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19.6.14

Minha Copa muito particular no Ornitorrinco

10 CONSIDERAÇÕES EM TEMPOS DE COPA 

 



1. Eu não gosto de futebol. Das melhores coisas de morar sozinha depois de muitos anos namorando e casada é não ter som de jogo em casa há quase quatro anos. Descobri então que essa é a minha primeira Copa do Mundo solteira no século 21, e que a depender de mim podem correr pernas holandesas, italianas e croatas sem que eu me comova ou mova ou músculo pra ligar a tevê.

Pra ler as outras nove: http://www.ornitorrinco.net.br/2014/06/10-consideracoes-em-tempos-de-copa.html

8.8.13

República Ornitorrinco hoje na Comuna



REPÚBLICA_ORNITORRINCO é quando abrimos para o público a nossa sala de redação onde discutimos as próximas pautas e conversamos sobre os acontecimentos da semana.

Como o universo do ORNITORRINCO é repleto de irreverência e descontração ao mesmo tempo em que aborda assuntos sérios e contemplativos, REPÚBLICA_ORNITORRINCO é essa transposição para o formato ao vivo. Os colunistas estão presentes debatendo alguns temas de suas escolhas e outras surpresas sobre a semana e o mundo.

Depois os colunistas Letícia Novaes e Vitor Paiva assumirão as pick-ups em sets junto do fotógrafo-DJ Camilo Lobo.

A entrada é gratuita.
Vai rolar bebidas, comidas, bate-papo, projeções, músicas.

19h30 - Primeira Parte
20h30 - Segunda Parte
22h30 - Terceira Parte

Tudo respeitando a falta de pontualidade, claro.

ORNITORRINCO
www.ornitorrinco.net.br

18.6.13

Meu coração no Ornitorrinco

Essa noite eu dormi na casa dos meus pais. Isso só acontece em raros casos de festa muito boa. Ou de morte.

Eu ontem fui pras ruas com milhares de brasileiros. Cem mil. Me entendam, eu não sou uma pessoa politizada, e me envergonho um pouco disso. Só me esforço pra acompanhar as notícias mais de perto em época de eleição, porque entendo o poder que o meu voto tem. Eu não estava na primeira manifestação contra o aumento das passagens. Nem na segunda. Mas acompanhei de longe e meu coração foi se inflamando com o que eu via até ser impossível não participar. Eu fui com medo, com vinagre na mochila e roupa sintética pra amenizar os efeitos do gás lacrimogênio, eu fui com medo e pensei que se eu, apolítica, medrosa, estava ali, muita gente também tinha tomado coragem e saído de casa, e era gente demais pra polícia atacar diante do olhar atento do mundo.

Tomamos as ruas da minha cidade com flores, música, gritos e cartazes. Foi assim pelo Brasil inteiro, pelo mundo afora, uma mobilização coletiva como eu nunca tinha visto acontecer. Cada um levando a sua cidadania e o seu desejo de mudança, de um país melhor, com transporte público de qualidade, com a saúde e a educação tendo mais importância do que a copa, com os brasileiros sendo mais importante do que a fifa, com menos corrupção, com uma polícia que atenda ao povo e não seja inimiga dele, um país em que o direito de protestar continue sendo um direito garantido por lei, e no qual jornalistas possam exercer seu trabalho sem ser alvo de violência. Essa, mais do que todas, era a minha bandeira, repetida em coro por centenas de milhares em todo o país: sem violência.

Voltei pra casa com o coração leve. Orgulhosa do que fomos capazes de erguer ali. Horas depois voltei ao centro da cidade com os olhos inchados e o coração em frangalhos. Depois de quatro horas de protesto pacífico, baderneiros fizeram da violência a notícia. Invadiram e incendiaram o prédio da Alerj, atacaram policiais, quebraram bancos e lojas. Uma delas era a do meu irmão, uma franquia das Havaianas na Rua São José, quase em frente à Alerj, no olho do furacão.





Quando começaram as notícias sobre o tumulto ele acompanhou de casa, pela tv, já temeroso de que a confusão pudesse chegar até lá. Das 19h às 22h viveu e reviveu o medo de perder seu negócio construído com muita dedicação e trabalho árduo e entusiasmado. Às 22h seu medo virou fato. Às 23:30 virou imagem: uma família caminha pelas ruas de uma cidade no pós guerra, focos de incêndio, cheiro de fumaça, caminhões dos bombeiros parados perto da loja, não, em frente à loja, quebrando a parede de uma loja, não: quebrando a parede da sua loja. ´É uma visão dantesca. O sonho é posto à prova, o coração pensa que não vai aguentar, as pernas não sabem falar essa língua, você de repente é aquele homem no Jornal Nacional que chora diante do seu patrimônio perdido, você é abraçado, pessoas gravam com celular, você recusa entrevista para o repórter do Pânico, você devia estar em pânico mas subitamente é tomado por uma espécie doida de calma. Durante horas ficamos ali, respirando fumaça, as bolsas cheias de sacos de lixo que serviriam pra tentar recuperar parte do estoque que também foi incendiado. Comemora-se cada pequena vitória. Os móveis das paredes não foram, como os outros, arrancados pra virar fogueira na rua. Nenhum funcionário foi ferido. Estamos vivos. Vamos nos reerguer.

Parados ali na rua mil perguntas povoavam as cabeças e as bocas. Como podem bandidos com desejo de destruição macular um movimento pacífico e belo? Por que destruir um prédio histórico? Por que destruir lojas particulares? Ao invadir e saquear, por que colocar fogo no final? E onde estava a polícia que na véspera atirava bombas de gás lacrimogênio sobre famílias e manifestantes pacíficos no entorno do Maracanã? É criminoso atacar a população indefesa e que não representa nenhuma ameaça. É igualmente criminoso deixar bandidos agirem livremente causando pânico e destruição.

Em meio à dor profunda do meu irmão, cada um de nós carregava seus sentimentos. O meu incluía uma tristeza imensa, muita indignação e uma parcela de culpa por ter participado de um movimento que acabou gerando aquela destruição. Fiquei pensando que se não fosse a loja do meu irmão, se eu não estivesse ali naquela calçada, provavelmente pensaria vendo o noticiário que aquela pequena destruição era horrível mas ínfima comparada à força construtora da passeata da qual eu acabava de participar. Só que de repente não era. E eu fui obrigada a entender de dentro que os números não dizem tudo. Cem mil pessoas. Vinte lojas destruídas. Vinte vidas. Vinte famílias. Vinte caras que pegaram empréstimo no banco, planejaram cada passo, escolheram um ponto, fizeram reforma, contrataram funcionários, pagaram altos impostos, arriscaram, sonharam, suaram, comemoraram cada vitória. As havaianas são uma empresa enorme, uma marca brasileira que virou símbolo da leveza carioca e anda democraticamente nos pés de ricos e pobres, de famosos e anônimos, em vitrines internacionais, bancas de jornal e supermercados. Aquela loja era do Tiago, brasileiro, 32 anos, filho do Sergio e da Mariza, irmão da Maria e da Julia, noivo da Clara.

É uma espécie de morte. Nós ali juntos velando aquele sonho, pensando em como seguir a vida depois da perda. De manhã, passado o choque, uma súbita certeza: o horror que vivemos não pode macular a beleza e a potência do que aconteceu ontem no Brasil. E embora eu tenha medo do que possa acontecer na próxima manifestação, medo de pensar em outros homens vendo destruídos seus negócios, seus sonhos, penso que é em nome deles que esse movimento não pode morrer na praia. Pra que a nossa dor de ontem não tenha sido em vão, pra que a violência não vença, pra que tenhamos algum dia paz e voz, vamos pras ruas com as nossas flores e o peito aberto. É terça-feira no rio, faz sol, a vida segue. Tem gente que tem ódio no peito e espalha o horror. Nós temos amor.



http://www.ornitorrinco.net.br/2013/06/o-rio-em-chamas.html

11.5.13

Minha estreia no sítio zoológico

OITO MOTIVOS PARA SORRIR

por Maria Rezende


Um) A Julia Mares, porque é uma garotinha adorável que fala meu nome sem me ver em tardes do meio da semana e é ao mesmo tempo uma pessoa inteira e um pedaço de duas pessoas que eu amo e todo esse amor, o meu por eles, o deles por mim, se derrama sobre a cabecinha dela em gargalhadas e olhos marejados.

Dois) Eu desbravando o vento sobre uma bicicleta. Porque levei trinta e quatro anos pra ganhar roxos na coxa e graxa nas canelas, porque arranquei a etiqueta de mais esse "não" da minha testa, porque ali tenho quatro anos incompletos, e tudo é conquista e a alegria da descoberta.


Três) Dançar axés escolhidos a dedo em manhãs de domingo na sala de casa ou em terças-feiras ensolaradas na areia da praia com o mar lambendo os pés, num canto rebolando descarada, noutro segurando os quadris com a discrição possível. Porque sim.

Quatro) Bebês e gatos. Bebês sempre, gatos agora. Bebês quaisquer, gatos em especial uma fêmea branca que soltava pêlos nas minhas calcinhas e que eu nunca mais vi e provavelmente nunca mais verei mas pra quem eu sorrio em pensamentos e fotos. Gatos e bebês. Bebês brancos, bebês pretos, encasacados, de olhos puxados, bebês de sunga, bebês trigêmeos, bebês primos e bebês distantes, em carrinhos ou no colo, mais ao vivo que na tv, mamando, dormindo, fazendo a careta do cocô, abrindo os olhos em câmera lenta, sorrindo sem querer. Porque eu tenho útero e ele fala.

Cinco) Dias de sol e céu azul sem suor escorrendo atrás dos joelhos, porque a vida é uma sacana maravilhosa e eu não resisto quando ela bota biquíni de lacinho e desfila gostosa assim na minha frente.

Seis) Um bom poema. Pode ser triste, lírico, pesado, rimado ou não, irônico ou delicado. Quase sempre em português, quase nunca em tradução. Quando ele é meu e acaba de cair no mundo - caneta afora, afeto adentro - o olho brilha junto com a boca. Porque o encanto da poesia não gasta jamais.

Sete) Acordar apaixonada. Estar apaixonada a qualquer hora, mas as manhãs vêm com uma safra especial de sorrisos pro meu rosto. Porque acordar com um homem amado dormindo ao lado é voyerismo sem binóculos, porque é ver o amor começar outra e outra vez, porque o rasgo de sol que invade o quarto ilumina o sentimento, porque quando é ele que acorda primeiro o amor dele me desperta como um vento leve, porque tudo que é bom fica ainda melhor de manhã.

Oito) A infância em recortes da memória. Porque ela foi foda. Porque ela ainda é, porque eu sou aquela menina com mais peito, com mais pernas, com mais roxos por dentro e por fora, com menos dentes moles, com o coração mais duro mas cheia da mesma alegria, da mesma esperança, da mesma capacidade boba de achar a vida boa e sorrir com muito mais que oito coisas. 



Maria Rezende é poeta e montadora de cinema, publicou os livros "substantivo feminino" (ibis libris) e "Bendita Palavra" (7Letras).


Quer ler o bixo todinho? 
Todas as colunas e colaborações? 
Passa lá no nosso sítio-zoológico:
www.ornitorrinco.net.br

5.5.13

Alegria domingueira

Acordei e pulei no jornal pra ver como tinha ficado a matéria sobre o ORNITORRINCO na Revista do Globo. Tão legal ver nosso trabalho de formiguinha, especialmente o do Gabriel Pardal, inventor e manivela de funcionamento da coisa toda, sendo reconhecido e espalhado assim! Orgulho&alegria de ser bixo com esse pessoal! Agradeço até o fim dos tempos a ele pelo convite e pela alegria cotidiana de ser parte de um grupo, mesmo que a gente pouco se veja ao vivo, porque estarmos juntos nessa canoa é especial. 





A matéria no jornal vem num momento bacanudo em que paramos as edições quinzenais enviadas por email só pra assinantes - depois de chegar ao #50! - e viramos sítio, gentes, passem lá: www.ornitorrinco.net.br. Além disso, daqui a dois domingos, dia 19 de maio, estaremos quase todos em Porto Alegre, encerrando a querida e amada Festipoa Literária com a segunda edição do República Ornitorrinco, espécie de sala de redação com os colunistas conversando ao vivo, e a cereja do bolo: lançando nosso livro! Sim, o Ornitorrinco virou livro com as dez edições mais legais escolhidas pelo super editor Pardalino, e o lançamento intergaláctico é em POA. E na véspera, no sábado dia 18 às 22h, ainda tem recital meu dizendo poemas do Vinícius no Meme Santos de Casa Estação Cultural. Eita vidinha boa...

3.3.13

O bicho e a amizade





Essa edição foi do Ramones. Sobre amizade. Ele é meu amigo, o Ramones. Muito antes de sermos colegas do bicho. A nossa amizade começou num dia em que ele foi me entrevistar prum blog sensacional só com novos escritores que ele inventou e realizava lindamente, e rolou aquele clima de intimidade logo de cara, e a conversa nunca que queria acabar, e uns dias depois estávamos jantando juntos, e aí foram festas, tardes, almoços, conversas, risadas, aniversários, uma amizade muito da gostosa e que eu adoro. E aí o moço inventa o tema pro zine "Amizade", e eu perco a hora. O Ornitorrinco ficou lindo, emoções e exposição na medida, e se ainda desse tempo eu ia escrever bem assim:

O Pedro. A Fê. O Edu. A Camilove. Paulete. Juba. Ramones. Marcildo, a Chueka, Caroles, Anauê. Jojô, Letrúcia, Pardalino, Keli, Aninha, Fabi, Vinha, Dona Dani, Primo Kuzkão, meu irmão, a Andrea da pré-escola, a Cella em Andrelândia, a Sol, a Rê, o Pim, o Lucas um dia, o Tonho até ele morrer. A Carol, a Nana, a Beta, Ciça, Lu, Laurinha, a Alice, a Lelê, você.



Pra ler o bicho todinho, e todas as edições antigas passa aqui ó.

21.1.13

Ornitorrinco estreando em 2013

ORNITORRINCO
[#044] 20 de janeiro de 2013
Tiragem: 450 assinaturas
 
ALGUÉM MUDA NINGUÉM

 
OLHA-LÁ
> por Maria Rezende

Meu nome é Maria, eu tenho 34 anos e essa semana dei uma volta de bicicleta na Lagoa pela primeira vez. Meu nome é Maria e eu tirei a etiqueta que dizia "não" na gaveta que diz "bicicleta" na minha vida. Meu nome é Maria e eu mudei. Eu me mudei. Eu mudei meu mundo. Eu mudei o mundo. Eu mudei.
 
 
Essa é a edição de "oi 2013" do Ornitorrinco. O Ornitorrinco é o nosso zine, meu, do Pardal, da Letícia, da Keli, do Ramon, do Domingos, do Gabriel, do Franco, do Julio, do Vitor. Ele é um bicho meio esquisito e muito legal, a gente escreve o que quer e domingo sim domingo não ele chega na caixa postal de quem escolhe receber. Hoje foi dia de sim e era pra falar sobre mudar, se mudar, mudar alguém. Alguém muda alguém? O bicho ficou supimposo, mó orgulho de ser parte dessa turma.
 
Quer ler todo mundo? Edições antigas? Assinar? Passear pelas patas e pêlos desse negócio? Vai lá ó: http://ornitorrincozine.tumblr.com/

27.8.12

Ornitorrinco #36


5:15 da manhã na floresta. Barulho de cachoeira que aumenta, mais do que quebra, o silêncio. Céu pretinho, sirene na distância, manta nas pernas, o branco da tela do computador. Em algum longe um cão uiva, em algum canto uma gata branca de rabo preto dorme culpada. Uma noite mal dormida e serena. Cocô, tosse, leite quente: brincar de ser mãe na madrugada.
Depois escrever. Os galos começam a cantar ainda tímidos, o céu já azulou marinho ou é só desejo? Ver amanhecer é raro e bom pra quem nunca foi monge nem vigia noturno. Silêncio. Ele hoje quer dizer: fim da tosse, nenhum miado, a eternidade líquida da cachoeira.
Ler Clarice e descobrir que não foi acaso nunca ter lido Clarice. Não gosta de Clarice, e sabe que é inevitável que isso soe como burrice ou provocação. E no entanto descobrir que depois de umas páginas de Clarice escreve diferente. "A eternidade líquida da cachoeira". Mas ao contrário de Bethânia não queima nunca o trabalho dos dedos, não rasga e quase não reescreve. Deixa o cheiro de Clarice entrar, sem devoção ou repúdio. "Repúdio". De novo.
Agora sim, o azul é fato. A imbaubeira já se revela pelo vidro da janela. Já desejou um vestido cor de céu de quinta-feira com estampa de imbaubeira. Tom de amanhecer de fim-de-semana também é bonito. Lembra da história contada pela avó, a princesa com um vestido de céu estrelado com todas as constelações, outro de fundo do mar com milhares de peixinhos, e mais quais mesmo? Eram sete. Sempre são sete. Anões. Vestidos. Anos de diferença.
Mais galos. Mais folhas recortadas contra o céu que clareia. Do outro lado do vale duas luzes são as únicas lembranças de que o mundo existe fora daqui. 
Aqui louças na pia, um cobertor feito de sonho, uma pedra de sal dos Himalaias, uma samambaia magrela. O dia nasce azul bebê na montanha. Faz frio, a lombar reclama, a cachoeira derrama, escrevo. No quarto ao lado um homem dorme. O sentimento não. O sentimento é o insone mais feliz do condado. 

.:. Dessa vez era tema livre, e pra mim a madrugada virou beleza. A Letícia sente saudades de telepatia, o Ramon quer muitas páginas, o Julio tá sanguinário, a Keli teve uma epifania podológica, o Franco vislumbrou um carná carnal. Ficou supimpa, viu? Recomendo.


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Letícia Novaes > letstellar@gmail.com
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Editor
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ORNITORRINCO

NOMEDACOUSA
brinquedos&bombas

11.6.12

Ornitorrinco #31

A ediçao #31 ficou supimpa. Era pra falar de uma 3a feira aí, e eita que o pessoal pirou e cada texto foi prum lado, deliciosamente.

Pra ler tudinho em versão deluxe clica aqui ó.

Pra ler o meu, continua lendo ué.



OLHA-LÁ 

A 3a feira

.acordar sozinha e feliz embaixo de borboletas brancas e pássaros em pleno voo
.adolescentemente empilhar roupas sobre a cama
.como se já não estivesse na hora de sair, costurar a calça que decidiu usar, herança de figurino de filme, os quadris da atriz quase exatamente iguais aos seus
.café-da-manhã com morango e mamão no banquinho da cozinha ouvindo a nice contar sobre a moça expulsa pela avó com o bebê de um mês que ela acolheu em casa
.pagar a nice com o dinheiro do salário da fátima, diarista da casa do horto onde é sua ilha de edição - como sempre o fim do mês chega de surpresa
.sair atrasada e encontrar o carro preso na vaga pelo do seu luís, do 602, que se recusa a deixar a chave na portaria
.mal humor caindo feito um raio sobre a cabeça, com raiva no coração e palavrões em voz alta
.espanto com o mal humor, artigo realmente raro nas manhãs
.cantar pneu ladeira acima quando finalmente, dez minutos depois, o carro sai da garagem
.não achar vaga na rua do trabalho em botafogo - empresa grande, vaga é ouro -, mais palavrões pro homem do vaga certa que insistiu que o carro cabia na vaga em que ele claramente não cabia
.palavrões a caminho do estacionamento pago 
.ódio no coração ao ver que o carro teria mesmo cabido na vaga se o homem do vaga certa tivesse empurrado o da frente - coisa que ele só faz pra quem paga uma grana mensal e deixa a chave - rárárá, homem do vaga certa, eu nunca deixarei com você a minha chave
.trabalho normal, silencioso
.mensagens amorosas no telefone, desejos de praia e mergulhos e reconhecimento do privilégio do encontro
.comidinha da ceição no refeitório da empresa com papo com nívea, da recepção, sobre as condições de trabalho e a equação freela x carteira assinada
.emails de trabalho, negociação de salário, ainda desconfortável, mas cada dia menos - aprende-se, na vida, e como é bom
.telefonema da moça que quer um gatinho, planejamento da entrega do gatinho
.terapia, nenhum assunto candente, risos ao contar da bronca da osteopata e da proibição de atividades na vertical, a percepção de que apesar do fim-de-semana de absoluto relaxamento o corpo está cansado, talvez porque a decisão de que em três semanas haverá férias o deixe livre pra finalmente protestar contra o trabalho contínuo do último ano e meio
.sacar dinheiro para repor o pagamento da fátima, a diarista da casa do horto, e no caminho comprar empadas na lanchonete em frente ao ponto de ônibus que leva do trabalho à casa, quando está trabalhando na sua própria sala
.limpeza de pele: muita dor e uma inédita resistência à dor, e no fim o prazer do rosto lisinho, modelo bunda de bebê
.passar na casa do horto e deixar o pagamento da fátima sobre a mesa, e sentir saudades de estar ali
.chegar em casa já na hora de sair pra exposição da suzanna mas no laptop há pequenas pendências: pagar contas, escolher pantufas na internet, responder emails, enviar mp3 de poemas pro samuel do radiocaos
.aceitar que apesar do muito desejo não vai à exposição da suzanna - uma pena, saudades, vontade de ver o globo terrestre girar com as belezas dela
.nhoque de aniversário da fabi, comida delícia sem nota de um dólar embaixo do prato, conversinhas com mel e paula, papos com amigos que há tempos não via, vinho na calça nova de linho, sabão de coco transformando magicamente a mancha vermelha em azul, perna direita úmida, frio, cansaço, bolo feito em casa, morangos, merengue, alegria
.taxi pra casa com ana e flavinho, calça de molho na bacia, demaquilante, creme no rosto, escova de dentes, camisola, cobertores, revista marie claire, pílula, ar condicionado, silêncio, interruptor do abajur, escuro, sono

_Maria Rezende

12.3.12

Ornitorrinco #25 - Impossível comer um só


 A edição #25 ficou demais. Sessão de análise em forma de listinha. Impossível não publicar inteirinho. Leiam e lambuzem-se.


ORNITORRINCO
[#025] 11 de março de 2012
Tiragem: 230 assinaturas




STATUS: IMPOSSÍVEL




> Menu #025
0_EDITORIAL
1_SORTE DOS CAVALOS QUE DEITAM PRA COMER NA SOMBRA
2_ESCALAFOBÉTICO, ESTRAMBÓTICO E HISTRIÔNICO
3_OLHA-LÁ
4_SEGURA QUE É BADEJO
5_PAPEL DE PAREDE
6_O QUE FALAR QUER DIZER
7_ACIDENTAL




#

Ô, participe das nossas discussões e exposições de notícias relacionadas com o universo do ORNITORRINCO e o tema da semana. Basta acessar o nosso fórum no facebook: http://www.facebook.com/ornitorrincozine. Seus comentários serão muito bem lidos. Mais fácil que isso só cantar Ivete com a boca cheia de camarão.

#


[EDITORIAL]

Um dos maiores críticos literários do século, o tal Edmund Wilson, não era uma pessoa, digamos, fofa. Seu trabalho era fortemente influenciado pelas ideias de Freud e Marx, portanto passava o pente fino pela educação de lêndia-social-de-salão. Não hesitava em criticar duramente os escritores e seus livros, não excluindo seus próprios amigos, a exemplo do Vladimir Nabokov (ele praticamente detonou o Nabokov, embora bebessem juntos a vida toda).

Entre toda a sua firmeza e ranhetice, sua obra mais conhecida é um bilhete intitulado “Edmund Wilson lamenta”, enviado como resposta a pedidos de participação em palestras, festivais, entrevistas, onde ele começa escrevendo “Edmund Wilson lamenta, mas para ele é impossível:" em seguida enumera uma porção de atividades, como dar entrevistas, ministrar cursos, aparecer na TV, participar de congressos literários, autografar livros para estranhos, doar cópias de seus livros para bibliotecas, entre outros, e finaliza com uma observação que diz que não aceita convites para fazer leituras públicas a menos que lhe oferecessem um bom dinheiro.

Para essa edição #025 eu pedi para que cada colunista fizesse o seu próprio bilhete de impossibilidades. Não ofereça suco de maracujá para a Letícia; nem carne humana para o Franco; nem queira competir com a Maria no yoga; e aconselho cuidado ao andar de skate, patins e trenó com a Keli; pense duas vezes ao solicitar a amizade do Camões no facebook; evite perguntar ao Ramon porque ele não tem te ligado; nem espere uma resposta do Júlio caso você esteja usando óculos escuros. Que fique claro tudo isso.

O Edmund Wilson acabou servindo o exército na Primeira Guerra Mundial. Pouco cuidado dele em não ter colocado na lista que não iria pra guerra.

Eu não acho nada impossível. (Mentira. Milhares de coisas me são impossíveis, mas essa parece uma boa frase de efeito para terminar o editorial).

_Gabriel Pardal


#


1_SORTE DOS CAVALOS QUE DEITAM PRA COMER NA SOMBRA

DA IMPOSSIBILIDADE TAMANHA

- cortar as unhas dos pés com tesourinha ou cortador (arranco com a mão desde sempre)
- comer queijo
- comer passas
- comer canela
- beber suco de maracujá (me lembra um cc ruim)
- descobrir a aeróbica da minha vida
- beber champagne e socializar
- saber ter plantas
- prometer parar de ter espírito de "produtora"
- dizer desaforos sinceros pra pelos menos 3 pessoas que CONVIVO
- entender o violão por completo
- ganhar no ping pong (lucas disse)
- jogar lixo na rua (lucas disse)
- não apertar o lucas quando passa um bebe étnico na rua (ele disse também)
- cagar em lugares que eu acabei de chegar
- ser calma no trânsito, mesmo com a rádio MEC ajudando bastante
- assoviar (excepto uma vez tomada de ódio no maracanã. saiu pra nunca mais)
- não pensar em desistir 5 minutos antes de subir ao palco
- jogar fora algum papel onde eu veja minha letra
- passar um dia sem pensar na morte

_Letícia Novaes



2_ESCALAFOBÉTICO, ESTRAMBÓTICO E HISTRIÔNICO

ISSO EU NÃO FAÇO

Franco Fanti, ex- gordo, lamenta, mas para ele é impossível:

- comer salgado sem um doce subsequente
- comer com bons modos quando está sozinho
- comer jiló em qualquer textura ou preparo (nem me venham com o papinho do jiló cortado tão fininho que nem dá pra sentir o amargo)
- comer carne humana em qualquer textura ou preparo ( a não ser que seja cortada bem fininha que nem dá pra sentir o amargo)
- comer prostitutas sem camisinha
- comer gays sem camisinha ou com camisinha (mulher gay não conta)
- comer minha mãe ou qualquer membro direto da família (prima não conta)

Quem não come está sendo comido, é assim na vida. E quem não come e nem está sendo comido, não vive.

PS: Tudo é possível caso me ofereçam um bom dinheiro. F.F.

_Franco Fanti



3_OLHA-LÁ
Maria Rezende lamenta, mas para ela é impossível:

- não ser competitiva em aulas de yoga
- ser humilde quanto à sua excepcional habilidade em balizas
- usar maquiagem em horário comercial
- ser discreta ouvindo axé no ipod
- deixar de amar as palavras
- ser workaholic
- dizer grosserias a estranhos irritantes
- evitar um sorriso quando vê crianças
- ser pontual todos os dias
- dizer a verdade sobre o ponto do caminho em que se encontra para a pessoa que está esperando por ela
- falar sem as mãos
- abreviar palavras em emails e mensagens de texto
- guardar contas em pastas etiquetadas
- usar sutiã todo dia
- ser poeta maldita
- não ver a luz no fim do túnel

_Maria Rezende



4_SEGURA QUE É BADEJO

Keli Freitas lamenta, mas para ela é impossível:
-Não perder as contas se for mais que dez moedas,
-Falar no tom certo a coisa certa no momento certo,
-Dar a volta correndo ao redor de uma lagoa de 7 quilômetros,
-Praticar esportes sem bola,
-Dizer exatamente o que achou do filme,
-Dizer exatamente o que achou,
-Dizer exatamente,
-Dizer,
-Contar exatamente o que sentiu da peça,
-Contar exatamente o que sentiu,
-Contar exatamente,
-Contar,
-Atender números desconhecidos antes das,
-Atender números desconhecidos,
-Entender que o mundo inteiro existe ao mesmo tempo o tempo inteiro,
-Entender que o mundo inteiro exis,
-Entender que o mun,
-Não sentir soninho à tarde,
-Não sentir,
-Comer apenas um biscoito de polvilho,
-Comer apenas um bis,
-Não ter vontade de desistir no meio,
-Não ter vontade dedesis,
-Não acreditar em,
-Não acreditarem,
-Comer yakissoba de pauzinho,
-Enrolar o espaguete em colher,
-Matar baratas pernudas,
-Não sentir calor no pé,
-Não sentir,
-Fazer as unhas uma vez por sema,
-Fazer azul ,
-Lembrar que tem sobrancelha, sola de pé,
-Lembrar que tem,
-Querer que nego,
-Querer que,
-Cantar que nem a,
-Cantar,
-Tocar que nem o,
-Que nem,
-Frear de skate,
-Frear de patins,
-Frear de patins no gelo,
-Frear de trenó puxado por cães,
-Frear,
-Descobrir no cardápio o que,
-Passar calça jeans,
-Passar,
-Cozinhar mais que ovo,
-Sentir calma se,
-não voltar ao,
-não,

_Keli Freitas



5_PAPEL DE PAREDE

Algumas coisas que nem o apocalipse me tornaria capaz de fazer:

- Pensar no futuro sem pensar em Caio e Laili
- Acordar e não tomar uma xícara de café
- Ler o Zizek numa praça de alimentação lotada
- Escrever sobre política e sobre os políticos sem ser irônico
- Não pensar em trocadilhos seja qual for o assunto
- Dirigir, falar no celular, mexer no rádio e retocar a maquiagem ao mesmo tempo
- Ler um livro do Paulo Coelho até o final
- Ter mais de 1.000 amigos no Facebook
- Fazer um poema em outro idioma
- Morar em Salvador e ficar mais de um mês sem comer acarajé
- Não comer caruru ao menos uma vez no ano
- Assistir filmes dublados no cinema
- Dar um trocado ao guardador que não cuidou do carro sem ficar chateado
- Não acompanhar os resultados dos jogos do Bahia
- Parar de pensar em como o mundo anda complicado
- Ter tanta sede de água como de conhecimento
- Não me chatear com o mau uso do termo "palhaço"
- Pegar um ônibus e não observar os passageiros
- Me conformar com o fato de que não quis aprender a tocar piano
- Não me culpar sempre que penso na quantidade de coisas inúteis que acumulo
- Trabalhar com algo em que realmente não acredito

(Eu também não aceito convites para escrever em outras revistas antes de pedir autorização ao meu editor)

_Gabriel Camões



6_O QUE FALAR QUER DIZER

IMPOSSIBILIDADES

Ramon Mello lamenta, mas para ele é impossível:

- Trabalhar e não ser remunerado;
- Escrever orelhas assinadas de livros de poemas;
- Ler originais de quem nem se quer leu seus livros;
- Relacionar-se com homens indecisos;
- Confundir sexo com amor;
- Aturar cobranças, tais como: "Por que você não me liga?"
- Conviver com gente que fala tocando seu braço a cada vírgula;
- Morar longe da natureza;
- Voltar a morar com os pais;
- Gostar de pessoas que passam 24h no Facebook postando fotos de bichos, links de jogos; etc
- Continuar no cheque especial;
- Viver sem silêncio;

(Entre outras coisas, que a intimidade revela. R.M.)

_Ramon Mello



7_ACIDENTAL

O SIM DOS NÃOS

Sim, não compro a felicidade do mercado.
Sim, não me interesso por fofoca.
Sim, não dou a mínima para os lançamentos da moda.
Sim, não tenho religião.
Sim, não torço para outro time além do Esporte Clube Bahia.
Sim, não pago por sexo.
Sim, não converso sério com quem está usando óculos escuros - exceto cegos.
Sim, não bato em mulheres, crianças e idosos.
Sim, não subscrevo nenhuma anistia a torturadores e estupradores.
Sim, não censuro o suicídio ou a eutanásia.
Sim, não faço amizade inibida com mulheres que desejo.
Sim, não traio a confiança de meus amigos.
Sim, não fico apontando o dedo da acusação.
Sim, não vacilo ao apontar o dedo da acusação para os hipócritas.
Sim, não falo pelas costas nada que não possa sustentar de frente.
Sim, não me deixo levar por um vezeiro espírito do oba-oba.
Sim, não fico fazendo promessas.
Sim, não quebro minhas promessas.

_Júlio Reis




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FIM


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