8.12.13

Dizendo Hilda #3


Hilda Hilst. O que dizer?
Eu que quase só gosto de poesia coloquial, muito conversada, me rendo aos seus poemas cheios de segundas pessoas e palavras raras. Porque a poesia quando é boa assim rasga manuais e derrete conceitos.

Mais um da série Admirada.
Hilda Hilst. "Toma-me".
Eu me entrego.

20.11.13

Fissura



Eu hoje mudo de idade.
Os 34 foram puxados. Doces. Exuberantes. Duros. Itinerantes.
A vida vai indo, puxando tapetes, soltando fogos de artifício, e eu não canso de achar legal viver.

Nem todo dia é dia de poesia.
Hoje sim.
Pra receber os 35 com tudo que vier: "Fissura".

1.11.13

Everton Behenck no Rio hoje!

Hoje na Travessa de Ipanema é lançamento de dez autores gaúchos, entre eles o querido Everton Behenck, poetaço de quem eu sou fã e tive a sorte de virar amiga. Eu devoro o blog dele e hoje umas 20:30 vou lá ler os meus preferidos, coisas fodonas como esse poema que eu gravei ano passado e não cansa de me emocionar.


30.10.13

O passado de "Meu passado me condena"

Quatrocentas e vinte mil pessoas foram ao cinema esse fim-de-semana ver Meu passado me condena. 420.000 pessoas. É gente pra caramba. É uma estréia de arrasar, e aponta que o filme vai ser um sucesso de bilheteria, e a gente, que trabalhou nele, comemora e brinda. Quem olha de fora ou tá chegando agora pode pensar que isso estava escrito nas estrelas, que fazer um filme num cruzeiro de um grande navio com o Fabio Porchat é uma garantia de dinheiro entrando pelas catracas dos cinemas, e que esse devia mesmo ser o plano desde o início. Podia ser, sabe? Viver de cinema é como viver de advocacia ou de medicina: tem o sonho, o desejo de fazer o melhor, tem o cotidiano do trabalho, o dia-a-dia árduo do mundo real, e tem o fato de que é preciso viver do que se faz. Ganhar dinheiro com cinema é como ganhar dinheiro com qualquer outra profissão: necessário e muito desejável.

Só que nesse caso é tudo uma surpresa, e o filme ganhou tanta projeção que às vezes até eu mesma, que estou lá desde o começo, me distraio e me esqueço do quão inusitado é todo esse espaço e essa boa recepção.

Era uma vez uma jovem que termina um namoro, sofre horrores e descobre no meio das lágrimas o blog de uma outra cheio de textos lindos e ácidos sobre o amor e seus desdobramentos. A primeira, Julia Rezende, minha irmã, vira fã de carteirinha da segunda, Tati Bernardi. Muitos anos depois, Julia é diretora de cinema e televisão e prepara o roteiro do seu primeiro longa-metragem, Ponte Aérea, escrito em parceria com Rafael Pitanguy, sobre a história de amor de uma publicitária paulista e um artista plástico carioca. Depois de muitas versões do roteiro, ela tem a ideia de convidar aquela escritora que tanto admira, que fala de amor com emoção e ironia, pra colaborar no roteiro. A parceria não vinga pra esse projeto mas rende outro: juntas, as duas começam a desenvolver um projeto de série de televisão sobre um casal que se conhece e se casa depois de apenas um mês de convivência, vai passar a lua-de-mel numa pousada na serra e lá começa a realmente se conhecer e descobrir os podres do passado um do outro. Apimentando a receita, os donos da pousada são um ex-casal amargo e trambiqueiro que só aumenta as confusões.

Era uma vez uma produtora de cinema querendo abrir suas asas para a televisão, num momento em que uma nova lei foi aprovada determinando que os canais a cabo tem que ter uma parcela de sua programação de conteúdo original produzido no Brasil. Essa produtora é a minha mãe, Mariza Leão, responsável por filmes importantes desde o começo dos anos 80 e por algumas das maiores bilheterias do cinema brasileiro recente. Julia apresentou o projeto pra Mariza e juntas elas o ofereceram ao Multishow. Nascia aí Meu passado me condena, série em treze episódios.

Fabio Porchat e Miá Mello eram comediantes talentosos de que muito pouca gente tinha ouvido falar, Inez Vianna e Marcelo Vale, grandes atores de teatro, completavam o elenco principal, e Julia Gorman e Rafael Sieg eram os ex-namorados que mudavam a cada episódio. Agrana era curta então tudo foi pensado pra ser gravado no sítio da nossa família, onde equipe e elenco ficaram hospedados por cinco semanas enquanto o trabalho acontecia. A equipe era toda de amigos feitos no trabalho, nas outras duas séries que a Julia tinha dirigido para o Multishow. Gente jovem, cheia de gás, muitos começando a assinar trabalhos como chefes de equipe, todos vibrando na mesma sintonia pra fazer um programa bacana, inclusive eu que não estava no sítio e sim no Horto, na ilha de edição, montando tudo.

No meio das gravações foi lançado o Porta dos Fundos. Muito rapidamente Fabio Porchat virou um ícone, um nome, um rosto conhecido e admirado no Brasil inteiro. Ao mesmo tempo, um produtor argentino procurou a Mariza com uma proposta de fazer um filme num navio de cruzeiro numa viagem do Rio pra Europa. Ele tinha produzido um filme assim na Argentina e o navio estava aberto pra fazer outro. Eles não davam dinheiro, mas ofereciam uma locação improvável e linda e hospedavam equipe e elenco na travessia. Só que ela tinha que desenvolver um projeto que se encaixasse nesse perfil, e um casal em lua-de-mel era perfeito pra um cruzeiro intercontinental. Mariza propôs, o Multishow topou ceder os direitos, Tati começou a trabalhar feito louca no roteiro de um longa, Mariza fechou parceria com Paris Filmes, RioFilmes e Globo Filmes, e conseguiu o dinheiro numa velocidade estonteante. Era o começo de Meu passado me condena - o filme. Quando tudo parecia perfeito perdemos o navio. Eles fecharam com outra produtora, outro projeto, outro filme. Subitamente a gente, que começou tendo só um navio e nada mais, tinha tudo menos um navio.

Começou-se a pensar em opções. Filmar num resort. Num cruzeiro curto, Rio-Búzios, indo e vindo cinco vezes pra dar tempo de fazer todas as cenas. Mas a Mariza é tinhosa e conseguiu um baita navio, o Costa Favolosa, que saía do Rio rumo à Itália em março desse ano. Seis meses depois da ideia do filme ter surgido, lá estávamos nós no porto do Rio embarcando nessa aventura. Alguns novos parceiros na equipe, reforço de Juliana Didone, Alejandro Claveaux e Rafael Queiroga no elenco, além de participações especialíssimas como a da Elke Maravilha.

Foram vinte e um dias no mar, cinco sem ver terra. Paradas em Ilhéus, Maceió, Recife, Tenerife, Funchal, Marseille, Casablanca, tantas cidades. Mais tons de azul do que eu sabia que existiam. As dificuldades de fazer um filme em um cruzeiro de verdade, com três mil passageiros, dois mil tripulantes, contando com a compreensão de todos pra fechar piscinas ou salões pra podermos filmar, e aproveitando o entusiasmo dos passageiros que adoravam fazer figuração. Eu tinha uma cabine-ilha-de-edição, um cantinho escuro onde eu passava os dias montando as cenas filmadas dois dias antes. 

Sabe aquele papo de que navio não balança, afinal é um edifício de treze andares, muito grande, muito sólido? Balela. Balança. Bastante. Ou pelo menos foi o que me pareceu a partir do quarto dia, quando eu comecei a passar bem mal. Chegando no Rio fiz exames e soube que era dengue. Imaginem. Não fui à piscina, não fui às festas na véspera das folgas, não fiz aula de salsa, não bebi no bar vermelho. Mas montei um filme sobre as ondas. E conheci muitas cidades. E fiz amigos.

Chegamos na Itália e lá filmamos mais três dias. Muita gente da equipe nunca tinha ido à Europa e agora estava trabalhando lá. Julia fez aniversário, 27 anos.Voltamos pro Rio e o trabalho continuou: terminar de montar, fazer trilha, editar o som, corrigir a cor, mixar. Nas primeiras sessões do filme para os distribuidores a surpresa: eles acharam que tínhamos ouro nas mãos. Uma comédia romântica, engraçada, emocionante, bem filmada, elenco tinindo, cenários incríveis. E nosso filme nascido no susto começou a ganhar corpo de gente grande, e começou a ser pensado um lançamento poderoso, muito maior do que o previsto anteriormente.

Aí chegamos a hoje. Quatrocentas e vinte mil pessoas em três dias. É o décimo melhor fim-de-semana de abertura de um filme brasileiro desde a Retomada. Faremos um milhão de espectadores até o fim-dessa semana. A gente se espanta, a gente comemora, a gente brinda e agradece. Talento, trabalho duro e sorte são uma combinação explosiva. Esse filme nasceu regido por esse trio. E eu, que já me incomodei muito de trabalhar em família, celebro a estreia na telona da minha irmã, uma diretora tão jovem e tão determinada e segura e afiada, e a alegria de ser parceira dela em todos os seus projetos até hoje.

E enquanto o filme nos dá tanta alegria nos cinemas, estreia hoje a segunda temporada da série: Fabio e Miá depois da lua-de-mel, morando em Santa Tereza e descobrindo os desafios da vida cotidiana. Meu passado me condena. Nos cinemas de todo o Brasil. Na tela da sua tv toda quarta-feira às 23h no Multishow. 

Agora é se preparar pro Ponte Aérea - lembram dele? O primeiro projeto virou o segundo filme e ano que vem ao invés de um navio intercontinental estaremos entre Santos Dumont e Congonhas, Rio-Sampa, filmando a história de amor de Amanda e Bruno. Outro projeto, outro desafio. Não é comédia, não deve bater recordes de bilheteria. É o filme com que a Julia sonha há cinco anos, e eu mal posso esperar pra botar a mão na massa com ela de novo.


Lembranças da primeira temporada da série no sítio:









Lembranças da nossa aventura al mare:

No porto do Rio


Heloísa Rezende, nossa produtora executiva, embarcando


Quarto com varanda é mó legal

Elke e a plaquinha que acompanhava a filmagem pra todo lado

Início das filmagens numa das piscinas

No porto de Salvador

Almoçando acarajé com Mel e Fabi

Fabio, Miá e nossa super figurinista Mel

Tentando melhorar do enjôo que afinal era dengue

#semfiltro

Vendo as primeiras cenas montadas na hora do jantar

Miá, Mel, Ju, Fabi e suas roupas de bichinhos

O famoso bar vermelho, point das noites que minha dor de cabeça não me deixou frequentar
Luz e Bia na folga em Funchal

Tiau Funchal

Ilha de edição sobre as ondas



Filmando no deck do tobogã


Julia pensando o próximo plano

Al mare!

I'm the corno of the world!

Foto de equipe no por-do-sol

Foto de equipe em Savona

Fabio, Ju e Miá no 1o dia de filmagem no Rio

Queiroga, Fabio, Inez e Marcelo na Itália

Mariza e sua tradição de bater claquete em todos os filmes

Os protagonistas e a diretora

Alegria no restaurante

Aproveitando a falsa folga em Casablanca

Azul-oceano-Atlântico devia ser o nome dessa cor

Congelando na Itália

Com mamãe Mariza em Savona
   

Tiau Costa Favolosa com a Ju

Hotel de frente pro mar



Os italianos chamavam ela de "la registra"

19.9.13

Estreia em Portugal




Depois de dizer poemas em Recife, Belém, São Paulo, Porto Alegre, chegou a minha estreia em Portugal.

Estarei no Festival Raias Poéticas, em Vila Nova de Famalicão, nos dias 20 e 21 de setembro, ao lado de poetas de Portugal, Brasil, Espanha, Cabo Verde, Angola e Moçambique.

Aproveitando a viagem, faço três apresentações em Lisboa: no Mini Teatro Da Calçada (dia 23, às 20:30), na Casa Brasil de Lisboa (dia 24, às 21:30) e na Fábrica Braço de Prata (dia 25, às 22:00).

Nas mesmas noites haverá a apresentação de Luana Carvalho, cantora, compositora e escritora brasileira que está lançando a revista literária virtual C A I S com leitura de textos, projeção de vídeos de Clara Cavour e canções incidentais.

Serviço:

20 e 21.set - Festival Raias Poéticas - Vila Nova de Famalicão
23.set, 20:30 - Mini Teatro - Calçada do Combro 147 - Lisboa
24.set, 21:30 - Casa Brasil de Lisboa - Rua Luz Soriano 42 - Lisboa
25.set, 22:00 - Fábrica Braço de Prata - Rua da Fábrica do Material de Guerra 1 - Lisboa



22.8.13

No Globo de hoje!




Matéria bacana da Mariana Müller na capa do Zona Sul, do Globo, hoje, sobre a poesia falada no Rio. Tem eu, Mônica Montone, Mano Melo, Claufe Rodrigues, Chacal, Línox e mais um bando de gente bacana.

Aqui ó.

16.8.13

Poesia em Portugal!






Agora é oficial. Portugal, aí vai essa poeta brazuca. A convite do Festival Raias Poéticas do super Luís Serguilha, com recitais no Mini Teatro da querida Susana Palmerston e em mais cantos que ela tá me ajudando a marcar. Em setembro, que é depois de amanhã na ansiedade e excitação com a ideia de dizer meus poemas na minha língua em outro continente e ser entendida. Você que sabe de um lugar perfeito pra um recital meu por lá, você que tem amigos que vão adorar me ver falar, você que tem dicas lisboetas: tô aceitando tudo. Vai ser intenso.

11.8.13

Amor de pai & filha







Maria
O futuro chegou contigo
Numa manhã de novembro
Mas não se revelou logo naquele dia;
Foi se instalando em mim aos poucos
Por vezes calmo, às vezes violento,
Me atirando contra as paredes da vida
E batendo com minha cabeça
Em forças que desconheço.

Maria, o teu presente é o meu presente,
Como teu presente é o meu futuro
E teu futuro será meu passado,
Um dia.

Me vem ansiedade, Maria, 
Por te conhecer antes que me reconheças
E ao tempo
Que me fará um dia teu pai
Diferente do pai que te sou hoje:
Cabelos brancos, corpo marcado
E você, Maria, uma mulher pronta
No aeroporto, a decolar.

Sergio - 25.1.1979

#
 
Achei essa carta do meu pai pra mim há alguns anos. Chorei as lágrimas boas do amor infinito que nos une. Foi muito intenso ler esse amor escrito nos meus dois meses de vida, e agradeci ao meu pai mais esse carinho: ele escreveu, guardou, e eu já adulta recebi esse presente. 

Há um mês atrás, me preparando pra ir passar um mês em NY, abri um móvel que vive trancado a chave, dentro do qual tem uma caixinha onde achei que pudesse ter uns dólares guardados. Encontrei o dinheiro e essa preciosidade. Reler essa carta no dia mesmo em que ia pegar um avião pruma viagem especial, uma viagem de encontros profundos com amigos que eu amo, uma viagem de estar comigo e me reconhecer depois de tantas mudanças, foi emoção pura. Porque o tempo cumpriu sua tarefa. Chegou aquele dia. Meus próprios cabelos já começam a ficar brancos. E o amor da gente muda, mas não gasta nem um bocadinho.

É tudo tão íntimo que eu hesito mas a beleza mora mesmo na intimidade, e tem amor que dá vontade de gritar pro mundo. Esse é um deles.



10.8.13

Poema inédito, vídeo novo



Esse poema nasceu num trem que veio depois de um navio e antes de muitas ruas.
Nunca viajei tanto quanto esse ano, pra dentro e pra fora de mim.
E vendo o mundo a gente vê que se carrega pra onde vai, e que tudo é sempre provisório, mesmo quando as malas são invisíveis.
Só por hoje é o lema dos alcóolicos anônimos.
É o meu. Porque a vida é hoje e só por hoje, sempre.

Poema e voz: Maria Rezende
Imagens do Photobooth na cabine 7404 do navio Costa Favolosa.

9.8.13

Marina Abramović intensa. Uou.




Marina Abramović e seu manifesto. Intenso. Uou.




E aqui o texto em português. Uou. Uou. Ainda bem que eu não sou artista, sou só poeta.


Manifesto sobre a vida do artista



1. a conduta de vida do artista:
- o artista nunca deve mentir a si próprio ou aos outros
- o artista não deve roubar idéias de outros artistas
- os artistas não devem comprometer seu próprio nome ou comprometer-se com o mercado de arte
- o artista não deve matar outros seres humanos
- os artistas não devem se transformar em ídolos
- os artistas não devem se transformar em ídolos
- os artistas não devem se transformar em ídolos

2. a relação entre o artista e sua vida amorosa:
- o artista deve evitar se apaixonar por outro artista
- o artista deve evitar se apaixonar por outro artista
- o artista deve evitar se apaixonar por outro artista

3. a relação entre o artista e o erotismo:
- o artista deve ter uma visão erótica do mundo
- o artista deve ter erotismo
- o artista deve ter erotismo
- o artista deve ter erotismo

4. a relação entre o artista e o sofrimento:
- o artista deve sofrer
- o sofrimento cria as melhores obras
- o sofrimento traz transformação
- o sofrimento leva o artista a transcender seu espírito
- o sofrimento leva o artista a transcender seu espírito
- o sofrimento leva o artista a transcender seu espírito

5. a relação entre o artista e a depressão:
- o artista nunca deve estar deprimido
- a depressão é uma doença e deve ser curada
- a depressão não é produtiva para os artistas
- a depressão não é produtiva para os artistas
- a depressão não é produtiva para os artistas

6. a relação entre o artista e o suicídio:
- o suicídio é um crime contra a vida
- o artista não deve cometer suicídio
- o artista não deve cometer suicídio
- o artista não deve cometer suicídio

7. a relação entre o artista e a inspiração:
- os artistas devem procurar a inspiração no seu âmago
- Quanto mais se aprofundarem em seu âmago, mais universais serão
- o artista é um universo
- o artista é um universo
- o artista é um universo

8. a relação entre o artista e o autocontrole:
- o artista não deve ter autocontrole em sua vida
- o artista deve ter autocontrole total com relação à sua obra
- o artista não deve ter autocontrole em sua vida
- o artista deve ter autocontrole total com relação à sua obra

9. a relação entre o artista e a transparência:
- o artista deve doar e receber ao mesmo tempo
- transparência significa receptividade
- transparência significa doar
- transparência significa receber
- transparência significa receptividade
- transparência significa doar
- transparência significa receber
- transparência significa receptividade
- transparência significa doar
- transparência significa receber

10. a relação entre o artista e os símbolos:
- o artista cria seus próprios símbolos
- os símbolos são a língua do artista
- e a língua tem que ser traduzida
- Às vezes, é difícil encontrar a chave
- Às vezes, é difícil encontrar a chave
- Às vezes, é difícil encontrar a chave

11. a relação entre o artista e o silêncio:
- o artista deve compreender o silêncio
- o artista deve criar um espaço para que o silêncio adentre sua obra
- o silêncio é como uma ilha no meio de um oceano turbulento
- o silêncio é como uma ilha no meio de um oceano turbulento
- o silêncio é como uma ilha no meio de um oceano turbulento

12. a relação entre o artista e a solidão:
- o artista deve reservar para si longos períodos de solidão
- a solidão é extremamente importante
- Longe de casa
- Longe do ateliê
- Longe da família
- Longe dos amigos
- o artista deve passar longos períodos de tempo perto de cachoeiras
- o artista deve passar longos períodos de tempo perto de vulcões em erupção
- o artista deve passar longos períodos de tempo olhando as corredeiras dos rios
- o artista deve passar longos períodos de tempo contemplando a linha do horizonte onde o oceano e o céu se encontram
- o artista deve passar longos períodos de tempo admirando as estrelas
no céu da noite

13. a conduta do artista com relação ao trabalho:
- o artista deve evitar ir para seu ateliê todos os dias
- o artista não deve considerar seu horário de trabalho como o de funcionário de um banco
- o artista deve explorar a vida, e trabalhar apenas quando uma idéia se revela no sonho, ou durante o dia, como uma visão que irrompe como uma surpresa
- o artista não deve se repetir
- o artista não deve produzir em demasia
- o artista deve evitar poluir sua própria arte
- o artista deve evitar poluir sua própria arte
- o artista deve evitar poluir sua própria arte

14. as posses do artista:
- os monges budistas entendem que o ideal na vida é possuir nove objetos:
1 roupão para o verão
1 roupão para o inverno
1 par de sapatos
1 pequena tigela para pedir alimentos
1 tela de proteção contra insetos
1 livro de orações
1 guarda-chuva
1 colchonete para dormir
1 par de óculos se necessário
- o artista deve tomar sua própria decisão sobre os objetos pessoais que deve ter
- o artista deve, cada vez mais, ter menos
- o artista deve, cada vez mais, ter menos
- o artista deve, cada vez mais, ter menos

15. a lista de amigos do artista:
- o artista deve ter amigos que elevem seu estado de espírito
- o artista deve ter amigos que elevem seu estado de espírito
- o artista deve ter amigos que elevem seu estado de espírito

16. os inimigos do artista:
- os inimigos são muito importantes
- o Dalai Lama afirmou que é fácil ter compaixão pelos amigos; porém, muito mais difícil é ter compaixão pelos inimigos
- o artista deve aprender a perdoar
- o artista deve aprender a perdoar
- o artista deve aprender a perdoar

17. a morte e seus diferentes contextos:
- o artista deve ter consciência de sua mortalidade
- Para o artista, como viver é tão importante quanto como morrer
- o artista deve encontrar nos símbolos da sua obra os sinais dos diferentes contextos da morte
- o artista deve morrer conscientemente e sem medo
- o artista deve morrer conscientemente e sem medo
- o artista deve morrer conscientemente e sem medo

18. o funeral e seus diferentes contextos:
- o artista deve deixar instruções para seu próprio funeral, para que tudo seja feito segundo sua vontade
- o funeral é a última obra de arte do artista antes de sua partida
- o funeral é a última obra de arte do artista antes de sua partida
- o funeral é a última obra de arte do artista antes de sua partida






http://tilintar.blogspot.com.br/2010/11/manifesto-sobre-vida-do-artista-marina.html

8.8.13

República Ornitorrinco hoje na Comuna



REPÚBLICA_ORNITORRINCO é quando abrimos para o público a nossa sala de redação onde discutimos as próximas pautas e conversamos sobre os acontecimentos da semana.

Como o universo do ORNITORRINCO é repleto de irreverência e descontração ao mesmo tempo em que aborda assuntos sérios e contemplativos, REPÚBLICA_ORNITORRINCO é essa transposição para o formato ao vivo. Os colunistas estão presentes debatendo alguns temas de suas escolhas e outras surpresas sobre a semana e o mundo.

Depois os colunistas Letícia Novaes e Vitor Paiva assumirão as pick-ups em sets junto do fotógrafo-DJ Camilo Lobo.

A entrada é gratuita.
Vai rolar bebidas, comidas, bate-papo, projeções, músicas.

19h30 - Primeira Parte
20h30 - Segunda Parte
22h30 - Terceira Parte

Tudo respeitando a falta de pontualidade, claro.

ORNITORRINCO
www.ornitorrinco.net.br

1.7.13

O valor da vida não pode ter CEP

A Eliane Brum é a voz que mais me representa na imprensa. Uma mulher lúcida e sensível, atenta a questões que me mobilizam, com um olhar que me emociona. Por isso mais do que postar o link do texto dela no site da Época essa semana, eu copio ele inteiro aqui. Pra quem ninguém deixe de ler pela inércia de não clicar aqui no link. Leiam. Eu assino embaixo de cada letra.
 

Também somos o chumbo das balas

O Brasil não mudará em profundidade enquanto a classe média sentir mais os feridos da Paulista do que os mortos da Maré

 

Você está na sala assistindo à TV. Ou está no restaurante, com seus amigos. Ou está voltando para casa depois de um dia de trabalho. Você ouve tiros, você ouve bombas, você ouve gritos. Você olha e vê a polícia militar ocupando o seu bairro, a sua rua. É difícil enxergar, por causa das bombas de gás lacrimogêneo, o que aumenta o seu medo. Logo, você está sem luz, porque a polícia atirou nos transformadores. O garçom que o atendia cai morto com uma bala na cabeça. O adolescente que você conhece desde pequeno cai morto. Um motorista está dirigindo a sua van e cai ferido por um tiro. Agora você está aterrorizado. Os gritos soam cada vez mais perto e você ouve a porta da casa do seu vizinho ser arrombada por policiais, que quebram tudo, gritam com ele e com sua família. Em seguida você vê os policiais saírem arrastando um saco preto. E sabe que é o seu vizinho dentro dele. Por quê? Você não pergunta o porquê, do contrário será o próximo a ser esculachado, a ter todos os seus bens, duramente conquistados com trabalho, destruídos. Se você está em casa, não pode sair. Se você está na rua, não pode entrar.  

O que você faz?
Nada.
Você não faz nada porque não aconteceu com você. Você não faz nada especialmente porque se sente a salvo, porque sabe que não apenas não aconteceu, como não acontecerá com você. Não aconteceu e não acontecerá no seu bairro. Isso só acontece na favela, com os outros, aqueles que trabalham para você em serviços mal remunerados.

Aconteceu na Nova Holanda, no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, na segunda-feira passada (24/6). Com a justificativa de que pessoas se aproveitavam da manifestação que ocorria na Avenida Brasil – o nome sempre tão simbólico – para fazer arrastão, policiais ocuparam a favela. Um sargento do BOPE morreu e a vingança da polícia começou, atravessou a madrugada e boa parte da terça-feira. Saldo final: 10 mortos, entre eles “três moradores inocentes”.
Os brasileiros foram às ruas, algo de profundo mudou nas últimas semanas, tão profundo que levaremos muito tempo para compreender. Mas algo de ainda mais profundo não mudou. E, se esse algo ainda mais profundo não mudar, nenhuma outra mudança terá o peso de uma transformação, porque nenhuma terá sido capaz de superar o fosso de uma sociedade desigual. A desigualdade que se perpetua no concreto da vida cotidiana começa e persiste na cabeça de cada um.
Quando a polícia paulista reprimiu com violência os manifestantes de 13 de junho, provocando uma ampliação dos movimentos de protesto não só em São Paulo, mas em todo o Brasil, houve um choque da classe média porque, dessa vez, muitos daqueles que foram atingidos por balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo eram seus filhos, irmãos e amigos. Como era possível que isso acontecesse? 
Era possível porque a polícia militar – e não só a de São Paulo, como se sabe e tem se provado a cada manifestação, nas diversas cidades – agiu no centro com quase a mesma truculência com que cotidianamente age nas favelas e nas periferias. Quase com a mesma truculência, porque algumas vozes se levantaram para lembrar que nas margens as balas são de chumbo. Balas de borracha, como foi dito em tom irônico, seria um “upgrade”. A polícia fez, portanto, o que está acostumada a fazer no dia a dia das periferias e favelas, o que é ensinada e autorizada a fazer. E muitos policiais devem ter se surpreendido com a reação da opinião pública, já que agem dessa maneira há tanto tempo e as reclamações em geral ficavam, até então, limitadas às mesmas organizações de direitos humanos de sempre. 
E então veio a Maré. E, em vez de balas de borracha, as balas eram de chumbo. Em vez de feridos, houve mortos. E, ainda que o massacre tenha tido repercussão, especialmente no Rio de Janeiro, ela foi muito menor e menos abrangente do que quando a violência foi usada no centro de qualquer cidade. Por quê? Seriam os brasileiros da Maré ou de outras favelas menos brasileiros do que os outros? Seriam os humanos da Maré ou de outras periferias menos humanos do que os outros? Sangrariam e doeriam os moradores da Maré menos do que os outros? 
É preciso que a classe média se olhe no espelho, se existe mesmo o desejo real de mudança. É preciso que se olhe no espelho para encarar sua alma deformada. E perceber que essa polícia reflete pelo menos uma de suas faces. Parece óbvio, do contrário essa polícia não seguiria existindo e agindo impunemente, mas às vezes o óbvio é esquecido em nome da conveniência.
É fácil renegar a polícia militar como algo que não nos diz respeito, como sempre fazemos com as monstruosidades que nos envergonham. Sem precisar assumir que essa polícia existe como resultado de uma forma de ver a sociedade e se posicionar nela – uma forma que perpetua a desigualdade, dividindo o país entre aqueles que são cidadãos e têm direitos e aqueles que não têm nenhum direito porque, mesmo que trabalhem dura e honestamente, são criminalizados por serem pobres.
No momento em que os mortos da Maré incomodam menos que os feridos da Paulista ou de outros lugares do Brasil, se justifica e legitima a violência da polícia. Se justifica e legitima de várias maneiras – e também por aqueles que sentem menos a violência da Maré do que a da Paulista, apesar de ela ser numa proporção muito maior, a começar pela diferença das balas. Se justifica e se legitima e se perpetua porque, ainda que não confessado, mas claramente expressado, vive-se como se os mais pobres, os que moram em favelas e periferias, pudessem ter suas casas invadidas, seus bens destruídos e suas vidas extintas.  
Se fosse você ou eu na Maré, reconheceríamos os rostos dos que tombam e estaríamos lá, aterrorizados com a possibilidade de sermos os próximos a virar estatística. O garçom que caiu morto com um tiro na cabeça é Eraldo Santos da Silva, 35 anos. Quem estava no restaurante contou que os policiais do BOPE atiraram no transformador para o local ficar às escuras e então mudar a cena do crime, retirando as cápsulas do chão. O garoto de 16 anos que foi assassinado se chama Jonatha Farias da Silva. A polícia disse que ele estava com uma arma na mão, mas várias pessoas que o conhecem desde criança afirmam ser impossível. Jonatha é descrito como um menino tímido e muito sozinho que perdeu a mãe de tuberculose aos 11 anos e vivia com um irmão mais velho num quarto de quatro metros quadrados. Engraxava sapatos e vendia biscoitos nos congestionamentos da Linha Vermelha para sobreviver, enquanto sonhava com ser mecânico. O motorista ferido quando dirigia a van alvejada por tiros é Cláudio Duarte Rodrigues, de 41 anos. Foi levado ao hospital por moradores, mas despachado para casa com a bala ainda alojada no glúteo. Só depois uma ONG obteve a promessa de uma ambulância para buscá-lo. Você ainda poderia ser a empregada doméstica que ouviu os policiais arrombarem a porta da casa do seu vizinho, ouviu seus gritos – “Me larga! Socorro!” – e o viu ser retirado de lá, dentro de um saco preto. 
Mas isso não acontece com você, nem com seus filhos. Nem comigo. Mas, ainda que não aconteça, como é possível sentirmos menos? Ou mesmo não sentir? Ou ainda viver como se isso fosse normal? Ou olhar distraidamente para a notícia no jornal e pensar: “mais uma chacina na favela”?
Em que nos transformamos ao sentir menos a morte de uns do que a de outros, a dor de uns do que a de outros, mesmo quando olhamos para uns e outros apenas pela TV?
O que torna isso possível? 
É preciso parar e pensar. Porque esses, que assim morrem, só morrem porque parte da sociedade brasileira sente menos a sua morte. É cúmplice não apenas por omissão, mas por esse não sentir que se repete distraído no cotidiano. Por esse não sentir que não surpreende ninguém ao redor, às vezes nem vira conversa. Essa polícia que mata nos reflete, por mais que recusemos essa imagem no espelho.
São vários os discursos que se imiscuem na vida cotidiana e penetram em nossos corações e mentes, justificando, legitimando e perpetuando a ideia de que a vida de uns vale menos do que a de outros, de que a vida dos mesmos de sempre vale menos do que a dos mesmos de sempre. Um desses discursos é a afirmação, que nesse caso foi assumida e amplificada por parte da imprensa, de que a polícia teria admitido que “três moradores mortos eram inocentes”. A frase tem tom de denúncia, ao afirmar que a polícia reconheceu a morte de “inocentes” na Maré. A declaração expressa, de fato, a ideia de que ao menos esses três não deveriam ter sido assassinados. Por oposição, cabe a pergunta: e os outros deveriam? 
Essa frase diz ainda mais: se “três são inocentes”, aceita-se automaticamente e sem maior investigação que os demais seriam suspeitos de tráfico e outros crimes – e destes, quase nada ou nada é contado. É nesse ponto que se oculta algo ainda pior contido nesse discurso, que é a aceitação da pena de morte de suspeitos. Ou seja, os supostamente “não inocentes”, os supostamente “bandidos”, “traficantes”, “vândalos” poderiam, então, ser mortos? É isso o que se diz nas entrelinhas. Mas não seriam todos “inocentes”, até julgamento em contrário, dentro do ritual jurídico previsto pelo Estado de direito? Sem contar que a lei brasileira não prevê a pena de morte de julgados e condenados por crimes, nem sequer os hediondos. Mas o Estado, com o aval de uma parte significativa da sociedade, executa suspeitos. 
A aceitação dessa quebra cotidiana da lei pelo Estado está presente na narrativa dos acontecimentos – e a imprensa tem um papel importante na reprodução desse discurso: “três deles eram inocentes”, “morreram em confronto”, “morreu ao resistir à prisão”, “troca de tiros” são algumas das expressões entranhadas nos nossos dias como se tudo explicassem. Como se isso fosse corriqueiro – e não monstruoso. Mesmo para a morte de “inocentes”, fora as mesmas vozes dissonantes de sempre, se atribui expressões como “efeito colateral”. E parece ter sido fácil para a classe média aceitar que o “efeito colateral” é a morte dos filhos, dos irmãos, dos pais e das mães dos pobres.

Em um artigo no site do Observatório de Favelas, que vale a pena ser lido (aqui), Eliana Sousa Silva, diretora da Redes da Maré e da Divisão de Integração Universidade Comunidade PR-5/UFRJ, faz uma análise da frase dita na TV pelo consultor de segurança pública Rodrigo Pimentel: “Fuzil deve ser utilizado em guerra, em operações policiais em comunidades e favelas. Não é uma arma para se utilizar em área urbana”. Ele criticava, em 18/6, a imagem de um policial militar atirando para o alto com uma metralhadora, perto de manifestantes que praticavam ações violentas em frente à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Como afirma Eliana, parece um comentário “natural, racional e equilibrado”, mas, de fato, o que ele está dizendo? Que na favela pode. E, fora uma ou outra voz, como a dela, não causa nenhuma surpresa. Nem mesmo se estranha que na favela pode, nos protestos do centro não.
A palavra “confronto” encobre forças desiguais – e o que tem sido chamado de “confronto” seguidamente não é o que diz ser. Mesmo em confrontos de fato trata-se o que é desigual como se fosse igual, também simbolicamente. Como se uma das forças em confronto não encarnasse o Estado e tivesse, portanto, de respeitar a lei e seguir parâmetros rígidos de conduta – e não igualar-se a quem supostamente está no outro lado. Como se a polícia, como aconteceu na Maré, tivesse autorização para se vingar pela morte – lamentável – do sargento do BOPE, entrando na favela e arrebentando. E o sargento do BOPE Ednelson Jerônimo dos Santos Silva, 42 anos, é também uma vítima desse sistema avalizado por uma parte significativa da sociedade dita “de bem”.  

A questão é que, se a polícia não tem autorização de direito, tem de fato. E tem porque a classe média sente menos a dor dos pobres. Tem autorização porque uma parcela da sociedade primeiro criminaliza os pobres – e, depois, naturaliza a sua morte. É por isso que a polícia faz o que faz – porque pode. E pode porque permitimos. A autorização não é dos suspeitos de sempre, apenas, mas de parte considerável dessa mesma classe média que vai às ruas gritar pelo fim da corrupção. Mas haverá corrupção maior, esta de alma, do que sofrer menos pelos mortos da Maré do que pelos feridos da Paulista?
A autorização para a morte dos pobres é de cada um que sente mais as balas de borracha da Paulista do que as balas de chumbo da Maré. Sentir, o verbo que precede a ação – ou a anula.
“Estado que mata, nunca mais!” é o chamado de um ato ecumênico marcado para as 15h desta terça-feira (2/7), com concentração na passarela 9 da Avenida Brasil, pelos moradores da Maré. A manifestação, anunciada como “sem violência e pacífica”, pretende lembrar os 10 mortos de 24 e 25 de junho, inclusive o sargento do BOPE. “Não é mais aceitável a política militarizada da operação do estado nos territórios populares, como se esses locais fossem moradas de pessoas sem direitos. Responsabilizamos o governador do Estado e o secretário de Segurança Pública pelas ações policiais nas favelas. Exigimos um pedido de desculpas pelo massacre e o compromisso com o fim das incursões policiais nas favelas cariocas, sustentadas no uso do Caveirão e de armas de guerra”, diz a chamada na internet.
Este ato poderá se tornar um momento de inflexão nos protestos que atravessam o país. Saberemos então se os cidadãos das favelas estarão sozinhos, como sempre, ou acompanhados pelas mesmas organizações de direitos humanos de sempre – ou se o Brasil está, de fato, disposto a começar acurar sua abissal e histórica cisão.  
(Eliane Brum escreve às segundas-feiras)

28.6.13

Um medo

Porque mesmo uma moça agarrada na saia da alegria tem suas tristezas, e é preciso vivê-las pra que elas passem, e eu escolho, quando é possível, fazer isso com poesia.

18.6.13

Meu coração no Ornitorrinco

Essa noite eu dormi na casa dos meus pais. Isso só acontece em raros casos de festa muito boa. Ou de morte.

Eu ontem fui pras ruas com milhares de brasileiros. Cem mil. Me entendam, eu não sou uma pessoa politizada, e me envergonho um pouco disso. Só me esforço pra acompanhar as notícias mais de perto em época de eleição, porque entendo o poder que o meu voto tem. Eu não estava na primeira manifestação contra o aumento das passagens. Nem na segunda. Mas acompanhei de longe e meu coração foi se inflamando com o que eu via até ser impossível não participar. Eu fui com medo, com vinagre na mochila e roupa sintética pra amenizar os efeitos do gás lacrimogênio, eu fui com medo e pensei que se eu, apolítica, medrosa, estava ali, muita gente também tinha tomado coragem e saído de casa, e era gente demais pra polícia atacar diante do olhar atento do mundo.

Tomamos as ruas da minha cidade com flores, música, gritos e cartazes. Foi assim pelo Brasil inteiro, pelo mundo afora, uma mobilização coletiva como eu nunca tinha visto acontecer. Cada um levando a sua cidadania e o seu desejo de mudança, de um país melhor, com transporte público de qualidade, com a saúde e a educação tendo mais importância do que a copa, com os brasileiros sendo mais importante do que a fifa, com menos corrupção, com uma polícia que atenda ao povo e não seja inimiga dele, um país em que o direito de protestar continue sendo um direito garantido por lei, e no qual jornalistas possam exercer seu trabalho sem ser alvo de violência. Essa, mais do que todas, era a minha bandeira, repetida em coro por centenas de milhares em todo o país: sem violência.

Voltei pra casa com o coração leve. Orgulhosa do que fomos capazes de erguer ali. Horas depois voltei ao centro da cidade com os olhos inchados e o coração em frangalhos. Depois de quatro horas de protesto pacífico, baderneiros fizeram da violência a notícia. Invadiram e incendiaram o prédio da Alerj, atacaram policiais, quebraram bancos e lojas. Uma delas era a do meu irmão, uma franquia das Havaianas na Rua São José, quase em frente à Alerj, no olho do furacão.





Quando começaram as notícias sobre o tumulto ele acompanhou de casa, pela tv, já temeroso de que a confusão pudesse chegar até lá. Das 19h às 22h viveu e reviveu o medo de perder seu negócio construído com muita dedicação e trabalho árduo e entusiasmado. Às 22h seu medo virou fato. Às 23:30 virou imagem: uma família caminha pelas ruas de uma cidade no pós guerra, focos de incêndio, cheiro de fumaça, caminhões dos bombeiros parados perto da loja, não, em frente à loja, quebrando a parede de uma loja, não: quebrando a parede da sua loja. ´É uma visão dantesca. O sonho é posto à prova, o coração pensa que não vai aguentar, as pernas não sabem falar essa língua, você de repente é aquele homem no Jornal Nacional que chora diante do seu patrimônio perdido, você é abraçado, pessoas gravam com celular, você recusa entrevista para o repórter do Pânico, você devia estar em pânico mas subitamente é tomado por uma espécie doida de calma. Durante horas ficamos ali, respirando fumaça, as bolsas cheias de sacos de lixo que serviriam pra tentar recuperar parte do estoque que também foi incendiado. Comemora-se cada pequena vitória. Os móveis das paredes não foram, como os outros, arrancados pra virar fogueira na rua. Nenhum funcionário foi ferido. Estamos vivos. Vamos nos reerguer.

Parados ali na rua mil perguntas povoavam as cabeças e as bocas. Como podem bandidos com desejo de destruição macular um movimento pacífico e belo? Por que destruir um prédio histórico? Por que destruir lojas particulares? Ao invadir e saquear, por que colocar fogo no final? E onde estava a polícia que na véspera atirava bombas de gás lacrimogênio sobre famílias e manifestantes pacíficos no entorno do Maracanã? É criminoso atacar a população indefesa e que não representa nenhuma ameaça. É igualmente criminoso deixar bandidos agirem livremente causando pânico e destruição.

Em meio à dor profunda do meu irmão, cada um de nós carregava seus sentimentos. O meu incluía uma tristeza imensa, muita indignação e uma parcela de culpa por ter participado de um movimento que acabou gerando aquela destruição. Fiquei pensando que se não fosse a loja do meu irmão, se eu não estivesse ali naquela calçada, provavelmente pensaria vendo o noticiário que aquela pequena destruição era horrível mas ínfima comparada à força construtora da passeata da qual eu acabava de participar. Só que de repente não era. E eu fui obrigada a entender de dentro que os números não dizem tudo. Cem mil pessoas. Vinte lojas destruídas. Vinte vidas. Vinte famílias. Vinte caras que pegaram empréstimo no banco, planejaram cada passo, escolheram um ponto, fizeram reforma, contrataram funcionários, pagaram altos impostos, arriscaram, sonharam, suaram, comemoraram cada vitória. As havaianas são uma empresa enorme, uma marca brasileira que virou símbolo da leveza carioca e anda democraticamente nos pés de ricos e pobres, de famosos e anônimos, em vitrines internacionais, bancas de jornal e supermercados. Aquela loja era do Tiago, brasileiro, 32 anos, filho do Sergio e da Mariza, irmão da Maria e da Julia, noivo da Clara.

É uma espécie de morte. Nós ali juntos velando aquele sonho, pensando em como seguir a vida depois da perda. De manhã, passado o choque, uma súbita certeza: o horror que vivemos não pode macular a beleza e a potência do que aconteceu ontem no Brasil. E embora eu tenha medo do que possa acontecer na próxima manifestação, medo de pensar em outros homens vendo destruídos seus negócios, seus sonhos, penso que é em nome deles que esse movimento não pode morrer na praia. Pra que a nossa dor de ontem não tenha sido em vão, pra que a violência não vença, pra que tenhamos algum dia paz e voz, vamos pras ruas com as nossas flores e o peito aberto. É terça-feira no rio, faz sol, a vida segue. Tem gente que tem ódio no peito e espalha o horror. Nós temos amor.



http://www.ornitorrinco.net.br/2013/06/o-rio-em-chamas.html

17.6.13

Amanhã no Arte do Artista




Terça-feira, 18 de junho, às 23h na TV Brasil, o programa Arte do Artista debate poesia a partir do sensacional fato da coletânea de poesia de Paulo Leminski ter ultrapassado "Cinquenta tons de cinza" na lista dos mais vendidos no Brasil. A poeta Maria Rezende bate um papo com Aderbal Freire-Filho sobre Leminski, sobre ser poeta, e diz alguns poemas.

http://tvbrasil.ebc.com.br/artedoartista