5.7.11

Refletir na hora do almoço, como é bom!

CURTIR É COVARDIA

Por Jonathan Franzen

tradução de Augusto Calil

Duas semanas atrás, substituí meu BlackBerry Pearl, já com três anos de idade, por um BlackBerry Bold, muito mais poderoso. Nem preciso dizer como fiquei impressionado com o quanto a tecnologia avançou em três anos. Mesmo quando não havia ninguém para telefonar ou mandar e-mail, eu queria continuar mexendo no meu novo Bold e sentir a maravilhosa nitidez de sua tela, a movimentação sedosa do seu trackpad, sua chocante velocidade de resposta, a sedutora elegância de seus gráficos.

Em resumo, fiquei apaixonado por meu novo dispositivo. É claro que o dispositivo anterior também tinha despertado em mim uma paixão semelhante; mas, com o passar dos anos, nosso relacionamento perdeu brilho. Surgiu uma série de problemas na minha relação com o Pearl: problemas de confiança, de responsabilidade, de compatibilidade e até, na porção final de nossa história conjunta, algumas dúvidas em relação à própria sanidade do meu Pearl, até que finalmente vi-me obrigado a reconhecer que eu tinha amadurecido e perdido o interesse naquele relacionamento.

Será que preciso destacar o quanto nosso relacionamento era – na ausência de uma extravagante e antropomorfizante projeção segundo a qual meu antigo BlackBerry teria ficado magoado com o esmaecimento do amor que eu sentia por ele – absolutamente unilateral? Permita-me destacá-lo mesmo assim.

Permita-me destacar ainda a frequência absurda com que a palavra “sexy” é usada para descrever os modelos mais recentes de dispositivos eletrônicos; e o quanto as coisas extremamente bacanas que podemos agora fazer com estes dispositivos – como ativá-los por meio de comandos de voz ou usar os dedos espalhando-os sobre a tela do iPhone para aumentar as imagens – pareceriam ser, para as pessoas de cem anos atrás, verdadeiros encantamentos de mágico, gestos de mago; e o quanto recorremos, na tentativa de descrever um relacionamento erótico que esteja funcionando perfeitamente, à metáfora da magia.

Permita-me propor a ideia de que, conforme nossos mercados descobrem e respondem àquilo que os consumidores mais desejam, nossa tecnologia se torna extremamente hábil na criação de produtos que correspondam ao nosso ideal fantasioso de um relacionamento erótico, no qual o objeto amado se entrega por completo sem exigir nada em troca, instantaneamente, fazendo que nos sintamos todo-poderosos, sem criar cenas constrangedoras quando é substituído por um objeto ainda mais sexy, sendo então relegado a uma gaveta.

Falando numa perspectiva mais geral, o objetivo definitivo da tecnologia, a teleologia da techné, é substituir um mundo natural indiferente a nossos desejos – um mundo de furacões e dificuldades e corações partíveis, um mundo de resistência – por outro mundo que responda tão bem a nossos desejos a ponto de ser, com efeito, uma mera extensão do ser. Permita-me sugerir, finalmente, que o mundo do tecnoconsumismo é, portanto, incomodado pelo amor verdadeiro, restando-lhe como única escolha responder perturbando o amor.

Sua primeira linha de defesa é transformar seu inimigo em commodity.

Todos saberão citar seu favorito dentre os nauseabundos exemplos da mercantilização do amor. Eu mencionaria a indústria do casamento, os comerciais de TV que mostram lindas criancinhas e também a prática de oferecer automóveis como presente de Natal, e a particularmente grotesca equação que compara as joias com diamantes à devoção eterna. A mensagem, em cada um dos casos, é bastante clara: se você ama alguém, compre alguma coisa.

Um fenômeno relacionado a esse é a transformação do verbo “curtir” (“like”, em inglês) que, graças ao Facebook, deixa de ser um estado de espírito e passa a ser um ato que desempenhamos com o mouse – deixa de ser um sentimento para virar uma opção de consumo. E curtir é, no geral, o substituto que a cultura comercial oferece para o ato de amar. A característica mais notável de todos os produtos de consumo – e principalmente dos dispositivos eletrônicos e aplicativos – é o fato de terem sido projetados para serem imensamente curtíveis. Esta é, na verdade, a definição de um produto de consumo, em contraste com o produto que é apenas aquilo que é e cujos fabricantes não estão concentrados na possibilidade de o curtirmos ou não. (Estou pensando nos motores a jato, no equipamento de laboratório, na arte e na literatura em suas manifestações mais sérias.)

Mas, se pensarmos nisso em termos humanos, e imaginarmos uma pessoa definida pela ansiedade desesperada de ser curtida, qual é o quadro que vemos? O de uma pessoa sem integridade, descentrada. Em casos mais patológicos, vemos um narcisista – alguém incapaz de tolerar em sua autoimagem as manchas que seriam representadas pela possibilidade de não ser curtida e que portanto busca uma fuga do contato humano ou se dedica a sacrifícios cada vez mais extremos da própria integridade com o intuito de ser curtida.

Curtível.

Se uma pessoa dedica sua existência a ser curtível, entretanto, e se adota qualquer máscara bacana que se mostre necessária para atingir tal fim, isso sugere alguém que perdeu a esperança de ser curtido por aquilo que realmente é. E, se formos bem sucedidos na tentativa de manipular os outros e fazê-los nos curtir, será difícil não sentir, em algum nível, um verdadeiro desprezo por tais pessoas, pois caíram no nosso embuste. A pessoa pode ficar deprimida, cair no alcoolismo ou, se estivermos falando de Donald Trump, concorrer à presidência (e depois desistir).

Os produtos tecnológicos de consumo nunca fariam algo tão pouco atraente, pois não são pessoas. Eles são, no entanto, grandes aliados e facilitadores do narcisismo. Além da ansiedade de serem curtidos já incorporada a eles, há também uma ansiedade de causarem boa impressão em nós. Nossas vidas parecem muito mais interessantes quando são filtradas pela interface sexy do Facebook. Somos os astros de nossos próprios filmes, fotografamos incessantemente a nós mesmos, clicamos o mouse e uma máquina confirma a sensação de que estamos no comando. E, já que nossa tecnologia não passa de uma extensão de nós mesmos, não precisamos desprezar seus traços manipuladores como faríamos no caso de pessoas reais. Trata-se de um ciclo interminável. Curtimos o espelho e o espelho nos curte. Ser amigo de uma pessoa significa apenas incluí-la na sua lista particular de espelhos elogiosos.

Talvez eu esteja exagerando um pouco neste caso, só um pouco. Muito provavelmente, você já está cansado de ver as mídias sociais sendo desrespeitadas por cinquentões ranzinzas. Meu objetivo aqui é estabelecer um contraste entre as tendências narcisistas da tecnologia e o problema do amor verdadeiro. Minha amiga Alice Sebold gosta de falar em “amar alguém e se lambuzar”. Ela tem em mente a sujeira que o amor inevitavelmente espalha sobre o espelho de nosso respeito próprio.

O simples fato é que a tentativa de ser perfeitamente curtível é incompatível com os relacionamentos amorosos. Mais cedo ou mais tarde, por exemplo, você se verá numa briga horrível, aos berros, e ouvirá saindo de sua boca palavras que você mesmo não curte nem um pouco, coisas que estilhaçam sua autoimagem de pessoa justa, gentil, bacana, atraente, controlada, divertida e curtível. Alguma coisa mais real do que a curtibilidade surgiu de você e de repente você se vê levando uma vida real.

Subitamente existe uma escolha de verdade a ser feita – não uma falsa escolha de consumidor entre BlackBerry e iPhone, e sim uma pergunta: Será que eu amo esta pessoa? E, para o outro, será que esta pessoa me ama?

Não existe a possibilidade de curtir cada partícula da personalidade de uma pessoa real. É por isso que um mundo de curtição acaba se revelando uma mentira. Mas é possível pensar na ideia de amar cada partícula de uma determinada pessoa. E é por isso que o amor representa tamanha ameaça existencial à ordem tecnoconsumista: ele denuncia a mentira.

Isso não equivale a dizer que o amor envolve apenas as brigas. O amor é questão de empatia ilimitada, nascida de uma revelação feita pelo coração mostrando que outra pessoa é tão real quanto você. E é por isso que o amor, ao menos no meu entendimento, é sempre específico. Tentar amar a toda a humanidade pode ser um empreendimento digno, mas, de um jeito engraçado, isso mantém o foco no eu, no bem estar moral ou espiritual do eu. Ao passo que, para amar uma pessoa específica e identificar-se com as lutas dela como se fossem as suas, é preciso abrir mão de parte de si.

Neste caso, o grande risco envolvido é, sem dúvida, a rejeição. Todos nós podemos suportar momentos em que não somos curtidos, pois existe uma gama virtualmente infinita de curtidores em potencial. Mas expor a totalidade do seu eu, e não apenas a superfície curtível, e com isto ser rejeitado, é algo que pode se revelar insuportavelmente doloroso. A perspectiva geral da dor, a dor da perda, da separação, da morte, é o que torna tão tentadora a ideia de evitar o amor e permanecer em segurança no mundo do curtir.

Ainda assim, a dor machuca, mas não mata. Quando levamos em consideração a alternativa – um sonho anestesiado de autossuficiência, incentivado e aprovado pela tecnologia – a dor emerge como produto natural e indicador natural de que estamos vivos num mundo resistente. Levar uma vida indolor equivale a não viver. Até dizer a si mesmo, “Ah, vou deixar para depois esta história de amor e de dor, talvez para depois dos 30 anos” é como resignar-se a passar 10 anos simplesmente ocupando espaço no planeta e consumindo seus recursos. Resignar-se a ser um consumidor (palavra que emprego no seu sentido mais pejorativo).

Pássaros.

Quando estava na faculdade, e por muitos anos depois disto, eu curtia o mundo natural. Eu não o amava, mas sem dúvida o curtia. A natureza pode mesmo ser algo muito belo. E, como eu estava em busca de coisas no mundo que me parecessem erradas, gravitei naturalmente na direção do ambientalismo, pois sem dúvida havia muitas coisas erradas com o meio ambiente. E quanto mais eu olhava para aquilo que estava errado – uma população mundial em explosão, o consumo desenfreado dos recursos naturais, o aumento nas temperaturas globais, a contaminação dos oceanos, o corte das últimas florestas antigas –, mais furioso me tornava.

Finalmente, em meados dos anos 90, tomei conscientemente a decisão de parar de me preocupar com o meio ambiente. Pessoalmente, não havia nada de significativo que eu pudesse fazer para salvar o planeta e, além disso, tinha vontade de seguir na vida me dedicando às coisas que amava. Continuei me esforçando para manter pequena minha “pegada de carbono”, mas esse parecia ser o meu limite antes de recair na raiva e no desespero.

Foi então que me ocorreu algo engraçado. Trata-se de uma história comprida, mas, basicamente, apaixonei-me pelos pássaros. Isto não ocorreu sem uma resistência considerável, pois é muito cafona ser um observador de pássaros, já que qualquer indício que revele uma paixão verdadeira é, por definição, algo cafona. Mas, aos poucos, apesar da relutância, desenvolvi essa paixão e, se metade de uma paixão é a obsessão, a outra metade é o amor.

Bem, devo admitir que mantive uma lista meticulosa das espécies de pássaros que eu já tinha visto e admito também que fiz esforços incomuns em nome da oportunidade de conhecer espécies diferentes. Mas, igualmente importante, sempre que olhava para um pássaro, qualquer pássaro, mesmo uma pomba ou um tordo, eu sentia o coração transbordar de amor. E o amor, como venho tentando expor aqui, é onde começam nossos problemas.

Pois agora, não apenas curtindo a natureza, mas amando uma parte específica e vital dela, eu não tinha escolha a não ser voltar a me preocupar com o meio ambiente. As notícias sobre este assunto não tinham melhorado desde a época em que decidi parar de me importar com elas – eram na verdade consideravelmente piores –, mas agora aquelas florestas e pântanos e oceanos ameaçados não eram mais cenários bonitos dos quais eu poderia desfrutar. Eram o lar de animais que eu amava.

E foi então que um curioso paradoxo emergiu. A raiva e a dor que eu sentia diante da situação do planeta só foram amplificadas por minha preocupação com os pássaros silvestres, mas, conforme eu aprendia sobre a preservação dos pássaros e me envolvia com esse tipo de iniciativa, aprendendo cada vez mais a respeito das ameaças que os pássaros enfrentam, tornou-se mais fácil, e não mais difícil, conviver com a raiva, o desespero e a dor.

Como pode ser uma coisa dessas? Acho que, para começar, meu amor pelos pássaros se tornou um portal para uma parte importante e menos autocentrada de mim, que eu nem mesmo sabia que existia. Em vez de seguir à deriva pela vida de cidadão global, curtindo e descurtindo e guardando meu envolvimento para algum momento posterior, fui obrigado a confrontar uma parte de mim que até então eu tinha de aceitar totalmente ou rejeitar absolutamente.

Exatamente aquilo que o amor faz com uma pessoa. Pois a questão fundamental envolvendo a todos nós é o fato de que vivemos por algum tempo, mas morreremos em breve. Esse fato é a verdadeira causa fundamental de toda a nossa raiva, dor e desespero. E a pessoa pode optar por fugir desse fato ou, por meio do amor, aprender a aceitá-lo. Quando ficamos em nossos quartos e bufamos ou caçoamos ou damos de ombros indiferentemente, como eu fiz durante tantos anos, o mundo e seus problemas parecem impossivelmente desafiadores. Mas, quando saímos e nos colocamos em relacionamentos reais com seres reais, ou mesmo animais reais, há o perigo bastante real de amarmos alguns deles.

E quem pode prever que rumo a vida tomará então?

0 notes
(do blog do Pardal, sempre cheio de belas cartas na manga)

3.7.11

Agora

Zooey Deschanel e eu cantamos
You really got a hold on me
enquanto o dia vira noite do lado de lá do vidro não duplo da janela

A casa, os sons, os silêncios
os momentos que arrasam no Ibope
e ganham reprise no teatro da cabeça

Estar sozinha é lindo e calmo
e talvez seja a coisa mais distante do mundo da solidão
essa formiga que pica o peito e joga a gente pra ser triste na rua

Ela canta, eu canto, motos passam
uma só luz no prédio em frente
aqui dentro, eu e a casa, em paz.

1.7.11

c.a.n.s.a.ç.o



"Cansaço faz tristeza em quem dele carece", disse o Riobado/Rosa
e eu suspiro e penso que ainda muito bem que eu não ando carecendo
porque pelo grau do cansaço a tristeza ia ser de doer
e exaustão com alma leve é bem mais confortável
e agora falta bem pouco pra eu poder dormir sem peso no coração
só princípio de dor no ponto entro o ombro e o pescoço do lado esquerdo
e
(para de falar e vai dormir, maria)

28.6.11

Não-pronta

"É absurdo acreditar na idéia de que uma pessoa, quanto mais vive, mais velha fica; para que quanto mais vivesse mais velho ficasse, teria de ter nascido pronto e ir se gastando... Isso não ocorre com gente, e sim com fogão, sapato, geladeira. Gente não nasce pronta e vai se gastando; gente nasce não-pronta, e vai se fazendo. Eu, no ano que estamos, sou a minha mais nova edição (revista e, às vezes, um pouco ampliada); o mais velho de mim (se é o tempo a medida); está no meu passado e não no meu presente." (Mario Sergio Cortella)

(roubado da querida&talentosa Suzanna Schlemm)

9.6.11

Apesar do céu

O Everton Behenck é um poeta e compositor e cantor gaúcho que eu conheci na Festipoa. A banda dele tocou na mesma noite em que eu me apresentei, então eu só curti o som deles na passagem de som porque depois que desci do palco cês sabem, fiquei zureta até 3a feira.

Dias depois, na Palavraria - a minha livraria em Porto Alegre, onde o a Carla, o Paulo e o Carlos são sempre abraços&sorrisos pra mim -, numa mesa com os queridos Botika e Marcelino Freire, conheci a poesia escrita dele, e adorei. Agora viciei no Apesar do céu, onde acho delicadezas como essa:

Saudade é provocar o amor
Até não aguentar mais

Como em uma propaganda antiga
De refrigerantes

Saudade

É cutucar o amor
Com vara nenhuma

É o medo do amor
Não ser o mesmo

Quando a gente acorda

É o medo de ter a mão
Devorada

Por uma fera

Sem que ela saiba
O que significa

O que está engolindo

Saudade
Quando diz de verdade

É um cisco
No pensamento

Que o outro
Ausente

Não sopra

Everton Behenck

8.6.11

Caso do vestido, gato, tijolo - a noite no Oi P.J.


A noite no OI P.J. foi assim:
Primeiro teve papo breve de medos&angústias, recapitulação dos acontecimentos anteriores, referências, roteiro, projetor&praticidades.
Aí teve o ensaio, eu perdida no palco, eu achada, idéias, repeterepeterepete, muda, inventa, repeterepete.
Quando parecia que ia acabar teve o P.J. propriamente dito, o dono do teatro, oferecendo salmão e pão caseiro tostadinho e vinho português safra 98 e pizza e conversas gostosas.
E de repente era 1h da madrugada, eu e Ana na cozinha, o vento brincando com as árvores, e "O caso do Vestido" veio do coração pra boca sem passar pelo pensamento, as palavras do Drummond saindo depois de tanto tempo, novas, limpas, lindas.
Foi impulso, virou plano mirabolante, com direito a mirabolâncias da Ana em luz&cenário, com direito a 3 takes, com direito a pulo de gato branco e música triste no final.

*P.J. é o Paulo José, pai da Ana, dono do teatrinho incrível (vulgo OI P.J., porque o palco tem o tamanho do do Oi Futuro Ipanema) onde temos a sorte de ensaiar, com direito a palpites e comidinhas gostosas

6.6.11

Pra ler a Ana

Minha diretora tá estreando no mundo encantado dos blogs, e já tem lá um continho lindo e triste sobre beleza e tristeza.

É ali na matriuschka.

Benvinda, Anuska!

2.6.11

Não é treino, Antônio, é ensaio!

Tá bom, tô cheia de citações e títulos esquisitos. Mas é que eu amo "A Máquina", o livro da Adriana Falcão, que eu li e reli mil vezes, vendo a peça umas duas entre as leituras, pra dar fôlego. E quando o Antônio pergunta "cheguei tarde pro treino, Karina?" é isso que ela repete, já impaciente porque ele não aprende a diferença.

Pois agora eu sou meio Karina meio Antônio. Pela primeira vez na vida tenho um compromisso com esse nome: "ensaio", eu escrevo na agenda virtual, e um sorriso se desenha no rosto. Vou sair mais cedo hoje porque tenho ensaio - eu aviso aos clientes e parceiros de trabalho. Desliguei o celular porque estava ensaiando. É um arraso de bom. Novidade embrulhada em papel celofane azul royal.

Ainda mais porque "ensaio" quer dizer encontrar a Ana. A Ana é a Ana Kutner, minha diretora, minha mais nova amiga de infância, com quem eu tenho o prazer de compartilhar esse momento tão particular da minha vida, com quem eu aprendo rindo e divido o peso das tristezas que aparecem, e que me emociona quando me pega pela mão e me fala sobre um medo que rolou "você acha que a gente vai deixar você se espatifar? tá doida?" "a gente quem, Ana Kutner?" "a gente, as pessoas que te amam!". Tem amor nessa nossa mistura, e que luxo trabalhar assim!

Pois descobri que eu sou meio Karina meio Antônio porque tem horas que o ensaio tem jeito de treino, e só percebi isso essa semana, quando dona Ana me botou pra correrpulardançar pelo palco durante umas boas duas horas. Era uma noite gelada no alto da Gávea e eu saí de sutiã e cabelos molhados de suor, um roxo no joelho esquerdo, as costas em petição de miséria, a alma limpída e o pensamento alegre.










Hoje, depois de uma sessão salvadora na osteopata, eu pedi com jeitinho e ela, que é um doce, me deixou ficar mais calminha. Passamos um corridão do espetáculo, e vimos pela primeira vez a cara que ele tem agora, com o roteiro que parece que vai ser o definitivo - pelo menos pelos próximos tempos. A vida sabe ser boa, eu digo e repito, e nunca canso de concordar comigo nesse quesito...

24.5.11

Tô fora

"HÁ MUITAS FORMAS DE TORTURA

inclusive a auto-tortura, que enlouquece e vitimiza. Como diz meu amigo Marcus Linari: "não é só você que se fode nessa vida". Então arrastar correntes pode até ser inevitável por um tempo, mas tentar soltar-se delas é um direito/dever de todo mundo. Sair andando, sabe? Trocar de preocupação, trocar a roupa de cama, trocar de casaco e sair para a rua. Bem, fiquei pensando se citava ou não essa frase já tão batida, mas depois lembrei-me de que este blog é meu, então escrevo o que quiser. Portanto, vamos lá: "Eu nunca vi nada selvagem sentir pena de si mesmo." (D.H. Lawrence)"

(disse a Fernanda D'Umbra lá no sempre bom Sem Gelo, e eu agradeço o toque)

22.5.11

De onde veio o verso do caderninho

Sei que uma só palavra sua me salva, mas hesito.

Sei que a vida podia ser mais fácil, mas evito.

E sei que eu e você, esse prédio às vezes alto,
é às vezes também bambo,
sei disso mas insisto.

Porque sei que a vida é curva e tem segredos no caminho.

Porque os dias somam anos e é bonito ser sozinho,
mas às vezes cansa.

Pra que dessa vez sejam os pés, e não a música, que façam a dança.

(A pedido da Beta, o poema completo do qual saiu o verso pro caderninho ali de baixo)

19.5.11

Pra escrever em mim


A Prazer de Escrever é uma idéia linda da Helena Rezende, minha tia querida e muito da sensível. São caixas de cartões e cadernos e calendários juntando lindas imagens com versos de poetas incríveis. Fiquei muito da alegrinha quando ela fez esse caderninho usando um verso meu, e me colocou nessa seleção afiadíssima de poetas de língua portuguesa! Mais legal ainda foi saber que o bichinho é campeão de audiência, e esgota sempre que ela reimprime!

Quer escrever em mim? Encomenda um!

17.5.11

A estréia em imagens



Lindas & poéticas fotos do Miguel Baierle,
a quem eu agradeço por me ofertar tanta beleza inusitada
que eu nem sabia que estava naquele palco.









Drummond pra domir bem

ASPECTOS DE UMA CASA
(Carlos Drummond de Andrade)

CRIAÇÃO

A casa de Maria é alta e clara.
Não a projetam arquitetos,
construtores não a fazem.
O traço no papel
o concreto, o aço dos volumes
são circunstâncias alheias
à criação.
Maria cria sua casa
como o pássaro cria seu voo
clarialto.

No vazio das peças
móveis quadros tapetes
são o pensamento de Maria
esboçando linhas cambiantes
até fixar-se na ordem imprescritível.
Objetos deixam-se moldar
com amiga docilidade.
Ajudemos Maria (dizem eles
no dizer sem nome dos objetos)
a compor sua casa como de um baralho de sons
se compõe a estrutura musical.

Sobre a cidade,
sobre a fuligem das horas perdidas
e a angústia dos subterrâneos transpostos,
a casa é o rosto de Maria
à luz reencontrado.


O QUARTO DE MARIA

Toda a casa aqui se resume:
a ideia torna-se perfume.

14.5.11

Lado A? Lado B?

Uma amiga querida me disse esses dias que eu tenho dupla personalidade, e que elas tem partes opostas, e eu respondi: ainda bem - é o que me salva!

Metade do meu trabalho são imagens&máquinas, a outra metade são palavras&sentimentos. Lembro que quando eu comecei a dizer poemas e depois a escrever, teve um momento em que pensei sobre o futuro, pensei se gostaria de tentar o difícil mas possível caminho de viver de poesia, como fazia e faz a minha mestra Elisa Lucinda. Pensei e decidi que não, e nem foi porque era difícil.

É que eu gosto que a poesia na minha vida seja o recreio, sabe? E ganhar dinheiro com ela colocaria uma pressão inevitável nesse processo, e eu não quis isso e sou feliz com essa escolha. Principalmente porque eu tenho a sorte de que a minha profissão, a que paga as minhas contas e me ocupa a maior parte dos dias, seja também criativa e prazerosa.

Ser montadora rolou por acaso, numa família de cineastas em que eu já tinha desistido dos sets de filmagem, e combinou perfeitamente com o meu jeito. Alguém tem uma idéia, corre atrás, rala 12h por dia no caos-maravilha de um set de filmagem, e depois eu recebo imagens pra juntar que nem quebra-cabeça aqui no quietinho da ilha.

O sonho é montar longas, e me aproximo cada vez mais dele quando monto ficções bacanas. Foi assim com o Natália, série dramática linda dirigida pelo André Pellenz que estreou esse mês na TV Brasil, e passa todo domingo 22h30. E agora é a vez de Cara Metade, comédia deliciosa dirigida pela minha irmã, Julia Rezende, que estréia hoje 22h no Multishow.

Estar no ar aos sábados&domingos, tv fechada&aberta, comédia&drama, pelas próximas muitas semanas: a vida sabe ser boa!

Cara Metade - promo from maria rezende on Vimeo.

10.5.11

O risco, agora pra valer


"Fui buscar os chuchus e estou voltando agora, trinta anos depois", diz a Dona Doida da Adélia. Eu fui ali palco do Ocidente e estou voltando agora, quatro noites depois.

Foi uma vertigem, foi um susto, queda livre, um descontrole.
Foi intensivão de aprender a errar, com aula de humildade de brinde.
Teve aplauso, teve silêncio, teve beleza e medo, timidez e a maior exposição que eu já vivi.

A tarde foi de preparativos, com a ajuda da mais nova querida amiga gaúcha, Natália Chaves Bandeira. Eu e Nat penduramos em cabides as várias peças de roupa branca sobre as quais eu inventei de projetar o vídeo, e penduramos esses cabides em fios de nylon gigantes com a ajuda do Mig, e essa brincadeira engoliu metade da tarde.

Depois teve teste de som, de projeção, invenções de cenário, a descoberta de que eu teria que usar um microfone e caramba, como fazer as ações que eu planejei com uma das mãos ocupadas? Teve ensaio silencioso dos poemas, da ordem dos fatores, ajustes nos vídeos, e de repente já era hora de vestir o figurino e de repente a casa abriu e o Fernando Ramos disse "Você vai ser a primeira, tá pronta?", "Claro que não, não tinha quatro pessoas antes de mim?!", "Elas não chegaram, você vai ser a primeira, não precisa correr, se apronta".

Pra quem vem de anos de segurança absoluta, decide o repertório de poemas minutos antes de subir no palco, e escolhe a roupa que vai usar na hora de sair de casa, foi um espanto quão alto meu coração era capaz de bater, e como eu podia de repente ter dez anos e um medo enorme de errar e uma vontade louca de desistir.

E era possível desistir de muita coisa. Ninguém sabia o que eu ia fazer, então pra que usar o figurino que seria lentamente descomposto pra me deixar só com a linda combinação que a querida Mel Akerman me emprestou? Era possível esquecer o conceito da mulher que chega em casa tarde da noite e vai se despindo de roupas e sentimentos, pra no final se vestir de novo e ir pro mundo nos braços da esperança. Era possível, mas seria nivelar por baixo, e eu demorei tanto pra chegar ali, naquele banheiro de bar, com aquela malinha de roupas em cima da privada, que eu não ia deixar por menos.

Subi no palco semi desfalecida, subi no palco como se não tivesse a menor idéia de pra onde ir depois, do que fazer ali. Foram vinte minutos suspensos no ar. Muita coisa funcionou mais do que eu imaginava, outras me deram rasteiras que eu não esperava. Conheci pessoalmente a minha falta de preparo pra cena, inversamente proporcional à minha destreza dizendo meus versos. Tenho muito o que aprender, o espetáculo tem muito o que mudar, e isso me assusta e me seduz, me encanta me deixando em suspense.

Recebi muitos aplausos e abraços carinhosos, de gente conhecida e desconhecida. Ouvi elogios pela beleza de uns poemas, pelo encanto de uns vídeos, pela força da minha presença. Ouvi críticas ótimas, eu que sempre disse que não se critica alguém que acaba de sair do palco fui criticada assim e gostei, e fiquei boba com a minha capacidade de gostar e pedir mais. Ouvi da Letícia Bertagna, minha amiga querida artista plástica e performer e atriz. Ouvi da Cris Cubas, do Cabaré do Verbo, performer e co-produtora da FestiPoa. Ouvi do Miguel Baierle, namorado dela e fotógrafo do evento. Ouvi do Fernando Ramos, meu agente literário internacional e organizador dessa festa deliciosa, o grande responsável por eu estar ali falando e ouvindo tanta gente.

Tudo isso foi logo em seguida, mas a verdade é que só hoje, terça-feira à noite, só agora eu tô descendo daquele palco. Só hoje consegui ver o vídeo que a Nat gravou com a minha camerinha, e gostei de me ver ali, mais nua do que aquele pano cor da pele demonstra.

Ah, então é assim se arriscar?
Ah tá, entendi.
Digo e repito há anos esse poema mas agora entendi no corpo, fiquei transparente, vazada, tela em branco, folha solta no ar.
Foi bom e foi ruim, desconfortável e lindo, emocionante, frustrante, intenso pra caralho.
Era a minha estréia e eu fui.
Não faltei não.
Deu vontade.
Mas não.
Então o risco é assim.
Venha, meu filho, que eu te dou colo.
Venha me tirar do chão.

6.5.11

É hoje!


Acordar em dia de estréia é muito doido. Uma lista de tarefas à frente e mil pensamentos e possibilidades na cabeça. Acordar assim num quarto de hotel é pra mim totalmente novo, e curiosamente gostoso. Faz sol agora em Porto Alegre, embora o site de previsão do tempo diga que lá fora está 14 graus. Confesso que ainda não abri o vidro da janela, mas meus planos de sair de vestidinho e sandálias podem estar seriamente comprometidos.

Às 12h30 vou dar uma entrevista na TVE daqui, ao vivo, num programa chamado Estação Cultural. Às 18h dou outra pelo telefone pra uma rádio. Ah ser estrangeiro, como é bom... Na verdade esses contatos vieram do André Pellenz, diretor do "Natália", série linda que eu montei e que estreou domingo passado na TV Brasil e em várias TVs Educativas pelo Brasil. Então hoje na tv e no rádio eu sou a poeta que estréia um espetáculo essa noite e a montadora da série que está em cartaz na tv. Parece um bom currículo pra uma sexta-feira de maio.

A tarde vai ser de descobertas: quantas das minhas idéias pro espetáculo dessa noite vão funcionar no Ocidente? Quanto do trabalho que eu venho fazendo com direção da Ana Kutner vai ser possível aproveitar? Vai dar pra usar o lindo figurino que a Mel Akerman me ajudou a bolar? Que adaptações vou ter que fazer? Nada está definido e pela primeira vez em muito tempo isso não me assusta. Meus poemas funcionam sem maiores aparatos - ontem disse uns no palco do Quintana's Bar, na Casa de Cultura Mario Quintana, e de novo os gaúchos me pegaram pela mão e me botaram no colo com aplausos e abraços e palavras entusiasmadas - os poemas têm vida própria e as outras coisas vêm só somar. Quero tudo, poemas, vídeos, cenário, figurino, mas não preciso de nada mais que palavras, e isso sim é um conforto.




5.5.11

Porto Alegre


Fazendo a mala de roupas&cenário&figurino&livros no calorzinho carioca, 15°.
A caminho do aeroporto, 23°.
Chegando na Festipoa 2011 no lançamento do livro novo do Marona, no Quintana's Bar, 13°.
Dando entrevista ao vivo pra TVE RS amanhã 12h30 no programa Estação Cultura, 23°.
Subindo no palco do OX pra estréia do Bendita Palavra amanhã 20h30: 0° ou 40°- nenhum meio-termo será possível então.

1.5.11

Finalmentes!


Fechando o roteiro e os vídeos/cenários da primeiríssima apresentação do que será o espetáculo Bendita Palavra, 6a que vem, dia 6 de maio, no Espaço OX, em Porto Alegre, dentro da programação da super Festipoa Literária.

A programação completa tá no site deles, junto com várias entrevistas e informações bacanas de todo mundo que está participando. Começou essa semana e só acaba domingo que vem, caiam dentro que a coisa ferve!

26.4.11

Cinema no corpo





Noite de ensaio caseiro pro mini-espetáculo que eu vou apresentar na Festipoa Literária dia 06 de maio, 6a feira, 20h30, na Sexta Básica do Espaço Ox, anexo lindo do tradicional bar Ocidente.


Sim, os gaúchos serão os primeiros a ver essa maluquice boa que tá nascendo aqui em casa entre gravações caseiras, edições, músicas, papos, novidades e agora projeções mágicas!

.:. ansiedade & medinho & frisson & alegria .:.

25.4.11

24.4.11

Do Ornitorrinco


______________________________________________________________
PELO MENOS
__________________________________________Maria_Rezende*______

É mais que um salão de depilação cheio de filiais pela cidade. É o jogo do contente encapsulado em duas palavras. É o suprassumo do otimismo. É nivelar por baixo. Eu sou a rainha dele. Não tem problema de qualquer ordem que não escave um no fundo de mim. E ele salta pro mundo tão cheio de sol que eu só reparo depois, quando a luz bate naquele ângulo meio cegante nos olhos.
Se fosse possível contar palavras ditas como o word conta as escritas a estatística dos meus "pelo menos" chocaria o mundo. Especialistas de várias áreas viriam de avião a jato em expedições relâmpago. Se otimismo fosse espetáculo eu ganharia o freak show dos domingos de tarde como "a incrível mulher que encontra lado bom em tudo". "Atenção senhores telespectadores, eu disse em tudo e é em tudo mesmo! Você aí da plateia, conte uma notícia ruim e você verá, ao vivo, do que ela é capaz. Você aí de casa, pense numa situação toda errada, vamos desafiar a capacidade dela, quem conseguir deixar essa mulher sem resposta ganha um aparelho de vídeo cassete!".
Mas nem é tão ruim o pelo menos, vai. Pelo menos você não chafurda na lama do desespero. Pelo menos você transforma dor em aprendizado, porrada em tapa, puta merda em poxa vida. Pelo menos você faz do limão uma limonada refrescante, pelo menos assim você não perde esse sorriso e essa alegria, pelo menos…
(Barulho de disco arranhando).
Só que agora eu quero o "e ainda por cima". E ainda por cima ele me ama. E ainda por cima o trabalho é legal. E ainda por cima o dia tá lindo, e os projetos estão virando realidade, e eu tenho uma avó lúcida aos 92. E ainda por cima o peixe tá mais barato, e ainda por cima o cara da feira limpa, e ainda por cima eu sei cozinhar!
O "pelo menos" é embaixo, o "ainda por cima" é mais. O "pelo menos" é só consolo. O "ainda por cima" é o sim ao quadrado, é alegria sobre alegria, é o bom que não cabe num só fato. O "pelo menos" é cesta básica. O "ainda por cima" é camembert, e eu mereço esse luxo.

*Maria Rezende, poeta carioca, publicou o livro Bendita Palavra e colabora pra essa edição.
ORNITORRINCO é uma publicação independente realizada pela fábrica criativa NOMEDACOUSA_BRINQUEDOS&BOMBAS ®.

Se quiser assinar basta enviar um e-mail para nomedacousa@gmail.com com o assunto “OS ALQUIMISTAS ESTAO CHEGANDO"
Aceitamos colaborações pelo mesmo e-mail.



SIM, é isso. Meu amigo Gabriel Pardal edita essa super legal revista virtual, que você recebe diretamente no seu email assinando daquele jeito ali em cima. Eu escrevi, prosa, adorei, upa-lelê. Lê lá!

Coma chocolates, pequena!

Com atraso

21.4.11

Puxa vida, Cildo!

"Tudo é perecível. Mas há uma diferença entre o perecível e o descartável. Somos finitos – isto é ser perecível. Mas não vamos nos suicidar por causa disso – isto seria sermos descartáveis."
(Cildo Meirelles, no doc Cildo)

(da carta da psicanalista Maria Rita Khel pro poeta Armando Freitas Filho no incrível blog do Intituto Moreira Salles que eu acabo de descobrir)

(...)

16.4.11

Festipoa Literária 2011

Confirmadas minhas datas na FestiPoa Literária 2011: chego em Porto Alegre 5 de maio e só volto pro Rio dia 9, segunda-feira cedinho! No miolo desses dias, entre debates e poesia e encontros incríveis, a primeiríssima apresentação do Bendita Palavra - ou melhor, do esqueleto do que daqui a uns meses será esse espetáculo! Ueba!

15.4.11

O espetáculo!

Há um mês atrás o primeiro encontro. Há duas semanas a primeira leitura. Daí veio a segunda incrível diretora. Essa semana três ensaios, um roteiro, mil idéias. Semana que vem ensaio todo dia, propostas, novidades, e um espaço pra gente ocupar com objetos e projeções.

Tanto tiempo levei pra chegar aqui. E não tem aqui. O aqui é o processo, as descobertas cotidianas, as pessoas que eu estou ganhando de presente, com laço vermelho no embrulho e tudo mais.

A vida sabe ser boa. Ah, ela sabe...

9.4.11

Não renunciando (Tony Hoagland)

Eu sempre pensei que ia pegar a Elena
na biblioteca uma tarde, e ela ia me empurrar gentilmente pra trás
pro corredor de 822.7 na Classificação Decimal de Dewey,
e a gente ia transar no beco sem saída do drama do século 18.

Ou eu pensava que a gente ia se encontrar por acaso
numa pousada na costa de Delaware,
e se enroscar num tobogã
de edredons de ganso e chá de camomila.

Quando eu voei sobre as planícies do Wyoming,
eu sonhei em tirar a camisa de cowboy dela
e ver a sua pele pálida num campo de grama varrido pelo vento
que nos manteria completamente fora de vista,

e mesmo no Museu Nacional Britânico
eu caí num transe na frente da maquete
do castelo e do fosso, a ponte levadiça
e a catapulta, com todas aquelas partes móveis.

Essa é a imaginação de um homem.
Ela encolhe e aumenta ao longo da sua vida,
como uma espécie de intumescência. Eu não estou me vangloriando
e estou não estou renunciando.

Eu fiquei de pé em um jardim,
olhando pro outro através da cerca.
Eu pensava que tivesse que mudar a minha vida ou desistir,
mas eu não tinha. Ano após ano

elas foram se misturando:
a sonhada com a real,
a real com a sonhada - os dois jardins

mandando suas vinhas flexíveis e sinuosas,
suas raízes e flores em botão,
incessantemente através das fronteiras.

sabedoriadeondemenosseespera

‎"Fortaleça o seu campo ENERGÉTICO. Só pense no bem. Seja TOLERANTE. Saiba perdoar. Mantenha teu sangue limpo. Não use alimentos que deixem teu sangue ácido. Teu alimento será o teu remédio. Tenha na sua carteira ou bolsa um sapinho KAERU. Incenso: ALMÍSCAR. Pedra: CRISTAL."


‎(tudo isso por apenas R$0,20, em forma de um rolinho minúsculo de papel num pote com a etiqueta "mensagem cigana", na lojinha de velas&macumba em Copa. Não sei o que é sapinho KAERU, mas já comprei o incenso, estou em busca do cristal e seguirei todas as outras recomendações à risca.)

4.4.11

Traduções da madrugada ou Nunca beba café depois das 15h, Maria

O trabalho mais solitário do mundo
(Tony Hoagland)

No momento em que você começa a fazer a pergunta, Quem me ama?,
você tá completamente ferrado, porque
a próxima pergunta é Quanto?,

e aí já se passaram centenas de horas,
e você ainda tá curvado sobre
os seus gráficos e ábaco,

tentando decidir se você teve o suficiente.
Esse é o trabalho mais solitário do mundo:
ser um contador do coração.

É tarde da noite. Você tá sozinho,
e e em volta de você, você pode escutar
os sons das pessoas

se apaixonando e se desapaixonando,
empurrando as catracas, colocando
suas moedas nas frestas,

pagando o preço que é cobrado,
que muda o tempo todo.
Ninguém sabe porque.

Mapa do que não fazer por Tony Hoagland

A situação
(Tony Hoagland, tradução da Maria cheia de café na cuca)

Quando a dor estava fresca,
por um tempo o problema ficou muito claro

e a clareza constituía uma espécie de alívio
como se o problema tivesse se retirado
pra ver o que você ia fazer.

Mas depois de um tempo a clareza começa a se esvair,
e três dias depois você já não seria capaz de articular
precisamente qual era o problema,

e três dias depois disso você esqueceu
que sequer existia um problema,
e o seu velho jeito de pensar voltou.

Você é só um cidadão
da sua própria familiaridade
que não consegue lembrar de si de um jeito diferente.

Você segue e de vez em quando
o caminho pula de debaixo de você.
E você aprendeu a esperar essa agitação,

tanto quanto é possível.
Pode-se dizer que é com uma certa fidelidade
que você continua cometendo os seus erros,

e depois renovando-os,
como se você estivesse seguindo uma placa que diz,

Por Aqui Para o Frescor.

Começou

Começou a brincadeira: tardenoite de encontro luminoso com Ana Kutner, minha diretora e mais nova amiga, plantando a semente do Bendita Palavra, versão teatral da minha poesia.

Idéias, conversas, experiências, troca, parceria.

Tudo o que eu podia querer e mais.

Vai ser lindo e já tá sendo e já é!

1.4.11

O castelo

It is so human to turn a freedom into pain
and it is so sweet when life
comes to teach you suffering

by giving you a choice,
and you twist and turn
in the little flames of possibility.

- But that is how you build your castle.

(trecho de "Jason the Real", do incrível livro de poemas
"Unincorporated persons in the late Honda Dynasty", de Tony Hoagland)

em tradução livre minha:

É tão humano transformar uma liberdade em dor
e é tão doce quando a vida
vem te ensinar sofrimento

te dando uma escolha,
e você roda e gira
nas pequenas chamas da possibilidade.

- Mas é assim que você constrói seu castelo.

27.3.11

Dica cultural da Maria





Exposição incrível do americano Robert Wilson, de video retratos super bonitos e interessantes: olhando rápido parece foto, parando com atenção os movimentos sutis mostram que é vídeo mesmo. O figurino, o cenário, a ambientação, a trilha, tudo muito bonito e detalhista, conceitual e bacana.



Vi hoje à noite no Moreira Salles, do ladinho de casa, e recomendo pra quem mora no Rio, fica até 15 de maio, totalmente grátis, com direito ainda a café no jardim e silêncio. Pra quem não tá no Rio, tem também online aqui.

Eu que tô nesse momento de vídeos, pensando se eles rendem uma exposição, amei!

PS: o tom verde-e-rosa das fotos é (d)efeito especialíssimo do meu novo Iphone velhinho!

26.3.11

#17




Um coração bate.
É o meu.
No meio dos meus peitos mora o filho que eu vou ter, e mais um monte de gente e sentimento.
Que bom.
Um por dia enquanto for legal #17.

24.3.11

Tem preço sim

"Mastercard: não tem preço!"

"Quer reativar seus pontos para trocar por vantagens?

Pague apenas 6 de 58,90, senhora Maria!"


Não existe almoço grátis

Nem pontos grátis

Nem felicidade grátis


O preço pode ser ótimo

Pode ser um bom negócio

Mas tudo custa nessa vida


Custa notas

Cacos de sonhos

Custa dores no peito, noites de febre


"Mas trocar por quais produtos, senhora?

Como decidir sem ver a lista das vantagens?"

"A senhora irá receber em sua casa o informativo, senhora Maria"


O informativo nunca chega antes da decisão

É preciso escolher no escuro, dizer "sim" e confiar no que virá

Eles pelo menos mandam uma listinha depois...

21.3.11

Você


Achei a foto e a frase no Barbaridisses, blog sempre bom da Barbara Geluda.
Nunca tinha ouvido essa frase mas o conceito caiu como uma luva.

BE YOURSELF.
EVERYONE ELSE IS ALREADY TAKEN.

Oscar Wilde foi na veia.
Agora é com a gente viver isso.
Eu quero e vou.

20.3.11

#16


Pois agora eu escrevo de novo. Poemas. Novos.
E pode? Pode.
Então pintei os olhos pra piscar devagar e ler em voz alta.
Devendra cantou suave e o Bokel emprestou uns olhos pro cenário.
Achei bonito.
Um por dia enquanto for legal #16.

18.3.11

A garotinha deles


Ontem entrei no site da Miranda July, uma artista americana das que eu mais admiro hoje, que faz performances e filmes e exposições, e fiquei super tocada por uma peça dela, que faz parte de um "jardim de esculturas" criado pra Bienal de Veneza que ela chamou de "11 Heavy Things". São peças feitas pro público interagir, e uma delas, que tá nas fotos, me fez pensar muito em como eu me sinto hoje.

Em como é legítimo e delicioso que os pais amem seus filhos e queiram pra eles nada de sofrimento ou dúvidas.
E me intrigou que a exposição se chame "11 coisas pesadas", porque pela primeira vez na vida senti que amor e proteção, que são a base que me sustenta, privilégio que eu tanto celebro e do qual tanto usufruo, podem também ser pesados. e descobri que cabe a mim fazer ser leve, pra não desperdiçar o presente. e tô fazendo. e vou fazer.

Tô subindo virtual no estande-escultura dela pra dizer que:
Eu posso ter alguns problemas que meus pais tiveram.
E posso ter outros.
E meu coração pode se partir.
E posso me sentir humilhada.
E a insegurança pode destruir meus sonhos.


E isso vai ser parte de uma vida muito mais boa e bela. E vai me fazer crescer pra ser a mulher que eu posso e quero ser.

O amor deles é o colchão macio pras minhas quedas.
E que bom, e obrigada, porque com medo de cair nem de bicicleta se anda, e eu quero voar alto nessa vida!



16.3.11

#15



Antídoto.
Cat Power no som, palavras querendo curar e eu deixo.
Um por dia enquanto for legal #15.
Beijobomdiaagoraeuvoudormirdenovo.

14.3.11

#14



O que eu devo fazer com esse tijolo que caiu do seu pescoço?
Devo embrulhar em bandeiras ou jornais e simplesmente devolver?

(Blair & Dale Wilson cantaram ao vivo no Urbana, o slam de poesia do Bowery Poetry Club, lá em NY, em 2003)
(a Maria andou e correu pelo jardim do sítio, e muito depois escreveu e disse um poema triste)

Um por dia enquanto for legal #14.
Demorou mas abalou.

13.3.11

hoje

se o chão não é mais embaixo e o teto não em cima
se o vento arranha e a chuva arde
se o impacto da pancada anestesia ao invés de arroxear
quando as palavras perdem a força
quando o azul vira palidez e a beleza não é mais nada

fazer o quê com o peito que não ouve nem fala?
as mãos agem
as pernas agem
a água do chuveiro cai e age

o sentimento não
o sentimento parou numa tarde cinza
uma cadeira dura
uma notícia dura
e a tristeza nos olhos de quem vê o corte, e não de quem perde o sangue

eu não fujo mais de nada
mas não mergulho na piscina de desespero
eu sento na beirada
eu não morro
eu vivo
eu sento na beirada e espero a dor chegar

Do Maatz

"Ele erra porque vê tudo com bons olhos, em um tirar leite de pedra que apenas revela a cegueira de quem quer - e acha que querer basta - que o mundo tenha sentido. O mundo tem mais o que fazer. Sentido é coisa de gente, não é coisa do mundo."

lá do Maatz.
sempre bom.

12.3.11

Isso é sábado?

Se emocionar com o flash mob da TAP no Galeão
- que não, nunca se chamará Antônio Carlos Jobim -
em dia de alegrias cheias de esperança
em noite de ondas gigantes em japonês
e dos textos da dor de uma mãe
artista
grávida
em tratamento contra um câncer
para reaver a guarda do filho

É mais que beijo de novela:
é gente brasileira dançando no aeroporto
tanto sorriso e meus olhos marejados

Ando tão à flor da pele que.

(isso e isso e isso aqui)

26.2.11

#13



Foi outro dia. Outro sábado? Outro dia.

Um poema que tem o nome do livro onde mora, uma Madalena cantando o vento do verão, e eu escrevendo escrevendo escrevendo.

Um por dia enquanto for legal #13.

24.2.11

#12



O fim de um dia de muito trabalho e muita areia numa praia chamada Sossego

Um dos primeiros poemas que eu escrevi e que estava esquecidinho no "substantivo feminino" desde 2003

Tom Zé estudando o samba e proclamando que a felicidade vai desabar sobre os homens

Tá desabando

Não se proteja

21.2.11

Mais Rosa

"O senhor vê: existe cachoeira; e pois? Mas cachoeira é barranco de chão, e água se caindo por ele, retombando; o senhor consome essa água, ou desfaz o barranco, sobra cachoeira alguma? Viver é negócio muito perigoso..."
(Rosa no Grande Sertão)

19.2.11

17.2.11

Bóia


Acorda, Maria
(Carlos Drummond de Andrade)

Acorda, Maria, é dia
de festival.
Violas já vem dançando
no doce do canavial.
Acorda, Maria, é dia
de prazer municipal.
A bebida está pedindo
pra ser bebida
a comida reclamando
pra ser depressa engolida
a risada quer ser rida
o namoro namorado
o peixe quer ser pescado
o sonhado ser vivido.

Maria, acorda que é dia de acontecer
de casar e de ter filhos
e cada filho crescer
e tomar seu rumo
e tomar seu rumo
e alguém na varanda
soletrar o espaço.

Acorda, Maria, é dia
de matar formiga
de matar cascavel
de matar tempo
de matar estrangeiro
de matar irmão
de matar impulso
de se matar.

Acorda, Maria,
todos já de pé
muitos já correndo
a gritar por ti.
Quem dorme no bairro, quem?
Não há paina de dormir
quando se espera o sinal
dentro do sinal fechado
e milhões de sinais
escondem o sinal.
O sinal afinal
é sim ou al?
E se ele apaga
antes de acender?
se ele acende
e ninguém entende?
Maria, acorda, é dia
de esperar a vida inteira
pelo sinal.

Acorda, Maria: é dia
de dizer que é dia
de fingir que é dia
de preparar o dia
de ir na folia
esquecer que não é mais
ou ainda não é dia.

Acorda que o telefone
está chamando, Maria.
O navio está apitando
e vai soando a sineta
do presídio.
Esvoaça
a papeleta do fiscal.
A mãozinha da garota
bate no portal.
Acorda, Maria, é samba
sem carnaval.

É dia
de tirar a roupa da alma
no sofá
de pesquisar o verme
em cada maçã
de inventar o verme
a cada manhã
de saborear o verme
que nem hortelã.

É dia, atenção, de sexo
há milênios recalcado.

A vara e a concha unidos
no abraço fotografado
e tudo em verde fichado
pra ser bem computado.
Quem tem amores, desame-os
quem tem baú, que o destampe
quem não tem nada, que tenha
o que que ter pra contar.

Depressa, Maria, a praça
é uma orelha gigante
que não escuta e que passa.
Mas acorda por favor
ou por violência. É dia
de prestar contas, é dia.
Foi antecipado
o Juízo Final.
Em cada quarteirão
o oficial de justica
divina
faz a citação
sem abrir a boca
e os nomes se imprimem
na retina
as sentenças se gravam
na pele.
Acorda, Maria, assiste
a teu julgamento em código.

Principalmente, Maria,
é dia
dia constante e durante
acima dos cem mil dias
dia so, dia sem dia
sem outro dia que diga
tudo que cabe num dia.
E um dia sem folhinha
sem gala de alvorecer
sem vontade de fluir
sem jeito de findar.

O que lhe falta em clareza
e sobra em altura
e resta em desejo
ninguém decifra.
É dia, Maria, dorme
até que passe este dia!

...

(não vou dormir nem morta. não perco um minuto desse dia.)
("o que lhe falta em clareza e sobra em altura e resta em desejo ninguém decifra".)
(é um privilégio ter esse nome.)

15.2.11

Guimarães em falso verso

"Aqui digo: que se teme por amor,
mas que, por amor também,
é que a coragem se faz."

(Guimarães Rosa em "Grande Sertão: Veredas")

13.2.11

#11

Itaipava
um cacho de bananas rosas
meu poema mais famoso
música peruana
boa companhia
=
uma noite de gargalhadas
+
"Um por dia enquanto for legal" #11


12.2.11

Quem disse que ia ser fácil?


é tomar cápsulas de falta pra ficar mais forte
é como o último xixi antes de pegar a estrada
é uma medida provisória que apavora o país

são as razões rindo da minha cara
é como um absurdo, um porre permanente
é testar limite, é o certo por curvas muito doidas

é ainda outra espécie de velhice
é tentar encher de areia o buraco da explosão
são os 26 medos fundidos em um

é um vale-ingresso prum parque em obras
é como um aborto, uma violência
é arrancar o peito antes do câncer

(quem disse que ia ser fácil?)
(ninguém disse)

10.2.11

De alma nua na boca do Riobaldo

"Acho que eu não tinha conciso medo dos perigos: o que eu descosturava era medo de errar - de ir parar na boca dos perigos por minha culpa. Hoje, sei: medo meditado, foi isto. Medo de errar. Sempre tive. Medo de errar é que é a minha paciência."

(Guimarães Rosa em "Grande Sertão: Veredas")

TUDO É TAO CLANDESTINO, TANTA COISA É POSSIVEL,
QUE A VIDA É O NÃO-RESUMO DE UM MILAGRE.
(Guimarães Rosa em "Ave Palavra")

7.2.11

No susto

Tem coisas que se a gente planejar demais nao faz.
Se deixar o medo do que pode acontecer dominar, desiste.
Ou adia demais.
E parece que quando a gente destampa a valvula da coragem as mudancas vem em cascata, num esquema meio arrancar o dente de uma vez, puxar o bandaid sem hesitar, no susto.
E foi assim que no domingo de manha eu nem pensei em nada e mudei a cara do blog, e adorei a mudanca!
E foi assim que hoje eu percebi que perdi todos os comentarios ja feitos aqui desde 2004.
Todos.
Assim, no susto.
Eu ja tinha falado disso aqui, do meu medo disso acontecer.
Mas sabe do que mais?
Nem doeu tanto assim.
Eu ja li e reli cada coisa bonita e bacana que me disseram, cada eco do que eu escrevo, e ta tudo guardadinho aqui comigo, nao num html qualquer, mas no fundo do peito.
E mais: tanto do carinho espalhado aqui foi fundamental pra eu seguir, pro segundo livro sair, que nao fazia mesmo sentido ficar presa justo no que foi asa pra eu voar mais alto.
Entao comeca agora uma outra era, e eu vou ficar felizinha a espera dos novos ecos das minhas palavras e imagens por aqui!

#10

A Nina provocou

A Céu foi na veia

A Maria escreveu, leu, se exibiu

Um por dia enquanto tralálá!