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24.7.18

De amor e de leões

A sintonia da vida não cansa de me deixar surpresa. Estou escrevendo um texto de abertura prum livro chamado "71 leões",  da Lau Patrón, relato incrível da sua experiência de passar setenta e um dias no hospital com o João, seu filho que tinha menos de dois anos na época, um livro super lindo e emocionante. Aí quando fui salvar o texto achei um outro chamado "26 de fevereiro", fiquei curiosa porque não me lembrava o que era e era um texto que escrevi no carnaval do ano passado sobre a vovó Elza, e subitamente me dei conta: ela se chama Elza Ramires Leão.

Daí me dei conta de que mamãe se chama Mariza Leão, e eu tenho lua em leão, e daí nasceu meu poema DNA:

Leão no mapa
na cabeceira
na certidão de nascimento

No toque entre os dedos
no branco precoce dos cabelos

Em fitas e fitas
de ácido desoxirribonucleico

Pois mamãe (que se autointitula pro nosso João, seu neto: vovó Leão) me disse que faz vinte anos que a vovó Elza não tá mais aqui com a gente em carne e osso, e aí agora achei esse texto, tô me achando muito loka que não tinha me dado conta de que eu também sou LEÃO (o nome não me chegou mas a força sim, muito). E pensando agora percebo que antes disso tudo hoje cedo eu tava lendo o horóscopo de leão (que é minha lua e eu sempre leio) e mandando prints pro meu boy, que é leonino. Enfim, passei a manhã entre leões e agora me pula esse texto de amor pra vovó, afe, que loucura tanta sintonia... Foi tudo tanto que deu até vontade de vir aqui no blog, eu que ando bem mais que bissexta, sumida mesmo.  ❤

...

26/02/2017

26 de fevereiro. Há um ano atrás nesse dia eu iria casar no civil num cartório em Belém do Pará. Há um ano atrás nesse dia eu chegava sozinha em Barcelona com leveza de adolescente, com o alívio da vida inteira pela frente. Hoje é domingo de carnaval e eu estou em casa costurando uma saia. Não é pro bloco que eu costuro. É pra mim.

Abro a caixa de costura que era da vó materna, dentro dela uma caixinha de louça onde guardo as lantejoulas. É com os dedos dela que eu bordo. Com os olhos dela enfio a agulha na linha. A vó não aprovaria a saia carnavalesca feita de sacos de laranja, mas se orgulharia da minha habilidade na costura. Onde não havia nada, de repente, tudo.

Lembro da boneca de pano que fizemos juntas, os olhos de botão. Coisa de outro século, a infância dela transbordando pra minha. Lembro do travesseiro que ela me deu, cosido à mão, feito de paina de algodão com todas as sementes. Ele foi comigo pra Berkeley na grande viagem dos 21 anos, quando a vovó já não existia no mundo em carne e osso, só nos corações das pessoas, em objetos imantados de afeto e no olhar do vovô quando falava dela. No dia de ir embora embolei a roupa de cama e o travesseiro foi junto pra lavanderia do dormitório. Em meia hora estava eu num cômodo do tamanho do mundo com uns trezentos sacos pretos, abrindo um por um atrás do meu objeto amado. Achei ali pelo terceiro ou quarto, abracei o travesseiro, o homem da limpeza, enfiei ele na mala e trouxe de volta pro Brasil, pra depois perder em algum canto da vida do qual não tenho memória.

O amor não conhece a palavra fim. O amor só aumenta. O amor é de cada um. “Nada do que amei na vida se acabou e mal consigo andar tanto isso pesa”, disse o Gullar. Hoje é 26 de fevereiro. Domingo. Carnaval. Eclipse da lua em peixes. Minha avó morreu há uns vinte anos. Minha avó me abraça nessa manhã nublada e faz carinho nos meus cabelos compridos. “Princeza”, ela me diz, e abre seu sorriso de colar de pérolas. Alalaô, vó.


20.7.17

O Risco no Sesc

Dizer poemas na sede do Sesc Rio em plena manhã de chuva, assim sem microfone nem nada... O risco, os riscos...

Evento interno de apresentação do 16° Festival de Inverno Sesc, julho/2017.



De Maria Rezende, Risco.

17.7.17

A imensa revolução do amor próprio

Faz um ano que eu e Ana Alexandrino fizemos o ensaio de fotos que é o cenário do espetáculo Carne do Umbigo. Faz um ano que eu tomei um sacode ao me ver nua pela lente incrível da Cana e li o textão da Jen e escrevi o meu.

Ontem eu tive uma reunião com amigas prum projeto novo no qual tô a fim de botar pra jogo os ângulos ainda inéditos dessa sessão. Um ano em que eu me propus a me amar como eu sou. Um ano dessa imensa revolução.

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Senta que lá vem #textão.

Então hoje foi o dia em que a Jennifer Aniston, musa da minha geração, escreveu um textão dando um basta na pressão infinita de magreza como sinônimo de beleza que ela sofre há décadas. Ela é uma mulher de 47 anos, está casada e não tem filhos, e não pode ter um arremedo de barriga numa foto sem que anunciem em capas de revista que ela está grávida - ficando claro que se ela não estiver, e vier a público desmentir (porque afinal não dá pra fingir que tá grávida, né?), aí fica bem claro para todo o mundo que ela está é "gorda" mesmo.


Toda mulher sabe o que é essa pressão, mas nenhuma de nós a sofre tão publicamente quanto as mulheres famosas, especialmente as que ficam famosas por sua beleza. Semana passada eu tirei fotos sem roupa com a incrível Ana Alexandrino, recortes expressionistas de closões do corpo pra servirem de cenário pro meu espetaclinho. Quando acabamos a tarefa falei "Cana, já tô aqui pelada, bora fazer uns nudes preu guardar na pasta: Maria aos 37". Fotografamos, rimos um bocado, ela me disse: te mando as fotos e posso mexer no que você quiser, mas acho que tá tudo lindo. E eu disse: eu não quero mexer em nada, quero aproveitar pra ver como eu sou de verdade e aprender a me achar bonita assim, mas vamos ver se meu ego deixa… Mais tarde no mesmo dia ela me mandou uma das fotos dizendo "olha que linda você" e eu olhei e só via minha barriga, minha barriga imensa, minha barriga semi grávida.

Aí hoje eu vi a barriga da Jennifer Aniston na nojenta capa de revista, e pra meu espanto dei um suspiro egoísta: caraca, a barriga dela é que nem a minha! Pra em seguida me sentir péssima por encontrar alguma espécie de alívio numa situação tão escrota vivida por uma outra mulher. Pra em seguida me dar conta de que eu estava, ainda mais uma vez, me comparando a outra mulher, em busca de afirmação. Pra em seguida ler a carta dela e aplaudir de pé, e entender ainda mais uma vez que a gente tá imersa demais nessa cultura pra conseguir se safar dela racionalmente, e pensar que precisamos desesperadamente mudar esse padrão que só impõe sofrimento a todas as mulheres do mundo.

Pior ainda: que faz sofrer as meninas. Ontem jantei com uma amiga e sua filha linda de onze anos que me disse "tia Maria, as vloggers do Youtube, elas já acordam lindas! Sem UMA olheira!". Aos onze anos eu fui pra Disney e exigi: na volta iria ao médico de regime porque ia engordar muito de tanto comer cachorro quente. Essa aí de maiô e canga sou eu aos onze anos na Disney, sem coragem de usar biquíni. Na volta da viagem eu passei meses comendo sopa e carne e perdi bochechas e bunda, que afinal era tudo que eu tinha pra perder.

Aquela ali de calcinha, sutiã e aparelho nos dentes sou eu aos dezesseis no camarim da peça do colégio, na época em que frequentava o Vigilantes do Peso e vivia pesando ítem por ítem do prato: pesa o arroz na balancinha, agora pesa o feijão, agora a carne, agora come tudo frio mesmo e tá bom demais. Aquela ali abraçando a Marieta Severo sou eu aos dezessete, e olha a tal da barriguinha já ali, sempre ali comigo. Aquela encostada na parede, de vestidinho e saltão, sou eu aos trinta e sete, e minha amiga barriga continua comigo. Aquele closão de barriga de grávida ali embaixo sou eu também, sábado passado. Só que como a atriz famosa me ajudou hoje a conseguir dizer: eu não tô grávida não, tô é de saco cheio de não conseguir achar bonita a mulher que eu sou. Trinta e sete anos, Maria, se liga: essa barriga é a tua barriga, mana, para de brigar com ela que cês duas vão ser bem mais felizes. O melhor jeito da minha filha - caso ela venha um dia - não se detestar aos onze anos, é ter uma mãe que se curta com todas as suas partes. Obrigada Jen pelo sacode no mundão e aqui dentro também.


Essa aí de maiô e canga sou eu aos onze anos na Disney, sem coragem de usar biquíni. 
Essa aí de calcinha, sutiã e aparelho nos dentes sou eu aos dezesseis no camarim da peça do colégio, na época em que frequentava o Vigilantes do Peso.


Aquela ali abraçando a Marieta Severo sou eu aos dezessete, e olha a tal da barriguinha já ali, sempre ali comigo.

Essa encostada na parede, de vestidinho e saltão, sou eu aos trinta e sete, e minha amiga barriga continua comigo. 




Esse closão de barriga de grávida aqui em cima sou eu também, sábado passado. Só que como a atriz famosa me ajudou hoje a conseguir dizer: eu não tô grávida não, tô é de saco cheio de não conseguir achar bonita a mulher que eu sou. 


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Original da carta:
http://www.huffingtonpost.com/…/for-the-record_us_57855586e…

Em português:
http://www.brasilpost.com.br/…/para-que-fique-claro_b_10960…

EDIT:
Acrescentando link pro live que a Luana Piovani fez hoje, bem luanapiovanescamente mandando uma real que eu assinei embaixo:
https://www.facebook.com/luanapiovanioficial/videos/753016071468286/?pnref=story

EDIT #2:
Meu amigo François Wolf lembrou que Tarantino lacrou o assunto barriguinha com essa cena antológica do Pulp Fiction, que não só faz uma ode a ela como nos relembra que dane-se o que os outros vão gostar, e termina: é uma pena que o que é prazeroso pro toque tão poucas vezes seja prazeroso pro olho. Gracias François e muchas gracias Tarantino!
https://youtu.be/E2TAmGmsw-o

10.6.17

Poesia por aí


Durante a turnê na Europa nasceu sem plano nem pompa uma nova playlist no meu canal do Youtube. #poesiaporaí na verdade nasceu como hashtag de vídeos no Instagram, e a Liv, minha produtora & camerawoman maravilhosa, pirou na idéia: temos que fazer em TODAS as cidades!! Claro que não rolou, né? Mas agora, já em casa, baixando e revendo as milhares de fotos e vídeos, não tem como deixar a ideia morrer.

"Poesia por aí" é poesia dita pelas ruas, e nessa viagem foram muitas ruas de muitas cidades... Aqui os três primeiros!

#umbigonazoropa #turnêdasmina #poesiaporaí






27.5.15

Na tv em BH

Alegria imensa minha ida a Belo Horizonte pra lançar o Carne do umbigo com recital lindo no Sesc Palladium, misturando poemas ao vivo com vídeos. Bati um papo ótimo com o João Eugênio, do programa Culturall, da TV Horizonte, sobre o livro e meu trabalho.

7.11.14

Eu e a Gávea


Ontem, no caderno Zona Sul do Globo, eu conto um pouco do que amo no meu bairro, falo dos projetos e convido pro lançamento do livro, 4a feira, dia 12 no Olho da Rua. Espero vocês!

Pra ler a matéria e ver outras fotos lindas clica aqui.

31.10.14

Amor de mãe leoa

Há um tempo encontrei uma carta que meu pai me escreveu quando eu nasci, e vim aqui exibir esse amor tão profundo que eu tenho a sorte de viver em casa. As caixas e gavetas continuam me presenteando: em busca de uma chave mágica que abre o móvel da minha cabeceira, onde com sorte se encontram documentos de que eu preciso muito hoje, achei outra carta, agora da minha mãe. Não tem data mas pelo assunto é do começo dos anos 2000.

Eu era uma menina de uns 22 anos, recém formada, tinha tido um único namorado e estava com medo de estar "meio fria" pro mundo. Hoje tô na beirinha dos 36, prestes a lançar meu terceiro livro, descobrindo que eu sou minha própria editora, que tenho experiência e estrada pra isso, arriscando como nunca, inventando um espetáculo no qual andarei sobre os ares, com um estoque de talas e tiger balm pras quedas que já sei que virão. Fica claro que a mulher que eu sou foi forjada por essa que aí escreve: "energia, aventura, risco e alegria e assim o equilíbrio". Essa é ela. Essa sou eu.

O amor anda comigo de mão dada desde que eu nasci, as cartinhas me acompanham desde lá e pra sempre, e eu só posso agradecer.



20.4.14

Anônimos




Hoje ano passado acordamos com sinos e fogos de artifício. Pela janela do hotel dava pra ver a multidão, a carroça da qual os fogos saíam, e a banda vestida a caráter, os padres e tudo mais. Domingo de Páscoa em Florença é pra impressionar até os ateus - que dirá eu, que amo rituais. Num trem dias depois, enquanto dormia minha irmã e o mundo passava derretido pela janela, nasceu esse poema.

Talvez porque vendo o mundo a gente vê que se carrega pra onde vai, e que tudo é sempre provisório, principalmente quando as malas são invisíveis.
Só por hoje é o lema dos Alcóolicos Anônimos.

É o meu. Porque a vida é hoje e só por hoje, sempre.

15.4.14

Celebrando a parceria







Quinta, dia 17, eu e Thereza Rocque da Motta convidamos pra Ponte de Versos comemorando os dois anos da nossa parceria com o relançamento do meu primeiro livro.

O substantivo feminino nasceu independente em 2003, logo esgotou a tiragem de mil exemplares e ficou fora do ar por uns bons anos até a Thereza me fazer esse convite de reeditar pela Ibis Libris Editora.

Convidei amigos queridos pra lerem esses que são meus primeiros poemas, e vou fazer pela primeira vez no Rio um recital grande misturando os clássicos e os inéditos. Parece loucura pensar que já tem mais de quinze anos que digo poemas por aí, já fiz recitais assim em Porto Alegre, em Recife, em Portugal, mas não na minha cidade.

É agora. Muito feliz. Espero vocês pro abraço.

9.4.14

Questão de família estreia no GNT






Estreia hoje, às 22h30, no GNT, e eu não podia estar mais feliz. Montagem minha e do Leonardo Gouvea e assistência do João Coimbra Marinho, minha estreia montando ficção com o super Sergio Rezende, com roteiros deles e do Rodrigo Lages, produção de Mariza Leao e Erica Iootty, direção de produção de Thiago Pimentel, repetindo a parceria com os queridos e talentosos Dante Belluti na fotografia, Fabiana Passos Egrejas na direção de arte, Mel Akerman no figurino. Trilha do Miguel Briamonte, finalização de imagem da Afinal Filmes, edição de som e mixagem Gustavo Loureiro e Tomas Alem. Um elenco de dar gosto: Du Moscovis, Malu Galli,Georgiana Góes, Luiza Mariani, BellatrixSerra Carrijo, Pablo Sanábio, Iano Salomão, Pedro Brício e participações especiais de atores pra quem eu faço muito uau como Cristina Flores, Ernani Moraes, Marcia Cabrita, Leticia Colin,Raphael Logam. No episódio 1 quem dá show são os incríveis Isabel Guéron eMárcio Vito. Pra quem é futeboleiro e já sabe que vai perder na 4a à noite aí vão todos os horários - e olha que são muitos!

3.3.14

Um sol

Dez anos sem Tonho no mundo.
Nem um dia sem ele no peito.
É carnaval, eu ando vestida de bananas e hoje o sol se fez carne em purpurina.
O afeto, que é eterno, ilumina a segunda-feira e a vida inteira.
Saudades, meu amigo.



1.11.13

Everton Behenck no Rio hoje!

Hoje na Travessa de Ipanema é lançamento de dez autores gaúchos, entre eles o querido Everton Behenck, poetaço de quem eu sou fã e tive a sorte de virar amiga. Eu devoro o blog dele e hoje umas 20:30 vou lá ler os meus preferidos, coisas fodonas como esse poema que eu gravei ano passado e não cansa de me emocionar.


30.10.13

O passado de "Meu passado me condena"

Quatrocentas e vinte mil pessoas foram ao cinema esse fim-de-semana ver Meu passado me condena. 420.000 pessoas. É gente pra caramba. É uma estréia de arrasar, e aponta que o filme vai ser um sucesso de bilheteria, e a gente, que trabalhou nele, comemora e brinda. Quem olha de fora ou tá chegando agora pode pensar que isso estava escrito nas estrelas, que fazer um filme num cruzeiro de um grande navio com o Fabio Porchat é uma garantia de dinheiro entrando pelas catracas dos cinemas, e que esse devia mesmo ser o plano desde o início. Podia ser, sabe? Viver de cinema é como viver de advocacia ou de medicina: tem o sonho, o desejo de fazer o melhor, tem o cotidiano do trabalho, o dia-a-dia árduo do mundo real, e tem o fato de que é preciso viver do que se faz. Ganhar dinheiro com cinema é como ganhar dinheiro com qualquer outra profissão: necessário e muito desejável.

Só que nesse caso é tudo uma surpresa, e o filme ganhou tanta projeção que às vezes até eu mesma, que estou lá desde o começo, me distraio e me esqueço do quão inusitado é todo esse espaço e essa boa recepção.

Era uma vez uma jovem que termina um namoro, sofre horrores e descobre no meio das lágrimas o blog de uma outra cheio de textos lindos e ácidos sobre o amor e seus desdobramentos. A primeira, Julia Rezende, minha irmã, vira fã de carteirinha da segunda, Tati Bernardi. Muitos anos depois, Julia é diretora de cinema e televisão e prepara o roteiro do seu primeiro longa-metragem, Ponte Aérea, escrito em parceria com Rafael Pitanguy, sobre a história de amor de uma publicitária paulista e um artista plástico carioca. Depois de muitas versões do roteiro, ela tem a ideia de convidar aquela escritora que tanto admira, que fala de amor com emoção e ironia, pra colaborar no roteiro. A parceria não vinga pra esse projeto mas rende outro: juntas, as duas começam a desenvolver um projeto de série de televisão sobre um casal que se conhece e se casa depois de apenas um mês de convivência, vai passar a lua-de-mel numa pousada na serra e lá começa a realmente se conhecer e descobrir os podres do passado um do outro. Apimentando a receita, os donos da pousada são um ex-casal amargo e trambiqueiro que só aumenta as confusões.

Era uma vez uma produtora de cinema querendo abrir suas asas para a televisão, num momento em que uma nova lei foi aprovada determinando que os canais a cabo tem que ter uma parcela de sua programação de conteúdo original produzido no Brasil. Essa produtora é a minha mãe, Mariza Leão, responsável por filmes importantes desde o começo dos anos 80 e por algumas das maiores bilheterias do cinema brasileiro recente. Julia apresentou o projeto pra Mariza e juntas elas o ofereceram ao Multishow. Nascia aí Meu passado me condena, série em treze episódios.

Fabio Porchat e Miá Mello eram comediantes talentosos de que muito pouca gente tinha ouvido falar, Inez Vianna e Marcelo Vale, grandes atores de teatro, completavam o elenco principal, e Julia Gorman e Rafael Sieg eram os ex-namorados que mudavam a cada episódio. Agrana era curta então tudo foi pensado pra ser gravado no sítio da nossa família, onde equipe e elenco ficaram hospedados por cinco semanas enquanto o trabalho acontecia. A equipe era toda de amigos feitos no trabalho, nas outras duas séries que a Julia tinha dirigido para o Multishow. Gente jovem, cheia de gás, muitos começando a assinar trabalhos como chefes de equipe, todos vibrando na mesma sintonia pra fazer um programa bacana, inclusive eu que não estava no sítio e sim no Horto, na ilha de edição, montando tudo.

No meio das gravações foi lançado o Porta dos Fundos. Muito rapidamente Fabio Porchat virou um ícone, um nome, um rosto conhecido e admirado no Brasil inteiro. Ao mesmo tempo, um produtor argentino procurou a Mariza com uma proposta de fazer um filme num navio de cruzeiro numa viagem do Rio pra Europa. Ele tinha produzido um filme assim na Argentina e o navio estava aberto pra fazer outro. Eles não davam dinheiro, mas ofereciam uma locação improvável e linda e hospedavam equipe e elenco na travessia. Só que ela tinha que desenvolver um projeto que se encaixasse nesse perfil, e um casal em lua-de-mel era perfeito pra um cruzeiro intercontinental. Mariza propôs, o Multishow topou ceder os direitos, Tati começou a trabalhar feito louca no roteiro de um longa, Mariza fechou parceria com Paris Filmes, RioFilmes e Globo Filmes, e conseguiu o dinheiro numa velocidade estonteante. Era o começo de Meu passado me condena - o filme. Quando tudo parecia perfeito perdemos o navio. Eles fecharam com outra produtora, outro projeto, outro filme. Subitamente a gente, que começou tendo só um navio e nada mais, tinha tudo menos um navio.

Começou-se a pensar em opções. Filmar num resort. Num cruzeiro curto, Rio-Búzios, indo e vindo cinco vezes pra dar tempo de fazer todas as cenas. Mas a Mariza é tinhosa e conseguiu um baita navio, o Costa Favolosa, que saía do Rio rumo à Itália em março desse ano. Seis meses depois da ideia do filme ter surgido, lá estávamos nós no porto do Rio embarcando nessa aventura. Alguns novos parceiros na equipe, reforço de Juliana Didone, Alejandro Claveaux e Rafael Queiroga no elenco, além de participações especialíssimas como a da Elke Maravilha.

Foram vinte e um dias no mar, cinco sem ver terra. Paradas em Ilhéus, Maceió, Recife, Tenerife, Funchal, Marseille, Casablanca, tantas cidades. Mais tons de azul do que eu sabia que existiam. As dificuldades de fazer um filme em um cruzeiro de verdade, com três mil passageiros, dois mil tripulantes, contando com a compreensão de todos pra fechar piscinas ou salões pra podermos filmar, e aproveitando o entusiasmo dos passageiros que adoravam fazer figuração. Eu tinha uma cabine-ilha-de-edição, um cantinho escuro onde eu passava os dias montando as cenas filmadas dois dias antes. 

Sabe aquele papo de que navio não balança, afinal é um edifício de treze andares, muito grande, muito sólido? Balela. Balança. Bastante. Ou pelo menos foi o que me pareceu a partir do quarto dia, quando eu comecei a passar bem mal. Chegando no Rio fiz exames e soube que era dengue. Imaginem. Não fui à piscina, não fui às festas na véspera das folgas, não fiz aula de salsa, não bebi no bar vermelho. Mas montei um filme sobre as ondas. E conheci muitas cidades. E fiz amigos.

Chegamos na Itália e lá filmamos mais três dias. Muita gente da equipe nunca tinha ido à Europa e agora estava trabalhando lá. Julia fez aniversário, 27 anos.Voltamos pro Rio e o trabalho continuou: terminar de montar, fazer trilha, editar o som, corrigir a cor, mixar. Nas primeiras sessões do filme para os distribuidores a surpresa: eles acharam que tínhamos ouro nas mãos. Uma comédia romântica, engraçada, emocionante, bem filmada, elenco tinindo, cenários incríveis. E nosso filme nascido no susto começou a ganhar corpo de gente grande, e começou a ser pensado um lançamento poderoso, muito maior do que o previsto anteriormente.

Aí chegamos a hoje. Quatrocentas e vinte mil pessoas em três dias. É o décimo melhor fim-de-semana de abertura de um filme brasileiro desde a Retomada. Faremos um milhão de espectadores até o fim-dessa semana. A gente se espanta, a gente comemora, a gente brinda e agradece. Talento, trabalho duro e sorte são uma combinação explosiva. Esse filme nasceu regido por esse trio. E eu, que já me incomodei muito de trabalhar em família, celebro a estreia na telona da minha irmã, uma diretora tão jovem e tão determinada e segura e afiada, e a alegria de ser parceira dela em todos os seus projetos até hoje.

E enquanto o filme nos dá tanta alegria nos cinemas, estreia hoje a segunda temporada da série: Fabio e Miá depois da lua-de-mel, morando em Santa Tereza e descobrindo os desafios da vida cotidiana. Meu passado me condena. Nos cinemas de todo o Brasil. Na tela da sua tv toda quarta-feira às 23h no Multishow. 

Agora é se preparar pro Ponte Aérea - lembram dele? O primeiro projeto virou o segundo filme e ano que vem ao invés de um navio intercontinental estaremos entre Santos Dumont e Congonhas, Rio-Sampa, filmando a história de amor de Amanda e Bruno. Outro projeto, outro desafio. Não é comédia, não deve bater recordes de bilheteria. É o filme com que a Julia sonha há cinco anos, e eu mal posso esperar pra botar a mão na massa com ela de novo.


Lembranças da primeira temporada da série no sítio:









Lembranças da nossa aventura al mare:

No porto do Rio


Heloísa Rezende, nossa produtora executiva, embarcando


Quarto com varanda é mó legal

Elke e a plaquinha que acompanhava a filmagem pra todo lado

Início das filmagens numa das piscinas

No porto de Salvador

Almoçando acarajé com Mel e Fabi

Fabio, Miá e nossa super figurinista Mel

Tentando melhorar do enjôo que afinal era dengue

#semfiltro

Vendo as primeiras cenas montadas na hora do jantar

Miá, Mel, Ju, Fabi e suas roupas de bichinhos

O famoso bar vermelho, point das noites que minha dor de cabeça não me deixou frequentar
Luz e Bia na folga em Funchal

Tiau Funchal

Ilha de edição sobre as ondas



Filmando no deck do tobogã


Julia pensando o próximo plano

Al mare!

I'm the corno of the world!

Foto de equipe no por-do-sol

Foto de equipe em Savona

Fabio, Ju e Miá no 1o dia de filmagem no Rio

Queiroga, Fabio, Inez e Marcelo na Itália

Mariza e sua tradição de bater claquete em todos os filmes

Os protagonistas e a diretora

Alegria no restaurante

Aproveitando a falsa folga em Casablanca

Azul-oceano-Atlântico devia ser o nome dessa cor

Congelando na Itália

Com mamãe Mariza em Savona
   

Tiau Costa Favolosa com a Ju

Hotel de frente pro mar



Os italianos chamavam ela de "la registra"