Poesia é ouro sem valia (Ferreira Gullar)
Com a poesia é assim mesmo. Não só por vender pouco, o poeta sabe que não escreve para vender.
De quando em vez, vem um poeta jovem me pedir que lhe consiga uma editora para publicar seu livro de estreia. Só estando com a cabeça na lua para pretender uma coisa dessas. Para consolá-lo costumo citar o exemplo de poetas, hoje consagrados, que tiveram que publicar seu primeiro livro a sua própria custa. Mas tem que ser assim mesmo, já que livro de poesia vende pouco e de poeta desconhecido não vende nada. Nenhum editor, em seu juízo perfeito, entra numa fria dessas.
Lembrei-me disso ao escrever um texto sobre Manuel Bandeira e mais uma vez deparei-me com o assunto. A edição de seu primeiro livro de poemas "A Cinza das Horas", foi paga por ele; a do segundo, "Carnaval", a mesma coisa. Só vários anos depois, teve um livro lançado por uma editora.
E Carlos Drummond de Andrade? Seu primeiro livro, "Alguma Poesia", apareceu como lançado pelas Edições Pindorama, que não existia, por ter sido, na verdade, impresso na Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais e pago pelo poeta em suaves prestações, descontadas de seu salário. O segundo livro, "Brejo das Almas", saiu por uma cooperativa; o terceiro, "Sentimento do Mundo", ele pagou de seu bolso e distribuiu toda a edição (150 exemplares) entre amigos e escritores. Só o quarto livro -aos 40 anos de idade- foi lançado por uma editora, a José Olympio, que passou a editá-lo.
Mas estes são apenas uns poucos exemplos, entre os quais poderia incluir-me, pois não teria editado meu primeiro livro se não fosse a ajuda de minha mãe. O segundo livro, paguei-o de meu bolso. Só tive um livro de poemas lançado por uma editora - que faliu em seguida - 13 anos após minha estreia. Acolhido por uma editora importante, somente 30 anos depois.
Com a poesia é assim mesmo. E não só por vender pouco; também porque, no fundo, o poeta sabe que não escreve para vender. Lembro-me que eu mesmo diagramei "A Luta Corporal", um livro tão fora das normas que provocou um atrito com a gráfica que o imprimiu. É que poeta não quer apenas escrever os poemas; quer fazer o livro mesmo. Poeta gosta de fazer livros. Por exemplo, João Cabral, quando estava em Barcelona, comprou uma pequena gráfica artesanal em que editou "Psicologia da Composição" mas também livros de outros poetas brasileiros e espanhóis.
Exemplos não faltam. Décio Victorio, os poucos livros que publicou, ele mesmo os diagramou, escolheu o tipo de letra, o papel, o tamanho, tudo, e pagou uma gráfica para compô-los e imprimi-los. Quando tomei a iniciativa de conseguir uma editora que lançasse seus livros, rejeitou.
Outro exemplo é Cláudia Ahimsa. Ela bolou todos os seus livros, buscou uma gráfica, pagou e os editou. No último deles, então, "A Vida Agarrada", até a capa foi criação sua, capa que já é, por si só, uma obra de arte: ela se fez fotografar sem a cabeça, num vestido que parece ao mesmo tempo renda e rede de pescar, com vários caranguejos vivos, presos a ele. Para completar, os seus braços, que parecem metidos em luvas, estão na verdade pintados de azul cobalto.
Não se pode esquecer, além do mais, que as novas tecnologias favorecem essa mania dos poetas de produzirem não apenas os poemas mas também os livros.
Foi o caso da Geração Mimeógrafo que, como o próprio nome diz, nasceu com o mimeógrafo e se valeu dele para fazer seus livros. Neste caso, juntaram-se alguns fatores que lhe imprimiram um caráter próprio: a redescoberta do poema-piada de Oswald de Andrade, que inspiraria poetas como Leminski e Chacal. Eles o usaram como um modo de reagir à censura imposta às artes pelo regime militar.
É verdade que a censura prévia - que vinha restringindo a atividade do teatro, do cinema e da música- os milicos não conseguiram impor ao livro, graças à pronta reação de Jorge Amado e Erico Verissimo, que ameaçaram não mais editar seus livros no Brasil.
Fora isso, o mimeógrafo veio facultar aos poetas jovens imprimir seus próprios livros, sem ter de recorrer a editoras. Eles os imprimiam e iam vendê-los nas ruas, nos bares, na porta de teatros e cinemas. É claro que assim ganharam a simpatia dos leitores, tornando-se conhecidos e, graças a isso, despertaram o interesse dos editores.
***
Eu me identifico com um tanto e discordo de outro. Eu editei sozinha o substantivo feminino, meu primeiro livro: mão na massa, aula de Page Maker pra diagramar, disquete na gráfica, poupança raspada, o prazer do fazer artesanal. Fiz assim porque quis e porque teve que ser. Eu não tinha editora. Eu nem procurei. Eu quis fazer meu livro. Eu. O segundo eu paguei mas não fiz, quem fez foi a 7Letras. Poupança raspada de novo, escolhi a fonte, o papel, a capa, mas não dirigi pra Madureira nem vi a máquina de onde iria sair o Bendita Palavra depois.
A parte que eu discordo é a de que poesia não vende. Porque o fato é que eu vendo. Eu vendo, gente. Falei isso pro Jorge lá na 7Letras quando cheguei e a palavra se cumpriu: a 1a tiragem de 600 livros se esgotou em seis meses, e a 2a de mais 500 exemplares já tá ficando magra. É curioso pensar sobre isso no momento em que eu finalmente preparo a 2a edição do substantivo feminino, nove anos depois do lançamento, quatro anos depois da tiragem inicial de mil livros, independente, sem editora nem livraria, ter esgotado. Agora eu terei a alegria de uma parceria, com a Thereza Christina e a sua Ibis Libris, e é sensacional ter uma editora que acredita que poesia vende sim e que, em seu juízo perfeito, publica os poetas. E vamos vender!
"Carne do umbigo", "Bendita palavra" e "Substantivo feminino" são a versao impressa e bem acabada do que rola aqui. Quer me ter na sua mão em forma de livro e disco? Me escreve aqui!
6.3.12
28.2.12
Lá vem o substantivo feminino!
você que me pegou vestida de poema
entorpecida de sexo e felicidade
e se assustou
e fugiu do tamanho do susto
naquele fim de noite de janeiro,
se acalme amigo:
toda palavra é exagero.
#
Noite de revisão do substantivo feminino, meu livro de estréia, lançado independente em 2003 e esgotado desde 2008, que terá 2a edição em abril pela Ibis Libris Editora, da querida Thereza Christina Roque da Motta. Muito doida essa coisa de reeditar o primero livro, reler tantos poemas que ficaram perdidos no tempo, e ver os que sobreviveram bem, como esse. A Manoela Sawitzki disse que eu sou doida, que a maioria dos escritores quer esquecer o livro de estréia, então eu devo ser mesmo, porque com todos os defeitos e qualidades dele eu tô doida pra ver o substantivo feminino na rua de novo...
E pra quem é de figurinha em movimento, o poema versão Um por dia enquanto for legal:
27.2.12
Ornitorrinco #24 - Grávida gravidade
Eu tinha que sentar pra escrever. O mote do editor dessa vez era: "Vale a pena ter um filho e apostar no progresso da sabedoria se perpetuando na história? Ou é melhor tirar a roupa e cair no carnaval sem hora, nem dia, nem corpo pra voltar pra casa? O mundo tá dividido entre os que estão acreditando no fim do mundo e os que estão acreditando que o mundo vai melhorar. Como é que é?". Eu ainda não tive um filho, e minha contribuição pra sabedoria se perpetuando na história até o presente momento se dá escrevendo. E vivendo a minha própria vida, claro. Em compensação, como anunciado no Ornitorrinco #23 - Carná, esse ano teve carnaval. Com hora e dia e corpo pra voltar pra casa - 5a feira de cinzas, aqui estou. Mas cabeça pra escrever, aí já é outro papo.
Então eu sentei na tv com um potinho de quinoa com legumes e uma limonada sem açúcar e zapeei até chegar em: "A história do mundo em duas horas". Taí, eu pensei, vamos ver como essa coisa de fim do mundo versus melhorar vem rolando nos últimos 14 bilhões de anos. Já tinha passado meia hora das duas então eu perdi o Big Bang, as moléculas se unindo, os seres aquáticos, cheguei já na hora em que os anfíbios desenvolveram os ovos com casca e assim conseguiram levar o mar junto com eles pra onde fossem, e puderam conquistar a terra. Em mais uns vinte minutos já tinha rolado uma extinção em massa que gerou o surgimento dos dinossauros, e eu descobri que durante 160 milhões de anos foram eles os responsáveis por evitar que nós, os mamíferos, ganhássemos espaço. Bicho que mamava naquele tempo era só bicho pequeno, e foi por isso que quando um asteróide gigante bateu na Terra nós - eles - sobreviveram: quem era grandão morreu, bye bye Tiranossaurus Rex, hello primatas. Em uma hora de filme os macacos já tinham virado homens, já faziam ferramentas rústicas, desenvolviam a fala e as pinturas nas paredes das cavernas.
Daí veio uma parte que eu nunca tinha entendido sobre a era do gelo e a povoação do planeta. Os continentes já tinham se dividido em dois, com o oceano no meio, e como é que neguinho, que habitava só a África, passou pro lado de lá/cá? Pois foi que a Era do Gelo trouxe frio mas ao congelar um tanto da água da Terra baixou os mares e fez surgir uma ponte de terra firme, e foi por ali que o pessoal se espalhou pra todo lado. Quando o gelo derreteu pimba, cada um no seu quadrado, se virando com o que tivesse à mão. A galera da África se deu bem porque lá tinha um clima legal pra plantar e animais que topavam ser domesticados, e aí adivinha? Surgiu a agricultura! E como os alimentos que eles plantavam tinham safras só uma vez por ano e ao mesmo tempo, neguinho teve que inventar um sistema de armazenamento, de contagem, uma organização pra não faltar comida e de quebra um exército pra defender o estoque. E aí pimba: vieram as cidades, de quebra as pirâmides e outras belezas. Em outros cantos com menos sorte a solução era seguir como antes mesmo: caça, pesca, cabaninhas.
Fiquei sabendo de um monte de coisa. Pense nos cavalos, que viviam nas Américas mas por alguma razão que não se explica foram totalmente extintos e só sobreviveram no mundo porque alguns deles tinha usado aquela mesma ponte e ido pros lados de lá, e só voltaram a pisar aqui quando Colombo chegou? E o açúcar? Que só existia na Ásia e foi parar na Europa com os cruzados mas não pegava nos campos de lá, e foi a principal razão pro tráfico escravo, pra servir de mão de obra nas plantações de cana por aqui? E o fato de que o cara que descobriu a pólvora estava tentando fazer um elixir da vida eterna e acabou fazendo o da vida mais curta? Mais ou menos tudo isso. Por aí. Alguma coisa assim. Foi muita informação, saber o mundo tão rápido deixa a gente meio tonta, e caramba, eu ainda tive que dar umas fugidas pra pegar sorvete e cozinhar uma salsicha que o cérebro gastou a quinoa prestando muita atenção nos primeiros quarenta minutos.
Aí no final das duas horas era o mundo de hoje, século 21, modernidades, Iphones, internet, papapá. 14 bilhões de anos. É tipo infinito, né? É tipo tentar medir o amor. Ou explicar ele. O mundo vai acabar? Vai melhorar? Ele já acabou e já melhorou tantas vezes. 14 bilhões de vezes. Ontem mesmo. Hoje. Agora. Quando uma menina que eu amo segura meu dedo indicador pra equilibrar seus passos ele melhora. Quando uma menina que alguém ama é violentada num ônibus em movimento ele acaba. No dia em que minha tia perdeu seu grande amor sem saber que levava na barriga um filho dele o mundo acabou. Quando essa menina nasceu ele melhorou. Quando alguém se apaixona, ele melhora. Quando alguém é humilhado, acaba. Quando eu desisto, ele acaba. Quando eu insisto, melhora.
Eu insisto.
#
Palavrinha do editor:
Ô, participe das nossas discussões e exposições de notícias relacionadas com o universo do ORNITORRINCO e o tema da semana. Basta acessar o nosso fórum no facebook: http://www.facebook.com/ornitorrincozine. Seus comentários serão muito bem lidos. Mais fácil que isso só cantar Ivete com a boca cheia de camarão.
#
Então eu sentei na tv com um potinho de quinoa com legumes e uma limonada sem açúcar e zapeei até chegar em: "A história do mundo em duas horas". Taí, eu pensei, vamos ver como essa coisa de fim do mundo versus melhorar vem rolando nos últimos 14 bilhões de anos. Já tinha passado meia hora das duas então eu perdi o Big Bang, as moléculas se unindo, os seres aquáticos, cheguei já na hora em que os anfíbios desenvolveram os ovos com casca e assim conseguiram levar o mar junto com eles pra onde fossem, e puderam conquistar a terra. Em mais uns vinte minutos já tinha rolado uma extinção em massa que gerou o surgimento dos dinossauros, e eu descobri que durante 160 milhões de anos foram eles os responsáveis por evitar que nós, os mamíferos, ganhássemos espaço. Bicho que mamava naquele tempo era só bicho pequeno, e foi por isso que quando um asteróide gigante bateu na Terra nós - eles - sobreviveram: quem era grandão morreu, bye bye Tiranossaurus Rex, hello primatas. Em uma hora de filme os macacos já tinham virado homens, já faziam ferramentas rústicas, desenvolviam a fala e as pinturas nas paredes das cavernas.
Daí veio uma parte que eu nunca tinha entendido sobre a era do gelo e a povoação do planeta. Os continentes já tinham se dividido em dois, com o oceano no meio, e como é que neguinho, que habitava só a África, passou pro lado de lá/cá? Pois foi que a Era do Gelo trouxe frio mas ao congelar um tanto da água da Terra baixou os mares e fez surgir uma ponte de terra firme, e foi por ali que o pessoal se espalhou pra todo lado. Quando o gelo derreteu pimba, cada um no seu quadrado, se virando com o que tivesse à mão. A galera da África se deu bem porque lá tinha um clima legal pra plantar e animais que topavam ser domesticados, e aí adivinha? Surgiu a agricultura! E como os alimentos que eles plantavam tinham safras só uma vez por ano e ao mesmo tempo, neguinho teve que inventar um sistema de armazenamento, de contagem, uma organização pra não faltar comida e de quebra um exército pra defender o estoque. E aí pimba: vieram as cidades, de quebra as pirâmides e outras belezas. Em outros cantos com menos sorte a solução era seguir como antes mesmo: caça, pesca, cabaninhas.
Fiquei sabendo de um monte de coisa. Pense nos cavalos, que viviam nas Américas mas por alguma razão que não se explica foram totalmente extintos e só sobreviveram no mundo porque alguns deles tinha usado aquela mesma ponte e ido pros lados de lá, e só voltaram a pisar aqui quando Colombo chegou? E o açúcar? Que só existia na Ásia e foi parar na Europa com os cruzados mas não pegava nos campos de lá, e foi a principal razão pro tráfico escravo, pra servir de mão de obra nas plantações de cana por aqui? E o fato de que o cara que descobriu a pólvora estava tentando fazer um elixir da vida eterna e acabou fazendo o da vida mais curta? Mais ou menos tudo isso. Por aí. Alguma coisa assim. Foi muita informação, saber o mundo tão rápido deixa a gente meio tonta, e caramba, eu ainda tive que dar umas fugidas pra pegar sorvete e cozinhar uma salsicha que o cérebro gastou a quinoa prestando muita atenção nos primeiros quarenta minutos.
Aí no final das duas horas era o mundo de hoje, século 21, modernidades, Iphones, internet, papapá. 14 bilhões de anos. É tipo infinito, né? É tipo tentar medir o amor. Ou explicar ele. O mundo vai acabar? Vai melhorar? Ele já acabou e já melhorou tantas vezes. 14 bilhões de vezes. Ontem mesmo. Hoje. Agora. Quando uma menina que eu amo segura meu dedo indicador pra equilibrar seus passos ele melhora. Quando uma menina que alguém ama é violentada num ônibus em movimento ele acaba. No dia em que minha tia perdeu seu grande amor sem saber que levava na barriga um filho dele o mundo acabou. Quando essa menina nasceu ele melhorou. Quando alguém se apaixona, ele melhora. Quando alguém é humilhado, acaba. Quando eu desisto, ele acaba. Quando eu insisto, melhora.
Eu insisto.
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Palavrinha do editor:
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16.2.12
Ornitorrinco #23 - Carná
- OLHA-LÁ -
Tem a ver com música e com dança e fantasia, coisas que muito me aprazem. Tem a ver com alegria, e com liberdade e euforia, que também estão na lista do que agrada por aqui. E ainda assim carnaval não é pra mim. Nunca fui ao Nordeste nessa época, poucas vezes desfilei e o carnaval de rua do Rio me viu pouco e há muitos anos.
O 'não' tem a ver com sol na cuca, multidão e bebedeira, itens aparentemente imprescindíveis na folia carioca atual. Muita gente reunida sob os efeitos estimulantes do álcool embaixo de um sol de rachar pra mim não combina. Mesmo que a música seja boa, os figurinos divertidos, que seja possível dançar.
Eu gostava mesmo era dos carnavais de Andrelândia da adolescência. Lá na pontinha de Minas, uma cidade daquelas com rua que sobe, rua que desce, praça da igreja no meio, e bem em frente a casa da minha bisavó. Férias, feriado, fim de semana caprichado e lá ia eu brincar de ser mineira, mergulhar na cachoeira, passar frio na madrugada, cantar no meio da rua, deitar no banco da praça. Todo mundo bebia muita pinga com refri, grandes amores duravam uma temporada, eu bebia guaraná e comia ki-bamba, um chocolate pequeno recheado de marshmelow que só achava lá. E quando era carnaval, bailes no Clube Campestre.
A orquestra tocava a noite toda, marchinhas antigas e sambas atuais. Os cantores de terno, as crooners de vestido dourado fazendo passinhos pros lados e mexendo as mãos em sintonia. Era ridículo, era brega, era doce, era genial. A gente girava pelo salão, de roupa civil: jeans, casaco, tênis. Cheirava-se loló, enchia-se a cara, famílias dançavam na pista, beijava-se na quadra lá fora. Não tinha baiana nem bateria, não tinha fantasia, mas alegria sobrava. Tinha sotaque mineiro, o sol nascendo pela rua deserta enquanto a gente voltava a pé pra casa.
De dia tinha música na praça, e numa tarde, sábado ou domingo, o Bloco das Piranhas. Começava com todo mundo reunido numa casa e as meninas arrumando os meninos, gargalhadas e farra entre batons vermelhos e meias arrastão. Muitas pingas depois lá iam eles fazendo seus trejeitos rua acima. Confete, serpentina.
Isso já tem muitos anos. Andrelândia continua lá. Eu aqui. Todo ano tem carnaval, dizem. Tô pensando em tentar de novo. Ainda não tenho fantasia. Acho que vou de solteira.
_Maria Rezende
(então agora eu já tenho fantasia. peruca de cachos afro. máscara de penas. sombra laranja e roxa. rímel azul. batom laranja. aplique de cabeça rendado. saia rodada. é oficial. esse ano vai ter carnaval.)
15.2.12
FestiPoa Literária 2012: dose tripla
Então em abril vai rolar a 5a edição do meu badalo literário favorito, a deliciosa FestiPoa Literária. O incrível Fernando Ramos reúne em Porto Alegre uma turma de primeira numa mistura sensacional: tem escritor consagrado, tem os novos nomes, tem quadrinista, tem poeta, romancista, gente de várias idades, estilos, linhagens, partes do país e do mundo. Tudo isso fica ainda mais gostoso porque a festa é no tamanho certo pra possibilitar o encontro desses artistas todos com o público, num clima íntimo que é a cara do Fernando, o comandante quase invisível mas absolutamente imprescindível desse navio.
Esse ano já estão confirmados artistas que eu admiro, gente de quem eu já fiquei amiga e outras pessoas que eu vou adorar conhecer: Ramon Mello, Heloísa Buarque de Hollanda, Marcelino Freire, Fabricio Corsaletti, Paulo Scott, Mario Prata, Joca Reiners Terron, entre muitos outros. Vai ser minha terceira participação, e só não é a quarta porque em 2010 eu estava viajando e acabei perdendo. Estreei lá em 2009 lançando o Bendita Palavra, e fiquei completamente entusiasmada com a vida cultural da cidade e o amor dos gaúchos pela literatura. Ali entendi como foi possível a Martha Medeiros ter vivido de escrever durante tantos anos antes de ser conhecida no circuitinho Rio-Sampa: o Rio Grande do Sul lê. Ponto. E pra minha sorte, o que eu escrevo agradou por lá... Voltei ano passado pra apresentar uma prévia do espetáculo que ainda não ficou pronto, e foi por causa da FestiPoa que eu ganhei um bando de leitores gaúchos, conheci escritores que eu adoro, além de fazer amigos que eu carrego pela vida afora desde então.
Dessa vez minha participação vai ser diferente e eu tô muito animada. Vou mediar uma mesa com duas escritoras que eu admiro profundamente e cuja literatura alimentou o nascimento da minha, e segue me instigando até hoje: Marina Colassanti e Martha Medeiros. Os contos de fada da Marina me abriram o mundo da fantasia na vida adulta. Os poemas cotidianos da Martha me autorizaram a ser coloquial. Sentar com elas numa mesa pra conversar sobre poemas e escritos vai ser luxo só, e fico devendo mais essa alegria ao Fernando.
Além disso, vou dar uma oficina chamada Bem Dita Palavra: vão ser três dias de aula, quinze amantes da palavra aprendendo a dizer poemas e eu compartilhando o que eu sei, e no final teremos um recital pra cada um viver o prazer de dizer em alto e bom som o poema que aprendeu. Quando fui assistente da Elisa e depois professora da Escola Lucinda de Poesia Viva descobri que adoro ensinar. Descobri também que levo jeito pra coisa, que tenho uma didática meio esquisita e uma capacidade de me identificar com o outro que deixam muito gostoso o processo. Já estava com água na boca pensando em quem serão os alunos, que poemas eles vão escolher, o que eu vou aprender com eles, quando me dei conta do detalhe maravilhoso: o sotaque! Eu amo línguas e sotaques em geral, mas tenho que dizer que o gaúcho é especial, e vai ser delicioso passar quatro horas por dia ouvindo poesia em "gauchês"...
Pra completar, vou dizer também os meus poemas, em carioquês mesmo, que ir pra POA e não me apresentar não dá, né? Ufa, ansiosa e animada!
A programação completa lá no blog da FestiPoa.
13.2.12
Contemporâneo
O Everton Behenck foi uma das boas novidades do ano passado, mais um gaúcho pra confirmar a minha sensação de que Porto Alegre só me traz belas coisas e gentes. A gente se conheceu rapidinho por lá em maio, na FestiPoa do ano passado, e eu passei o ano todo lendo ele lá no Apesar do Céu, tanto poema lindo e triste me vendo por baixo da pele, chorei lágrimas e me senti despida em frente à tela do computador, e me consolei de dores e encarei medos ali. A sensação de identificação que a poesia é capaz de dar nunca cansa de me encantar, e posso dizer sem sombra de dúvida que quando rola isso com o trabalho de um cara vivo, da minha geração, contemporâneo, com quem eu posso trocar idéias e bater papo, a coisa fica ainda mais poderosa.
No áudio ali em cima é de solidão que ele fala, e com sotaque gaúcho ainda por cima.
"Permita que sua solidão lhe conte o que guardava enquanto você escondia-se dela."
Não é pra qualquer um, não. Nem a solidão nem a poesia dura e bela do Everton. Pros corajosos fica de presente um dos meus poemas favoritos dele.
UM POEMA DE ESPERANÇA SECA
Você já sabe
Que irá morrer
Talvez em breve
E que será
Praticamente inevitável
Um tanto de dor
Prática e física
E tubos nas narinas
Você já sabe
Que atrás dos olhos
Está e sempre esteve
Irremediavelmente
Só
Você já sabe
Que o amor nasce
E morre
Pelos mais diversos
Motivos
E que geralmente
As pessoas oferecem
O que não possuem
Enquanto exigem
O que você não tem
E que até perceberem isso
Serão felizes
Você já sabe
Que o amor
É uma intenção
E sabe que isso
É muito bonito
Você sabe que a fé
Foi feita
Para que você não acredite
Cegamente
Nisso tudo que sabe
A natureza criou a fé
Para garantir que você faça
A sua parte
Até que chegue
Cedo ou tarde
Com mais
Ou menos alegria
Aos tubos nas narinas
Você sabe
Que algo te move sempre em frente
E é exatamente o mesmo
Que move um cão
Uma vaca ou uma ave
Mas agradeça
Porque eles não sabem
Já você
Bem
Você sabe
Você sabe que dinheiro
Carros, ternos, móveis
Não são garantias nenhuma
De humanidade
E se você não sabe
Descubra antes que seja tarde
Você já sabe
Que não voltará
Ninguém que lhe salve
O parto é sempre um ato
De abandono implícito
Viemos a esse mundo
Com um propósito bem definido
E nunca voltaremos
Aproveite sua estada
Da melhor forma possível
E não se cobre tanto
Todo mundo sabe o quanto
É difícil
Everton Behenck
9.2.12
Pra esquecer as durezas de nosso dia a dia
De
novo eles vêm me salvar.
Ele
#1: o Pau Mole, meu poema frisson que nunca me deixa na mão (rá).
Ele
#2:MarcelinoFreire,
escritor fodão que me botou debaixo do braço e me leva pra tanto
lado, tão mais longe do que ele imagina, soprando meu nome em tantos
ouvidos.
Pela mão amorosa dele eu fui de Porto Alegre a Recife, baladei em Sampa e passeei em muita tela de lcd. Hoje ganhei a re-alegria de ser publicada no seu blog, com recado carinhoso de brinde.
"[Esta poesia é famosa.
Não é de minha autoria.
Adoraria. A autora é a
carioca MARIA REZENDE.
No meu antigo blog eraOdito
já havia postado, uma vez,
esse poeminha. Agora, o repito
aqui. Na onda de coisinhas leves,
digamos, feitas para esquecer
as durezas de nosso dia a dia.
Valeu, querida Maria. E fui.]"
Ô, querido, justo hoje, é? Que eu estava tão precisada de esquecer as durezas de nosso dia a dia... Agradecimentos infindos a você.
1.2.12
Wislawa por Maria
Mais um sobre o fim
Fracassando e voando
(Jack Gilbert)
Todo mundo esquece que Ícaro também voou.
É a mesma coisa quando o amor acaba,
ou o casamento fracassa e as pessoas dizem
que sabiam que era um erro, que todo mundo
dizia que nunca ia dar certo. Que ela tinha idade
suficiente pra ser mais esperta. Mas qualquer coisa
que valha a pena ser feita vale a pena ser mal feita.
Como estar ali perto do oceano no verão
do outro lado da ilha enquanto
o amor estava desbotando dela, as estrelas
queimando tão extravagantemente naquelas noites que
qualquer um diria que elas não durariam nada.
Toda manhã ela estava dormindo na minha cama
como uma aparição, a suavidade nela
como a de um antílope de pé na neblina do amanhecer.
Cada tarde eu a via voltando
pelo caminho de pedras quentes depois de nadar,
a luz do mar atrás dela e o céu gigantesco
do lado de lá. Ouvia ela enquanto
a gente almoçava. Como eles podem dizer
que o casamento fracassou? Como as pessoas que
voltam da Provence (quando havia Provance)
e dizem que era bonito mas a comida era gordurosa.
Eu acredito que Ícaro não estava fracassando quando caiu,
mas só chegando ao fim do seu triunfo.
e no lindo original
(Jack Gilbert)
Todo mundo esquece que Ícaro também voou.
É a mesma coisa quando o amor acaba,
ou o casamento fracassa e as pessoas dizem
que sabiam que era um erro, que todo mundo
dizia que nunca ia dar certo. Que ela tinha idade
suficiente pra ser mais esperta. Mas qualquer coisa
que valha a pena ser feita vale a pena ser mal feita.
Como estar ali perto do oceano no verão
do outro lado da ilha enquanto
o amor estava desbotando dela, as estrelas
queimando tão extravagantemente naquelas noites que
qualquer um diria que elas não durariam nada.
Toda manhã ela estava dormindo na minha cama
como uma aparição, a suavidade nela
como a de um antílope de pé na neblina do amanhecer.
Cada tarde eu a via voltando
pelo caminho de pedras quentes depois de nadar,
a luz do mar atrás dela e o céu gigantesco
do lado de lá. Ouvia ela enquanto
a gente almoçava. Como eles podem dizer
que o casamento fracassou? Como as pessoas que
voltam da Provence (quando havia Provance)
e dizem que era bonito mas a comida era gordurosa.
Eu acredito que Ícaro não estava fracassando quando caiu,
mas só chegando ao fim do seu triunfo.
e no lindo original
Failing and flying
by Jack Gilbert
Everyone forgets that Icarus also flew. It's the same when love comes to an end, or the marriage fails and people say they knew it was a mistake, that everybody said it would never work. That she was old enough to know better. But anything worth doing is worth doing badly. Like being there by that summer ocean on the other side of the island while love was fading out of her, the stars burning so extravagantly those nights that anyone could tell you they would never last. Every morning she was asleep in my bed like a visitation, the gentleness in her like antelope standing in the dawn mist. Each afternoon I watched her coming back through the hot stony field after swimming, the sea light behind her and the huge sky on the other side of that. Listened to her while we ate lunch. How can they say the marriage failed? Like the people who came back from Provence (when it was Provence) and said it was pretty but the food was greasy. I believe Icarus was not failing as he fell, but just coming to the end of his triumph.
31.1.12
Depois melhora mas primeiro é assim
SEPARAÇÃO
(Affonso Romano de Sant'Anna)
Desmontar a casa e o amor.
Despregar os sentimentos das paredes e lençóis.
Recolher as cortinas após a tempestade das conversas.
O amor não resistiu às balas, pragas,
flores, e corpos de intermeio.
Empilhar livros, quadros, discos e remorsos.
Esperar o infernal juízo final do desamor.
Vizinhos se assustam de manhã
ante os destroços junto à porta:
- pareciam se amar tanto!
Houve um tempo:
uma casa de campo, fotos de Veneza,
um tempo em que sorridente
o amor aglutinava festas e jantares.
Amou-se um certo modo de despir-se, de pentear-se.
Amou-se um sorriso e um certo modo de botar a mesa.
Amou-se um certo modo de amar.
No entanto, o amor bate em retirada
com suas roupas amassadas, tropas de insultos,
malas desesperadas, soluços embargados.
Faltou amor no amor?
Gastou-se o amor no amor?
Fartou-se o amor?
No quarto dos filhos outra derrota à vista:
bonecos e brinquedos pendem
numa colagem de afetos natimortos.
O amor ruiu e tem pressa de ir embora envergonhado.
Erguerá outra casa, o amor?
Escolherá objetos, morará na praia?
Viajará na neve e na neblina?
Tonto, perplexo, sem rumo
um corpo sai porta afora
com pedaços de passado na cabeça
e um impreciso futuro.
No peito o coração pesa
mais que uma mala de chumbo.
***
Affonso escreveu sobre o filme iraniano Separação, e na onda postou no Facebook esse poema lindo dele. Sim, Affonso, o poeta incrível, ele mesmo, Affonso Romano de Sant'Anna, tem Facebook. Adoro. E esse poema, eita ferro, dói até quando a gente ainda nunca passou por isso, que dirá quando já. Ainda bem que a vida, essa chacrete sacana, roda roda e avisa que depois melhora. Afe. Ufa.
Desmontar a casa e o amor.
Despregar os sentimentos das paredes e lençóis.
Recolher as cortinas após a tempestade das conversas.
O amor não resistiu às balas, pragas,
flores, e corpos de intermeio.
Empilhar livros, quadros, discos e remorsos.
Esperar o infernal juízo final do desamor.
Vizinhos se assustam de manhã
ante os destroços junto à porta:
- pareciam se amar tanto!
Houve um tempo:
uma casa de campo, fotos de Veneza,
um tempo em que sorridente
o amor aglutinava festas e jantares.
Amou-se um certo modo de despir-se, de pentear-se.
Amou-se um sorriso e um certo modo de botar a mesa.
Amou-se um certo modo de amar.
No entanto, o amor bate em retirada
com suas roupas amassadas, tropas de insultos,
malas desesperadas, soluços embargados.
Faltou amor no amor?
Gastou-se o amor no amor?
Fartou-se o amor?
No quarto dos filhos outra derrota à vista:
bonecos e brinquedos pendem
numa colagem de afetos natimortos.
O amor ruiu e tem pressa de ir embora envergonhado.
Erguerá outra casa, o amor?
Escolherá objetos, morará na praia?
Viajará na neve e na neblina?
Tonto, perplexo, sem rumo
um corpo sai porta afora
com pedaços de passado na cabeça
e um impreciso futuro.
No peito o coração pesa
mais que uma mala de chumbo.
***
Affonso escreveu sobre o filme iraniano Separação, e na onda postou no Facebook esse poema lindo dele. Sim, Affonso, o poeta incrível, ele mesmo, Affonso Romano de Sant'Anna, tem Facebook. Adoro. E esse poema, eita ferro, dói até quando a gente ainda nunca passou por isso, que dirá quando já. Ainda bem que a vida, essa chacrete sacana, roda roda e avisa que depois melhora. Afe. Ufa.
29.1.12
Ornitorrinco #22 - Tempo livre, tem sim senhor
- OLHA-LÁ –
A gente precisa conversar sobre o tempo. O livre. Tem mesmo? Ou tem, mas acabou?
Alguns são claros. Olhar pro teto do quarto deitada na cama. Cozinhar sem pressa, só prazer, ouvindo a música que vem da sala. Conversar potoca com quem se ama e dar danoninho na boca de uma filha que não é sua. Mas a maioria me confunde. Ver a vida dos outros na tela do computador é? Ler revista de fofocas esperando a tinta agir nos cabelos, é? E escrever sobre o tema proposto pelo editor? Ou isso é tempo preso? E se é, quem foi que prendeu, pra gente pagar a fiança e poder soltar? Ah foi a gente mesmo, foi? Ah tá…
A
gente diz que ter ele é o que mais quer, mas eu não sei não. Porque
parece que assim que ele aparece a gente inventa ocupação. Tirar o
esmalte. Ligar pra amiga. Procurar online o adesivo pra porta do carro
que chegou da oficina desamassado mas sem decalque. Ir ao mercado.
Escrever sobre o tema proposto pelo editor.
Tempo
livre. Que tem, tem. Escrever sem tema. Olhar as unhas dos pés
coloridas dentro da banheira ao som de Leonard Cohen. Ler o jornal de
anteontem vendo o dia entardecer pela janela. Enfiar linha na agulha e
dar pequenos pontos em algum tecido reinventando tardes macias com
cheiro de casa de avó. Pintar os olhos sem festa à vista pra piscar
bonito na câmera do laptop. Juntar um poema com uma música com umas
imagens em movimento e inventar o novo.
Às
vezes é de manhã, roubando deliciosamente do dia útil lá de fora. Em
geral é de noite, roubando - com olheiras - da cama que chama ali
dentro. Eu gosto mesmo é quando é de tarde, e o céu azula daquele meu
jeito preferido enquanto eu não aproveito pra nada, e nem em olhar o céu
azulando eu penso. Só fico existindo, entre cheiros quentes, agulhas de
buracos finos, telas e páginas. Ou só o teto do quarto, macio,
derretendo, enquanto os olhos vão fechando no melhor dos sonos. Se as
algemas são minhas eu tenho a chave, se fui eu que prendi então eu
solto, que tudo que existe, existe melhor livre, e o tempo não havia de
ser exceção.
_Maria Rezende
(Texto do Ornitorrinco de hoje. Edição #22. Tema: tempo livre. Alegria especial pela estréia da querida Keli Freitas, atriz e escritora, mais uma a provar que fazer uma coisa só da vida está cada vez mais demodée entre as minhas pessoas. Só li o bicho agora porque passei a tarde numa pesquisa seríissima sobre o assunto, deitada num banco de cimento na praia do Leblon ouvindo o disco do Marcelo Janeci inteirinho, deixando o olho fechar sempre que ele queria e nos intervalos vendo passarem gaivotas em balés deliciosos ou em vôos solo cheios de atitude - quem são essas gaivotas que não querem o bando e seguem solitárias? e quem ensina as outras a dançarem tão bonito? -, crianças de casacos coloridos, casais de mãos dadas e algumas senhorinhas de cadeira de roda. Todo mundo exercitando a coisa e eu mais que todos, nem me mexia, só sendo ali no meio da rua, tinha tempo que eu não brincava de tempo livre desse jeito. Foi bem bom. Recomendo.)
23.1.12
Casadoira
Semana passada saiu uma matéria sobre um lado pouco conhecido da minha vida de poeta, mas que eu adoro: o de "MC" de casamentos. Explico: às vezes os noivos não tem religião, ou cada um tem uma, mas querem uma cerimônia amorosa, me convidam e eu vou lá dizer "estamos aqui reunidos pra celebrar o amor de...". Outras vezes tem padre ou juiz, mas eles querem poesia no meio, e lá vou eu dizer poemas de amor nesse dia tão importante.
Começou há um tempão atrás, quando um casal de amigos que nem era tão próximo me convidou pra essa deliciosa tarefa. Depois eu já fui o "padre" da minha melhor amiga, da filha de outra grande amiga, já disse poemas no casamento da minha irmã, e também no da querida Manu Cesar, jornalista criadora do delicioso blog Colher de Chá, com dicas ótimas sobre tudo que é gostoso, e que agora tem uma sessão especial pras noivas, onde ela aproveitou pra divulgar esse meu lado casamenteiro.
É um luxo e uma alegria ver que minha poesia já virou parte do casamento de gente que eu nem conheço, além de ser uma profunda emoção que ela enfeite o amor das pessoas que eu mais amo. Lá na matéria da Manu tem meu poema mais casadoiro e também um vídeo que me encheu de alegria, uma noiva que eu nunca vi na vida dizendo meu poema no dia do casamento dela. Eita que a poesia sabe me fazer feliz...
Começou há um tempão atrás, quando um casal de amigos que nem era tão próximo me convidou pra essa deliciosa tarefa. Depois eu já fui o "padre" da minha melhor amiga, da filha de outra grande amiga, já disse poemas no casamento da minha irmã, e também no da querida Manu Cesar, jornalista criadora do delicioso blog Colher de Chá, com dicas ótimas sobre tudo que é gostoso, e que agora tem uma sessão especial pras noivas, onde ela aproveitou pra divulgar esse meu lado casamenteiro.
É um luxo e uma alegria ver que minha poesia já virou parte do casamento de gente que eu nem conheço, além de ser uma profunda emoção que ela enfeite o amor das pessoas que eu mais amo. Lá na matéria da Manu tem meu poema mais casadoiro e também um vídeo que me encheu de alegria, uma noiva que eu nunca vi na vida dizendo meu poema no dia do casamento dela. Eita que a poesia sabe me fazer feliz...
21.1.12
A gente precisa virar caleidoscópio
A gente precisa conversar sobre o tempo.
Eu precisava dormir mas não rolou, esse vídeo na cabeça desde cedo querendo virar virtualidade compartilhável: o poema escrito pro Ornitorrinco, o chão girando em cores.
Virou.
Hoje sim #4.
Posso dormir agora?
Agradecida.
(foi outro dia, mas gostei do textinho então finge que)
17.1.12
Eu no Papo de Homem
Tá bom, tá bom, eu sei que já falei bastante do Pau Mole esses tempos, mas fazer o que se o poema segue me dando alegrias inusitadas? Dessa vez foi um artigo escrito pelo Guilherme Valadares no Papo de Homem, uma revista virtual obviamente dedicada ao público masculino e que, numa rápida visita, me pareceu muito da bacana. Além de, olhem ali, ter 1.500.000 leitores! Ou seja, tenho que agradecer profundamente ao Guilherme, criador e editor-chefe do site, porque se uma parcela mínima desse povo tiver lido o que ele escreveu sobre mim já tô super no lucro!
Na verdade, mais do que pensar no número de pessoas (quantidade e tamanho são coisas de homem, né, já dizia o Kid Abelha), adorei foi ter despertado a atenção de um cara que diz que não curte muito poesia e cita logo meus favoritos: Drummond, Galeano, Quintana. Ou seja, fazer parte dessa seleção já é muita onda. Ele gostou do poema, foi atrás do meu trabalho, escreveu, fez o link nem sempre perceptível entre o Pau Mole e o Musa do Século 21 - o primeiro é em defesa dos homens, embora eles tantas vezes se sintam vulneráveis com o poema... e o segundo vem defender nós mulheres, sempre compelidas a uma perfeição inatingível. Aí vem a parte dois da brincadeira: um bando de gente leu e ficou mobilizada e quis conversar sobre. Tem nego dizendo que aquilo não é poema, outros dizendo que é piada, outros sacando a minha sensibilidade, tem nego achando que eu plagiei o trash Gabriel Colombo, tem nego postando outras coisas minhas, enfim, um bate papo animadíssimo!
E eu, que numa entrevista semana passada pra TVE respondi à pergunta "qual o maior sonho do poeta" dizendo que não posso falar por mais ninguém mas que o meu é escrever e ser lida, só posso agradecer ao Guilherme por essa alegria. E acho que vou passar lá pra comentar também, e botar mais um tanto de lenha na fogueira da conversa...
15.1.12
Ornitorrinco #21 - A gente precisa conversar sobre
- OLHA-LÁ -
A gente precisa conversar sobre o tempo.
De como ele muda com o ângulo, com a luz.
Como tem jeitos, é manhoso, e nunca para,
a não ser pra entediar o sujeito.
Tem exatos trinta dias que:
.uma das minhas pessoas preferidas saiu de um avião prum velório
.eu me perdi num bairro novo
.vinho demais reinaugurou a receita
Parece que faz anos. Ou que foi ontem.
Setecentas e trinta horas ou um doze avos do ano
ou novecentas checadas de email ou dois torpedos
ou vinte e cinco minutos de mão dada numa igreja lotada.
Quem comanda a ampulheta?
E se eu soprar de leve o aviãozinho de papel pra passar logo?
E se eu agarrar com os dez dedos a lembrança de cada frase
pra durar um pouco mais?
A gente precisa conversar sobre o tempo.
Quantas luas dura o encanto no silêncio?
A dor da perda é conta-gotas ou catavento?
Ainda se chama espera quando se está em movimento?
_Maria Rezende
***
Esse é meu texto do primeiro Ornitorrinco de 2012. É a segunda vez que publico poesia, mas a primeira em que sai um poema novo, inédito, fresquinho, especialmente pro zine. Estamos na edição #21 e eu tô na parada desde a #10 como colunista, além de ter escrito como colaboradora na #03 um dos textos em prosa de que eu mais gosto, esse aqui ó.
Das grandes alegrias do ano passado foi ter entrado pra esse time, convidada pelo editor Gabriel Pardal, o maluco que arruma tempo pra nos instigar a escrever, organiza o zine todinho e ainda publica e divulga. Esse menino baiano eu conheci por blog e myspace e depois ao vivo em Sampa quando estive lá na Balada Literária. Criamos um laço delicioso, meio ímpar, que tem admiração no recheio e não tem cotidiano nas bordas - me dar conta de que não tenho o telefone dele, nem celular nem nenhum, me espantou e me fez sorrir esses dias. Sei que ele tem amor pela Clara e pelo Vicente, sei que ele escreveu o bacanudo Carnavália, vi ele bonito no palco do "Todos os cachorros são azuis", e trocamos emails e textos. Que bela amizade essa. A cada edição agradeço a ele o entuasiasmo e a parceria, e dessa vez publicamente, aqui no meu jornal privée de notícias amorosas.
E aí tem o luxo-só de ser parceira de tanta gente legal. Letícia Novaes, cantoracompositoraatrizmusa da banda Letuce, de quem eu sou tão fã e cada vez mais amiga, alegria que não desbota. Ramon Mello, que foi na minha primeira casa me entrevistar pro seu incrível blog Clik(IN) Versos, ele que é poetajornalistaatorautorcurador, no que foi o começo de uma amizade deliciosa e imperdível. E a Bruna Beber, poetíssima que eu admirei primeiro em livro e depois conheci em mesa de bar e que em 2011 virou amiga de vida real e me botou pra dançar com o seu irresistível "Fasceiro&Facinante" que eu não me canso de exaltar. E ainda tem o Domingos, o Emanuel, o Franco, o Julio. É muita coisa boa prum bicho só.
E pra quem ainda não sabe, a coisa funciona assim: você vai lá no site do bicho e assina, aí passa a receber na sua caixa postal, sem esforço nenhum, domingo sim domingo não. As edições são temáticas e é uma delícia ver o que sai da cachola de cada um de nós, um tema e tantas possibilidades. Num domingo de chuva, como hoje, nada melhor do que deitar na cama com o laptop no colo e ler o bicho todo de enfiada, me surpreendendo com os textos deles e com o meu, escrito sempre no último segundo e só lido quando chega a edição oficial. Pra quem quiser conhecer antes de assinar, lá no site tem as 20 primeiras edições, é só escolher um número e descobrir o que virá.
4.1.12
O "Pau Mole" ataca novamente!
E eis que na primeira semana de 2012 estoura a notícia: meu poema do Pau Mole acaba de me aprontar mais uma.
Atenção: um cara que eu nunca vi na vida, o Jeff Oliveira, pegou o poema dito pela Ana Carolina e tascou num mashup surreal que reúne a música mais bizarra que eu já ouvi, a terrível "Sai seu pica mole", na voz de Valeska Popzuda, com a batida de California Gurls, da Kate Perry. Há que se ter estômago - pra aguentar o choque de ver o poema num contexto tão tosco, e depois pra não morrer de dor na barriga de tanto rir.
Valesca
Popozuda & Katy Perry (ft. Ana Carolina) - "California Picas"
(Tiago Spears Mashup) by jeffoliveira
Esse poema, o mais pop de toda a linhagem, um dos primeiros que eu escrevi na vida e que nunca sai de cena, o poema que mais me espalha por aí e que tem pernas bem mais longas do que as minhas, sempre me rendeu momentos inusitados - ótimos, bizarros, deliciosos, hilários, toscos. Durante muitas e muitas noites eu disse ele no palco do Te vejo na Laura, e foi lá, numa noite de casa lotada, que a Ana conheceu o poema.
Daí a Ana ouviu o poema, adorou, e generosa como ela é acabou lendo ele no final de uma gravação de um programa de tv. O vídeo foi parar no Youtube e roda feito doido pela internet desde então. Pro meu absoluto choque, hoje, quatro de janeiro de dois mil e doze, ele já foi visto por mais de 55mil pessoas!
Pois agora esse o Jeff Oliveira pegou a voz dela dessa gravação, com gargalhada no final e tudo mais, e fez essa pérola do cancioneiro nacional. Depois do sucesso retumbante do "Adoro beijo na boca", a versão mais tosca do meu poema já feita - e nunca devidamente creditada, ao contrário do mash up, no qual o Jeff me credita direitinho (valeu, Jeff!) - pelo grande artista da palavra e da imagem Gabriel Colombo, realmente posso dizer: era só o que me faltava!
Ou será que vem mais por aí? Porque esse poema é que nem filho travesso: não cansa de me dar sustos que rendem belas gargalhadas!
1.1.12
Tiau 2011, oi 2012
Tiau 2011. O ano mais duro da minha vida. E ainda assim - e por isso - bonito. Bom. Fodão. Que venha 2012. Saúde, sorte & alegria. E um pouco mais de leveza, se for possível. Esperança, esperança, eu te quero, eu te recebo, vem!
E pra começar 2012 meu novo vício musical, que tira da minha boca as palavras: "eu tenho tido a alegria como dom e em cada canto vejo um lado bom". Eita dom bom de se ter!
28.12.11
Would you like to peel a tomato?
Nunca vi esse filme todo, mas amo essa cena. Loucura, ternura, humor, doçura, e o olhar de doida desesperada dela no abraço final, além da frase mais insana que se pode imaginar.
Isso não é um maldito poema
Splash (Bukowski)
the illusion is that you're simply
reading this poem.
the reality is that this is
more than a
poem.
this is a beggar's knife.
this is a tulip.
this is a soldier marching
through Madrid.
this is you on your
death bed.
this is Li Po laughing
underground.
this is not a god-damned
poem.
this is a horse asleep.
a butterfly in
your brain.
this is the devil's
circus.
you are not reading this
on a page.
the page is reading
you.
feel it?
it's like a cobra.
it's a hungry eagle
circling the room.
this is not a poem.
poems are dull,
they make you
sleep.
these words force you
to a new
madness.
you have been blessed,
you have been pushed
into a blinding area of
light.
the elephant dreams
with you
now.
the curve of space
bends and
laughs.
you can die now.
you can die now as
people were meant to
die:
great,
victorious,
hearing the music,
being the music,
roaring,
roaring,
roaring.
a ilusão é que você tá simplesmente
lendo esse poema.
a realidade é que isso é
mais que um
poema.
isso é uma faca de um pedinte.
isso é uma tulipa.
isso é um soldado marchando
por Madri.
isso é você no seu
leito de morte.
isso é Li Po gargalhando
embaixo da terra.
isso não é um maldito
poema.
isso é um cavalo dormindo.
uma borboleta no
seu cérebro.
isso é o circo
do diabo.
você não tá lendo isso
numa página.
a página tá lendo
você.
tá sentindo?
é como uma serpente.
é uma águia faminta
circundando o quarto.
isso não é um poema.
poemas são chatos,
te fazem dormir.
essas palavras te forçam
a uma nova
loucura.
você foi abençoado,
você foi empurrado
pra uma
área de luz
cegante.
o elefante sonha
com você
agora.
a curva do espaço
entorta e
ri.
você pode morrer agora.
você pode morrer como
as pessoas deviam
morrer:
grandes,
vitoriosas,
ouvindo a música,
sendo a música,
rugindo,
rugindo,
rugindo.
the illusion is that you're simply
reading this poem.
the reality is that this is
more than a
poem.
this is a beggar's knife.
this is a tulip.
this is a soldier marching
through Madrid.
this is you on your
death bed.
this is Li Po laughing
underground.
this is not a god-damned
poem.
this is a horse asleep.
a butterfly in
your brain.
this is the devil's
circus.
you are not reading this
on a page.
the page is reading
you.
feel it?
it's like a cobra.
it's a hungry eagle
circling the room.
this is not a poem.
poems are dull,
they make you
sleep.
these words force you
to a new
madness.
you have been blessed,
you have been pushed
into a blinding area of
light.
the elephant dreams
with you
now.
the curve of space
bends and
laughs.
you can die now.
you can die now as
people were meant to
die:
great,
victorious,
hearing the music,
being the music,
roaring,
roaring,
roaring.
a ilusão é que você tá simplesmente
lendo esse poema.
a realidade é que isso é
mais que um
poema.
isso é uma faca de um pedinte.
isso é uma tulipa.
isso é um soldado marchando
por Madri.
isso é você no seu
leito de morte.
isso é Li Po gargalhando
embaixo da terra.
isso não é um maldito
poema.
isso é um cavalo dormindo.
uma borboleta no
seu cérebro.
isso é o circo
do diabo.
você não tá lendo isso
numa página.
a página tá lendo
você.
tá sentindo?
é como uma serpente.
é uma águia faminta
circundando o quarto.
isso não é um poema.
poemas são chatos,
te fazem dormir.
essas palavras te forçam
a uma nova
loucura.
você foi abençoado,
você foi empurrado
pra uma
área de luz
cegante.
o elefante sonha
com você
agora.
a curva do espaço
entorta e
ri.
você pode morrer agora.
você pode morrer como
as pessoas deviam
morrer:
grandes,
vitoriosas,
ouvindo a música,
sendo a música,
rugindo,
rugindo,
rugindo.
A polonesa #3
A vida na hora (Wislawa Szymborska)
A vida na hora.
Cena sem ensaio.
Corpo sem medida.
Cabeça sem reflexão.
Não sei o papel que desempenho.
Só sei que é meu, impermutável.
De que trata a peça
devo adivinhar já em cena.
Despreparada para a honra de viver,
mal posso manter o ritmo que a peça impõe.
Improviso embora me repugne a improvisação.
Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.
Meu jeito de ser cheira a província.
Meus instintos são amadorismo.
O pavor do palco, me explicando, é tanto mais humilhante.
As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.
Não dá para retirar as palavras e os reflexos,
inacabada a contagem das estrelas,
o caráter como o casaco às pressas abotoado -
eis os efeitos deploráveis desta urgência.
Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira antes
ou ao menos repetir uma quinta feira outra vez!
Mas já se avizinha a sexta com um roteiro que não conheço.
Isso é justo - pergunto
(com a voz rouca
porque nem sequer me foi dado pigarrear nos bastidores).
É ilusório pensar que esta é só uma prova rápida
feita em acomodações provisórias. Não.
De pé em meio à cena vejo como é sólida.
Me impressiona a precisão de cada acessório.
O palco giratório já opera há muito tempo.
Acenderam-se até as mais longínquas nebulosas.
Ah, não tenho dúvida de que é uma estrela.
E o que quer que eu faça,
vai ser transformar para sempre naquilo que fiz.
A vida na hora.
Cena sem ensaio.
Corpo sem medida.
Cabeça sem reflexão.
Não sei o papel que desempenho.
Só sei que é meu, impermutável.
De que trata a peça
devo adivinhar já em cena.
Despreparada para a honra de viver,
mal posso manter o ritmo que a peça impõe.
Improviso embora me repugne a improvisação.
Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.
Meu jeito de ser cheira a província.
Meus instintos são amadorismo.
O pavor do palco, me explicando, é tanto mais humilhante.
As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.
Não dá para retirar as palavras e os reflexos,
inacabada a contagem das estrelas,
o caráter como o casaco às pressas abotoado -
eis os efeitos deploráveis desta urgência.
Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira antes
ou ao menos repetir uma quinta feira outra vez!
Mas já se avizinha a sexta com um roteiro que não conheço.
Isso é justo - pergunto
(com a voz rouca
porque nem sequer me foi dado pigarrear nos bastidores).
É ilusório pensar que esta é só uma prova rápida
feita em acomodações provisórias. Não.
De pé em meio à cena vejo como é sólida.
Me impressiona a precisão de cada acessório.
O palco giratório já opera há muito tempo.
Acenderam-se até as mais longínquas nebulosas.
Ah, não tenho dúvida de que é uma estrela.
E o que quer que eu faça,
vai ser transformar para sempre naquilo que fiz.
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