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20.7.17

Admiradíssima

Acabo descobrir que foi há cinco anos, nesse mesmo dia, que eu inventei, meio sem querer, a série "Admirada": eu dizendo os poemas que amo lá no meu canal do Youtube. Se tu for lá agora tem 115 vídeos. Cento e quinze vezes em que algo eu li me abriu tanto a boca de espanto que as palavras saíram e eu liguei a câmera e pá. Poetas novos e seus primeiros livros. Poetas ainda inéditos no papel. Os grandes, os já consagrados. Admiração pra todo lado.

Tem Drummond e tem Allan Jonnes. Tem Adélia e LuNa Vitrolira. Elisa Lucinda e Viviane Mosé e Manoel de Barros e Samuel Luis Borges. Tem Vitor Paiva, Pedro Cezar, Bobby Baq, Ana Blue, Angélica Freitas, Ana Martins Marques, Marcela Melo, Pedro Bomba, Beatriz Provasi, Renata Corrêa, Elizeu Braga, Mel Duarte, André Oviedo, João Bernardo, Lucas Vasconcellos, Alessandra Colasanti, Ricardo Domeneck, Rafael Iotti, Matilde Campilho, Paulo Scott. E Vinicius, Hilda, Rupi, Wislawa, Warsan, Pessoa, Drexler, Arnaldo. Até Osvaldo Montenegro tem lá.

Hoje, que eu trato a poesia como trabalho, olho pra minha vida e vejo um caminho coerente e absolutamente instintivo. Poesia. Eu vivo disso. Mesmo quando ao invés de receber pelo trabalho, pago. Mesmo quando não me dá nenhum trabalho, mesmo quando é só ligar a câmera e pá. É trabalho e é missão e é encanto e alimento.

E claro que a estréia da ideia tinha que ser com esse poemaço do Everton Behenck, o muso dessa playlist ao lado de dona Aline Bei. Não conhecem? Mergulhem lá na "Admirada" e admirem-se também.

11.6.17

Monólogo Público: obrigada, Michel





Esse é o Michel. O Michel é um monstro de luz. E de sombra. O Michel faz poesia com o corpo todo. No corpo do Michel tem cabeça peito bunda que bate no chão tem olho mão braço comprido pé barriga coração. No corpo do Michel tem um demoniozin irônico e um anjo que só diz verdades. 

Eu tô de peito rasgado a canivete enferrujado de avô, peito estraçalhado de pomba no alto da casa em frente, eu tô sangrando que nem aquele lutador de MMA recordista mundial de esguicho, eu tô agradecendo a sorte grande de estarmos vivos no mesmo lugar ao mesmo tempo, de ter visto o Michel, menino grandalhão, dizer poemas no palco do CEP 20.000, muito antes de eu imaginar que também iria dizer poemas ali, de ver em tempo real as marcas que ele deixa na superfície do mundo e poder abraçar ele depois, eu tão maior do que era quando sentei atrás dessa cabeça aí da foto. O que mais tem no Michel é coragem.

"Monólogo Público", de sexta a domingo no Sesc Ginástico. Só mais duas semanas. Não perde não, inocente. Vai lá sangrar também.

8.7.14

Mudando de assunto com Leonard Cohen

Eu não gosto de futebol, mas não tenho estrutura emocional pra tragédias ao vivo, especialmente narradas pelo Galvão Bueno. Então depois do quinto gol da Alemanha eu peguei o carro e vim pra casa gravar esse texto do Leonard Cohen que eu terminei de traduzir hoje mais cedo. As ruas cheias de água da chuva forte e rápida, a noite que caiu súbita sobre o Rio. O rádio do carro dizia "a tristeza é senhora", "voa canarinho, voa" e "como vai você, assim como eu?". Na Gávea fogos de artifício estouravam - aqui é reduto de flamenguistas, afinal. Eu vesti alcinhas pretas e nenhuma maquiagem, já que o Leonard já tinha dito: "Não há mais palco. Não há mais ribalta. Você tá no meio das pessoas. Então seja modesto. Diga as palavras, passe a informação, saia de cena. Seja você mesmo. Esteja no seu próprio quarto." Agora na tevê amarelinhos choram dentro e fora do campo, passa Chaves no SBT. Eu vou ali fazer uma sopa. Quem quiser mudar de assunto clica aí embaixo, eu e Mr Cohen em "Como dizer um poema" nessa terça-feira histórica.


30.6.14

Arnaldo: Pessoa


Coisa que acaba. Troço que tem fim. Sujeito. No "Admirada" de hoje: de Arnaldo Antunes, "Pessoa".

3.2.14

Elisa Lucinda: amor e rumo





Hoje é dia dela, uma outra mãe que a vida me deu, eu que já vim com uma tão maravilhosa de barriga. Foi lá nos meus dezessete que ela me apareceu com suas palavras, sua voz, sua presença forte e feminina, dizendo esse poema no Parque Lage num Dia Internacional da Mulher. Completamente extasiada, fui falar com ela, eu não sabia que se podia dizer poemas assim, que um poema podia ser aquilo. Eu não sabia ali naquele primeiro instante mas a minha vida ia mudar pra sempre com esse encontro.

Ela estava sem livros na hora mas foi lá em casa na semana seguinte me vender um livro, nós duas na portaria do prédio em Laranjeiras, o livro comprido de capa laranja misturando poemas e contos, a dedicatória dela inventando o futuro:
"Maria, seja esse verso acumulado aqui um companheiro seu.
Que você goste e me venda a outros.
Me ligue.
Beijos, Elisa Lucinda"

Eu liguei, em lágrimas, depois de ler um conto chamado "Re-Luzia", dizendo que quando tivesse uma filha ia dar esse nome, ela me agradeceu emocionada. Anos depois fui ver seu espetáculo solo na Casa da Gávea, e um dia na PUC uma amiga anunciou: estou fazendo uma oficina de poesia falada com a Elisa Lucinda. Pirei. Me matriculei na próxima turma, e subindo as escadas do prédio dela no Leblon no primeiro dia de aula ela me diz lá de cima, sorrindo: "Maria, que bom que você chegou!".

Eu cheguei e foi pra sempre. Ganhei ensinamentos de palavras, de tons, aprendi poemas e temperos, usufrui da sua doçura e gargalhada. Virei sua aluna, sua professora assistente, sua amiga, sua filha e mãe também.

Obrigada Elisete, por me dar um sonho e um rumo. Feliz idade nova, saúde sorte e muita alegria pra você que eu tanto amo.

A série Admirada chegando enfim à sua origem.
De Elisa Lucinda: "Aviso da lua que menstrua".

29.1.14

Carta do Pessoa pra Ophelinha

Todas as cartas de amor são ridículas, ele escreveu.
E taí a prova de que as cartas de amor, se há amor, têm de ser ridículas - mesmo quando escritas por um poeta como Fernando Pessoa.
Desconcertada de beleza e sorrisos eu fico cada vez que leio.


15.1.14

Admirada em dose dupla

"Prosa patética", da querida Viviane Mosé.




"Chuva", do argentino Juan Guelman, que se foi hoje da Terra.


8.12.13

Dizendo Hilda #3


Hilda Hilst. O que dizer?
Eu que quase só gosto de poesia coloquial, muito conversada, me rendo aos seus poemas cheios de segundas pessoas e palavras raras. Porque a poesia quando é boa assim rasga manuais e derrete conceitos.

Mais um da série Admirada.
Hilda Hilst. "Toma-me".
Eu me entrego.

1.11.13

Everton Behenck no Rio hoje!

Hoje na Travessa de Ipanema é lançamento de dez autores gaúchos, entre eles o querido Everton Behenck, poetaço de quem eu sou fã e tive a sorte de virar amiga. Eu devoro o blog dele e hoje umas 20:30 vou lá ler os meus preferidos, coisas fodonas como esse poema que eu gravei ano passado e não cansa de me emocionar.


9.8.13

Marina Abramović intensa. Uou.




Marina Abramović e seu manifesto. Intenso. Uou.




E aqui o texto em português. Uou. Uou. Ainda bem que eu não sou artista, sou só poeta.


Manifesto sobre a vida do artista



1. a conduta de vida do artista:
- o artista nunca deve mentir a si próprio ou aos outros
- o artista não deve roubar idéias de outros artistas
- os artistas não devem comprometer seu próprio nome ou comprometer-se com o mercado de arte
- o artista não deve matar outros seres humanos
- os artistas não devem se transformar em ídolos
- os artistas não devem se transformar em ídolos
- os artistas não devem se transformar em ídolos

2. a relação entre o artista e sua vida amorosa:
- o artista deve evitar se apaixonar por outro artista
- o artista deve evitar se apaixonar por outro artista
- o artista deve evitar se apaixonar por outro artista

3. a relação entre o artista e o erotismo:
- o artista deve ter uma visão erótica do mundo
- o artista deve ter erotismo
- o artista deve ter erotismo
- o artista deve ter erotismo

4. a relação entre o artista e o sofrimento:
- o artista deve sofrer
- o sofrimento cria as melhores obras
- o sofrimento traz transformação
- o sofrimento leva o artista a transcender seu espírito
- o sofrimento leva o artista a transcender seu espírito
- o sofrimento leva o artista a transcender seu espírito

5. a relação entre o artista e a depressão:
- o artista nunca deve estar deprimido
- a depressão é uma doença e deve ser curada
- a depressão não é produtiva para os artistas
- a depressão não é produtiva para os artistas
- a depressão não é produtiva para os artistas

6. a relação entre o artista e o suicídio:
- o suicídio é um crime contra a vida
- o artista não deve cometer suicídio
- o artista não deve cometer suicídio
- o artista não deve cometer suicídio

7. a relação entre o artista e a inspiração:
- os artistas devem procurar a inspiração no seu âmago
- Quanto mais se aprofundarem em seu âmago, mais universais serão
- o artista é um universo
- o artista é um universo
- o artista é um universo

8. a relação entre o artista e o autocontrole:
- o artista não deve ter autocontrole em sua vida
- o artista deve ter autocontrole total com relação à sua obra
- o artista não deve ter autocontrole em sua vida
- o artista deve ter autocontrole total com relação à sua obra

9. a relação entre o artista e a transparência:
- o artista deve doar e receber ao mesmo tempo
- transparência significa receptividade
- transparência significa doar
- transparência significa receber
- transparência significa receptividade
- transparência significa doar
- transparência significa receber
- transparência significa receptividade
- transparência significa doar
- transparência significa receber

10. a relação entre o artista e os símbolos:
- o artista cria seus próprios símbolos
- os símbolos são a língua do artista
- e a língua tem que ser traduzida
- Às vezes, é difícil encontrar a chave
- Às vezes, é difícil encontrar a chave
- Às vezes, é difícil encontrar a chave

11. a relação entre o artista e o silêncio:
- o artista deve compreender o silêncio
- o artista deve criar um espaço para que o silêncio adentre sua obra
- o silêncio é como uma ilha no meio de um oceano turbulento
- o silêncio é como uma ilha no meio de um oceano turbulento
- o silêncio é como uma ilha no meio de um oceano turbulento

12. a relação entre o artista e a solidão:
- o artista deve reservar para si longos períodos de solidão
- a solidão é extremamente importante
- Longe de casa
- Longe do ateliê
- Longe da família
- Longe dos amigos
- o artista deve passar longos períodos de tempo perto de cachoeiras
- o artista deve passar longos períodos de tempo perto de vulcões em erupção
- o artista deve passar longos períodos de tempo olhando as corredeiras dos rios
- o artista deve passar longos períodos de tempo contemplando a linha do horizonte onde o oceano e o céu se encontram
- o artista deve passar longos períodos de tempo admirando as estrelas
no céu da noite

13. a conduta do artista com relação ao trabalho:
- o artista deve evitar ir para seu ateliê todos os dias
- o artista não deve considerar seu horário de trabalho como o de funcionário de um banco
- o artista deve explorar a vida, e trabalhar apenas quando uma idéia se revela no sonho, ou durante o dia, como uma visão que irrompe como uma surpresa
- o artista não deve se repetir
- o artista não deve produzir em demasia
- o artista deve evitar poluir sua própria arte
- o artista deve evitar poluir sua própria arte
- o artista deve evitar poluir sua própria arte

14. as posses do artista:
- os monges budistas entendem que o ideal na vida é possuir nove objetos:
1 roupão para o verão
1 roupão para o inverno
1 par de sapatos
1 pequena tigela para pedir alimentos
1 tela de proteção contra insetos
1 livro de orações
1 guarda-chuva
1 colchonete para dormir
1 par de óculos se necessário
- o artista deve tomar sua própria decisão sobre os objetos pessoais que deve ter
- o artista deve, cada vez mais, ter menos
- o artista deve, cada vez mais, ter menos
- o artista deve, cada vez mais, ter menos

15. a lista de amigos do artista:
- o artista deve ter amigos que elevem seu estado de espírito
- o artista deve ter amigos que elevem seu estado de espírito
- o artista deve ter amigos que elevem seu estado de espírito

16. os inimigos do artista:
- os inimigos são muito importantes
- o Dalai Lama afirmou que é fácil ter compaixão pelos amigos; porém, muito mais difícil é ter compaixão pelos inimigos
- o artista deve aprender a perdoar
- o artista deve aprender a perdoar
- o artista deve aprender a perdoar

17. a morte e seus diferentes contextos:
- o artista deve ter consciência de sua mortalidade
- Para o artista, como viver é tão importante quanto como morrer
- o artista deve encontrar nos símbolos da sua obra os sinais dos diferentes contextos da morte
- o artista deve morrer conscientemente e sem medo
- o artista deve morrer conscientemente e sem medo
- o artista deve morrer conscientemente e sem medo

18. o funeral e seus diferentes contextos:
- o artista deve deixar instruções para seu próprio funeral, para que tudo seja feito segundo sua vontade
- o funeral é a última obra de arte do artista antes de sua partida
- o funeral é a última obra de arte do artista antes de sua partida
- o funeral é a última obra de arte do artista antes de sua partida






http://tilintar.blogspot.com.br/2010/11/manifesto-sobre-vida-do-artista-marina.html

14.5.13

Mais Vinicius a caminho da FestiPoa

Preparando o recital que vou fazer na 6a FestiPoa Literária, em Porto Alegre, dia 19 de maio, fiz uma seleção de poemas bem maior do que vai caber no roteiro oficial. Decidi então ir gravando os que ficaram de fora, poemas que eu adoro, pra ir dando um gostinho do que vai rolar lá.

Admirada #19: "Minha mãe, diz pra Santa Tereza...", de Vinicius de Moraes


7.5.13

O cinema safari da Lu




Lá no nosso sítio tem nossos textos, de nós colunistas de sempre, e também colaborações de gente muito bacana. Hoje tem uma especial da querida Luana Carvalho, escritora, compositora, cantora, e também uma bela dizedora de poesia, que eu sei.

Luana existe muito. E brilha. E toca a gente. Me toca demais. Sou grata.

Seu Cinema Safari, aqui.


15.4.13

Dizendo Vinícius ou A caminho da Festipoa

Isso é Vinícius de Moraes.



Isso também.




Um assim. Outro assado. Adoro. Adoro.

Isso e isso e mais um tanto na minha boca e mãos e olhos num palco de Porto Alegre numa noite de sábado de maio. Um recital todinho dele, meu primeiro poeta, o denso, o lírico, o leve, o louco, o intenso, o apaixonado, o político Vinícius.

Quando eu li sua biografia disse pro meu pai que se ele tivesse me conhecido teria se apaixonado, e eu seria sua oitava mulher. "Deus te livre!" foi a resposta. É, eu digo hoje. E fico com os poemas, tatuagem eterna sob a pele.


Tudo sobre a Festipoa aqui ó.

1.3.13

Saudades do Tonho





Saudade é todo dia, mas hoje é mais. Tonho, seu lindo, que bom você ter aparecido na minha vida com seus figurinos extravagantes e sua doçura e seu talento. O mundo ficou bem mais sem graça quando cê parou de andar por aqui, e eu sinto a sua falta, meu amigo.


Morrer podia ser só um pouquinho
Podia ser um passeio
Uma viagem pela noite que acabasse no café

Morrer como uma aventura
Uma montanha
Andar a pé o deserto depois voltar

Como dançar de olho fechado
Se perder num outro corpo
Como uísque bom, um sono inteiro, um prazer, um cheiro

Morrer podia até ser um castigo
Porta fechada com prazo de fim
Mas não esse buraco, esse abismo
Seu riso pra sempre perdido
Sua música soando em mim

(para Tonho Gebara)

*** Se alguém não conhece o Tonho agora é a hora de ganhar esse presente. O porte, a gargalhada, os cabelos bagunçados, só vai dar pra ver em foto, infelizmente. Mas a música, essa ficou lindamente gravada no cd "Ímpar", e eu agradeço sempre que ele tenha finalmente cedido aos apelos dos amigos e fãs e feito esse registro das suas lindas canções. Algumas delas estão aqui ó.

Da Jojô

A Jojô é foda. Sabe aquelas pessoas que você conhece e rapidamente volta pra infância, com vontade de chegar perto e dizer cândidamente: "oi, eu achei você legal, quer ser minha amiga?". E foi exatamente isso que eu disse pra ela um dia por escrito, pelo Facebook, depois de alguns encontros ao vivo em noites de amigos em comum. Pra minha alegria ela respondeu "Quero!", com exclamação e tudo, e aí a gente virou amigas, pronto. Pouco me importa que eu ainda não conheça ao vivo a deliciosa Micaela, filhota dela que eu só vejo em foto. Pouco me importa que ela não conheça a minha casa e que a gente quase nunca se veja ao vivo. Aliás, isso é mentira: muito me importa tudo isso aí, e eu desejo que logo logo a gente ganhe essas novidades, mas o que já acontece e é lindo é muito simples: eu gosto dela. Gosto do entusiasmo, da alegria, do otimismo, da maluquice, da sensibilidade.

Tudo isso tá impresso e expresso nas colagens que ela faz. Ela é uma artista das boas, a Jojô. Faz cada coisa bonita e instigante, sabe? Essas são colagens que ela faz tipo prét-a-porter, que ela chama de "Statements" e define assim: "as imagens são apropriadas de terceiros, mas legendadas pela casa - via citações prontas ou tipografias baixadas de sites de design". Tem coisas muito mais sofisticadas e artesanais lá no site dela, obras de arte com humor e veia, mas eu simplesmente amo essa junção despretenciosa de texto e imagem, tanto que nem consegui escolher entre as várias que tenho salvas então aqui vai uma enxurrada delas.


Senhores, com vocês, a minha amiga Joana Coccarelli.































14.2.13

Dos medos

A gravação tem mais de oito meses.
Foi numa casa que não é mais minha, e eu nem imaginava ali que isso podia vir a ser, então nem medo tinha, eu que sou a rainha dele.
É a palavra que mais tem no meu segundo livro, sabe?
Medo.
E parece que a vida toda é uma tentativa de vencê-lo, embora seja sempre mais fácil fingir que ele simplesmente não tá ali, e eu às vezes sou bem boa dessa categoria de fingimento.
Esse é mais um dos poemas da Adélia aprendido ensinando, um poema poderoso, curativo, que mora no meu coração e no cantinho da minha cabeça sem nunca gastar.
"O poder que eu quisera é dominar meu medo."
Muitão.
Admirada #18: Adélia Prado, "Choro à capela"





Engraçado ter achado esse vídeo prontinho bem quando acabei de descobrir e me maravilhar com o vídeo "The scared is scared", que postei semana passada e não me canso de compartilhar e recomendar. E já que o assunto é esse, resgatei esses dias anotações antigas de trechos que amo do "Grande Sertão: Veredas", romance do Guimarães Rosa que eu não me canso de reler. Esses são só os pedacinhos que falam de medo - e daí se vê que além de sentir e escrever sobre, a pessoa também gosta de ler sobre. Deleitem-se.





"tive medo, sabe? tudo foi isso: tive medo. não pensei nada. eu tinha o medo imediato. e tanta claridade do dia."

"e, enquanto houver no mundo um vivente medroso, um menino tremor, todos perigam - o contagioso. mas ninguém tem a licença de fazer medo nos outros, ninguém tenha. o maior direito que é meu - o que quero e sobrequero - é que ninguém tem o direito de fazer medo em mim!"

"alguém estiver com medo, por exemplo, próximo, o medo dele quer logo passar para o senhor; mas se o senhor firme aguentar de não temer, de jeito nenhum, a coragem sua redobra e tresdobra, que até espanta."

"ah, para não se ter medo é que se vai à raiva."

"eu fosse ter cautela, pegava medo, mesmo só no começar. coragem é matéria doutras praxes."

"tinha medo não. tinha era cansaço de esperança."

"acho que eu não tinha conciso medo dos perigos: o que eu descosturava era medo de errar - de ir cair na boca dos perigos por minha culpa. hoje, sei: medo meditado, foi isto. medo de errar. sempre tive. medo de errar é que é a minha paciência."

"aqui digo: que se teme por amor, mas que, por amor também, é que a coragem se faz."







12.2.13

Eu tomo alegria!



Conheci esse poema na voz e interpretação poderosas do Carlos Maltz, músico que foi do Engenheiros do Havaí e que anos depois foi aluno junto comigo na Escola Lucinda de Poesia Viva.
Nunca mais esqueci o sotaque gaúcho dele dizendo os versos do Bandeira, nesse poema tão irônico e delicioso falando de carnaval e de Brasil.
Chegando em casa de madrugada de máscara e purpurina não deu pra resistir à tentação de dar a minha voz pra ele.
Admirada #17: Não sei dançar, de Manuel Bandeira.
Acugelê banzai!

8.2.13

Admirada #16


Tony Hoagland. Poeta. Americano. Favorito recente.
Traduzi uns tantos poemas dele  há uns dois anos atrás.
Esse, esse, esse, esse que já virou vídeo aqui e esse que virou gravação ontem à noite.
Admirada #16:
"O trabalho mais solitário do mundo"
"The loneliest job in the world"
Ui.

3.2.13

A verdade sobre nossos cacos

"O que eu poderia dizer a você, Catarina? A verdade? A verdade você já sabia, você tinha acabado de descobrir. As pessoas quebram. Até as meninas quebram. E, se as meninas quebram, você também pode quebrar. E vai, Catarina. Vai quebrar. Talvez não a perna, mas outras partes de você. Membros invisíveis podem fraturar em tantos pedaços quanto uma perna ou um braço. E doer muito mais. E doem mais quando são outros que quebram você, às vezes pelas suas costas, em outras fazendo um afago, em geral contando mentiras ou inventando verdades. Gente cheia de medo, Catarina, que tem tanto pavor de quebrar, que quebram outros para manter a ilusão de que são indestrutíveis e podem controlar o curso da vida. E dão nomes mais palatáveis para a inveja e para o ódio que os queima. Mas à noite, Catarina, à noite, eles sabem.

Viver, Catarina, é rearranjar nossos cacos e dar sentido aos nossos pedaços, os novos e os velhos, já que não existe a possibilidade de colar o que foi quebrado e continuar como era antes. E isso é mais difícil do que aprender a andar e a falar. Isso é mais difícil do que qualquer uma das grandes aventuras contadas em livros e filmes. Isso é mais difícil do que qualquer outra coisa que você fará."


Eliane Brum é das escritoras que eu mais gosto de ler esses tempos. Devorei seu poderoso romance "Uma, duas" num fim-de-semana, porque apesar da dureza e da angústia em cada página a prosa dela flui e leva a gente pela mão, de uma vez. Pra nossa sorte, toda segunda-feira ela escreve no blog da Revista Época, e faz uma mistura de entrevistas incríveis, reflexões intrigantes, sempre com um olhar surpreendente e inusitado. O texto dessa semana, "A menina quebrada", é uma porrada doce e poética sobre como a gente quebra e fica marcada e como a vida é justamente o aprendizado de lidar com os cacos e as cicatrizes. Lindo e emocionante.

Aqui ó.

30.1.13

Admirada #15: dizendo Bukowski






Ele é o meu poeta americano. The one and only.
Eu assumo que em matéria de poesia sou uma apaixonada convicta pela língua portuguesa, e embora leia romances em inglês no original todas as tentativas de ler poesia foram em vão. Até ele chegar, claro.
O velho beberrão, o farrista, amante das putas, o desbocado, que só fala em mulher e bebida e brigas de bar, esse é o Bukowski dos romances e contos.
É na poesia, como já seria mesmo de se esperar, que ele entrega seu lirismo e sua doçura. Nunca de mão beijada, que ele não é desses. Sim, lá também tem putas e brigas e porres, mas só lá tem amor, fragilidade, entrega, arrependimentos, suavidade.
Tudo escrito tão lindamente que eu me rendo e me ofereço toda pras suas palavras.
Esse poema é pra mim a pérola das pérolas, a batalha interna entre o velho durão e o homem sensível, e já mora tão dentro do meu coração que eu fui lendo no inglês mesmo e dizendo em português na hora, e hesitei e troquei palavras e quando acabei estava um silêncio tão fundo que o poema veio de novo, e não faz sentido escolher a melhor versão, não tem melhor versão, é tudo um só derramar de coração e oferenda de mim mesma pra essa beleza dura dele.

(Charles Bukowski, "Blue Bird", no original aqui:
http://www.poemhunter.com/poem/bluebird/)