27.5.07

poemas, poemas e mais poemas

A vida de cinema anda me consumindo. E eu nem reclamo, porque descobrir que o ganha-pão é também um grande prazer tira qualquer traço de chatice dessa fase da vida. Mas a poesia anda devagar, e as postagens aqui no blog mais ainda.

Então pra me redimir, lancei mão de um truque: tive a pachorra de rever todos os posts desses três anos de mariadapoesia, um por um, e separei todos os que têm poemas dentro. E olha, são muitos! Oba!

Aqui vai então, pra quem sente falta da minha produção poética, o mapa da mina dessa poeta sumida, meu "best of digital"...

- uma mulher

- criança de rua

- uma grande mulher

- pro inferno

- morrer

- poema infantil

- pau mole

- temor

- harmonia

- soft dick (pau mole em inglês!)

- filho

- medo

- escrevo

- uma mulher: traduções

- risco

- tatuagem

- dentro de mim

- casamento

- defeito

28.4.07

sonho nublado


Não me entendam mal, isso não é de modo algum uma reclamação. Pela primeira vez na minha vida profissional, tenho quatro trabalhos de montagem ao mesmo tempo. Nunca tive quatro trabalhos juntos. Acho que em 2006 inteiro eu tive quatro trabalhos. Talvez cinco. Subitamente, em março/abril/maio de 2007, quatro trabalhos.

Não, eles não vieram assim, todos de uma vez. Primeiro apareceu um, que era pra ser curtinho mas ficou longo, e eu fiquei feliz: experiência e dinheiro, oba! De repente, outro convite, esse vindo de uma amiga e com o desafio de aprender novas tecnologias. Maravilha: mais experiência, mais dinheiro, e muito prazer no percurso! Perfeito! Subitamente um atrasadinho furou a fila: era pra já estar pronto há tempos, mas chegou bem nessa hora. Ok, matei no peito e bola pra frente. Aí veio o quarto, esse querido, inegável, inadiável... Caí dentro!

E eu que temi pela incerteza de trabalho em 2007 agora estou assim, feliz e louca, sonhando acordada com dias nublados como esses aí de cima, em que nem o prazer oprime...

14.4.07

10.000

Em tempos de contagem obcessiva na cidade (do gol 1.000 do Romário às 1.000 pessoas deitadas no calçadão de Copacabana representando os mortos de 2007), não podia deixar de registrar que o mariadapoesia atingiu a marca memorável de 10.000 (dez mil!) visitantes nesse mês de abril.

São quase 3 anos (estreei o blog em maio de 2004), e cada vez gosto mais de ter esse espaço pra deixar minhas impressões sobre o que vejo e vivo e encontrar virtualmente gente que a correria da vida às vezes não deixa encontrar ao vivo.

Que bom que vocês também gostam de passar por aqui, e pra comemorar essa marca histórica deixo um pedido: quem ler esse post pode deixar um recadinho? É que o números de visitantes é sempre muito maior do que o número de comentários, e eu morro de curiosidade de saber quem são os anônimos que me lêem... E aproveito pra dizer que quando eu não respondo aos comentários não é por falta de vontade não: esse meu provedor de comentários pede pra vocês deixarem o email mas não me mostra, então fico sem ter como entrar em contato. Então fica a dica: deixem o email no corpo da mensagem, que eu juro que respondo!

Topam?

Aí embaixo o documento oficial que comprova os 10.000!

maria da poesia
(s20exibida)
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3.4.07

na TV

Passei na tv ontem e nem sabia! Acabei de receber um email do Cesar Miranda, que eu não conhecia mas que me conheceu ontem no Canal Futura. O programa é o Ao Ponto, comandado pelo Jairo Bauer, voltado pro público jovem, com alguns convidados e uma platéia que participa ao vivo. O tema era bissexualidade, ou como diz o nome da edição, Total Flex. Como muita gente me considera uma poeta erótica - apesar de eu não entender exatamente o porquê - me convidaram, achei ótimo e fui!

Foi no fim do ano passado, eu estava cheia de trabalho e quase tive que desmarcar, mas quando cheguei lá percebi que a correria tinha compensado: os convidados éramos eu, a compositora Lucina e o Caetano Veloso. Eu tinha ido no show dele um pouco antes, estava mais admiradora do que nunca, e confesso que achei muito chique ser convidada da mesma edição que ele.
Falei o poema "uma mulher é uma mulher", participei de um debate surpreendentemente bom, e descobri um pouco mais porque o Caetano é o cara: ele topa fazer o programa, chega mais cedo que eu pra gravar as músicas, bate papo com os meninos com um interesse enorme e genuíno, fala pouco e ouve muito, e ainda por cima tem a delicadeza de se lembrar de mim quando acabo o poema, e elogiar as minhas reticências.

(foto de Laura Caldas)

Bom, como eu só soube com atraso e perdemos a estréia do programa, aí vão os horários de reprise essa semana. O Futura é o canal 32 da Net.

4a feira, 04/04, 23h30

sábado, 07/07, 20h30

domingo, 08/04, 17h30

26.3.07

minha vez

casamento

Poema feito pra Carol e pro Bruno, depois de muita polêmica familiar sobre o que é afinal um "casamento".

Pode ser uma prisão ou uma fonte.
Pode ser um deserto ou uma ponte.
Um mundo novo ou um ponto final.

Pode ter loucura, pode ter dureza
pode ser difícil e uma delícia
pode ter tristeza, tédio, encantamento
tudo o que há de bom e um pouco do ruim.

Pode ser esperteza ou sonho
pode ser insistência ou sorte
pode ter festa animada ou só um olhar sincero
porque casar não começa quando se casa.

Casamento é quando a parceria é tão boa
que não precisa bolo, não precisa roupa
pode ser no padre, no juiz ou só no banco
porque o sim mora dentro da felicidade dos dias.

Casar é ser feliz sozinho, mas preferir junto.
Por isso a festa.

21.3.07

poema pós-bbb

Ando cansada de tantos consertos.

Tudo na casa dá defeito, inclusive a dona.

Carrego tristezas como os franceses carregam baguetes,
sem proteção contra a poeira da rua e o suor das axilas.

Tenho medo do que desconheço
e me estranho no que me é difícil.
"Tentativas e erros" é a expressão correta:
os acertos ficaram pra próxima vida.

Vivo num corpo que não me escuta
e a eterna luta é fazer da voz carne
e da dor insistência e êxito.

Me alimentar do que me frustra,
digerir cacos de vidro pra parir,
em meio a espasmos,
alguém em quem eu me divirta,
uma mulher que exista,
e diga a que veio.

16.3.07

04:00

É isso que me diz o relógio do computador, pra minha surpresa e desespero. Há tempos não vejo essa hora em relógio nenhum, e queria ver era nos relógios da rua em noites animadas, não nessa tela azul e fria que eu não consigo largar no dia de hoje.

Não reclamo: trabalho é ótimo, e eu nunca sei quando o próximo vai chegar, então aproveito. Esses tempos, no entanto, chegaram vários juntos me atropelando, daí a madrugada insone labutando...

Os projetos vão de espetáculo de poesia pra inscrever em concurso público à edição de um promo de um longa sobre Capitães de Areia, passando pela assistência de montagem prum show do Waldick Soriano. Manhã, tarde, noite.

Não reclamo. Venham, trabalhos, venham todos, eu espero acordada...

10.3.07

Bruna Beber


No último post falei sobre o Ramon Mello e o blog dele, Click (IN)VERSOS, e hoje venho falar de uma das entrevistadas mais bacanas de lá, a Bruna Beber. Conheci a poesia dela por dica do meu pai, que leu a matéria do Prosa e Verso quando A fila sem fim dos demônios descontentes foi lançado pela 7Letras. Gostei de cara do clima rock n´roll sem exageros, uma voz autêntica e que não quer só chocar, uma menina de 23 anos poeta das boas mesmo.

Quando li a entrevista dela pro Ramon fiquei com vontade de aproveitar a ponte e conhecer ela, e acabou que depois de emails de todo os lados ontem à noite fomos todos pro Diagonal bater papo e apresentar os rostos uns pros outros.

Foi uma noite gostosa de novidade, e é tão raro realmente ficar amigo de quem a gente lê e admira de longe que fiquei muito feliz com o encontro. E pra vocês entenderem o porque da admiração, um dos poemas do livro dela que eu acho incrível:

você quer um dia
ser estudado
numa sala de aula qualquer
por uma turma de pirralhos
que vão zoar suas roupas hoje modernas
falar que o que você escreveu é chato pra caralho
fazer chifrinho na sua foto
interrogação.

queira morrer antes
comendo caramelos
a estranha paixão de Hitler
caramelos.

6.3.07

Click (IN)VERSOS

tempos atrás falei aqui da entrevista que dei pro Ramon Mello, publicada no site Click 21. O Ramon é escritor também e fez a mais longa entrevista da minha breve vida pública, o que me fez muito feliz...

Mas o caminho pro site era difícil, e muita gente reclamou que não conseguiu ir lá. Pois agora a coluna dele, Click (IN)VERSOS, virou
blog, e lá estão a minha entrevista e a de um monte de gente bacana. Eu recomendo!

4.3.07

que vexame, meu deus!

Eis que decido escrever sobre os romances enormes e deliciosos que li nos últimos tempos. Eis que cito quem me deu o primeiro deles de presente, pra agradecer publicamente à amiga. Eis que, vexame, erro de amiga...

Venho então me desculpar, corrigir o erro e explicar: quem me deu Um defeito de cor não foi a Regina Zappa, foi a
Olga de Mello, também jornalista e amiga querida. A confusão se deu porque passamos um fim de tarde aqui em casa, nós três e o Eduardo Graça, amigo querido que mora em Nova Iorque e junta todo mundo quando está por aqui. Esse ano dei a sorte de ser a anfitriã do moço, e como era aniversário dele Olga e Regina vieram lanchar. E eu, que não era aniversariante nem nada, terminei a noite com dois presentes: o romanção dado pela Olga e as obras completas do João Gilberto Noll, dadas pela Regina - diga-se de passagem, outro catatau.

Resumo: me dei completamente bem, ganhando dois livros numa noite, por excesso de presente acabei cometendo essa indelicadeza com a Olga, que eu reparo indicando a todos o
Arenas Cariocas, onde ela mostra o seu talento aqui na rede.

28.2.07

grandes livros grandes

Fevereiro foi o mês das sagas femininas na mansão Caravelas.

Tudo começou quando eu ganhei da Regina Zappa, sem ser aniversário nem nada, o catatau Um defeito de cor. Apesar de ser leitora voraz desde pequenininha, nunca gostei muito de livrão, até porque gosto de ler deitada e livro grande é complicado de segurar na cama, cansa os braços rápido, me dá preguiça. Pra piorar, confundi o livro com "Não somos racistas", do Ali Kamel, um livro jornalístico que dizem ser muito interessante, mas fora poesia meu negócio mesmo é romance. O livro ficou esquecido na mesa da sala até que eu olhei pra ele um dia e li embaixo do título: " um romance". Romance. Eu gosto muito. Vou ver qual é a desse calhamaço.

Pronto, fui definitivamente fisgada. A autora, Ana Maria Gonçalves, escreve um prólogo irresistível contando como foi levada a escrever o livro, e não sei se é tudo verdade nem quis saber: parti pro capítulo 1. A narradora, Kehinde, é uma africana que é trazida pro Brasil como escrava no começo do século 19, e conta a sua vida da forma mais saborosa que eu me lembro de ter lido nos últimos muitos anos. Fiquei obcecada pelo livro. Lia em qualquer brechinha do dia, e até o olho doer antes de dormir. Falava dos personagens com os amigos, sonhava com eles. A saga de uma mulher e sua família na África selvagem e no Brasil escravagista, um super romance pra ninguém botar defeito. Nesse nível: a tv da casa quebrou, e pensei: melhor, mais tempo pra ler. Sentiram a obcessão?

Quando o livro acabou fiquei orfã. Um vazio imenso na casa sem televisão. Foram 950 páginas de intimidade. Aquela gente, já tão íntima, guardada dentro da capa dourada. Que diabo de livro vai substituir esse, meu deus? Tinha 10 dias de carnaval numa praia distante pela frente, impossível encarar sem um romance. Procurei nas prateleiras, pedi dicas pros amigos, mas foi só na livraria do aeroporto que achei: Cisnes Selvagens, da Jung Cheng. A saga de três mulheres na China, do começo do século 20 até os anos 80. Outra família, outros tempos, mas uma saga familiar de peso: 650 páginas, e isso em edição de bolso! Era tudo que eu precisava!

O livro é incrível. Incrível no sentido de sensacional e também no de inacreditável, ainda mais pra quem, como eu, não sabia nada sobre a história da China nessa época. Os costumes tradicionais, a ocupação pelos japoneses, a Revolução Comunista e seus primeiros dias de glória, a loucura de Mao e a crueldade do Partido contra seus próprios membros, a destruição de tudo que pode ser chamado de cultura pela Revolução Cultura, e o apagamento de tudo que fazia da China a China: proibidos os jardins, as flores, as casas de chá, as roupas coloridas, os longos cabelos, a música e a dança, a beleza dos templos, o respeito aos mais velhos. Em alta a violência, a destruição, os tribunais de acusação em que todos apontavam os dedos para todos, e a dita igualdade socialista terminando em uma divisão da população em 23 categorias, com rígidas determinações do que era permitido a cada uma. No meio disso, a autora, cujo pai era alto dirigente do partido, passa pelos dias de tranqülidade e pelo horror que toma o país, e conta tudo deliciosamente.

Lá se foi a minha implicância com livros grandes. Agora tô viciadinha: menos de 300 páginas nem me apresente que eu não dou bola...

10.2.07

bendita palavra malvada

Pois dentro de mim não é o melhor lugar pra se viver.
Não é nem um bom lugar.

Dentro de mim moram feras mortais agonizando do próprio veneno.

Dentro de mim um gigante agüenta o mundo nos ombros e uma puta procura o espartilho.

Tem uma velha senhora louca pra chupar buceta e um mágico ilusionista que tira sorrisos da cartola.

Teve um tempo em esse dentro parecia com o fora, e era um ótimo lugar pra uma moça como eu era.

O depois é uma armadilha:
Ele dura tantos tempos
Passeia tão sorrateiro
Que só num hoje distante a gente consegue enxergar.

Dentro de mim não é mais um bom lugar pra se viver.
Ainda vai ser?

3.2.07

livro novo

A idéia de capa aí embaixo é pro bendita palavra, meu livro novo que ainda não tá pronto mas que espero que saia esse ano. Tô feliz com ele porque tenho escrito poemas mais "malvados", uma mistura que eu gosto de doçura e dureza, como esse aqui:

As coisas boas são prisões sem grades
Pessoas boas são carcereiros sem chaves
O conforto é uma corrente que ata aos pés bolas imensas
Felicidade é parede encobrindo o outro lado

Bons poemas são veneno: afastam palavras novas
Caminhos cheios de setas não dão em praias desertas
O acerto de anteontem mata o risco dessa tarde
O sucesso é um uniforme que te obrigam a vestir

E o que é bom vira uma sina
Mantém o mundo de cabeça pra cima
E você preso nesse lugar.

22.1.07

Humaitá pra Peixe



Taí uma foto do anunciado show do Rodrigo Bittencourt no Humaitá pra Peixe, no Sergio Porto, nessa sexta-feira passada. Uma banda de primeira, um show com alma e corpo, enfim, uma bela estréia pro Coleção de Amores! Quem não foi perdeu, e espere que eu aviso das próximas!

5.1.07

em 2007

Feliz ano novo pros meus leitores virtuais! Começo o ano apostando todas as fichas no edital da Petrobras que pela primeira vez abriu pra literatura, e vou inscrever meu bendita palavra e ficar torcendo...

Já Rodrigo tem coisas mais concretas pra comemorar, e eu anuncio! A primeira é a estréia do show do disco novo dele, Coleção de Amores, dia 19 de janeiro no Humaitá pra Peixe, no Sergio Porto. O festival é super bacana e tem a cara do verão carioca, mostrar lá as músicas novas vai ser genial! A banda é uma atração à parte: Nilo Romero no baixo (que é também o produtor do disco), Sacha Amback no teclado, Billy Brandão na guitarra, Damien Seth na programação, Shilon no violão e Vidalt na bateria.

Logo depois, dias 2 e 3 de fevereiro, eles abrem pro Nando Reis no Circo Voador!

Ou seja: 2007 começa animado aqui pra nós. Espero que pra todo mundo também!



25.12.06

Meu Natal 2006

(vovó e o Papai Noel, em foto inédita e fundamental)





São 3h da madrugada, cheguei da festa de Natal descrita extensiva e emocionadamente no texto aí embaixo, e o sono ainda não me pegou de jeito, então vim parar aqui. Engraçado: esse post "Natal com sentido" começou como um desejo de reclamar do Natal e acabou virando quase uma ode a ele, reavivando minhas lembranças mais antigas e gostosas. Por conta dele recebi mil comentários emocionados da família, tanto que acabei lendo ele hoje à noite durante a festa, antes do jogral de todos os anos, e foi muito bom compartilhar com as pessoas que viveram e vivem essa história, e a gente estar ali de novo, anjos na parede, cartões na porta, pinheiro cheiroso piscando, e a vovó lindona no comando.

Depois de escrever o texto mergulhei ainda mais na minha insatisfação com o consumismo natalino, e resolvi fazer presentes, ao invés de comprar. Comprei blocos e caderninhos, paetês, fitas de cetim, linha de crochê, agulhas e cola pra tecido, tirei do armário os panos que eu compro pra usar num dia que nunca chegava, e mãos à obra! Foram três dias de loucura bordando paetês e colando chitas e fitas, mas confesso que estou orgulhosíssima da obra, que exibo aí embaixo junto com algumas fotos geniais do Natal desse ano.
(meus blocos, presentes e obra)
Outro acontecimento especial desse ano foi a estréia do Luiz no Natal da Barão (nome oficial da casa da vovó). Todo ano ele vai com a mãe pra Minas, visitar a família deles, e a cada ano que passa o menino cresce e se urbaniza e gosta menos de ir pra roça, viver por um mês a vida simples do campo. Mas pra nós o que sempre deu mais pena era ele perder a chance de viver esse Natal, de conhecer o Papai Noel e ter uma noite daquelas de cinema. Pois esse ano a chance veio, por vias tortíssimas, mas diz meu amigo Pedro Cezar, "há malas que vão pra Belém" (ou "há males que vêm para o bem" mesmo).
A Graça, mãe do Luiz, teve um problema grave de varizes anteontem, véspera da viagem pra fazenda, e o médico recomendou repouso e pernas pro alto, coisas impossíveis de cumprir dentro de um ônibus sem ar durante 8 horas. Mãe e filho ficaram, pois, no Rio, e embora ela tenha se recusado a ir pra festa, ele, Luiz, vibrou com a oportunidade. Aí em cima, registro do momento em que o Papai Noel adentrou a sala, ele com esse olhar de maravilha. Aqui embaixo, o abraço inédito e a felicidade.

17.12.06

Natal com sentido


A cada ano tenho menos apreço pelo Natal.

Não me entendam mal: meu Natal é incrível. Tenho uma família enorme e unida, comandada lindamente pela vovó, uma matriarca daquelas de livro de antigamente, e o Natal é a coroação das celebrações que ela promove, amorosa e dedicadamente, o ano todo. Nossa festa é cheia de tradições deliciosas de manter, que na minha infância começavam muito antes da noite do dia 24.

Quando crianças, a casa da vovó era o quartel general das férias de todos, alguns hospedados lá porque moravam fora do Rio, outros indo pra casa só pra dormir e voltando cedinho no dia seguinte pra não perder nada. No meio de dezembro começavam os preparativos: um pinheiro de verdade, cheiroso e enorme, chegava e era levado pra sala de jantar, onde era enfeitado com bolas e luzinhas. Na parede da sala eram pendurados anjinhos de pano, com roupas coloridas, cada um representando um neto, e a cada ano aumentavam os anjinhos na parede. Dindinha Zélia, prima da vovó que morava com ela e era madrinha amorosa de todos nós, arrumava o presépio: papel imitando pedra cobrindo a mesa, palha no bercinho do menino jesus, e as figuras de barro representando todo mundo que tinha que estar lá. O dia mais esperado era quando vovó juntava os cartões de Natal que recebia e a gente fazia rolinhos de durex pra colar todos na porta da sala, subindo num banquinho pra alcançar as partes mais altas que hoje eu toco sem nem precisar ficar na ponta dos pés.

Na noite de Natal cada neto ganhava uma figura do presépio e decorava seu "texto". Mariana, a mais velha, era a narradora, posição sempre disputada mas nunca conquistada por ninguém por anos a fio. Os menores eram os bichinhos, e só tinham que fazer "múuu" ou "béeee". Os maiorzinhos eram os pastores, diziam "viemos trazer incenso pra perfumar o menino" e outras frases assim. Depois tinha amigo oculto entre as crianças, depois entre os adultos, daí a leitura de um jogral sobre a árvore de Natal, com os convidados recebendo na hora seus números pra ler, e sempre tinha um que esquecia e deixava aquele buraco, preenchido por uma tia atenta. Nosso sonho, quando crianças, era poder ler o jogral, prova inequívoca de maturidade.

O ponto alto da festa era a chegada do Papai Noel. A porta da sala era fechada e a gente ficava lá dentro cantando "deixei meu sapatinho na janela do quintal, Papai Noel deixou meu presente de Natal, como pode Papai Noel, não se esquece de ninguém, seja rico ou seja pobre o velhinho sempre vem". Depois de minutos intermináveis de suspense ele chegava vestido a caráter, e os corações paravam de susto e maravilha. De dentro de sacos vermelhos de veludo saiam embrulhos, e cada um era chamado pelo nome pra receber o seu presente, momento de tirar a famosa foto com o bom velhinho, pra prazer de uns e terror de outros. A felicidade maior era quando ao invés de um embrulho vinha um cartãozinho dizendo "seu presente está no salão", o que queria dizer que o presente era tão grande que não cabia no saco do Papai Noel, o que já excitava todo mundo: será uma bicicleta? Um velocípede?

Depois de toda a emoção Papai Noel ia embora, visitar outras famílias, e a gente ficava ali entre papéis rasgados e fitas, comemorando a alegria de ser crianças boas e merecer aquela visita. Era a hora do jantar, uma ceia de delícias inenarráveis, seguida pela entrega de presentes da vovó, sempre incluindo alguma coisa personalizada pros netos: toalhas bordadas com o nome e o jeito de cada um (meu irmão uma vez ganhou uma do Vasco, pode?), pijamas com estampas escolhidas a dedo, malas de viagem com o nome do dono. E a noite terminava com a gente chegando em casa, exausto de tanta felicidade, e colocando um pé de sapato na janela do quarto pro Papai Noel deixar o "sapatinho", presentinho simbólico diante dos grandes da festa mas sempre aguardado com ansiedade até o dia seguinte.

Hoje não temos mais crianças suficientes pra encenar o presépio. Mariana, a narradora oficial, fez 30 anos em junho, e todos os netos já estão aptos a ler o jogral. Mas as tradições continuam firmes, árvore, cartões na porta, amigos ocultos, jogral, jantar, presentes da vovó e, fundamental, Papai Noel a caráter. O fato de que apenas dois dos vinte netos têm menos de 10 anos não muda nada: Papai Noel é esperado com cantoria, chega com seus sacos e chama cada neto pelo nome, mesmo os que já teria idade pra dar bisnetos pra vovó.


A família é unida e as tradições são mantidas, e a gente gosta. Meu problema com o Natal não tem a ver com essa festa, mas com o conceito da coisa. Vamos lá: Jesus nasceu e eu, que não participei em nada do fato, tenho que dar presentes pra todo mundo que eu conheço?! Ah, não concordo! A beleza do Natal da minha família pra mim está na união improvável de tanta gente tão diferente, mas que mantém um amor cultivado em noites e tardes como essa, e o Natal é então uma festa da nossa amizade, do nosso carinho. Quando criança queria saber era dos presentes, sem me dar conta de que o se cultivava ali era um laço muito raro e do qual eu me orgulho muito hoje. Meu Natal ideal, em 2006, teria leitura de jogral, jantar de delícias, papos com primos e tias e comandando a festa a vovó toda bonita nos seus quase 88 anos, além do vovô em uma das suas noites de bom humor garantido.

Os presentes, ah, os presentes a gente distribuiria ao longo do ano, quando passasse numa vitrine e pensasse "nossa, isso é a cara da minha madrinha!", ou 'ih, a mamãe está precisando disso, vou dar pra ela". Os presentes tem que ser a expressão do nosso amor particular por alguém, e esse amor não acontece de uma vez todo dezembro em meio a lojas cheias e preços salgados: esse amor é de todo dia, de cada dia, e eu acredito em cultivá-lo e expressá-lo assim, um pouquinho e sempre, com presentes e carinhos, o ano todo.

Pra quem gosta muito de presentar, recomendo um projeto lindo que eu descobri esse ano: o Papai Noel dos Correios. Todo ano eles recebem milhares de cartas de crianças pedindo presentes, e qualquer um pode ir a uma agência e adotar uma carta: comprar um presente pra uma dessas crianças e deixar numa agência, e os Correios mandam um carteiro vestido de Papai Noel fazer as entregas. Taí um presente de Natal que faz sentido.

15.12.06

Entrevista

Sempre adorei ler entrevistas, principalmente aquelas que são papos descontraídos, em que a gente fica sabendo coisas não tão óbvias sobre o entrevistado. Não estou acostumada a estar do lado de lá das entrevistas, falando ao invés de lendo, e é uma delícia!

Semana passada dei uma entrevista ótima pro Ramon Mello, que é ator, contista e jornalista, tem uma coluna de livros na revista Suíte Rio e outra de entrevistas com novos escritores no site Click 21. Ele já tinha resenhado o substantivo feminino pra Suíte Rio, e agora me convidou pra ser a segunda entrevistada da coluna Clik (In) Versos.

A entrevista ficou super bacana e ilustrando ela está a foto que será a capa do meu livro novo, tirada pelo Pedro Molinos, fotógrafo super legal com quem eu estou trabalhando e que generosamente me fotografou num intervalo da labuta.

Tem que entrar no site Click 21, daí clicar em COLUNAS do lado esquerdo, e logo no alto está a chamada pra mim!

Leiam! Leiam! Leiam e me contem!