na retina
as sentenças se gravam
na pele.
Acorda, Maria, assiste
a teu julgamento em código.

Principalmente, Maria,
é dia
dia constante e durante
acima dos cem mil dias
dia so, dia sem dia
sem outro dia que diga
tudo que cabe num dia.
E um dia sem folhinha
sem gala de alvorecer
sem vontade de fluir
sem jeito de findar.

O que lhe falta em clareza
e sobra em altura
e resta em desejo
ninguém decifra.
É dia, Maria, dorme
até que passe este dia!

...

(não vou dormir nem morta. não perco um minuto desse dia.)
("o que lhe falta em clareza e sobra em altura e resta em desejo ninguém decifra".)
(é um privilégio ter esse nome.)

15.2.11

Guimarães em falso verso

"Aqui digo: que se teme por amor,
mas que, por amor também,
é que a coragem se faz."

(Guimarães Rosa em "Grande Sertão: Veredas")

13.2.11

#11

Itaipava
um cacho de bananas rosas
meu poema mais famoso
música peruana
boa companhia
=
uma noite de gargalhadas
+
"Um por dia enquanto for legal" #11


12.2.11

Quem disse que ia ser fácil?


é tomar cápsulas de falta pra ficar mais forte
é como o último xixi antes de pegar a estrada
é uma medida provisória que apavora o país

são as razões rindo da minha cara
é como um absurdo, um porre permanente
é testar limite, é o certo por curvas muito doidas

é ainda outra espécie de velhice
é tentar encher de areia o buraco da explosão
são os 26 medos fundidos em um

é um vale-ingresso prum parque em obras
é como um aborto, uma violência
é arrancar o peito antes do câncer

(quem disse que ia ser fácil?)
(ninguém disse)

10.2.11

De alma nua na boca do Riobaldo

"Acho que eu não tinha conciso medo dos perigos: o que eu descosturava era medo de errar - de ir parar na boca dos perigos por minha culpa. Hoje, sei: medo meditado, foi isto. Medo de errar. Sempre tive. Medo de errar é que é a minha paciência."

(Guimarães Rosa em "Grande Sertão: Veredas")