17.10.10

Corujice assumida

O domingo veio com tudo: logo de manha dei de cara com minha irma, Julia Rezende, na capa do Globo, na chamada da materia da Revista do Globo, e o textinho sobre ela la dentro e de aumentar ainda mais o orgulho, porque a cacula realmente faz e acontece, competencia pra dar e vender, viu?





Ainda mais porque calhou lindamente da materia sair hoje, dia em que estreia a serie Adoravel Psicose, estreia da Ju na tv, assinando a direcao junto com o Guga Chermont. A serie nasceu do blog da Natalia Klein, que assina o roteiro e ainda protagoniza a serie como atriz. No site do canal ja tem uns trechinhos hilarios!

Hoje, dia 17/out, e a partir de agora todo domingo, 22h30, no Multishow!!


9.10.10

Poesia poesia poesia!


Sumi, e volto cheia de boas notícias!

Outubro e novembro vão ser meses costurados por eventos de poesia, sopros deliciosos no meu cotidiano atarefado de montadora de uma série de tv bacanérrima que estréia em janeiro na TV Brasil, e da qual eu vou falar muito aqui mais pra frente.

Por hora, a poesia. A agenda começou com a minha participação pelo segundo ano seguido no Projeto Gloss, da querisíssima Alexandra Scotti, que reúne cantoras, compositoras e bandas femininas. Esse ano serão duas noites, dia 14 foi estreia com shows otimos e a participacao especialissima dos meninos do Les Pops mostrando seu lado mais feminino, um estrondo!

Pra quem perdeu tem mais Gloss no dia 28 de outubro, no Espaço Rio Carioca, em Laranjeiras. A poesia fica por minha conta e da super Lidoka, e a programação completa está aqui.



Depois vem um evento inovador e bacanérrimo, obra da minha mais nova amiga, a animadíssima historiadora portuguesa Ana Roldão. Ela pesquisa sobre alimentação e organiza aulas-jantares temáticas no Grand Cru de Ipanema, com harmonização de vinho e tudo mais! Já teve sobre a Família Real Portuguesa, sobre a culinária do Egito, e a próxima será sobre Fernando Pessoa, com poesias faladas por mim! Dia 26 de outubro, 3a, às 20h.



Daí vem novembro e dois convites deliciosos. Dia 11 vou falar numa mesa-redonda no SESC Madureira, ao lado do Omar Salomão, com mediação da Diana de Hollanda. É parte de um evento chamado Paixao de Ler, e o convite veio na esteira da participação no ENTER, a sensacional antologia de poesia digital da Heloísa Buarque organizada pelo meu queridíssimo Ramon Mello.

E fechando com chave de ouro a programação, no dia 17 de novembro, ao meio-dia, estarei participando do Poesia no SESI, evento organizado pelo Claufe Rodrigues e pela Mônica Montone que vem homenageando grandes poetas e mostrando a produção dos novos nesse horário perfeito pra quem quer um pouco de cultura, e não só comida, na hora do almoço.

Assim sendo, a poesia me pegou de novo pela mao e estamos andando juntas por ai esses tempos. Vai ser lindo ter voces com a gente!

21.9.10

Poesia + Primavera + Penteadeira


Tudo comecou na festa de 2 anos do Manas, estudio de yoga da minha querida Luciana Leon (e sim, é ela lindona na foto do site!). Foi la que eu conheci a Livia Velludo, ela descobriu minha poesia, eu descobri as roupas lindas da marca dela, a Honky Tonk, e dai veio o convite pra eu participar desse evento-delicia.

Eu ainda nao conheco A Penteadeira, mas ja amei tudo: a ideia de misturar salao de beleza com brecho, a cara da loja toda frufru, toda mulherzinha, a ideia de fazer eventos em que as pessoas possam comprar lingerie ou vestidos, fazer a unha ou uma escova, bater papo ou ouvir poesia, enfim, adorei tudo!

Entao nesse sabado, dia 25, estarei la a partir de 13h dando um trato no meu look, sendo tentada pelas roupitas lindas da Livia e mais um monte de delicias! Aparecam!


A PENTEADEIRA
Rua Visconde de Piraja 156, loja 217 - Ipanema
Tel: 22267 5525

28.8.10

Arrumando os poemas da madrugada - parte 1

Provavelmente é você

que me persegue por ruas e sonhos

Provavelmente dá certo

mas pode muito bem ser que não



Se temos presente e passado

Se temos planos de futuros

Possa ser que seja eu a sua mulher

pode ser pra vida inteira e pra depois



(Depois do futuro vem o que?

Pode ser que a gente chegue lá?

Como saber quando se chega
pra poder parar de tentar?)



Provavelmente sou eu

a mulher que te ama em segredo

Por mais que eu grite

por maior o espalhafato


O amor é sempre escândalo secreto

Provavelmente que sim.


xxx

Menos.
Amar menos.
Eu quero.
Menos você, eu quero.
Eu quero amar menos você.
Menos eu, eu vou ser,
mas melhor,
portanto mais.
Mais.
Eu quero.

xxx

"A casa da saudade é o vazio" (Moska & Chico Cesar)

Saudade é casa vazia.
A casa da saudade é a pessoa.

Duas pernas, dois braços, ou nenhum de cada um,
mas peito, pau, vértebras, pentelhos

Saudade é o anti-vazio
vozes povoando o ouvido onde pro mundo só há silêncio

No vazio não tem nada
e saudade é pra quem sente

A casa da saudade é a pessoa.

Porque o Moska é inspirador

Provavelmente é você

que me persegue por ruas e sonhos

Provavelmente dá certo

mas pode muito bem ser que não



Se temos presente e passado

Se temos planos de futuros

Possa ser que eu seja sua mogli

pode ser pra vida inteira e pra depois



Depois do futuro vem o que?

Pode ser que a gente chegue lá?

Pode ser que já tenha chegado?



Provavelmente sou eu

a mulher que te ama em segredo

Por mais que eu grite

por maior o espalhafato

o amor é sempre escândalo secreto



Provavelmente que sim.

xxx

Menos.

Amar menos.

Eu quero.

Menos você, eu quero.

Eu quero amar menos você.

Menos eu, eu vou ser,

mas melhor,

portanto mais.

Mais.

Eu quero.

xxx

"A casa da saudade é o vazio" (Moska & Chico Cesar)

Saudade é casa vazia.

A casa da saudade é a pessoa.

Não existe saudade no vazio.

Duas pernas, dois braços, ou nenhum de cada um,

mas peito, pau, vértebras, pentelhos

A saudade é o anti-vazio

vozes povoando o ouvido onde pro mundo só há silêncio

No vazio não tem nada

e saudade é coisa de quem sente

A casa da saudade é a pessoa.

(poemas de guardanapo do Canecão na noite de estréia do lindo e foda show do Moska, "MuitoPouco", alegriainspiração, quase uma profusão em tempos de tão pouca escrita por aqui, muito, muito, lararirara)

17.8.10

assim assim

o silêncio tem suas portas
mas nem sempre eu tenho a chave:
o que se deseja e do que se foge
o simples disfarçado de complicado

quando a casa usa pantufas
e os barulhos são só meus
tem conforto e aconchego
não tem medo nem espanto

tudo é dentro mas nem tudo é mar
tudo é vento mas nem tudo é ar
tudo é centro mas nem sempre ali
tudo promete mas nem tudo vai se cumprir

9.8.10

pai

tem quem tem

tem quem não tem


tem quem curte

tem quem sofre

tem quem baba

tem quem briga


tem quem teve e quem nunquinha


tem quem não vai sem ele à esquina

tem quem dá de ombros e sublima



mas ninguém prefere ser sem


ninguém

26.7.10

Dia da Pessoa

Roubei da Camila porque achei foda, e assino embaixo.
Fui fuçar e descobri que foi feito pelo pessoal da Lápis Raro, uma agência de publicidade da qual eu nunca tinha ouvido falar, mas que eu super contrataria se tivesse alguma coisa pra anunciar e morasse em Belo Horizonte.


19.7.10

De onde nasceu o poema ali embaixo

música :: onda de comunicação de fábio lima, por lucas vasconcellos no show da banda lettuce na casa da gávea)



+

Ausência
(Carlos Drummond de Andrade)

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

14.7.10

esta noite escrevo

quando chove e você fica preso entre latarias e luzes derretidas
quando o vermelho é a cor da noite
quando a comida na barriga não curte o espetáculo
e o ponto de gatilho no nordeste das costas te cutuca

de repente uma voz de homem avisa
"eu tive uma onda de comunicacao"
e o amor que não se faz naquela sala naquela hora
brilha muito mesmo assim, na ausência

a ausência não é falta, outro homem me diz
mas as roupas sem mais uso no armário não querem saber de poesia
todo o tempo do mundo em que se amou alguém vai doer um dia
cada palavra, cada segundo

eu prefiro essa dor - longe, longe, muito longe
eu quero essa dor do amor demais
eu quero a inevitável dor do fim - mais, muito mais
que a infinita dor do não

1.7.10

Enquanto não escrevo, leio


Grammar

Maxine, back from a weekend with her boyfriend,
smiles like a big cat and says
that she's a conjugated verb.
She's been doing the direct object
with a second person pronoun named Phil,
and when she walks into the room,
everybody turns:

some kind of light is coming from her head.
Even the geraniums look curious,
and the bees, if they were here, would buzz
suspiciously around her hair, looking
for the door in her corona.
We're all attracted to the perfume
of fermenting joy,

we've all tried to start a fire,
and one day maybe it will blaze up on its own.
In the meantime, she is the one today among us
most able to bear the idea of her own beauty,
and when we see it, we do what is natural:
we take our burned hands
out of our pockets,
and clap.

(do livro "Donkey Gospel", de Tony Hoagland, poeta americano que eu conheci por dica do Mr Luis Bravo, marido da muito querida Mrs Fernanda Rowlands Bravo, na minha recente temporadinha na America de cima. Pirei com o cara, trouxe três livros, e resolvi compartilhar. Aqui embaixo minha mui humilde tradução.)

Gramática

Maxine, na volta de um fim-de-semana com seu namorado,
sorri feito um gato grande e diz
que é um verbo conjugado.
Ela está fazendo o objeto direto
com um pronome da segunda pessoa chamado Phil,
e quando ela entra
todo mundo se vira:

tem uma espécie de luz saindo da sua cabeça.
A os gerânios parecem curiosos,
e as abelhas, se estivessem aqui, zuniriam
de forma suspeita em volta do seu cabelo, procurando
a porta pra sua coroa
Somos todos atraídos pelo perfume
da alegria fermentando,

todos tentamos começar um fogo
e um dia talvez ele queime por si só.
Por hora, ela é hoje aquela de nós
mais capaz de suportar a ideia da sua própria beleza,
e quando a gente a vê, faz o que é natural:
tira nossas mãos queimadas
dos bolsos,
e aplaude.

30.6.10

Puizia

Passei no blog do Pedro e li isso aqui:

Haikão de segunda

Penso em vão...
Quantas doses de transgressão
podem salvar uma instituição?

Daí me lembrei disso aqui:

Dias de afã e frenesi
fudendo homens magros e a cabeça pelas noites

O amor apareceu e foi quase banal
foi como se fosse normal aquele olhar entre os passantes
como se houvesse ainda cavalo e, portanto, rédeas
quando na verdade era tudo já galope, disparada

Pode conter mais tremor o caseiro que o mundano?
pode o veneno habitar o lar?
cabem certezas na inquietude?

O amor é jangada de pedra,
ilha desconhecida
barco sempre à deriva

Se pode gritar "terra à vista!"
mas não pisar lá - terra firme
o amor é navegar

(poema nascido na última hora antes de publicar o Bendita Palavra, que entrou lá no finalzinho do livro)



20.6.10

Inicio e queixo

Foi ali que tudo comecou, minha vida de dizer poesia, muito antes de começar a escrever os meus próprios poemas. O Pedro Cezar, meu amigo muito querido, estava lá também, como aluno da segunda turma de oficinas de poesia falada que a Elisa Lucinda já dava em várias viagens pelo Brasil, mas nunca tinha dado no Rio. Dali nasceu a Escola Lucinda de Poesia Viva, que nessa época funcionava na casa da Elisa, no Leblon.

Essas duas turmas iniciais viraram um grupo, o Te pego pelo verso, que fazia recitais de poetas que a gente amava. Todo esse momento foi registrado pela camera do Pedro e da Paula Fiúza, e virou esse documentario incrível sobre um momento muito especial da minha vida, onde nasceu a poeta que eu sou hoje. A Elisa fala ali sobre o desejo de formar um mercado de trabalho, e eu me orgulho de hoje, mais de dez anos depois, ter publicado dois livros, dois cds de poesia, e ganhar cachês pra me apresentar dizendo meus versos por aí.

A cereja do bolo é o registro luxuoso do recital de Fernando Pessoa que a gente fez no Consulado de Portugal e que foi palco da incrivel pegada no queixo da qual eu falo no post ali embaixo. Muito obrigada à Paula e ao Pedro pela chance de reviver aquela noite linda. Mas a pegada no queixo vive só na memória, e que delícia, uma lembrança só minha com o Saramago...

PARTE 1





PARTE 2

18.6.10

Perdi

Ele não vai mais ler meu livro. Nunca mais vai segurar meu queixo e falar com sotaque que é uma beleza me ouvir dizer os versos de Pessoa. Não vai lancar novos livros que eu compraria depressa e leria com calma, adiando as ultimas páginas porque sabia que levaria ainda um ano ou mais pra sair o próximo. Não vai ter proximo, e eu vou gastar noites relendo as histórias de Blimunda comendo pão de olhos fechados pra não ver dentro do seu amado, e Joana Carda com sua vara de negrilho partindo o chão da Península Ibérica, e a mulher do médico enxergando por todos os cegos, e a morte que pediu autos numa cidade qualquer, e Jesus numa conversa dura com deus e o diabo numa canoa no meio do mar, e Caim revoltado com a injustiça divina.

Por causa dele perdi um voo em Los Angeles sentada na frente do portão de embarque, mergulhada em não sei qual livro. E os exemplares que restam do substantivo feminino, que eu justifico guardar pra "se um dia o Saramago vier aqui em casa", perderam seu leitor mais importante.

Nunca pensei que houvesse em mim lágrimas por alguém impálpavel, longe do alcance da minha mão. Mas se ele me pegou pelo queixo naquela noite em Botafogo, eu menina de coque e colar de muitas voltas, nervosa de dizer com meu sotaque carioca os poemas que ele devia conhecer há tão mais tempo, ele me pegou pelo queixo como avô, como mestre, e eu nunca deixei pra lá esse momento. Em tudo que eu escrevo ele vive, em tudo que eu leio e me toca o toque dele esteve antes.

É sexta-feira de sol, a Sérvia ganhou da Alemanha, meu amor saiu cedo pro trabalho e eu arrumo a casa de camisola e meias. A vida segue seu curso, mas mais triste. E a dor de cabeça leve que vai vir das lágrimas que agora correm vai me lembrar o dia todo, na reunião, no almoço, no encontro com os amigos, que não tem mais ele no mundo real. Que bom que tem no meu.

2.6.10

SMS

Meia-noite e cinco, acaba o filme no dvd, nos levantamos do sofá preguiçosos e ainda envolvidos pelas histórias da gente que vivia na tela, toca o aviso de mensagem no celular. Não é hora de recados, em geral, e o que eu leio confirma o caráter nada habitual do acontecimento: "Obrigado, por me ensinar a amar o papel em branco e a caneta." O número é desconhecido, a mensagem não tem remetente e eu não respondo mensagens de desconhecidos.

Vou dormir e só me lembro de novo da mensagem agora de tarde, e aí reparo que além do celular tem um DDD, 87. Isso é Pernambuco, mas não é Recife, é interior. Me espanta e me alegra que em algum desses lugares, tão longe de onde eu vivo e das livrarias que vendem meus livros, alguém me descubra, me leia, se encante, e queira me dizer isso.

Confesso que esperaria receber esse recado por email, ou mensagem aqui no blog. Que alguém em algum desses lugares, tão longe de onde eu vivo e das livrarias que vendem meus livros, tenha meu número de telefone me assusta um pouco. São tempos estranhos, em que uma rede invísivel nos espalha democraticamente ao mesmo tempo em que nos tira um tanto de privacidade, e é esquisito quando acontece com a gente. Na tentativa de ser pública e discreta, acho que ando conseguindo um bom equilíbrio, mas às vezes a corda balança e a gente não sabe bem de onde veio o sopro. Que seja um sopro doce, então.

25.5.10

Honre o dom

A expressão é da Elisa, minha querida amiga e mestra. Mas me veio hoje no texto da Carrie, que me fez um bem danado nessa terça-feira nubladinha no Rio. Gosto de acreditar que tô honrando os meus talentos, na poesia e na montagem.

Meu pai diz que é um absurdo que as pessoas queiram pagar pelo esterco quando você produz orquídeas, querendo dizer que eu devia ganhar dinheiro mesmo era com a poesia, que é o meu melhor. Essas orquídeas são difíceis de vender, e no meu caso o esterco é bem limpinho e gostoso de produzir: eu adoro montar, é um trabalho criativo e autoral, então estou mais do que no lucro, vivendo do que eu gosto e fazendo o que eu amo por aí.

E é sempre bom ler um texto relembrando a importância disso em que eu acredito tanto: ser feliz no cotidiano, e não uma vez por ano.


14.5.10

vai e vem

a brincadeira é: viver a vida da fê. uma semana de andar por nova iorque e brooklyn, sem pressa, sem querer nada além de estar ali com aquela pessoa querida, e conhecer sua casa, sua cidade, suas tarefas, seus prazeres, seu amor.

depois chega a caçula e começa o afã de ver, fazer, ir, estar, lá, cá, lá de novo, vamos, vamos, e cruzamos o mapa de cima a baixo vendo quadros e ruas, fazendo compras e amizades, ouvindo músicas e vozes e ruídos urbanos.

comidas incríveis, reencontros, jazz, feira de antiguidades, calorão, metrô, musical, novidades, desejos de consumo, acrobacias, friaca, compras, saudades, risos.

e numa outra terça-feira outro avião e então o rio, os bairros, o conhecido, a cidade, os ruídos, a língua, a ladeira, os tijolos vermelhos, a campainha, e abraço e beijos e o corpo desejado desejando o corpo que chega, e a mulher que habita nele.

que bom chegar.

30.4.10

chegar

transito que quase me faz perder o aviao

voo lotado, sento do lado de um homem enorme, cujas pernas nao cabem no minimo espaco a sua frente, e a direita sobra pro lado da minha esquerda, ele de short, eu de vestido, so o cobertor pra me salvar do contato horrivel. na hora do jantar ele compra duas garrafinhas de vinho e uma coca light, mistura tudo e bebe por interminaveis minutos

do lado direito, um casal com um menino de um ano que gritava, hiperbolico, feliz, e chorava quando tentavam conte-lo, e vomitou quando a mae deu remedio

miami as 4 da matina, imigracao tranquila, cha no starbucks, sanduiche frio "can you heat it up, please" "no mam we don't" "ok thanks"

voo parte dois, feliz com um velhinho chines do meu lado, pequeno e silencioso. menos feliz quando ele tira da bolsa um vidro de azeitonas com cha e bebe direto do vidro

ny 11h, mala demora, transitinho, brooklyn, North 5th street, fe na janela, loura como so em ny se pode ser, abracos na rua, parece que foi ontem, parece que tem anos, mala escada acima, mala escada acima, casinha linda, papo, conversa

que bom chegar

16.4.10

dez

dez dias pra próxima viagem. vai ter reencontro com pessoa querida depois de oito meses, vai ter reencontro com pessoa querida depois de quatro meses, vai ter reencontro com pessoa querida depois de cinco anos. cinco anos sem ver alguém e ainda com vontade de ver é muito, não é? e na última vez em nos vimos também tinha isso, cinco anos que não nos víamos. bom manter uma amizade assim, apesar dos cinco anos de distância entre cada encontro. mas não é sempre suficiente, sabe, por isso pego um avião e vou. e a saudade que eu tinha guardado num lugar secreto porque era preciso agora desvenda as frestas, sai abrindo gavetas e caramba, os dez dias ficam muito.

e também tem a coisa de voltar a uma cidade depois de treze anos. treze. é muito. quase a primeira vez de novo. e tem a coisa do templo de consumo absoluto. e eu sou vulnerável nesse quesito. e a lista só cresce.

e aí tem a coisa de ficar sem meu amor esse tempo. duas semanas. duas semanas e dois dias. o tempo passa lento sem ele, como eu já disse em poema do primeiro livro que fecha esse post misterioso:

Na praia escura soam os relógios
Badalam as horas derretidas pelo sol do Ceará
Os ponteiros girando, moles
Aumentam o tamanho dos dias

O tempo muda enquanto passa
E não é o mesmo dentro e fora desse amor
Tem o tempo do trabalho
- dias que voam
E o tempo da saudade
- horas arrastadas

Tem o tempo daqui e o tempo daí
Dalí sabia, por isso espremeu os relógios
O que pinga deles é o sumo das horas
Segundos gotejantes me escorrendo pelos dedos
No tempo que é sem você

13.4.10

atualizando o corpitcho

A estratégia está dando certo. Osteopata sensacional, na primeira sessão já saí outra. Ela ficou completamente passada com o estado do meu corpo - o que não sei se é orgulho do tipo "estão vendo o que eu passei?" ou vexame do tipo "como é que eu fui ficar assim". Hoje voltei lá meio ruim de novo, porque ontem teve feira, hoje teve pedreiro, e teve uma longa caminhada porque voltar de ônibus de copacabana pra gávea não é tão simples assim. Mas semana que vem tem mais, e eu tô animadíssima com o investimento.

30.3.10

junta

É infame a piadinha, e velha ainda por cima, mas nada melhor a dizer no momento. É que eu tô com problema de junta, sabe? Junta tudo e joga fora.

Tenho só 31 anos, na flor da idade, animada, feliz, cheia de trabalho, amando e sendo amada, comendo bem e (tentando) fazer exercício, mas aí surge um joelho que dói, uma escápula que dói, duas escápulas que doem, uma lombar, e o pulso que acorda duro feito pedra e ai como dói.

Já tentei cuidar de tudo, já fui no ortopedista, no acupunturista, na osteopata. O primeiro me mandou fazer musculação, eu fui, adorei, mas malhar como com dor? O segundo me espetou toda, me encheu de esparadrapos feito um vudu esquisito, e não melhorei nadinha. A terceira será em breve a próxima, volto lá semana que vem depois de dois anos porque ela sim me olhou com cuidado e entendeu que o o joelho doeu porque o quadril pendeu pra esquerda porque eu torci o tornozelo direito há uns seis anos atrás.

Sim, seis anos. Era casamento de uma amiga, rolou aquela ciranda judaica sensacional, o salto do sapato virou e pronto, tornozelo torcido. Gelo, antiinflamatório, e ele ficou bom. Médio. Bom nunca mais ficou. Pega esse tornozelo, bota seis anos e o resultado sou eu agora, 31 anos, já na fase do "junta tudo e joga fora". Mas a osteopata não era o máximo? Era, mas era uma grana, e depois do primeiro mês eu paniquei e nunca mais voltei.

Agora resolvi voltar. E a grana? Tô pensando assim: não comprei tv pra minha ilha de edição, sofá, tecido pra estofar, não vou comprar um computador novo porque o meu tá velho? Então vou comprar um tornozelo novo, um joelho, duas escápulas, um quadril e uma lombar. Não são novos, mas remanufaturados, sabe, que nem tinta de impressora? Tô achando um bom negócio...

10.3.10

do Guimarães

"estou de range-rede."

"o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. afinam ou desafinam."

"moço: toda saudade é uma espécie de velhice."

"um está sempre no escuro, só no último derradeiro é que clareiam a sala. digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe pra gente é no meio da travessia."

"ah, porém, estaquei na ponta dum pensamento, e agudo temi, temi. cada hora, de cada dia, a gente aprende uma qualidade nova de medo!"

"o que até hoje, minha vida, avistei, de maior, foi aquele rio. aquele, daquele dia."

"essas são as horas da gente. as outras, de todo tempo, são as horas de todos."

"sempre que se começa a ter amor por alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando; mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. amor desse, cresce primeiro, brota é depois."

"e ele, o reinaldo, era tão galhardo garboso, tão governador assim no sistema pelintra, que preenchia em mim uma vaidade, de ter me escolhido para ser seu amigo todo leal. talvez também seja. anta entra n´água, se rupêia. mas, não. era não. era, era que eu gostava dele. gostava dele quando eu fechava os olhos. um bem querer que vinha do ar do meu nariz e do sonho de minhas noites."

"toda alegria, no mesmo do momento, abre saudade. até aquela - alegria sem licença, nascida esbarrada. passarinho cai de voar, mas bate suas asinhas no chão."

"ser ruim sempre, às vezes é custoso, carece de perversos exercícios de juízo."

"assim uma coisa eu estava escondendo, mesmo de diadorim: que eu já parava fundo no falso, dormia com a traição. um nublo. tinha perdido meu bom conselho. e entrei em máquinas de tristeza."

"o que eu vi, sempre, é que toda ação principia mesmo é por uma palavra pensada. palavra purgante, dada ou guardada, que vai rompendo rumo."

"mau eu não sou. cobra? - ele disse. nem cobra serepente malina não é. nasci devagar. sou é muito cauteloso."

"digo ao senhor: nem em diadorim mesmo eu não firmava o pensar. naqueles dias, então, eu não gostava dele? em pardo. gostava e não gostava. sei, sei que, no meu, eu gostava, permanecente. mas a natureza da gente é muito segundas-e-sábados. tem dia e tem noite, versáteis, em amizade de amor."

"meu corpo gostava do corpo dele, na sala do teatro. maiormente. as tristezas ao redor de nós, como querendo carrega para toda chuva."

"de mim toda mentira aceito. o senhor não pe igual? nós todos. mas eu fui sempre um fugidor. ao que fugi até da precisão da fuga."

"acho que eu não tinha conciso medo dos perigos: o que eu descosturava era medo de errar - de ir cair na boca dos perigos por minha culpa. hoje, sei: medo meditado, foi isto. medo de errar. sempre tive. medo de errar é que é a minha paciência."

"ele gostava, destinado, de mim. e eu - como é que posso explicar ao senhor o poder de amor que eu criei? minha vida o diga. se amor? era aquele latifúndio. eu ia com ele até o rio jordão. diadorim tomou conta de mim."

"cansaço faz tristeza, em quem dela carece."

"acho que o sentir da gente se voltei, mas em certos modos, rodando em si mas por regras. o prazer muito vira medo, o medo vai vira ódio, o ódio vira esses desesperos? - desespero é bom que vira a maior tristeza, constante então para o um amor - quanta saudade... - aí, outra esperança já vem... mas, a brasinha de tudo, é só o mesmo carvão só."

"a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesmo nunca se deve tolerar de ter. porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a idéia e o sentir da gente; o que isso era falta de soberania, e farta bobice, e de fato é."

"se não o senhor me diga: preto é preto? branco é branco? ou: quando é que a velhice começa, surgindo de dentro da mocidade."

"o nome de diadorim, que eu tinha falado, permaneceu em mim. me abracei com ele. mel se sente é todo lambente."

(acabo de notar que estou na terceira fase da escrita: ele escreveu, eu copiei no caderninho, e agora digito. e adoro. adoro. e vou me entendendo de jeitos líricos sabe? "medo de errar é que era a minha paciência?". ah, faça-me o favor, né? eu podia descobrir isso sobre mim com alguma palavra melhor? bom, depois continuo que ainda tem muito mais.)

9.3.10

Ler-escrever

Achei esses dias na casa dos meus pais um caderninho no qual eu anotei trechos do Grande Sertão na segunda vez em que li. Eu já tinha feito isso quando li pela primeira vez, tamanho o fascínio pela riqueza inédita da linguagem que o livro me dava a cada página, mas perdi o caderno e sim, reler foi de novo me seduzir por aquele universo linguístico e fiz de novo esse exercício de humildade. Lendo esses dias as coisas que anotei agradeci a mim mesma essa possibilidade de mergulho instantâneo nesse livro que eu amo pra além do já batido mas nunca velho "viver é muito perigoso".

Sempre tive essa mania, apesar de ultimamente andar mais preguiçosa. Anotei um pouco lendo Nas tuas mãos, da Inês Pedrosa, presente importado de Lisboa pelo meu amigo André Pellenz que disse que era um primor, e tinha razão. Esses livros em que a linguagem é quase mais deliciante que a narrativa, ou no mínimo tanto quanto, são os que mais me falam à alma. Os portugueses e angolanos são craques na coisa. A gente lê a prosa como se lesse poesia, uma delícia.

Pensei em tudo isso porque li um roteiro de um curta de uma amiga em que a personagem discorda de mim totalmente, acha que ao invés de gastar tempo re-escrevendo o que já foi escrito melhor é escrever as suas próprias palavras. Faz sentido, mas de algum jeito doido escrever no meu caderno e com a minha letra azul aquelas palavras alimenta a minha escrita, sabe? São duas delícias diferentes que eu espero praticar sempre.

3.3.10

as vidas

São algumas, e todas boas. As que dependem menos de máquinas e tecnologia são melhores, sempre. Aquela na qual eu cozinho muito e recebo amigos em casa é uma delícia. As duas ou três que envolvem horas despreocupadas com o meu amor estão no topo da lista. A que é recheada de poesia e escrita andava sumida, mas voltou à ativa recentemente. Engraçado: quase todas elas envolvem ir ao supermercado no mínimo uma vez por dia. E ainda nem começou a vida em cujo centro mora um filho, razão principal pras compras cotidianas de alimentos.
(Ando doida pra ela começar.)

20.2.10

Espera

viaja o homem, espera a mulher
espera e age
espera como se não esperasse

anda ruas, compra frutas
queima a pele, emerge do mergulho
dentro de tudo, espera

disfarça, se distrai, mas espera
conta os dias em voz baixa
evita discos, lugares
e planeja o reencontro:
truques de beleza, prendas do lar
putarias

viaja o homem
espera a mulher, grávida de ausência
vai nascer desejo, brilho no olho, gemido
vai nascer de novo o amor
o mesmo amor, melhor amor
das cinzas da saudade

16.2.10

retrato de carnaval

meu amor em cuba e eu em família
comunistas e católicos mineiros
distância e aconchego
o que é novidade e o que é secular

ter avó é um luxo
ter 31 anos, sonhar com um filho e ainda ser neta
dormir nessa cama onde meu coração já saiu pela boca
nessa casa onde meu corpo recebeu outro pela primeira vez
casa construída com pedras sobre as quais eu brinquei na foto da infância
cabelos cacheados e franja
galochas vermelhas, moletom cinza
uma pose e a felicidade

o céu sobre nós é o mesmo
em cuba, no rio, em itaipava ou no passado
o céu é sempre o mesmo
e o amor não deixa o longe tomar conta

no fundo da carne e no arrepio da pele
dormem seu nome e seu toque
seu rosto bonito que os anos ajudam a desenhar
seus pés brancos
a curva dos ombros

é carnaval e eu não visto a fantasia
eu vivo a fantasia
eu sou a fantasia
seu corpo de homem tatuado inteiro sobre o meu

3.2.10

Pop?

É uma mistura de orgulho com vergonha, de senso de reconhecimento com vontade de se enconder no quarto escuro, de gargalhada com embrulho no estômago.

É como descobrir uma montagem do seu rosto com uma modelo só de lingerie, sendo a lingerie vulgar, a montagem trash e o corpo da modelo pior que o seu.

É como... nem sei mais como é. Só vendo mesmo. Aqui é ele.



Aqui sou eu.


30.1.10

Em branco

Faz tempo que eu não escrevo. Nem aqui nem em nenhum caderno, nem de noite nem de dia, nem coisa prática nem coisa poética. Me faz falta, muita. Durante um tempo achei que era natural, afinal os trabalhos, as compras de supermercado, os livros pra ler, a correria, as máquinas, a tecnologia.

Não é que eu pego o caderno e não vem nada. É que eu não pego caderno nenhum. Nem carta de amor, nem lista de compras, nada. Poema então, passa longe.

Sou eu que preciso cuidar disso, mas me entendam: comecei a escrever isso no computador da ilha de edicao do meu pai, onde passei a tarde de sabado tentando terminar um trabalho, sem sucesso. Continuei na minha ilha, sabado a noite, onde a coisa ainda nao rolou mesmo eu insistindo ate 23h30... Entao agora, domingao de sol, ca estou de volta a ilha de edicao numero 1 (num mac sem acentos, notem a diferenca!), tentando pela 3a vez gravar um dvd de um curta metragem no qual o meu trabalho ja deveria ter terminado ha meses!

Ok, pode-se dizer que ha tempos atras eu gastaria as horas vagas entre exportar o arquivo e queimar o dvd escrevendo poemas. E verdade, e tambem nos sinais de transito e nos bloquinhos que andavam na bolsa e em guardanapos de bar e. Mas gente, gastar quase 20h pra fazer um trabalho mecanico que meu assistente faria em 2h - se nao tivesse me abandonado e ido ser feliz no frio de Londres - e de enlouquecer o cidadao. E foda, nao e mole nao. Nao rola nenhum pensamento criativo, nenhum lirismo, so desejo de praticidade.

Nao, eu nao vou desistir. A poesia ainda e o que me faz mais feliz. E ja que nesses tempos ela tem sido mais dita do que escrita, talvez seja mesmo a hora de eu parar de adiar a criacao do espetaculo que sonho fazer com os meus poemas pra estrear no palco da Casa Poema. Isso, Maria, anuncia pra ter cobranca. Boa.

(e torcam por mim porque o arquivo ainda ta na metade do export...)

29.1.10

Usando, abuse!

Campanha sensacional pelo uso da camisinha, aqui. Do governo francês, claro, que não tem medo de chocar e não é refém do politicamente correto. Adorei!