"Carne do umbigo", "Bendita palavra" e "Substantivo feminino" são a versao impressa e bem acabada do que rola aqui. Quer me ter na sua mão em forma de livro e disco? Me escreve aqui!
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11.6.17
Monólogo Público: obrigada, Michel
Esse é o Michel. O Michel é um monstro de luz. E de sombra. O Michel faz poesia com o corpo todo. No corpo do Michel tem cabeça peito bunda que bate no chão tem olho mão braço comprido pé barriga coração. No corpo do Michel tem um demoniozin irônico e um anjo que só diz verdades.
Eu tô de peito rasgado a canivete enferrujado de avô, peito estraçalhado de pomba no alto da casa em frente, eu tô sangrando que nem aquele lutador de MMA recordista mundial de esguicho, eu tô agradecendo a sorte grande de estarmos vivos no mesmo lugar ao mesmo tempo, de ter visto o Michel, menino grandalhão, dizer poemas no palco do CEP 20.000, muito antes de eu imaginar que também iria dizer poemas ali, de ver em tempo real as marcas que ele deixa na superfície do mundo e poder abraçar ele depois, eu tão maior do que era quando sentei atrás dessa cabeça aí da foto. O que mais tem no Michel é coragem.
"Monólogo Público", de sexta a domingo no Sesc Ginástico. Só mais duas semanas. Não perde não, inocente. Vai lá sangrar também.
5.6.17
#umbigonazoropa : o resumão
Eu só queria estrear, sabe? E ver como ia aguentar o batidão de apresentar quatro dias seguidos, eu que até então só tinha feito o espetáculo uma vez por semana. Não planejei escrever relatos, eles foram surgindo com o passar dos dias, enquanto a pele ia ficando cada vez mais fina e a carne cada vez mais viva. Aqui então um resumão em muitas palavras e poucas imagens do que foram as cinco noites de #umbigonazoropa. Em breve mais fotos, vídeos de pedaços dessas noites, de mergulhos no mar & dentro de mim mesma. Aqui, no blog antigo novinho em folha, feito pra nunca mais se perder.
17 de maio, quarta-feira
Estreamos. Estreamos com casa cheia, portugueses e brasileiros, amigos antigos e novos e até gente que eu nem nunca ainda tinha visto ao vivo, olhares tão calorosos que até suei na noite fresca da primavera lisboeta. Essa sou eu dentro de uma espécie de piscina que já foi tanque de lavar roupas de um antigo presídio feminino e que hoje é o Chapitô, esse espaço mágico de circo e arte. Taí meu maior risco da vida até hoje, acho. Taí meu coração escancarado.
Estreamos. Obrigada a todos os envolvidos - todos mesmo, nossa equipe, quem veio ver, quem quis vir, quem tá no Brasil e marcou os amigos, quem mandou axé. Sentadinha no trem rumo ao Porto pra apresentação de hoje, eu sou realmente o amor da cabeça aos pés.
PORTO, MIRA ARTES PERFORMATIVAS
18 de maio, quinta-feira
Porto. Um cubo de cortiça por todos os lados. Trinta lugares. Chega mais gente, tá lotado, tem mais cadeira ali. Manuela, a dona do espaço, me apresenta com as melhores palavras. Faz frio no camarim. No palco faz calor. Eu digo meus poemas como talvez nunca antes. As palavras soam novinhas, o corpo leve. É um espetáculo, é uma brincadeira. Os portugueses aplaudem pouco - no início. No meio já aplaudem mais, no final me abraçam muito. Vendemos todos os livros. A Patrícia dizia "é só hoje, quem não comprar vai ficar sem". Eles compraram. Eram 34 livros. Trinta e quatro! Voltamos pra casa, que essa noite era a galeria de arte propriamente dita: por trás da porta da exposição linda do Maia, nossos quartos com teto solar. Manuela e José, os donos, esquentam caril da vernissage e nos alimentam enquanto limpam a bagunça da cozinha. Vamos tomar um vinho na beira do Douro, faz frio, rimos, espantados de beleza e alívio e alegria.
Metade da turnê portuga. Hoje um trem pra Lisboa, um banho na nossa casa que não é galeria de arte mas é lar, já, e logo tudo de novo: desenrolar 40 metros de tule sobre luzes de led com Livian e Saulo, ajustar cada foto praquela parede, testar o som, achar que não vai dar tempo, dar tempo, vestir o figurino, entrar em cena, ver sem nem olhar Liv concentrada dar o play e ouvir o primeiro vídeo dizer "eu sou aquela que tem calma". Ter calma com o coração a pulsar no peito, na boca e na palma das mãos.
Obrigada Espaço Mira e Mira Artes Performativas por essa noite inesquecível de arte e afeto.
Pra ver as fotos lindas da Patrícia Barbosa clica aqui.
LISBOA, CAFÉ DO LARGO
19 de maio, sexta-feira
Terceira apresentação em três dias. Lisboa de novo, depois de mais um trem. Pouco tempo pra montar, o Kuzka e Gilles terminam de passar o som, estamos ficando cada dia mais sagazes, Saulo faz magia pra alinhar a projeção torta, Liv ninja monta a luz, a banca de livros, me alimenta e passa arnica na minha escápula bichada. O Café do Largo fica numa residência artística, meu camarim é um quarto com cama de casal e banheiro, mesinha e abajour.
Tô acabando de me maquiar quando chega a notícia: o laptop do Kuzka morreu. Morreu de que?! Como?! Ninguém sabe, mas tá morto. Ligo pra ele, ele que me salvou domingo quando a placa de som do meu laptop morreu. Não vai ter show depois. Meu coração vai na boca. "Desce que tá muito atrasado", apita a mensagem da Liv. Me visto estupefata, entro em cena e ouço "eu sou aquela que tem calma". A calma demora uns cinco poemas a vir.
Na platéia lotada novos amigos, a Lua da Bahia e a Sara de Lisboa, a Luzia que já assistiu quarta e voltou, a Marysia que quarta se trancou fora de casa mas hoje tá livre e veio, o Vital que carrega meu risco tatuado no braço e que nos deu Saulo de presente, o Gilles que passou som e não vai mais tocar. Aviso que tô nervosa, erro um tanto, alguns sorrisos na platéia são como sóis, Anna Maria, Artur, uma portuguesa recita junto comigo o poema do Pessoa, o coração aquece, a sala ferve, eu suo muito e relaxo os músculos, começo a dizer tudo novinho de novo. Hoje é bar, tem microfone, tem canja musical, Pierre Aderne tocando nossa parceria, eu canto como se cantora fosse, com a alma feliz. "Por que é que a gente separou?"
Terceira noite seguida de dizer os versos que um dia escrevi e ver os vídeos que fiz com imagens e as fotos da Ana com imagens do meu corpo. É insano. Saio de cena em carne viva. Hoje cedo trem e mais. Ovar. Norte. Tem mar, faz sol e não trouxemos maiô. Dormiremos e depois: desbravar mais uma camada de carne. A pele já nem se vê mais. Turnê.
19 de maio, sexta-feira
Terceira apresentação em três dias. Lisboa de novo, depois de mais um trem. Pouco tempo pra montar, o Kuzka e Gilles terminam de passar o som, estamos ficando cada dia mais sagazes, Saulo faz magia pra alinhar a projeção torta, Liv ninja monta a luz, a banca de livros, me alimenta e passa arnica na minha escápula bichada. O Café do Largo fica numa residência artística, meu camarim é um quarto com cama de casal e banheiro, mesinha e abajour.
Tô acabando de me maquiar quando chega a notícia: o laptop do Kuzka morreu. Morreu de que?! Como?! Ninguém sabe, mas tá morto. Ligo pra ele, ele que me salvou domingo quando a placa de som do meu laptop morreu. Não vai ter show depois. Meu coração vai na boca. "Desce que tá muito atrasado", apita a mensagem da Liv. Me visto estupefata, entro em cena e ouço "eu sou aquela que tem calma". A calma demora uns cinco poemas a vir.
Na platéia lotada novos amigos, a Lua da Bahia e a Sara de Lisboa, a Luzia que já assistiu quarta e voltou, a Marysia que quarta se trancou fora de casa mas hoje tá livre e veio, o Vital que carrega meu risco tatuado no braço e que nos deu Saulo de presente, o Gilles que passou som e não vai mais tocar. Aviso que tô nervosa, erro um tanto, alguns sorrisos na platéia são como sóis, Anna Maria, Artur, uma portuguesa recita junto comigo o poema do Pessoa, o coração aquece, a sala ferve, eu suo muito e relaxo os músculos, começo a dizer tudo novinho de novo. Hoje é bar, tem microfone, tem canja musical, Pierre Aderne tocando nossa parceria, eu canto como se cantora fosse, com a alma feliz. "Por que é que a gente separou?"
Terceira noite seguida de dizer os versos que um dia escrevi e ver os vídeos que fiz com imagens e as fotos da Ana com imagens do meu corpo. É insano. Saio de cena em carne viva. Hoje cedo trem e mais. Ovar. Norte. Tem mar, faz sol e não trouxemos maiô. Dormiremos e depois: desbravar mais uma camada de carne. A pele já nem se vê mais. Turnê.
Pra ver as fotos lindas do Alfredo Matos clica aqui.
OVAR, CASA DO POVO
20 de maio, sábado
“Leva biquíni”, diz a produtora quando estamos quase saindo de casa em Lisboa, atrasados pra pegar o trem. Eu ri e bati a porta. Três horas de trem depois e a surpresa: Ovar tem mar. Não era brincadeira. Uma cidade mini, uma cidade marítima, uma cidade de azulejos e brasileiros - como eram chamados os muitos portugueses que foram fazer a vida no Brasil quando voltavam pra lá. Dormimos muito tortos no trem menos moderno, chegamos exaustos e famintos. Gil nos busca na estação de comboios, nos leva pra comer e planejamos: depois do almoço, ir ver o mar. Depois do almoço: cama. De todo modo o mar é gélido, diz o dono do hotel. Ufa, penso, nem vai fazer falta o biquíni. Às 17h chegamos na Casa do Povo, um prédio restaurado onde funciona a AV FM, a rádio que está promovendo a noite. Reencontro o Sandy, um abraço de amigos quatro anos depois da única vez em que nos vimos. É a convite dele que venho. Do nosso único encontro em Famalicão em 2013, quando pela primeira vez disse poemas na minha língua em outro continente, e no final um escocês de português meio troncho me abordou tímido pra dizer “tu és uma força da natureza”. Às vezes as redes são mesmo redes, enlaçam, juntam.
O teatro é um brinco, uma caixinha de música, o primeiro palco italiano da história do “Carne do Umbigo”. É também nossa primeira montagem serena, sem percalços, sem problemas. O Sandy sim tem percalço: seu violão de repente para de conversar com a mesa de som. Não é possível, penso. Minha placa de som morreu, o laptop do Kuzka morreu, agora a parte elétrica do violão do Sandy. Serei eu? Tô dando choque? Sei que tô energética. Tô fio desencapado de emoção. Sandy nem se abala: é só microfonar o violão. Vamos ensaiar nossos momentos juntos que é o que importa. Poemas em duas músicas, ouço eles tocarem de livros na mão, buscando palavras que conversem com as canções. Vamos jantar, nossa equipe, a banda dele, volto antes pra ficar um pouco em silêncio. No palco minha projeção é atravessada pelos instrumentos, meus metros e metros de tecido envolvem pedestais e retornos, a noite é nossa, tudo se abraça.
Me visto no banheiro mais lindo do mundo, um mar de azulejos azuizinhos. Tô pronta, Saulo aparece como combinado, abraço ele com jeito de último dia mas ele tá assustado, a luz caiu, não é pra eu ir ainda. Lá vem coisa, penso. É com emoção, tem jeito não. Liv me chama: a projeção sumiu. Calma, de figurino, casaco, meias e sapatos, desço as escadas e penso que sei exatamente o que fazer. Aperto aquela meia dúzia de comandos no Final Cut e pronto: já está. Suspiros de alívio gerais. Em cinco minutos tô no palco. Casa cheia. As janelas abertas me revelam a quietude de um sábado à noite numa pequena cidade portuguesa. Na platéia muitos jovens, o oposto do Porto onde a maior parte do público era bem mais velho do que eu. Eles aplaudem calorosamente desde o primeiro poema, coisa ainda inédita por aqui. A cada noite os aplausos começam mais cedo, como se todas as platéias fossem a mesma e fossem ficando mais quentes na medida em que passam os dias. Ou talvez seja eu mais quente, cada dia mais nua, mais sem pele. Chamo meu último vídeo e subo pra trocar de roupa, lá de cima ouço os aplausos explodindo e silenciando na medida em que a voz do Sandy em vídeo invade o espaço. Hoje não tem créditos finais, não tem volta pra cena, hoje não tem fim.
Quando volto, já sem figurino, Sandy tá no palco com Edgard e Pedro, e soam os acordes da primeira canção. Como é linda a música dele! Que imensidão! Já na segunda música ele me chama, sento no chão e leio os versos de um poema na parte instrumental de “Song of the shadow”. Só depois me dou conta de que é “Quarto crescente” o mesmo poema que gravei em espanhol em Barcelona ano passado e que vou fazer ao vivo depois de amanhã com Pau no show lá. Volto pra platéia e mergulho na música linda dele. “Sunday mornings” é uma canção sobre as manhãs de domingo em família, ele conta antes de cantar, e antes do meio da música já tô banhada em lágrimas boas. É muita beleza no mundo. Meu coração é uma plantação de alfazema. Lilás. Perfumado. No bis eu volto pra mais um poema e nem sei como falar em público mais. “No escuro dos olhos fechados me equilibrar no desejo”. O poema me salva. Fecho os olhos e sinto a música e danço com a língua.
A noite acaba. Acabou a turnê portuguesa. Nada acabou. Coisas assim não têm fim. Eu estiquei sem rasgar, que nem peito adolescente com estrias roxinhas de crescer num salto, num susto. Vamos dormir quase cinco e às nove e meia tô de olho aberto, correnteza de sensações. Tomo café, faz sol, decidimos ir pelo menos ver o mar e molhar os pés na água gélida. Liv, Saulo, Sandy, Edgard, pés na areia, corto o dedo numa pedra, enfio os pés na água e ela é deliciosa, fria e amorosa como o mar de Ipanema no verão. Topless pode mas minha calcinha é transparente, e o vestido novo de 15 euros, comprado pra ser camisola e que já virou roupa de falar na tv é agora maiô. “Ó mar salgado, quanto do seu sal são lágrimas de Portugal?”. Mergulho. Nos olhos o sal de dentro e o sal de fora. “Quando entrar na água sempre agradeça”, diz a mãe. Obrigada, obrigada, obrigada. Segunda onda. Terceira. Mergulho, agradeço, choro muito e rio demais. Do lado de fora do mar Liv me espera com um abraço. “Olha só onde nós estamos!”. Olha só, parceirinha. Que coisa mais linda nosso encontro, duas entusiasmadas, realistas esperançosas, místicas, com o dom da alegria e as mãos cheias de sim. Turnê das mina. É nóis demais. Maquiagem no taxi, massagem na coxia, abacate de manhã, pastéis de nata, fotos e vídeos a qualquer hora. O trem sai em uma hora, não tenho shampoo nem pente, lembro do trecho do poema inédito que diz
“Cabelos não sentem
não suam
não têm função
servem só pra fazer falta quando faltam
servem só pra enfeitar e carregar
Levam o mar em nós de sal
a água doce antes de evaporar
o suor do desejo consumado
e cada cheiro do caminhos
Cabelo vivo
guardião de beijos
ninho sem pássaros
perfume em que os dedos podem se enroscar”
Três e dez da tarde de domingo, 21 de maio de 2017. Carrego os últimos quatro dias nos cabelos e dentro do peito e na carne que pulsa sob a pele. Sou eu mesma e muito outra. Sou eu mesma atravessada de força e beleza. Nunca fui tão eu mesma antes. Arriscar: não existe nada melhor. Sou eu mesma, maior.
A noite acaba. Acabou a turnê portuguesa. Nada acabou. Coisas assim não têm fim. Eu estiquei sem rasgar, que nem peito adolescente com estrias roxinhas de crescer num salto, num susto. Vamos dormir quase cinco e às nove e meia tô de olho aberto, correnteza de sensações. Tomo café, faz sol, decidimos ir pelo menos ver o mar e molhar os pés na água gélida. Liv, Saulo, Sandy, Edgard, pés na areia, corto o dedo numa pedra, enfio os pés na água e ela é deliciosa, fria e amorosa como o mar de Ipanema no verão. Topless pode mas minha calcinha é transparente, e o vestido novo de 15 euros, comprado pra ser camisola e que já virou roupa de falar na tv é agora maiô. “Ó mar salgado, quanto do seu sal são lágrimas de Portugal?”. Mergulho. Nos olhos o sal de dentro e o sal de fora. “Quando entrar na água sempre agradeça”, diz a mãe. Obrigada, obrigada, obrigada. Segunda onda. Terceira. Mergulho, agradeço, choro muito e rio demais. Do lado de fora do mar Liv me espera com um abraço. “Olha só onde nós estamos!”. Olha só, parceirinha. Que coisa mais linda nosso encontro, duas entusiasmadas, realistas esperançosas, místicas, com o dom da alegria e as mãos cheias de sim. Turnê das mina. É nóis demais. Maquiagem no taxi, massagem na coxia, abacate de manhã, pastéis de nata, fotos e vídeos a qualquer hora. O trem sai em uma hora, não tenho shampoo nem pente, lembro do trecho do poema inédito que diz
“Cabelos não sentem
não suam
não têm função
servem só pra fazer falta quando faltam
servem só pra enfeitar e carregar
Levam o mar em nós de sal
a água doce antes de evaporar
o suor do desejo consumado
e cada cheiro do caminhos
Cabelo vivo
guardião de beijos
ninho sem pássaros
perfume em que os dedos podem se enroscar”
Três e dez da tarde de domingo, 21 de maio de 2017. Carrego os últimos quatro dias nos cabelos e dentro do peito e na carne que pulsa sob a pele. Sou eu mesma e muito outra. Sou eu mesma atravessada de força e beleza. Nunca fui tão eu mesma antes. Arriscar: não existe nada melhor. Sou eu mesma, maior.
Pra ver as fotos lindas do Miguel Vieira Pinto clica aqui.
BARCELONA, CLUB CRONOPIOS
23 de maio, 3a feira
Barcelona. Última apresentação da turnê. Acordamos às cinco da manhã em Lisboa pra pegar o voo às 9h. Eu tinha ido dormir às 2h e sabia que precisava de mais sono mas meu plano era finalmente fazer o que achei que teria feito em todos os trens: estudar os poemas em espanhol. Só que agora já era a véspera do espetáculo. Ainda daria tempo de aprender? Por que eu sou essa louca que se joga de abismos tão imensos, meu deus? Por que eu sou hippie e fui ao mar agradecer ao invés de praticar?
O voo decola, Liv dorme, eu pego o celular com as mil mensagens da Paula corrigindo e comentando cada poema, falando com seu espanhol bonito que eu vou tentar copiar. Franco traduziu todos os poemas há mais de um mês, Miguel aceitou ser meu professor de espanhol à distância e me corrigiu e respondeu todas as dúvidas esquisitas que minha poesia gera: buceta em español, melhor dizer concha ou coño? Pau mole, como fala? Gozo tem que ser disfrute? Ah existe a palavra gozo mesmo? Boa. Ando há semanas com esse papel na bolsa, mas estudar que é bom só ali, no avião, faltando menos de 48h pra estrear bilíngue pela primeira vez.
Chegamos e Maria Elisa nos espera com aquele jeito das melhores mães. Nos leva pra almoçar, pede vinho, eu queria estudar, digo, mas comemos e bebemos e falamos das melhores coisas. Saulo chega, se junta a nós. Eu digo poemas em espanhol, ela se emociona, elogia. Sereno um cadin. A embaixadora, atual Cônsul do Brasil em Barcelona, a mãe da Aninha, querida minha, aprovou meu sotaque. Vou ao consulado conhecer Edgard, o homem que achou boa minha insana ideia de espetáculo bilíngue e disse “venha e vamos fazer acontecer”. Nos reunimos na Sala João Cabral de Melo Neto e sorrio pra esse acontecimento. Saio de lá já atrasada pra visita técnica no Club Cronopios, onde está Luciana, da Meta Brasil, a outra instituição que organizou com a gente essa vinda. O clube é lindo, um clube literário que não cobra ingresso mas exige associação, testamos projeção, som, tudo impecável, ajusto as fotos e deixo tudo pronto pra amanhã, saio correndo atrasada pra ensaiar com Pau.
Pau é meu amigo baterista, músico incrível e no estúdio de quem eu gravei poemas em espanhol ano passado. Nesse dia, quando fui gravar lá, falei pra ele que tinha pensado em juntar um poema meu que fala sobre mulheres com uma canção que me salvou a vida numa madrugada uns meses antes, uma canção xamânica, curadora, de uma mulher chamada Amparo Sanchez. Amparanoia? ele me perguntou. Não, eu disse: Amparo Sanchez. Mas ela mora aqui, disse ele. Paralisei. Não era possível. Era meu penúltimo dia, entrei no Facebook, escrevi o nome dela, e não só ela morava na cidade como tinha tocado na véspera. Morri. Voltei a mim e fiz o que faço numa hora dessas: escrevi pra ela contando tudo isso. Da sua canção que me salvou, da gravação que estávamos fazendo, da minha admiração, do meu desejo de mandar pra ela meu livro. Ela responde, carinhosa, gentil, eu quase morro de alegria. Nos falamos algumas vezes depois disso, e eu mal posso crer que troco mensagens com essa mulher tão poderosa e importante pra mim. Pau então, sem planejar nem nada, me deu Amparo de presente, e serei eternamente grata por isso. Quando marquei o espetáculo aqui logo convidei ele pra fazermos dois poemas com seu lindo hang. Chego pra ensaiar exausta, bocejante, sem conseguir concatenar bem os idiomas, e logo tô animada, sorridente, feliz com nossas ideias e como elas se concretizam no ensaio.
Ele me chama pra ir ao WTF Jam Sessions no Jamboree, onde nos conhecemos, motivo de eu ter trocado minha passagem da última vez, só pra poder dizer poemas naquele palco. Tô cansada demais, só quero comer algo rápido e ir pra cama, e penso: aproveito a carona e apareço de surpresa no Viana, dou um beijo em Miguel e Arek, como aquele tartare de atum genial e vou dormir. No caminho Miguel escreve, vai jantar com amigos, eu não quero me juntar a eles? Invado uma mesa galega, todos riem muito, falam coisas bonitas que eu não entendo bem, Miguel vai pedindo delícias, é uma degustação, é um spa de alegria, eles bebem vinho, eu bebo água, comemos como loucos, as gargalhadas aumentam, a sobremesa chama “às vezes melhor que sexo” e eu penso que bom é não lembrar da última vez que o sexo foi pior que chocolate. Volto pra casa leve, bem mais tarde do que tinha planejado mas muito mais descansada do que estaria se estivesse deitada vendo celular e tentando ensaiar com a cabeça derretida.
Acordo terça 11h30. Tô serena, tô segura. Só preciso ajustar o roteiro e mandar pra Liv e Saulo imprimirem. Marcamos ensaio de 13h às 14h30, daí eu descanso até às 17h quando temos que estar lá, penso. Só que não, claro que não. Eram muitas mudanças no roteiro de Portugal. E no projeto do Final Cut. Trocar todas as deixas em espanhol. Botar os vídeos legendados. Abrir espaço pra participação especial do Pau. Ver email pra checar se Amparo confirmou mesmo que vai.
Amparo vai? Amparo vai. Amparo vai! Porque é claro que assim que eu fechei o espetáculo em Barcelona, além de convidar o Pau, eu convidei a Amparo. Porque seria das maiores honras e alegrias da minha vida inteirinha ter essa mulher no palco comigo, e eu não tenho medo de não. Convidei ela no início de abril. Amparo nunca me viu na vida, não é minha amiga, mas diz que pode ser que esteja na cidade e adoraria ir me assistir. Então, eu continuo, não quero você na platéia não, quero você tocando “Alma de cantaora” enquanto eu falo “Pulso aberto”. Ah, ela diz, pode ser que sim, vamos ver mais perto minha agenda? Vamos. Vamos sim. Meu coração palpita a cada mensagem que ela responde. Tão fácil seria ela me despachar, ilustre desconhecida que sou. O tempo vai passando e ela vai dizendo cada vez mais que sim, mas me pede pra não incluir seu nome na arte, e ficamos assim, com Amparo leve e meu coração fazendo figa. É terça-feira, dia 23, 14h, e chega o email: “Hola Maria, tengo apuntado en mi agenda tu espectáculo hoy, a que hora va a ser?”. Eu dou um grito sozinha na casa vazia. Choro de soluçar. Amparo vai. Que fodona e maravilhosa é a vida!
Depois disso é tudo um flash. Ensaiar. Lavar os cabelos. Botar o vestido mais bonito. Chegar no clube e esperar que cheguem as pessoas que vão abrir com faca afiada de amor o meu sorriso. Miguel chega, ele conseguiu mesmo não ir pro restaurante, que alegria! Pau chega com sua bici. Amparo chega. Abraço ela, toda fã, menina de seis anos sem saber onde botar as mãos. Entramos na sala de espetáculo, um hang, um violão azul, um coração saindo pela boca. Ela começa a cantar como se fosse normal: “Soy el poder dentro de mi”. Eu nem sei como existir ao vivo nesse momento. Volto à madrugada insone em que eu não sabia mais quem eu era e essa canção me deu a mão até a chegada da manhã. Pau começa a tocar junto e é lindo Inventamos juntos como fazer, sugiro falar o poema no início, não quero incomodar, não quero dar trabalho, ela diz não, fala no meio, eu abro um espaço pra você. Parece impossível mas tá acontecendo. O nervosismo da tarde sumiu e tenho agora a alegria de quem batalhou pelo sonho e tá vendo ele virar carne.
Vou me vestir e maquiar, não podemos atrasar. Fico pronta e nada. Liv vem: espera que tá chegando gente. Ela volta: espera que tem muita gente, espera que lotou e estamos tentando acomodar. Mas o cara não disse que cabiam 70 pessoas?! Pois disse. E já só tem lugar no sofá de ladinho. Me fecho no camarim de um metro quadrado e repasso na cabeça a ordem do roteiro toda diferente, que poema em português encadeia com qual em espanhol, é “retrasado” e não”atrasado”, célula madre e não tronco, e aquele verso “se retuerce o rostro, se contorce el gesto, me laten los pies, se descontrola el ojo izquierdo” travalínguas tá na ponta da língua já.
Luciana fala em nome do Consulado e da Meta Brasil, me chama, eu vou. Não tem uma cadeira vazia. Liv dá play no vídeo: eu sou aquela que tem calma. Entro em cena em português, passo direto pra Carne del ombligo en español: eclipses en escorpión, cambio, revolución. O poema acaba e os aplausos são calorosos. Eu rio, já suada de nervoso e calor humano. Todas as falas entre poemas serão em espanhol - ou no meu portuñol selvage, explico. Digo que não sou fluente mas arte é risco e vim correr o maior da minha vida, e se é pra ser assim vou logo então ler um poema curto em português, espanhol e catalão (obrigada Pau pela tradução & aula). Eu tô na corda bamba e tem cento e quarenta mãos pra me acolher caso eu caia. Mas eu não caio. É minha noite de equilibrista bailarina, cada língua é uma torre do World Trade Center e eu ando leve entre elas.
Chega a hora da Amparo. Conto a história. Chamo ela. Nos abraçamos em cena, no meu palco, sobre meus muitos metros de tule cor de pele, eu de figurino, com o coração na buceta e um pulmão nos joelhos, nos abraçamos e Pau vem com a gente e a noite mais épica da minha vida acontece de verdade, naquela hora. Amparo começa a cantar e eu fecho os olhos e ponho a mão no peito e na barriga e choro sem nem medo de borrar a maquiagem. Na hora do poema cadê espanhol? Falo minha língua, e ela reage aos versos e toca baixinho e retoma o refrão quando eu termino.
Parece que nada mais pode existir depois disso mas existe muita coisa bela. Tem mais poesia, tem a canja linda do Pau fazendo nossa gravação pela primeira vez ao vivo, “Quarto crescente” em espanhol com hang, e a novidade de “Transparência” comigo cantando “Sanar”, do Drexler, como eu sempre sonhei fazer e nunca tive coragem, mas do que ter medo em uma noite como essa? E aí tem aplausos de pé, tem eu chamando Liv no palco e chorando ao agradecer a ela toda a parceria que fez essa loucura ser possível e tão incrível, tem Miguel tímido com meu agradecimento por toda sua ajuda com meu espanhol, tem todos os livros vendidos e lista de espera de quem ficou sem (mas como se trouxemos cem livros do Brasil?! assim mesmo: esgotaram todos!), tem Maria Elisa emocionadíssima e eu feliz de não ter dado vexame e constrangido o Consulado, tem Kika e Mickey que conseguiram chegar antes de acabar, tem Luciana feliz e nós gratos ao seu marido que foi tirar fotos, tem Sabrina que veio e trouxe amigos e nos ofertou um fotógrafo pra gravar na íntegra (gracias, mujer!!), tem uma trupe de dezesseis pessoas andando pelas ruas de Barcelona até sentar na Rambla do Raval numa mesona ao ar livre e tomar sangria e comer massa e se beliscar pra crer na imensidão de beleza que acaba de acontecer.
Acabou nossa turnê. Cinco noites. Quatro cidades. Dois aviões. Quatro trens. Um sonho meio louco. Duas mulheres entusiasmadas achando a loucura uma ótima parte da vida e focando no sim e se dando força na hora das merdas e rindo na madrugada. Acabou. Mágica. Imensa. Inacreditavelmente bela. E pra toda a eternidade eu vou me lembrar da noite em que cantei junto com Amparo e toda a platéia a canção que me deu a mão. A todos vocês que me dão tanto a mão também, agradeço lá do palco, com uma mão na barriga e outra no coração.
Pra ver as fotos lindas do Toni Arnau clica aqui.
#umbigonazoropa #amariadapoesia #carnedoumbigo #turnêdasmina
29.11.14
Carne do Umbigo na Maria Filó
Alegria ler sobre o livro no blog da Maria Filó!!
Aqui a matéria.
E pra comprar: mariadapoesia@yahoo.com.br
31.10.14
Amor de mãe leoa
Há um tempo encontrei uma carta que meu pai me escreveu quando eu nasci, e vim aqui exibir esse amor tão profundo que eu tenho a sorte de viver em casa. As caixas e gavetas continuam me presenteando: em busca de uma chave mágica que abre o móvel da minha cabeceira, onde com sorte se encontram documentos de que eu preciso muito hoje, achei outra carta, agora da minha mãe. Não tem data mas pelo assunto é do começo dos anos 2000.
Eu era uma menina de uns 22 anos, recém formada, tinha tido um único namorado e estava com medo de estar "meio fria" pro mundo. Hoje tô na beirinha dos 36, prestes a lançar meu terceiro livro, descobrindo que eu sou minha própria editora, que tenho experiência e estrada pra isso, arriscando como nunca, inventando um espetáculo no qual andarei sobre os ares, com um estoque de talas e tiger balm pras quedas que já sei que virão. Fica claro que a mulher que eu sou foi forjada por essa que aí escreve: "energia, aventura, risco e alegria e assim o equilíbrio". Essa é ela. Essa sou eu.
O amor anda comigo de mão dada desde que eu nasci, as cartinhas me acompanham desde lá e pra sempre, e eu só posso agradecer.
Eu era uma menina de uns 22 anos, recém formada, tinha tido um único namorado e estava com medo de estar "meio fria" pro mundo. Hoje tô na beirinha dos 36, prestes a lançar meu terceiro livro, descobrindo que eu sou minha própria editora, que tenho experiência e estrada pra isso, arriscando como nunca, inventando um espetáculo no qual andarei sobre os ares, com um estoque de talas e tiger balm pras quedas que já sei que virão. Fica claro que a mulher que eu sou foi forjada por essa que aí escreve: "energia, aventura, risco e alegria e assim o equilíbrio". Essa é ela. Essa sou eu.
O amor anda comigo de mão dada desde que eu nasci, as cartinhas me acompanham desde lá e pra sempre, e eu só posso agradecer.
9.9.14
A orelha do Marcelino
Carne do umbigo, meu livro novo, sai em novembro pela Editora Oitoemeio. Convidei pra escrever a orelha o super escritor e agitador e meu grande espalhador e amigo Marcelino Freire, mas nunca imaginei o grau de beleza com que ele ia me presentear. O impulso irresistível foi gravar, porque a prosa dele pede voz e eu não sei agradecer melhor do que isso.
Marcelino querido, então estou eu chorando num taxi a caminho de casa, eu de vestido de gala que na verdade é camisola chique presente da mãe, saindo de um baile no Cassino da Urca que não via bailes há 68 anos, eu no taxi de arranjo de cabeça vermelho de carnaval e echarpe espanhola borrando o rímel com tamanha beleza e fundura e fodideza do seu texto. Querido, como te agradecer? O que te dizer? Isso não é uma orelha, isso é um coração que pulsa. Que emoção ler. Estou mais do que tudo feliz de ter te convidado pressa tarefa missão trabalhosa que eu bem sei e portanto nada de desculpas por demora ou que tais, estou feliz mais que tudo por saber que cê me sente assim, e saber com as suas melhores palavras, nessa sua prosa poética premiável premiada derramada pulso aberto coração adentro. Caramba. Como dormir agora, meu deus?! Melhor insônia eu desconheço. Obrigada e meu melhor sorriso, Maria
Marcelino querido, então estou eu chorando num taxi a caminho de casa, eu de vestido de gala que na verdade é camisola chique presente da mãe, saindo de um baile no Cassino da Urca que não via bailes há 68 anos, eu no taxi de arranjo de cabeça vermelho de carnaval e echarpe espanhola borrando o rímel com tamanha beleza e fundura e fodideza do seu texto. Querido, como te agradecer? O que te dizer? Isso não é uma orelha, isso é um coração que pulsa. Que emoção ler. Estou mais do que tudo feliz de ter te convidado pressa tarefa missão trabalhosa que eu bem sei e portanto nada de desculpas por demora ou que tais, estou feliz mais que tudo por saber que cê me sente assim, e saber com as suas melhores palavras, nessa sua prosa poética premiável premiada derramada pulso aberto coração adentro. Caramba. Como dormir agora, meu deus?! Melhor insônia eu desconheço. Obrigada e meu melhor sorriso, Maria
15.4.14
Celebrando a parceria
Quinta, dia 17, eu e Thereza Rocque da Motta convidamos pra Ponte de Versos comemorando os dois anos da nossa parceria com o relançamento do meu primeiro livro.
O substantivo feminino nasceu independente em 2003, logo esgotou a tiragem de mil exemplares e ficou fora do ar por uns bons anos até a Thereza me fazer esse convite de reeditar pela Ibis Libris Editora.
Convidei amigos queridos pra lerem esses que são meus primeiros poemas, e vou fazer pela primeira vez no Rio um recital grande misturando os clássicos e os inéditos. Parece loucura pensar que já tem mais de quinze anos que digo poemas por aí, já fiz recitais assim em Porto Alegre, em Recife, em Portugal, mas não na minha cidade.
É agora. Muito feliz. Espero vocês pro abraço.
3.3.14
Um sol
Dez anos sem Tonho no mundo.
Nem um dia sem ele no peito.
É carnaval, eu ando vestida de bananas e hoje o sol se fez carne em purpurina.
O afeto, que é eterno, ilumina a segunda-feira e a vida inteira.
Saudades, meu amigo.
Nem um dia sem ele no peito.
É carnaval, eu ando vestida de bananas e hoje o sol se fez carne em purpurina.
O afeto, que é eterno, ilumina a segunda-feira e a vida inteira.
Saudades, meu amigo.
3.2.14
Elisa Lucinda: amor e rumo
Hoje é dia dela, uma outra mãe que a vida me deu, eu que já vim com uma tão maravilhosa de barriga. Foi lá nos meus dezessete que ela me apareceu com suas palavras, sua voz, sua presença forte e feminina, dizendo esse poema no Parque Lage num Dia Internacional da Mulher. Completamente extasiada, fui falar com ela, eu não sabia que se podia dizer poemas assim, que um poema podia ser aquilo. Eu não sabia ali naquele primeiro instante mas a minha vida ia mudar pra sempre com esse encontro.
Ela estava sem livros na hora mas foi lá em casa na semana seguinte me vender um livro, nós duas na portaria do prédio em Laranjeiras, o livro comprido de capa laranja misturando poemas e contos, a dedicatória dela inventando o futuro:
"Maria, seja esse verso acumulado aqui um companheiro seu.
Que você goste e me venda a outros.
Me ligue.
Beijos, Elisa Lucinda"
Eu liguei, em lágrimas, depois de ler um conto chamado "Re-Luzia", dizendo que quando tivesse uma filha ia dar esse nome, ela me agradeceu emocionada. Anos depois fui ver seu espetáculo solo na Casa da Gávea, e um dia na PUC uma amiga anunciou: estou fazendo uma oficina de poesia falada com a Elisa Lucinda. Pirei. Me matriculei na próxima turma, e subindo as escadas do prédio dela no Leblon no primeiro dia de aula ela me diz lá de cima, sorrindo: "Maria, que bom que você chegou!".
Eu cheguei e foi pra sempre. Ganhei ensinamentos de palavras, de tons, aprendi poemas e temperos, usufrui da sua doçura e gargalhada. Virei sua aluna, sua professora assistente, sua amiga, sua filha e mãe também.
Obrigada Elisete, por me dar um sonho e um rumo. Feliz idade nova, saúde sorte e muita alegria pra você que eu tanto amo.
A série Admirada chegando enfim à sua origem.
De Elisa Lucinda: "Aviso da lua que menstrua".
16.8.13
Poesia em Portugal!
Agora é oficial. Portugal, aí vai essa poeta brazuca. A convite do Festival Raias Poéticas do super Luís Serguilha, com recitais no Mini Teatro da querida Susana Palmerston e em mais cantos que ela tá me ajudando a marcar. Em setembro, que é depois de amanhã na ansiedade e excitação com a ideia de dizer meus poemas na minha língua em outro continente e ser entendida. Você que sabe de um lugar perfeito pra um recital meu por lá, você que tem amigos que vão adorar me ver falar, você que tem dicas lisboetas: tô aceitando tudo. Vai ser intenso.
11.8.13
Amor de pai & filha
Maria
O futuro chegou contigo
Numa manhã de novembro
Mas não se revelou logo naquele dia;
Foi se instalando em mim aos poucos
Por vezes calmo, às vezes violento,
Me atirando contra as paredes da vida
E batendo com minha cabeça
Em forças que desconheço.
Maria, o teu presente é o meu presente,
Como teu presente é o meu futuro
E teu futuro será meu passado,
Um dia.
Me vem ansiedade, Maria,
Por te conhecer antes que me reconheças
E ao tempo
Que me fará um dia teu pai
Diferente do pai que te sou hoje:
Cabelos brancos, corpo marcado
E você, Maria, uma mulher pronta
No aeroporto, a decolar.
Sergio - 25.1.1979
#
Achei essa carta do meu pai pra mim há alguns anos. Chorei as lágrimas boas do amor infinito que nos une. Foi muito intenso ler esse amor escrito nos meus dois meses de vida, e agradeci ao meu pai mais esse carinho: ele escreveu, guardou, e eu já adulta recebi esse presente.
Há um mês atrás, me preparando pra ir passar um mês em NY, abri um móvel que vive trancado a chave, dentro do qual tem uma caixinha onde achei que pudesse ter uns dólares guardados. Encontrei o dinheiro e essa preciosidade. Reler essa carta no dia mesmo em que ia pegar um avião pruma viagem especial, uma viagem de encontros profundos com amigos que eu amo, uma viagem de estar comigo e me reconhecer depois de tantas mudanças, foi emoção pura. Porque o tempo cumpriu sua tarefa. Chegou aquele dia. Meus próprios cabelos já começam a ficar brancos. E o amor da gente muda, mas não gasta nem um bocadinho.
É tudo tão íntimo que eu hesito mas a beleza mora mesmo na intimidade, e tem amor que dá vontade de gritar pro mundo. Esse é um deles.
1.7.13
O valor da vida não pode ter CEP
A Eliane Brum é a voz que mais me representa na imprensa. Uma mulher lúcida e sensível, atenta a questões que me mobilizam, com um olhar que me emociona. Por isso mais do que postar o link do texto dela no site da Época essa semana, eu copio ele inteiro aqui. Pra quem ninguém deixe de ler pela inércia de não clicar aqui no link. Leiam. Eu assino embaixo de cada letra.
Também somos o chumbo das balas
O Brasil não mudará em profundidade enquanto a classe média sentir mais os feridos da Paulista do que os mortos da Maré
Você está na sala assistindo à TV. Ou está no restaurante, com seus amigos. Ou está voltando para casa depois de um dia de trabalho. Você ouve tiros, você ouve bombas, você ouve gritos. Você olha e vê a polícia militar ocupando o seu bairro, a sua rua. É difícil enxergar, por causa das bombas de gás lacrimogêneo, o que aumenta o seu medo. Logo, você está sem luz, porque a polícia atirou nos transformadores. O garçom que o atendia cai morto com uma bala na cabeça. O adolescente que você conhece desde pequeno cai morto. Um motorista está dirigindo a sua van e cai ferido por um tiro. Agora você está aterrorizado. Os gritos soam cada vez mais perto e você ouve a porta da casa do seu vizinho ser arrombada por policiais, que quebram tudo, gritam com ele e com sua família. Em seguida você vê os policiais saírem arrastando um saco preto. E sabe que é o seu vizinho dentro dele. Por quê? Você não pergunta o porquê, do contrário será o próximo a ser esculachado, a ter todos os seus bens, duramente conquistados com trabalho, destruídos. Se você está em casa, não pode sair. Se você está na rua, não pode entrar.
O que você faz?
O que você faz?
Nada.
Você não faz nada porque não aconteceu com você. Você não faz nada especialmente porque se sente a salvo, porque sabe que não apenas não aconteceu, como não acontecerá com você. Não aconteceu e não acontecerá no seu bairro. Isso só acontece na favela, com os outros, aqueles que trabalham para você em serviços mal remunerados.
Aconteceu na Nova Holanda, no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, na segunda-feira passada (24/6). Com a justificativa de que pessoas se aproveitavam da manifestação que ocorria na Avenida Brasil – o nome sempre tão simbólico – para fazer arrastão, policiais ocuparam a favela. Um sargento do BOPE morreu e a vingança da polícia começou, atravessou a madrugada e boa parte da terça-feira. Saldo final: 10 mortos, entre eles “três moradores inocentes”.
Aconteceu na Nova Holanda, no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, na segunda-feira passada (24/6). Com a justificativa de que pessoas se aproveitavam da manifestação que ocorria na Avenida Brasil – o nome sempre tão simbólico – para fazer arrastão, policiais ocuparam a favela. Um sargento do BOPE morreu e a vingança da polícia começou, atravessou a madrugada e boa parte da terça-feira. Saldo final: 10 mortos, entre eles “três moradores inocentes”.
Os brasileiros foram às ruas, algo de profundo mudou nas últimas semanas, tão profundo que levaremos muito tempo para compreender. Mas algo de ainda mais profundo não mudou. E, se esse algo ainda mais profundo não mudar, nenhuma outra mudança terá o peso de uma transformação, porque nenhuma terá sido capaz de superar o fosso de uma sociedade desigual. A desigualdade que se perpetua no concreto da vida cotidiana começa e persiste na cabeça de cada um.
Quando a polícia paulista reprimiu com violência os manifestantes de 13 de junho, provocando uma ampliação dos movimentos de protesto não só em São Paulo, mas em todo o Brasil, houve um choque da classe média porque, dessa vez, muitos daqueles que foram atingidos por balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo eram seus filhos, irmãos e amigos. Como era possível que isso acontecesse?
Era possível porque a polícia militar – e não só a de São Paulo, como se sabe e tem se provado a cada manifestação, nas diversas cidades – agiu no centro com quase a mesma truculência com que cotidianamente age nas favelas e nas periferias. Quase com a mesma truculência, porque algumas vozes se levantaram para lembrar que nas margens as balas são de chumbo. Balas de borracha, como foi dito em tom irônico, seria um “upgrade”. A polícia fez, portanto, o que está acostumada a fazer no dia a dia das periferias e favelas, o que é ensinada e autorizada a fazer. E muitos policiais devem ter se surpreendido com a reação da opinião pública, já que agem dessa maneira há tanto tempo e as reclamações em geral ficavam, até então, limitadas às mesmas organizações de direitos humanos de sempre.
E então veio a Maré. E, em vez de balas de borracha, as balas eram de chumbo. Em vez de feridos, houve mortos. E, ainda que o massacre tenha tido repercussão, especialmente no Rio de Janeiro, ela foi muito menor e menos abrangente do que quando a violência foi usada no centro de qualquer cidade. Por quê? Seriam os brasileiros da Maré ou de outras favelas menos brasileiros do que os outros? Seriam os humanos da Maré ou de outras periferias menos humanos do que os outros? Sangrariam e doeriam os moradores da Maré menos do que os outros?
É preciso que a classe média se olhe no espelho, se existe mesmo o desejo real de mudança. É preciso que se olhe no espelho para encarar sua alma deformada. E perceber que essa polícia reflete pelo menos uma de suas faces. Parece óbvio, do contrário essa polícia não seguiria existindo e agindo impunemente, mas às vezes o óbvio é esquecido em nome da conveniência.
É fácil renegar a polícia militar como algo que não nos diz respeito, como sempre fazemos com as monstruosidades que nos envergonham. Sem precisar assumir que essa polícia existe como resultado de uma forma de ver a sociedade e se posicionar nela – uma forma que perpetua a desigualdade, dividindo o país entre aqueles que são cidadãos e têm direitos e aqueles que não têm nenhum direito porque, mesmo que trabalhem dura e honestamente, são criminalizados por serem pobres.
No momento em que os mortos da Maré incomodam menos que os feridos da Paulista ou de outros lugares do Brasil, se justifica e legitima a violência da polícia. Se justifica e legitima de várias maneiras – e também por aqueles que sentem menos a violência da Maré do que a da Paulista, apesar de ela ser numa proporção muito maior, a começar pela diferença das balas. Se justifica e se legitima e se perpetua porque, ainda que não confessado, mas claramente expressado, vive-se como se os mais pobres, os que moram em favelas e periferias, pudessem ter suas casas invadidas, seus bens destruídos e suas vidas extintas.
Se fosse você ou eu na Maré, reconheceríamos os rostos dos que tombam e estaríamos lá, aterrorizados com a possibilidade de sermos os próximos a virar estatística. O garçom que caiu morto com um tiro na cabeça é Eraldo Santos da Silva, 35 anos. Quem estava no restaurante contou que os policiais do BOPE atiraram no transformador para o local ficar às escuras e então mudar a cena do crime, retirando as cápsulas do chão. O garoto de 16 anos que foi assassinado se chama Jonatha Farias da Silva. A polícia disse que ele estava com uma arma na mão, mas várias pessoas que o conhecem desde criança afirmam ser impossível. Jonatha é descrito como um menino tímido e muito sozinho que perdeu a mãe de tuberculose aos 11 anos e vivia com um irmão mais velho num quarto de quatro metros quadrados. Engraxava sapatos e vendia biscoitos nos congestionamentos da Linha Vermelha para sobreviver, enquanto sonhava com ser mecânico. O motorista ferido quando dirigia a van alvejada por tiros é Cláudio Duarte Rodrigues, de 41 anos. Foi levado ao hospital por moradores, mas despachado para casa com a bala ainda alojada no glúteo. Só depois uma ONG obteve a promessa de uma ambulância para buscá-lo. Você ainda poderia ser a empregada doméstica que ouviu os policiais arrombarem a porta da casa do seu vizinho, ouviu seus gritos – “Me larga! Socorro!” – e o viu ser retirado de lá, dentro de um saco preto.
Mas isso não acontece com você, nem com seus filhos. Nem comigo. Mas, ainda que não aconteça, como é possível sentirmos menos? Ou mesmo não sentir? Ou ainda viver como se isso fosse normal? Ou olhar distraidamente para a notícia no jornal e pensar: “mais uma chacina na favela”?
Em que nos transformamos ao sentir menos a morte de uns do que a de outros, a dor de uns do que a de outros, mesmo quando olhamos para uns e outros apenas pela TV?
O que torna isso possível?
É preciso parar e pensar. Porque esses, que assim morrem, só morrem porque parte da sociedade brasileira sente menos a sua morte. É cúmplice não apenas por omissão, mas por esse não sentir que se repete distraído no cotidiano. Por esse não sentir que não surpreende ninguém ao redor, às vezes nem vira conversa. Essa polícia que mata nos reflete, por mais que recusemos essa imagem no espelho.
São vários os discursos que se imiscuem na vida cotidiana e penetram em nossos corações e mentes, justificando, legitimando e perpetuando a ideia de que a vida de uns vale menos do que a de outros, de que a vida dos mesmos de sempre vale menos do que a dos mesmos de sempre. Um desses discursos é a afirmação, que nesse caso foi assumida e amplificada por parte da imprensa, de que a polícia teria admitido que “três moradores mortos eram inocentes”. A frase tem tom de denúncia, ao afirmar que a polícia reconheceu a morte de “inocentes” na Maré. A declaração expressa, de fato, a ideia de que ao menos esses três não deveriam ter sido assassinados. Por oposição, cabe a pergunta: e os outros deveriam?
Essa frase diz ainda mais: se “três são inocentes”, aceita-se automaticamente e sem maior investigação que os demais seriam suspeitos de tráfico e outros crimes – e destes, quase nada ou nada é contado. É nesse ponto que se oculta algo ainda pior contido nesse discurso, que é a aceitação da pena de morte de suspeitos. Ou seja, os supostamente “não inocentes”, os supostamente “bandidos”, “traficantes”, “vândalos” poderiam, então, ser mortos? É isso o que se diz nas entrelinhas. Mas não seriam todos “inocentes”, até julgamento em contrário, dentro do ritual jurídico previsto pelo Estado de direito? Sem contar que a lei brasileira não prevê a pena de morte de julgados e condenados por crimes, nem sequer os hediondos. Mas o Estado, com o aval de uma parte significativa da sociedade, executa suspeitos.
A aceitação dessa quebra cotidiana da lei pelo Estado está presente na narrativa dos acontecimentos – e a imprensa tem um papel importante na reprodução desse discurso: “três deles eram inocentes”, “morreram em confronto”, “morreu ao resistir à prisão”, “troca de tiros” são algumas das expressões entranhadas nos nossos dias como se tudo explicassem. Como se isso fosse corriqueiro – e não monstruoso. Mesmo para a morte de “inocentes”, fora as mesmas vozes dissonantes de sempre, se atribui expressões como “efeito colateral”. E parece ter sido fácil para a classe média aceitar que o “efeito colateral” é a morte dos filhos, dos irmãos, dos pais e das mães dos pobres.
Em um artigo no site do Observatório de Favelas, que vale a pena ser lido (aqui), Eliana Sousa Silva, diretora da Redes da Maré e da Divisão de Integração Universidade Comunidade PR-5/UFRJ, faz uma análise da frase dita na TV pelo consultor de segurança pública Rodrigo Pimentel: “Fuzil deve ser utilizado em guerra, em operações policiais em comunidades e favelas. Não é uma arma para se utilizar em área urbana”. Ele criticava, em 18/6, a imagem de um policial militar atirando para o alto com uma metralhadora, perto de manifestantes que praticavam ações violentas em frente à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Como afirma Eliana, parece um comentário “natural, racional e equilibrado”, mas, de fato, o que ele está dizendo? Que na favela pode. E, fora uma ou outra voz, como a dela, não causa nenhuma surpresa. Nem mesmo se estranha que na favela pode, nos protestos do centro não.
Em um artigo no site do Observatório de Favelas, que vale a pena ser lido (aqui), Eliana Sousa Silva, diretora da Redes da Maré e da Divisão de Integração Universidade Comunidade PR-5/UFRJ, faz uma análise da frase dita na TV pelo consultor de segurança pública Rodrigo Pimentel: “Fuzil deve ser utilizado em guerra, em operações policiais em comunidades e favelas. Não é uma arma para se utilizar em área urbana”. Ele criticava, em 18/6, a imagem de um policial militar atirando para o alto com uma metralhadora, perto de manifestantes que praticavam ações violentas em frente à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Como afirma Eliana, parece um comentário “natural, racional e equilibrado”, mas, de fato, o que ele está dizendo? Que na favela pode. E, fora uma ou outra voz, como a dela, não causa nenhuma surpresa. Nem mesmo se estranha que na favela pode, nos protestos do centro não.
A palavra “confronto” encobre forças desiguais – e o que tem sido chamado de “confronto” seguidamente não é o que diz ser. Mesmo em confrontos de fato trata-se o que é desigual como se fosse igual, também simbolicamente. Como se uma das forças em confronto não encarnasse o Estado e tivesse, portanto, de respeitar a lei e seguir parâmetros rígidos de conduta – e não igualar-se a quem supostamente está no outro lado. Como se a polícia, como aconteceu na Maré, tivesse autorização para se vingar pela morte – lamentável – do sargento do BOPE, entrando na favela e arrebentando. E o sargento do BOPE Ednelson Jerônimo dos Santos Silva, 42 anos, é também uma vítima desse sistema avalizado por uma parte significativa da sociedade dita “de bem”.
A questão é que, se a polícia não tem autorização de direito, tem de fato. E tem porque a classe média sente menos a dor dos pobres. Tem autorização porque uma parcela da sociedade primeiro criminaliza os pobres – e, depois, naturaliza a sua morte. É por isso que a polícia faz o que faz – porque pode. E pode porque permitimos. A autorização não é dos suspeitos de sempre, apenas, mas de parte considerável dessa mesma classe média que vai às ruas gritar pelo fim da corrupção. Mas haverá corrupção maior, esta de alma, do que sofrer menos pelos mortos da Maré do que pelos feridos da Paulista?
A questão é que, se a polícia não tem autorização de direito, tem de fato. E tem porque a classe média sente menos a dor dos pobres. Tem autorização porque uma parcela da sociedade primeiro criminaliza os pobres – e, depois, naturaliza a sua morte. É por isso que a polícia faz o que faz – porque pode. E pode porque permitimos. A autorização não é dos suspeitos de sempre, apenas, mas de parte considerável dessa mesma classe média que vai às ruas gritar pelo fim da corrupção. Mas haverá corrupção maior, esta de alma, do que sofrer menos pelos mortos da Maré do que pelos feridos da Paulista?
A autorização para a morte dos pobres é de cada um que sente mais as balas de borracha da Paulista do que as balas de chumbo da Maré. Sentir, o verbo que precede a ação – ou a anula.
“Estado que mata, nunca mais!” é o chamado de um ato ecumênico marcado para as 15h desta terça-feira (2/7), com concentração na passarela 9 da Avenida Brasil, pelos moradores da Maré. A manifestação, anunciada como “sem violência e pacífica”, pretende lembrar os 10 mortos de 24 e 25 de junho, inclusive o sargento do BOPE. “Não é mais aceitável a política militarizada da operação do estado nos territórios populares, como se esses locais fossem moradas de pessoas sem direitos. Responsabilizamos o governador do Estado e o secretário de Segurança Pública pelas ações policiais nas favelas. Exigimos um pedido de desculpas pelo massacre e o compromisso com o fim das incursões policiais nas favelas cariocas, sustentadas no uso do Caveirão e de armas de guerra”, diz a chamada na internet.
Este ato poderá se tornar um momento de inflexão nos protestos que atravessam o país. Saberemos então se os cidadãos das favelas estarão sozinhos, como sempre, ou acompanhados pelas mesmas organizações de direitos humanos de sempre – ou se o Brasil está, de fato, disposto a começar acurar sua abissal e histórica cisão.
(Eliane Brum escreve às segundas-feiras)
10.5.13
7.5.13
O cinema safari da Lu
Lá no nosso sítio tem nossos textos, de nós colunistas de sempre, e também colaborações de gente muito bacana. Hoje tem uma especial da querida Luana Carvalho, escritora, compositora, cantora, e também uma bela dizedora de poesia, que eu sei.
Luana existe muito. E brilha. E toca a gente. Me toca demais. Sou grata.
Seu Cinema Safari, aqui.
5.5.13
Alegria domingueira
Acordei e pulei no jornal pra ver como tinha ficado a matéria sobre o ORNITORRINCO
na Revista do Globo. Tão legal ver nosso trabalho de formiguinha,
especialmente o do Gabriel Pardal, inventor e manivela de funcionamento da coisa
toda, sendo reconhecido e espalhado assim! Orgulho&alegria de ser
bixo com esse pessoal! Agradeço até o fim dos tempos a ele pelo convite e
pela alegria cotidiana de ser parte de um grupo, mesmo que a gente
pouco se veja ao vivo, porque estarmos juntos nessa canoa é especial.
A matéria no jornal vem num momento bacanudo em que paramos as edições quinzenais enviadas por email só pra assinantes - depois de chegar ao #50! - e viramos sítio, gentes, passem lá: www.ornitorrinco.net.br. Além disso, daqui a dois domingos, dia 19 de maio, estaremos quase todos em Porto Alegre, encerrando a querida e amada Festipoa Literária com a segunda edição do República Ornitorrinco, espécie de sala de redação com os colunistas conversando ao vivo, e a cereja do bolo: lançando nosso livro! Sim, o Ornitorrinco virou livro com as dez edições mais legais escolhidas pelo super editor Pardalino, e o lançamento intergaláctico é em POA. E na véspera, no sábado dia 18 às 22h, ainda tem recital meu dizendo poemas do Vinícius no Meme Santos de Casa Estação Cultural. Eita vidinha boa...
1.3.13
Saudades do Tonho
Saudade é todo dia, mas hoje é mais. Tonho, seu lindo, que bom você ter aparecido na minha vida com seus figurinos extravagantes e sua doçura e seu talento. O mundo ficou bem mais sem graça quando cê parou de andar por aqui, e eu sinto a sua falta, meu amigo.
Morrer podia ser só um pouquinho
Podia ser um passeio
Uma viagem pela noite que acabasse no café
Morrer como uma aventura
Uma montanha
Andar a pé o deserto depois voltar
Como dançar de olho fechado
Se perder num outro corpo
Como uísque bom, um sono inteiro, um prazer, um cheiro
Morrer podia até ser um castigo
Porta fechada com prazo de fim
Mas não esse buraco, esse abismo
Seu riso pra sempre perdido
Sua música soando em mim
(para Tonho Gebara)
*** Se alguém não conhece o Tonho agora é a hora de ganhar esse presente. O porte, a gargalhada, os cabelos bagunçados, só vai dar pra ver em foto, infelizmente. Mas a música, essa ficou lindamente gravada no cd "Ímpar", e eu agradeço sempre que ele tenha finalmente cedido aos apelos dos amigos e fãs e feito esse registro das suas lindas canções. Algumas delas estão aqui ó.
Saudades
Saudade é todo dia, mas hoje é mais. Tonho, seu lindo, que bom você ter aparecido na minha vida com seus figurinos extravagantes e sua doçura e seu talento. O mundo ficou bem mais sem graça quando cê parou de andar por aqui, e eu sinto a sua falta, meu amigo.
Morrer podia ser só um pouquinho
Podia ser um passeio
Uma viagem pela noite que acabasse no café
Morrer como uma aventura
Uma montanha
Andar a pé o deserto depois voltar
Como dançar de olho fechado
Se perder num outro corpo
Como uísque bom, um sono inteiro, um prazer, um cheiro
Morrer podia até ser um castigo
Porta fechada com prazo de fim
Mas não esse buraco, esse abismo
Seu riso pra sempre perdido
Sua música soando em mim
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